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Como Viveremos? O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade

“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo.”

Mateus 5.13–16

Chegamos à última mensagem da série Como Viveremos? — O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade. Durante estas semanas, procuramos compreender não apenas o mundo em que vivemos, mas principalmente as ideias que ajudaram a construí-lo. Começamos no Éden, porque a crise humana não começou na internet, nas universidades, na política ou nas redes sociais; começou quando o ser humano decidiu interpretar a realidade independentemente da Palavra de Deus. Depois acompanhamos, de maneira resumida, o deslocamento da centralidade de Deus na cultura ocidental, passando pela crescente autonomia da razão humana até chegarmos a uma cultura em que o indivíduo, seus desejos e seus sentimentos ocupam um espaço cada vez maior na definição da verdade, da identidade e da moralidade. Na terceira mensagem, ouvimos o chamado de Paulo em Romanos 12.2: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Agora, porém, precisamos dar o passo decisivo. Se sabemos que não devemos nos conformar com este mundo, como devemos viver dentro dele?

Essa pergunta está no coração do livro de Francis Schaeffer, Como Viveremos?. Publicado originalmente em 1976, o livro procura interpretar a história ocidental a partir das ideias, pressuposições e cosmovisões que moldaram sua filosofia, ciência, arte, política e cultura. Schaeffer não olha para a história como uma sequência de acontecimentos desconectados; ele procura enxergar o fluxo das ideias e mostrar como aquilo que os homens acreditam sobre Deus, o homem, a verdade e a realidade acaba aparecendo na maneira como constroem suas sociedades. Sua tese fundamental é que as ideias têm consequências e que uma sociedade não muda primeiro seus comportamentos para depois mudar suas crenças; normalmente acontece o contrário: mudam-se as pressuposições, depois os valores, depois os comportamentos e, finalmente, a cultura. É justamente por isso que a pergunta “Como viveremos?” não pode ser respondida apenas com regras de comportamento. Precisamos saber em que cremos, a quem pertencemos e que visão de mundo governa nossa existência.

E é aqui que as palavras de Jesus se tornam extraordinariamente atuais. No Sermão do Monte, depois de apresentar as bem-aventuranças, Jesus olha para seus discípulos e declara: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo”. Observe que Jesus não começa dizendo: “Façam alguma coisa”. Ele começa dizendo: “Vós sois”. Antes da missão existe identidade. Antes da influência existe pertencimento. Antes de Jesus falar sobre aquilo que seus discípulos precisam fazer no mundo, ele diz quem eles são diante do mundo. Essa ordem é fundamental para a igreja contemporânea, porque existe sempre o perigo de tentarmos transformar a sociedade sem permitir que Cristo transforme primeiro nossa própria vida. A igreja não recebeu uma estratégia de marketing para conquistar a cultura; recebeu uma identidade em Cristo. Somos discípulos, somos povo de Deus, somos aqueles que foram alcançados pela graça e chamados para viver sob o senhorio de Jesus. A missão nasce da identidade.

Essa verdade também nos ajuda a compreender o que significa não nos conformarmos com este século. Paulo não está dizendo que devemos abandonar o mundo. O cristão não é chamado para desaparecer da sociedade, construir uma bolha religiosa e esperar a volta de Cristo. Jesus, inclusive, orou pelos seus discípulos dizendo ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). O problema não é estarmos no mundo; o problema é permitirmos que o mundo determine quem somos. Não fomos chamados para fugir da cultura, mas para entrar nela sem assumir sua forma. Não fomos chamados para viver isolados, mas para viver de tal maneira que nossa presença produza uma diferença real. Schaeffer insistia justamente nessa dimensão pública da fé cristã: o discípulo de Jesus precisa compreender a cultura, pensar biblicamente sobre ela e agir dentro dela de acordo com a verdade de Deus. Para ele, conhecer uma cosmovisão cristã sem agir a partir dela seria insuficiente; o cristão precisa conhecer, agir e falar.

Somos o sal da terra

Quando Jesus diz “vós sois o sal da terra”, ele apresenta uma das imagens mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas para explicar a presença cristã no mundo. O sal não precisa ser maioria para exercer influência. Pelo contrário, normalmente existe muito menos sal do que comida, mas uma pequena quantidade é capaz de alterar significativamente o sabor de uma grande quantidade de alimento. Essa imagem precisa ser recuperada pela igreja em uma época em que somos constantemente tentados a medir nossa relevância pela quantidade. Talvez não sejamos maioria. Talvez nossos valores não sejam os valores dominantes. Talvez aquilo que cremos pareça estranho para parte da sociedade. Talvez nossos filhos estejam crescendo em uma cultura muito diferente daquela em que nós crescemos. Mas Jesus não disse: “Vocês serão o sal quando forem maioria”. Ele disse: “Vós sois o sal da terra.” A eficácia do sal não está em sua quantidade absoluta, mas em sua presença e em sua capacidade de produzir efeito.

Ser sal significa, portanto, preservar uma identidade. O sal não pode perder seu sabor e continuar cumprindo sua função. Por isso, existe uma relação inseparável entre santidade e missão. A igreja não influencia o mundo tornando-se semelhante ao mundo. Influencia justamente porque continua sendo diferente. Se o cristão adota os mesmos critérios de sucesso, os mesmos padrões de relacionamento, a mesma ética sexual, a mesma relação com dinheiro, a mesma linguagem agressiva, a mesma obsessão por poder e a mesma lógica de vingança que domina a cultura, sua capacidade de testemunhar diminui. Não porque precise ser perfeito — nenhum de nós é —, mas porque a graça que professamos precisa produzir uma vida que seja reconhecivelmente diferente. O sal precisa continuar sendo sal.

Isso significa que santidade não é isolamento, mas distinção. O cristão precisa estar perto das pessoas sem perder sua identidade. Precisa trabalhar com pessoas que não compartilham sua fé, estudar com pessoas que pensam de maneira diferente, conviver com pessoas que possuem outras convicções e participar da sociedade sem permitir que a sociedade determine seus valores. A santidade cristã não é uma fuga da realidade; é uma maneira diferente de viver dentro da realidade. É possível estar profundamente envolvido com a sociedade sem ser absorvido por ela. É possível amar pessoas sem concordar com tudo o que elas pensam. É possível dialogar sem abandonar convicções. É possível ser firme sem ser agressivo. É possível ser sal sem deixar de estar na comida.

E talvez essa seja uma das maiores necessidades da igreja de nosso tempo. Precisamos parar de imaginar que só teremos influência quando formos maioria. O sal quase sempre será menor do que aquilo que tempera. O cristão pode ser minoria dentro de uma sala de aula, de uma empresa, de uma universidade, de um ambiente profissional ou até mesmo de uma família. Ainda assim, pode fazer diferença. Um funcionário que se recusa a participar de uma desonestidade está sendo sal. Uma jovem que decide manter sua pureza em uma cultura que banalizou a sexualidade está sendo sal. Um marido que permanece fiel quando a cultura ensina que relacionamentos são descartáveis está sendo sal. Um empresário que se recusa a corromper seus princípios para ganhar dinheiro está sendo sal. Um cristão que, em uma discussão política, mantém convicções firmes sem transformar o adversário em inimigo está sendo sal. Não precisamos controlar o ambiente para influenciá-lo. Precisamos estar nele como discípulos de Cristo.

Isso também vale para nossa participação política. O cristão não pode transformar nenhum partido ou político em seu salvador. Podemos e devemos participar da sociedade, votar, discutir políticas públicas, defender a vida, a família, a justiça e a dignidade humana, mas nossa esperança jamais pode repousar em um candidato. Existe um perigo espiritual quando conhecemos mais profundamente os discursos de determinados políticos do que conhecemos a Palavra de Deus, quando defendemos nossos candidatos com mais paixão do que defendemos o evangelho e quando somos capazes de romper relacionamentos cristãos por causa de preferências partidárias. O político não morreu por nós. O político não ressuscitou por nós. O político não perdoa nossos pecados. Cristo é o nosso Senhor. Schaeffer nos ajuda justamente a recuperar uma visão cristã abrangente da sociedade sem transformar a participação cultural em idolatria política. O cristão deve agir publicamente, mas sua esperança continua sendo escatológica e cristocêntrica.

Aqui cabe uma advertência simples, mas necessária: cuidado para não confundir sal com pimenta. Há cristãos que, quando entram na política, deixam de preservar e começam apenas a provocar; deixam de temperar e passam a inflamar; deixam de testemunhar e passam a brigar. O sal conserva e dá sabor. A pimenta pode tornar algo mais ardido. A igreja não foi chamada para ser a pimenta da terra. Podemos ter convicções políticas fortes sem transformar cada conversa em uma guerra. Podemos denunciar o erro sem odiar pessoas. Podemos discordar sem desumanizar. Podemos defender a verdade sem abandonar a graça. Nossa paixão por Cristo precisa ser maior do que nossa paixão por qualquer político.

Somos a luz do mundo

Jesus acrescenta: “Vós sois a luz do mundo.” Se a imagem do sal enfatiza uma influência que penetra e muitas vezes não é percebida imediatamente, a luz possui uma característica diferente: ela é visível. A luz revela. A luz torna aquilo que estava escondido perceptível. Por isso, Jesus afirma que ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de um cesto. A fé cristã não foi criada para permanecer confinada ao domingo, ao templo ou ao espaço privado da consciência. A fé cristã é pessoal, mas nunca foi planejada para ser privada.

Cristo precisa aparecer na família, no trabalho, na escola, nos relacionamentos, na maneira como tratamos as pessoas, na maneira como usamos o dinheiro, na nossa sexualidade, na maneira como falamos, na maneira como lidamos com autoridade e poder e na maneira como enfrentamos o sofrimento. Se Cristo é realmente Senhor, então ele não pode governar apenas algumas horas da semana. Ele precisa governar a totalidade da vida. É justamente aqui que a contribuição de Schaeffer permanece tão relevante: o senhorio de Cristo não pode ser reduzido ao culto, à oração e à leitura bíblica. A cosmovisão cristã precisa alcançar a maneira como pensamos sobre ciência, arte, política, economia, família, trabalho, cultura e sociedade. Para Schaeffer, o cristão precisa compreender que todas as áreas da vida estão diante de Deus.

Imagine, por exemplo, um jovem cristão que passa todos os dias com seus amigos não cristãos. Ele trabalha ou estuda com eles, conversa, brinca, participa das atividades e é querido pelo grupo. Não existe necessariamente nada errado em sua conduta. Ele é educado, honesto e prestativo. De certo modo, ele é sal: sua presença produz algum efeito. Mas existe um problema: ninguém sabe por que ele vive como vive. Ele nunca fala de Cristo. Nunca aponta para o evangelho. Quando alguém está sofrendo, oferece apenas conselhos humanos. Quando perguntam sobre sua fé, muda de assunto. Seus amigos sabem que ele “é da igreja”, mas talvez nunca tenham ouvido dele aquilo que Cristo significa para sua vida. Ele está presente, mas sua luz está escondida.

E esse é um problema que precisamos enfrentar. Não fomos chamados apenas para sermos boas pessoas. Fomos chamados para testemunhar de Cristo. Nossa vida precisa preparar o terreno, mas em algum momento nossa boca precisa anunciar aquilo em que cremos. A vida cristã coerente abre portas para o testemunho verbal. A integridade desperta perguntas. A fidelidade desperta curiosidade. A esperança em meio ao sofrimento desperta atenção. E então podemos dizer: “O que você está percebendo em mim não nasceu de mim. Cristo fez isso em minha vida.” A luz não existe para chamar atenção para o cristão; existe para apontar para Cristo.

Por isso, Jesus conclui: “…e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” Essa frase impede que o nosso testemunho se transforme em autopromoção. Nós não somos luz para que as pessoas digam: “Que cristãos extraordinários”. Somos luz para que, vendo nossas boas obras, glorifiquem o Pai. A luz começa aparecendo em nossa vida, mas termina apontando para Deus. A santidade aponta para Deus. A generosidade aponta para Deus. A fidelidade aponta para Deus. O perdão aponta para Deus. A esperança no sofrimento aponta para Deus. Nossa vida deve ser uma janela pela qual as pessoas consigam enxergar algo da glória de Cristo.

Como viveremos em uma cultura de “paz pessoal” e “prosperidade”?

Aqui encontramos outra contribuição importante de Schaeffer para nossa geração. Ele identificou dois valores que considerava especialmente perigosos na cultura moderna: paz pessoal e prosperidade. A paz pessoal é o desejo de não ser incomodado pelos problemas do mundo; a prosperidade é a busca crescente por conforto, segurança e abundância material. O problema não está em desejar paz ou em usufruir aquilo que Deus concede. O problema aparece quando esses desejos se tornam absolutos e nos levam a abandonar nossas convicções para preservar nosso conforto. Schaeffer advertia que uma sociedade pode chegar ao ponto de preferir segurança à liberdade e conforto à verdade.

Essa advertência continua profundamente relevante para a igreja. Talvez nosso maior perigo não seja apenas sermos perseguidos por causa de Cristo. Talvez seja sermos seduzidos pelo conforto. Porque é muito mais fácil ser fiel quando a fidelidade não custa nada. É fácil dizer que Cristo é Senhor quando isso não interfere em nossas escolhas. É fácil defender a verdade quando ninguém se incomoda com ela. É fácil falar de santidade quando não precisamos renunciar a nenhum desejo. Mas quando ser fiel começa a custar uma oportunidade, uma amizade, uma promoção, uma vantagem financeira, uma aceitação social ou uma parte do nosso conforto, então descobrimos quem realmente governa nossa vida.

Como viveremos, então? Viveremos como pessoas que não têm o conforto como seu deus. Não significa procurar sofrimento desnecessariamente, mas estar disposto a obedecer quando obedecer custa alguma coisa. Não significa desprezar prosperidade, mas recusar fazer da prosperidade o propósito da existência. Não significa desejar perseguição, mas estar preparado para permanecer fiel caso ela venha. Cristo vale mais do que nosso conforto. A verdade vale mais do que nossa aprovação social. A fidelidade vale mais do que nossa conveniência.

Como viveremos dentro de nossas famílias?

Talvez nenhuma aplicação desta série seja mais urgente do que esta. Se a cultura está formando a mente de nossos filhos, precisamos perguntar: quem está discipulando nossos filhos? Não podemos entregar a formação espiritual deles ao algoritmo, às redes sociais, à televisão, aos influenciadores, aos colegas ou à universidade e depois esperar que algumas horas de culto por semana sejam suficientes para corrigir tudo. A ausência de formação consciente não significa ausência de formação. Nossos filhos estão sendo formados todos os dias. A questão é: por quem?

A resposta não pode ser simplesmente criar uma bolha. Não conseguiremos proteger nossos filhos de toda influência cultural, e talvez nem devamos tentar. Precisamos ensiná-los a pensar cristianamente, discernir, questionar, argumentar, conhecer as Escrituras, amar a verdade e encontrar em Cristo sua identidade. Precisamos construir casas onde o evangelho não seja apenas assunto de domingo. Casas onde se ora, onde a Bíblia é lida, onde os pais pedem perdão, onde os filhos aprendem a perdoar, onde o dinheiro é tratado com responsabilidade, onde a sexualidade é ensinada à luz da criação de Deus, onde o sofrimento é interpretado à luz da providência divina e onde Cristo não é apenas convidado para a casa, mas reconhecido como Senhor da casa.

Schaeffer compreendeu que uma cosmovisão cristã não poderia ficar confinada ao intelecto. Ela precisava tornar-se uma maneira de viver. Essa é uma das grandes contribuições de sua obra para a igreja: não basta saber o que é verdade; precisamos viver como se a verdade fosse realmente verdadeira. A fé cristã precisa sair da teoria e entrar na mesa de jantar, no orçamento familiar, na educação dos filhos, no casamento, na profissão e nas decisões diárias.

Como viveremos?

Depois de quatro mensagens, chegamos finalmente à pergunta que deu nome à série. E talvez agora possamos respondê-la.

Como viveremos?

Não viveremos conformados.

Não viveremos escondidos.

Não viveremos assustados.

Não viveremos como quem precisa dominar o mundo para provar que Cristo é Senhor.

Não viveremos como quem abandona suas convicções para ser aceito pelo mundo.

Viveremos como sal e luz.

Seremos sal porque precisamos preservar aquilo que Deus revelou como verdadeiro, bom e santo. Seremos sal porque precisamos influenciar nossas famílias, nossos ambientes de trabalho, nossas escolas, nossas comunidades e nossa sociedade. Seremos sal mesmo quando formos minoria, porque nossa missão nunca dependeu de sermos maioria.

Seremos luz porque não esconderemos nossa fé. Cristo aparecerá na nossa casa, no nosso casamento, no nosso trabalho, na nossa maneira de tratar as pessoas, no uso do dinheiro, na sexualidade, na política, na maneira de falar e na maneira de sofrer. Não queremos apenas que as pessoas percebam que somos diferentes; queremos que descubram por que somos diferentes.

E aqui está talvez a resposta mais importante de toda a série: não fomos chamados simplesmente para vencer uma guerra cultural. Fomos chamados para viver fielmente diante de Deus. Schaeffer não escreveu sua obra para ensinar os cristãos a dominar a cultura, mas para fazê-los compreender o mundo em que estavam vivendo e responder a ele com uma fé cristã integral, intelectualmente coerente, moralmente distinta e publicamente comprometida. Sua proposta é que o cristão conheça a verdade, viva de acordo com ela e a proclame.

Portanto, a pergunta “Como viveremos?” começa muito antes das decisões políticas, dos debates culturais ou das estratégias apologéticas. Ela começa diante do senhorio de Cristo. Quem governa minha mente? Quem governa meus desejos? Quem governa minha família? Quem governa meu dinheiro? Quem governa minha sexualidade? Quem governa minhas decisões? Quem governa minhas ambições? Quem governa minha maneira de reagir quando sou contrariado?

Porque, no final, a questão não é simplesmente se estamos vivendo em uma sociedade pós-moderna.

A questão é:

Estamos vivendo como discípulos de Jesus Cristo dentro dela?

A cultura continuará mudando. Ideias continuarão surgindo. Valores continuarão sendo disputados. Governos mudarão. Tecnologias mudarão. As gerações passarão. Aquilo que hoje parece absoluto amanhã poderá ser questionado. Mas existe algo que permanece: a Palavra de Deus e o senhorio de Cristo.

Por isso, não precisamos ter medo do futuro.

Precisamos ser fiéis.

Não precisamos ser maioria.

Precisamos ser sal.

Não precisamos esconder nossa fé.

Precisamos ser luz.

Não precisamos colocar nossa esperança em políticos.

Precisamos colocar nossa esperança em Cristo.

Não precisamos viver em uma bolha.

Precisamos viver no mundo sem pertencer ao mundo.

Não precisamos simplesmente reclamar da cultura.

Precisamos encarnar uma cultura cristã de vida, verdade, santidade, justiça, misericórdia e amor onde Deus nos colocou.

E talvez seja justamente aqui que a frase que nos acompanhou durante toda esta série encontre seu sentido completo:

A forma como pensamos determina a forma como vivemos.

Se pensarmos como o mundo, viveremos como o mundo.

Se permitirmos que nossos sentimentos sejam nosso senhor, viveremos governados por nossos sentimentos.

Se fizermos do dinheiro nosso senhor, viveremos para acumular.

Se fizermos da política nossa esperança, viveremos ansiosos a cada eleição.

Se fizermos de nós mesmos nosso centro, viveremos para nós mesmos.

Mas se Cristo for o centro, nossa vida começará a tomar a forma de Cristo.

E essa é a resposta cristã à pergunta de Schaeffer.

Como viveremos?

Viveremos de joelhos diante de Cristo e de pé diante do mundo.

De joelhos, porque reconhecemos que dependemos da graça.

De pé, porque não temos vergonha do evangelho.

De joelhos, porque Cristo é nosso Senhor.

De pé, porque somos suas testemunhas.

De joelhos, porque não confiamos em nossa própria força.

De pé, porque o Espírito Santo nos capacita.

Seremos sal. Seremos luz.

E quando nossa vida terminar, nosso maior desejo não deverá ser que alguém diga que vencemos uma discussão, que elegemos nosso candidato, que defendemos nossa ideologia ou que preservamos nossa reputação.

Nosso desejo deverá ser muito mais simples e muito mais grandioso:

que alguém tenha olhado para nossa vida e conseguido enxergar Cristo.

Porque no fim, essa é a resposta.

Como viveremos?

Viveremos para que o mundo veja Cristo em nós e glorifique o nosso Pai que está nos céus.

Referências

SCHAEFFER, Francis A. How Should We Then Live? The Rise and Decline of Western Thought and Culture. Wheaton: Crossway. A obra foi publicada originalmente em 1976 e percorre a história do pensamento e da cultura ocidental, relacionando filosofia, religião, ciência, arte e sociedade.

BÍBLIA. Mateus 5.13–16; João 17.15; Romanos 12.2.

Soli Deo gloria

Como viveremos – quem está formando sua mente?

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” — Romanos 12.2

Vivemos em um tempo em que ninguém precisa mais declarar abertamente que não quer Deus. Basta construir uma sociedade na qual Deus deixe de ser necessário. A cultura contemporânea é marcada por elementos como a pós-modernidade, o relativismo, a pós-verdade e a valorização da experiência pessoal. Somos constantemente ensinados a acreditar que não existe uma verdade absoluta, que cada pessoa possui sua própria verdade, que nossas escolhas pertencem exclusivamente à esfera individual e que ninguém deveria interferir na maneira como decidimos viver. Ao mesmo tempo, a religião é frequentemente empurrada para o âmbito privado, como se a fé pudesse ser tolerada desde que permanecesse dentro das quatro paredes da igreja e não tivesse influência sobre a maneira como pensamos a respeito da política, da educação, da família, da sexualidade, da moralidade, do trabalho ou da vida pública. Entretanto, a fé cristã nunca foi apresentada nas Escrituras como uma experiência restrita ao espaço religioso. O evangelho alcança a totalidade da existência humana, porque Cristo não é Senhor apenas do culto que prestamos no domingo; ele é Senhor da nossa mente, dos nossos relacionamentos, das nossas decisões, dos nossos valores e de toda a nossa existência.

É justamente aqui que encontramos uma questão fundamental: a maneira como pensamos determina, em grande medida, a maneira como vivemos. Por isso, precisamos perguntar honestamente: nossa fé tem moldado nossos pensamentos e, consequentemente, nossas ações? Vivemos em uma cultura que nos ensina a consumir antes de nos ensinar a agradecer, a buscar realização antes de buscar santidade, a defender nossos direitos antes de reconhecer nossos deveres, a seguir nossos sentimentos antes de examinar nossos desejos e a perguntar “o que eu quero?” antes de perguntar “o que Deus quer?”. O mais perigoso, porém, é que essa formação cultural raramente acontece por meio de grandes discursos filosóficos. Ela acontece de maneira muito mais silenciosa e cotidiana: nas músicas que ouvimos, nos filmes e séries que assistimos, nos vídeos que consumimos, nas redes sociais que acessamos diariamente, nas propagandas que determinam o que aparentemente precisamos para sermos felizes, nos influenciadores que admiramos, nas conversas que mantemos, na escola, na universidade, no ambiente profissional e até mesmo nas expressões que repetimos sem perceber a visão de mundo que carregam. Muitas vezes ninguém precisa nos convencer diretamente de uma determinada ideia; basta repeti-la tantas vezes que ela deixe de parecer uma ideia e passe a parecer simplesmente a realidade. A cultura não apenas nos ensina o que pensar; ela também nos ensina aquilo que devemos considerar normal.

É nesse contexto que devemos compreender a proposta da série “Como Viveremos? — O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade”. Não estamos tentando construir uma igreja assustada com a cultura, tampouco uma comunidade cristã escondida em uma espécie de bolha religiosa. Também não estamos simplesmente procurando motivos para reclamar do mundo. A pergunta é muito mais séria: como um cristão permanece fiel a Cristo quando vive em uma cultura que pensa de maneira cada vez mais diferente da fé cristã? Como devemos criar nossos filhos? Como escolhemos nossos valores? Como discernimos aquilo que devemos aceitar e aquilo que precisamos rejeitar? Como podemos estar no mundo sem permitir que o mundo determine aquilo que pensamos, amamos e fazemos? Na primeira mensagem, voltamos ao Éden e refletimos sobre “A Primeira Grande Mentira”, percebendo que a queda começou antes de o fruto ser tomado, pois a serpente começou atacando a maneira como o ser humano pensava sobre Deus. Na segunda mensagem, avançamos na história e observamos o que acontece quando Deus deixa de ocupar o centro da cosmovisão humana: Deus é substituído pela razão, a razão pelo homem, o homem pelo eu e, cada vez mais, o eu pelos próprios sentimentos. Agora precisamos avançar um passo e perguntar: como essas ideias chegaram até nós? Como uma ideia filosófica se transforma em comportamento? Como aquilo que começa nas universidades chega às nossas casas? Como uma visão de mundo que nunca estudamos conscientemente começa a determinar nossas escolhas, nossos desejos, nossos medos e até aquilo que consideramos normal? A resposta é simples, mas profundamente inquietante: alguém está formando a nossa mente.

Você pode nunca ter estudado filosofia, mas alguém está ensinando você a pensar. Pode nunca ter lido um livro sobre pós-modernidade, mas está diariamente exposto a uma visão pós-moderna de mundo. Pode nunca ter estudado formalmente o relativismo moral, mas pode ter aprendido a viver como se cada pessoa pudesse estabelecer sua própria verdade. Pode nunca ter estudado a ideia de autonomia humana, mas pode ter aprendido a acreditar que ninguém possui autoridade para dizer como você deve viver. A ausência de uma formação consciente não significa ausência de formação. É justamente por isso que Paulo escreve aos cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). Observe a profundidade da linguagem do apóstolo. Paulo não diz simplesmente: “Não façam as coisas que o mundo faz”. Ele vai muito mais fundo. Ele fala de conformação e transformação, colocando a mente no centro desse processo. Existe uma pressão para nos conformarmos ao padrão deste século, mas existe também uma ação transformadora de Deus que alcança nossa maneira de pensar. Por isso, a pergunta fundamental não é apenas “o que você está fazendo?”, mas uma pergunta anterior e muito mais profunda: “Quem está formando a maneira como você pensa?” Antes de uma pessoa viver de determinada maneira, ela aprende a pensar daquela maneira; antes de uma criança defender determinada ideia, alguém ensinou aquela criança a enxergar o mundo daquela forma; antes de uma sociedade mudar seu comportamento, alguma coisa mudou na maneira como essa sociedade compreendia a verdade, a moral, o homem e a realidade.

Não vos conformeis com este século

Paulo começa Romanos 12.2 com uma ordem clara: “E não vos conformeis com este século.” Antes de falar sobre transformação, ele fala sobre conformação. Antes de apresentar aquilo que Deus deseja produzir em nós, ele nos alerta sobre aquilo que está tentando nos moldar. A linguagem utilizada pelo apóstolo transmite a ideia de assumir uma forma, tomar o molde de alguma coisa. É como se houvesse um padrão colocado diante de nós e uma pressão constante para que nos encaixemos nele. Paulo está dizendo à igreja: não permitam que este século determine a forma da sua vida. Isso não significa que o cristão possa viver em um mundo sem influência, pois isso seria impossível. Significa que o cristão precisa discernir as influências que recebe e resistir àquelas que são contrárias à vontade de Deus. Quando Paulo fala de “este século”, ele não está simplesmente falando das pessoas que vivem ao nosso redor, da criação de Deus ou de tudo aquilo que existe fora da igreja. Ele está falando de uma ordem de pensamento, de valores, desejos e estruturas de uma humanidade que vive afastada de Deus. Existe uma maneira de pensar característica daqueles que estão distantes de Deus, uma maneira de compreender a verdade, a moralidade, a identidade e a própria realidade. O problema é que ninguém precisa conscientemente escolher esse padrão para começar a ser moldado por ele. A repetição transforma o estranho em normal.

Desde o Éden, o pensamento humano pecaminoso tende à valorização do eu. Em nossa cultura contemporânea, isso assume uma forma ainda mais intensa na hiper valorização dos sentimentos, da autoimagem e da realização individual. O discurso dominante frequentemente nos diz: “seja fiel a quem você é”, “siga seu coração”, “faça aquilo que faz você feliz”, “você define sua própria verdade”. Entretanto, Jesus apresenta uma lógica completamente diferente: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). O cristianismo não começa com a afirmação de que o eu deve ocupar o centro; começa com a convocação para que o eu seja submetido ao senhorio de Cristo. Essa diferença é decisiva. A cultura contemporânea pergunta: “O que você deseja?”. Cristo pergunta: “Você está disposto a me seguir?”. A cultura diz: “Seja fiel aos seus sentimentos”. O evangelho diz: “Seja fiel a Cristo”. A cultura afirma que nossa identidade deve ser descoberta dentro de nós mesmos; o evangelho nos conduz para fora de nós mesmos, para encontrarmos nossa verdadeira identidade em Deus.

Essa influência cultural aparece inclusive em áreas nas quais muitos cristãos imaginam estar pensando biblicamente. Pense, por exemplo, em uma mãe cristã que ensina seu filho desde pequeno a amar a Deus, mas que, quando ele chega à adolescência, começa a pensar: “Não quero impor minha fé a ele; quando crescer, ele decidirá no que acredita”. A ideia pode parecer respeitosa, moderna e até tolerante. Mas precisamos perguntar: de onde veio essa maneira de pensar? A Escritura orienta os pais a ensinarem seus filhos no caminho do Senhor, enquanto a cultura contemporânea frequentemente afirma que a religião é uma escolha estritamente privada e que os pais não deveriam formar a consciência religiosa de seus filhos. Sem perceber, aquela mãe pode continuar acreditando em Deus, frequentando a igreja e valorizando a Bíblia, mas já ter adotado uma categoria cultural para pensar a educação dos filhos.

O mesmo pode acontecer com nossa compreensão da moralidade. Um cristão pode começar a pensar: “Se duas pessoas concordam, se ninguém está sendo prejudicado e se isso faz bem aos dois, então não há nada de errado”. Parece razoável. Parece tolerante. Parece até uma posição madura. Entretanto, perceba a mudança: o critério da moralidade deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser o consentimento e a ausência de dano aparente. A pergunta já não é “Deus considera isso certo?”, mas “quem está sendo prejudicado?”. A autoridade moral foi deslocada. E o mesmo acontece quando permitimos que nossos sentimentos assumam o lugar de autoridade. Uma pessoa pode enfrentar uma crise no casamento e concluir: “Eu não amo mais meu cônjuge. Meu coração mudou. Não sinto mais aquilo que sentia no começo. Se continuar nesse casamento, estarei sendo falsa comigo mesma”. Talvez continue acreditando em Deus, frequentando a igreja e orando, mas naquele momento surge uma pergunta fundamental: quem está determinando sua decisão — a Palavra de Deus ou o seu sentimento? A cultura ensina que os sentimentos são uma espécie de revelação interior: se sinto, deve ser verdade; se não sinto, deixou de ser verdadeiro. Mas a Bíblia nunca ensinou que todo sentimento é verdadeiro, nem que todo desejo merece ser obedecido. Pelo contrário, a Escritura nos manda examinar o coração, porque o coração humano foi afetado pelo pecado: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas” (Jr 17.9).

Aqui está uma das formas mais sutis pelas quais o mundo nos forma: primeiro, ele muda nosso critério de moralidade; em vez de perguntarmos “o que Deus diz?”, perguntamos “isso faz mal a alguém?”. Depois, muda nosso critério de verdade; em vez de perguntarmos “o que Deus diz?”, perguntamos “como eu me sinto?”. E, sem perceber, podemos continuar acreditando em Deus, mas deixar de pensar a partir de Deus. Esse é um dos maiores perigos para a igreja contemporânea. O perigo não é apenas o mundo convencer o cristão a praticar aquilo que o mundo pratica; o perigo é muito mais profundo: o mundo convencer o cristão a pensar como o mundo pensa. Por isso, precisamos fazer uma pergunta que não pode ser evitada: Deus é apenas alguém em quem você acredita ou é verdadeiramente o Senhor da sua vida? Existe uma diferença enorme entre acreditar que Deus existe e viver debaixo do senhorio de Deus. Podemos acreditar em Deus e continuar sendo senhores das próprias decisões; podemos orar a Deus e ainda assim não obedecer a Deus; podemos conhecer a vontade de Deus e continuar escolhendo a nossa própria vontade; podemos chamar Jesus de Senhor e, na prática, dizer: “Nesta área da minha vida, quem decide sou eu”.

Não existe coerência em dizer que Deus é Senhor apenas de determinadas áreas da nossa existência. Não podemos afirmar: “Deus é Senhor da minha salvação, mas não da minha sexualidade”; “Deus é Senhor da minha vida espiritual, mas não das minhas finanças”; “Deus é Senhor aos domingos, mas durante a semana eu faço as coisas do meu jeito”. Essas tentativas de separar a vida em compartimentos revelam uma compreensão inadequada do senhorio de Cristo. Ou Cristo é Senhor, ou não é. Como afirmou Abraham Kuyper, em sua conhecida declaração sobre a soberania de Cristo, “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”. A afirmação de Kuyper expressa uma verdade profundamente bíblica: não existe uma área neutra da existência humana onde Cristo possa ser excluído. Nossa mente pertence a Cristo. Nossa família pertence a Cristo. Nosso trabalho pertence a Cristo. Nossa sexualidade pertence a Cristo. Nossos recursos pertencem a Cristo. Nossos relacionamentos pertencem a Cristo. Nossa vida pública pertence a Cristo.

Essa verdade também precisa orientar a maneira como discipulamos nossos filhos. Não basta dizer: “Meu filho, não pense assim”. Precisamos ensiná-los a pensar biblicamente. Não basta dizer: “Não veja isso”. Precisamos ajudá-los a compreender por que determinada coisa contradiz a Palavra de Deus. Não basta simplesmente retirar uma influência; precisamos apresentar a verdade. Se apenas retirarmos o mundo e não enchermos a mente com a verdade de Deus, teremos produzido apenas um vazio, e o vazio sempre será preenchido por alguma coisa. Por isso, Paulo não diz apenas: “Não vos conformeis”. Ele continua: “mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. O cristão não é chamado simplesmente a resistir ao molde deste século; é chamado a ser transformado.

A renovação da mente

O cristianismo não é apenas uma religião de proibições. Paulo não está dizendo simplesmente: “Não faça isso, não pense aquilo, não assista aquilo, não vá ali”. Se a vida cristã fosse apenas aprender uma lista de coisas que não podemos fazer, poderíamos até produzir pessoas comportadas, mas não necessariamente pessoas transformadas. O evangelho apresenta algo muito mais profundo: Deus quer transformar a pessoa a partir de dentro, começando pela mente. O evangelho não quer apenas modificar comportamentos; quer renovar nossa maneira de enxergar a realidade. A expressão “transformai-vos” aponta para uma transformação profunda, não para uma maquiagem espiritual. Não se trata de fazer algumas mudanças superficiais para parecer cristão, mas de uma transformação que alcança aquilo que somos e, a partir daí, começa a produzir uma nova maneira de viver. Deus não quer apenas que tenhamos comportamentos cristãos; ele quer formar em nós uma mente cristã, um coração cristão e uma vida coerente com nossa nova identidade em Cristo.

A transformação cristã começa na mente, mas não termina nela. O objetivo é que aquilo que conhecemos de Deus transforme aquilo que pensamos, aquilo que amamos, aquilo que desejamos e, finalmente, aquilo que fazemos. Uma mente renovada produz uma vida renovada. É justamente por isso que, depois de Romanos 12.2, Paulo passa a tratar de humildade, serviço, amor, relacionamento com os irmãos, submissão às autoridades, amor aos inimigos e vida prática. A mente renovada produz uma vida transformada. Somos influenciados pela família, pela cultura, pelos amigos, pela escola, pela igreja, pelos livros que lemos, pelos filmes que assistimos e pelas redes sociais que consumimos. Tudo aquilo que repetidamente ouvimos começa a construir dentro de nós uma maneira de interpretar a realidade. Por isso, quando Paulo fala da renovação da mente, está nos chamando a permitir que Deus reoriente aquilo que já foi formado em nós. A renovação começa quando a Palavra de Deus confronta nossa maneira de pensar. Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Palavra entra em nossa mente e começa a confrontar aquilo que aprendemos, corrigir aquilo que pensamos, desmascarar aquilo que chamávamos de normal, reorganizar aquilo que estava fora do lugar e ensinar-nos novamente a enxergar a vida a partir de Deus.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da vida cristã: permitir que Deus mexa naquilo que aprendemos a chamar de “eu”. Muitas vezes chegamos diante da Bíblia querendo que ela confirme aquilo que já pensamos. Queremos que Deus abençoe nossas escolhas, aprove nossos desejos e concorde com nossa maneira de enxergar a vida. Mas a Palavra de Deus não foi dada para se conformar conosco; somos nós que precisamos ser conformados à Palavra de Deus. A Bíblia não existe para simplesmente dizer que estamos certos. Muitas vezes ela existe precisamente para mostrar onde estamos errados. Quando a Palavra confronta nossa mente, temos duas possibilidades: resistir e continuar pensando como sempre pensamos, ou nos render e permitir que Deus nos transforme. Deus não quer apenas melhorar a versão de nós mesmos que o mundo produziu. Ele quer formar em nós uma nova maneira de viver. Ele quer que olhemos para o casamento de maneira diferente, para os filhos de maneira diferente, para o dinheiro de maneira diferente, para o trabalho de maneira diferente, para o sofrimento de maneira diferente, para o sucesso de maneira diferente, para o nosso corpo de maneira diferente e até mesmo para nossos fracassos de maneira diferente. Quando Deus renova a mente, aquilo que antes parecia indispensável pode perder seu poder; aquilo que parecia pequeno pode adquirir valor eterno; aquilo que parecia normal pode ser reconhecido como pecado; e aquilo que parecia impossível pode ser recebido como vontade de Deus.

É por isso que a afirmação central desta série permanece tão importante: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. Se nossa mente é moldada pelo mundo, nossa vida começará a tomar a forma do mundo. Se nossa mente é renovada por Deus, nossa vida começará a tomar a forma da vontade de Deus. E é justamente nesse ponto que Paulo apresenta o propósito da renovação: “para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). A ordem é importante. Primeiro, não nos conformamos. Depois, somos transformados. A transformação acontece pela renovação da mente. E então começamos a experimentar a vontade de Deus.

A boa, agradável e perfeita vontade de Deus

A vontade de Deus não é apresentada por Paulo como um peso destinado a destruir nossa vida, mas como algo bom, agradável e perfeito. A cultura frequentemente afirma que, se entregarmos nossa vida a Deus, perderemos nossa liberdade; o evangelho afirma que, quando nossa mente é renovada, descobrimos a boa vontade de Deus. O mundo diz: “Se você não seguir seus desejos, não será feliz”; o evangelho nos ensina: “Quando sua mente for renovada, você descobrirá que Deus sabe melhor do que você aquilo que é verdadeiramente bom”. Talvez tenhamos passado muito tempo tentando descobrir o que nos faria felizes. Talvez tenhamos seguido oportunidades, desejos, relacionamentos, dinheiro, reconhecimento e prazer, tomando decisões com base na pergunta: “O que me faz bem?”. Mas Romanos 12 nos conduz a uma pergunta muito melhor: “Senhor, o que é bom aos teus olhos?” Existe uma liberdade que o mundo não consegue oferecer: a liberdade de não ser governado pelos próprios desejos. Existe uma paz que não nasce de conseguir tudo o que queremos, mas de saber que estamos vivendo debaixo da vontade daquele que nos criou. Existe uma alegria que não depende de satisfazer cada impulso do coração, mas de descobrir que a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

A vontade de Deus é boa porque Deus não deseja aquilo que é mau para seus filhos. Podemos não compreender imediatamente o caminho que ele está nos conduzindo, e podemos até discordar inicialmente daquilo que ele está permitindo ou ordenando, mas a bondade de Deus não depende da nossa compreensão. Uma criança pequena pode não entender por que os pais dizem “não”. Pode não compreender por que não pode atravessar a rua sozinha ou colocar a mão no fogo. Para a criança, o limite pode parecer restrição; para os pais, o limite é proteção. Da mesma maneira, muitas vezes olhamos para os mandamentos de Deus e pensamos: “Por que Deus está me impedindo disso?”. Talvez uma pergunta melhor seja: “Do que Deus está me protegendo ao me impedir disso?” Deus conhece aquilo que nós não conhecemos. Ele vê aquilo que não conseguimos ver. Ele conhece o fim desde o princípio. Portanto, quando a Palavra de Deus confronta nossos desejos, não precisamos concluir que Deus está contra nós. Podemos confiar que sua vontade é boa.

A vontade de Deus também é agradável, mas isso não significa que Paulo esteja prometendo uma vida sem sofrimento. A vontade de Deus pode nos conduzir por caminhos difíceis. Pode envolver renúncia, sofrimento, perdão, perseverança e decisões que exigem coragem. Pode exigir que permaneçamos fiéis quando seria mais fácil desistir ou que digamos “não” quando todos estão dizendo “sim”. Então, em que sentido a vontade de Deus é agradável? Ela é agradável porque viver debaixo da vontade de Deus é viver em harmonia com aquilo para o qual fomos criados. Existe uma diferença entre aquilo que é prazeroso e aquilo que é verdadeiramente bom. Há desejos que produzem prazer imediato e sofrimento posterior; há decisões que exigem sacrifício imediato, mas produzem frutos que permanecem. A Bíblia chama de maturidade aquilo que a cultura muitas vezes chama de privação. Por isso, não podemos utilizar nossos sentimentos como medida definitiva da vontade de Deus. Às vezes obedecer será difícil; às vezes obedecer vai doer. Mas isso não significa que a vontade de Deus deixou de ser agradável. Significa que precisamos aprender que alegria não é a mesma coisa que conforto.

Finalmente, a vontade de Deus é perfeita. Isso significa muito mais do que simplesmente afirmar que Deus não comete erros. A perfeição da vontade de Deus está relacionada ao próprio caráter de Deus. Deus não pode desejar para seus filhos algo que contradiga quem ele é. Sua vontade é perfeita porque ele é perfeito em sabedoria, bondade, justiça e amor. Nós enxergamos apenas uma pequena parte da realidade; Deus vê o todo. Conhecemos o presente e tentamos imaginar o futuro; Deus conhece o princípio, o meio e o fim. Tomamos decisões a partir de informações limitadas, experiências particulares e, muitas vezes, desejos confusos; Deus não está limitado por aquilo que conseguimos perceber. Por isso, quando Paulo chama a vontade de Deus de perfeita, ele nos ensina a confiar em Deus mesmo quando não conseguimos compreender completamente aquilo que ele está fazendo.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades da fé cristã. Muitas vezes confiamos em Deus enquanto conseguimos entendê-lo. Enquanto sua vontade coincide com aquilo que desejamos, dizemos que Deus é bom. Enquanto a porta que pedimos se abre, dizemos que Deus é fiel. Enquanto a resposta que esperamos chega, afirmamos que Deus sabe o que faz. Mas a verdadeira maturidade espiritual aparece quando Deus nos conduz por um caminho que não entendemos; quando oramos e a resposta não vem; quando pedimos cura e continuamos enfrentando a enfermidade; quando planejamos uma coisa e Deus permite outra; quando uma porta se fecha e não sabemos por quê; quando obedecer custa alguma coisa. É nesse lugar que descobrimos se confiamos realmente na perfeição de Deus ou apenas naquilo que conseguimos compreender dos caminhos de Deus. A fé cristã não é a certeza de que entenderemos todos os caminhos de Deus; é a confiança de que, mesmo quando não compreendemos seus caminhos, podemos confiar no Deus que os conduz.

Essa verdade confronta diretamente a cultura contemporânea, que frequentemente trata o desejo como autoridade: se eu quero, devo buscar; se eu sinto, devo obedecer; se algo me faz feliz, preciso preservá-lo; se algo me impede de realizar meus desejos, preciso removê-lo. O evangelho apresenta uma liberdade completamente diferente. A liberdade cristã não consiste em ter a possibilidade de realizar todos os nossos desejos; consiste em sermos libertos da escravidão aos nossos próprios desejos para podermos desejar aquilo que é verdadeiramente bom. Por isso, quando Paulo afirma que a vontade de Deus é perfeita, ele nos convida a abandonar uma postura muito comum: colocar Deus como conselheiro da nossa vida, enquanto mantemos o governo em nossas próprias mãos. Muitas vezes dizemos: “Senhor, abençoa o meu projeto; abençoa o meu relacionamento; abençoa a minha escolha”. Uma mente renovada começa em outro lugar. Ela não chega diante de Deus dizendo: “Senhor, confirme aquilo que eu quero”. Ela chega dizendo: “Senhor, se aquilo que quero estiver errado, muda o meu querer. Se meu caminho não for o teu caminho, muda o meu caminho. Se minha vontade estiver em conflito com a tua vontade, que a tua vontade prevaleça.”

Isso não significa que Romanos 12.2 seja uma frase fácil para situações difíceis. Há dores que são reais. Existem perdas que doem, despedidas que doem, orações sem resposta que cansam e injustiças que provocam indignação. Há momentos em que não conseguimos compreender o que Deus está fazendo. Mas o evangelho nos dá algo que o mundo não consegue oferecer: podemos chorar sem perder a esperança, podemos não compreender sem abandonar a fé e podemos sofrer sem concluir que Deus deixou de ser bom. A perfeição da vontade de Deus não significa que nossa caminhada será sempre confortável; significa que, em todos os caminhos, podemos confiar naquele que continua sendo Deus. Talvez alguém esteja vivendo exatamente esse momento. Talvez exista uma área da vida sobre a qual você olha e pensa: “Eu não teria feito assim”. Talvez exista uma oração antiga ainda sem resposta, uma perda que você não consegue compreender ou uma decisão diante da qual não consegue enxergar o caminho. A Palavra de Deus não vem necessariamente para dizer que você entenderá tudo. Ela vem para lembrar uma verdade muito mais profunda: você não precisa entender tudo para confiar naquele que entende tudo.

Quem está formando sua mente?

Romanos 12.2 nos coloca diante de uma decisão. Existe um padrão tentando nos moldar, mas Deus nos chama para uma transformação que começa na mente. O mundo diz: “Pense como nós pensamos, deseje o que nós desejamos, viva como nós vivemos”. Deus diz: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.” Por isso, a pergunta que precisamos levar para casa não é simplesmente “o que eu penso?”, mas “quem está me ensinando a pensar?” Quem está formando meus valores? Quem está dizendo o que é certo e errado? Quem está definindo minha identidade? Quem está educando meus filhos? Quem tem a palavra final quando meus sentimentos entram em conflito com a Palavra de Deus?

A resposta cristã precisa ser clara: Cristo é o Senhor. Não apenas da nossa salvação, mas da nossa mente, dos nossos desejos, dos nossos relacionamentos, da nossa família, do nosso trabalho e de toda a nossa existência. Talvez Deus esteja hoje confrontando alguma coisa que chamamos de normal, mas que precisa ser renovada. Talvez seja um pensamento, um desejo, uma prioridade ou uma maneira de viver que trouxemos da cultura sem perceber. Não precisamos ter medo de ser confrontados pela Palavra de Deus. Precisamos permitir que Deus nos transforme. O objetivo não é simplesmente pensar diferente do mundo; é aprender a pensar como discípulos de Cristo. E quando nossa mente é renovada, começamos a descobrir aquilo que Paulo afirma: a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

Por isso, a pergunta desta terceira mensagem da série “Como Viveremos?” permanece diante de cada um de nós: Quem está formando sua mente? Não existe neutralidade. Estamos sendo formados. Nossos pensamentos estão sendo educados. Nossos desejos estão sendo moldados. Nossa consciência está sendo discipulada. A questão não é se isso está acontecendo, mas quem está fazendo isso. A cultura está constantemente nos oferecendo uma forma de interpretar o mundo, a nós mesmos, nossos relacionamentos, nosso corpo, nosso trabalho, nossa família e nosso futuro. A Palavra de Deus, porém, oferece uma cosmovisão diferente, centrada no Deus que criou todas as coisas, que revelou sua verdade e que, em Cristo, nos chama para uma vida de discipulado integral.

Que a igreja de Cristo não seja uma comunidade que apenas sabe dizer “não” ao mundo, mas uma comunidade que aprendeu a dizer “sim” à vontade de Deus. Que nossos lares sejam lugares onde nossos filhos aprendam não apenas o que acreditar, mas por que acreditamos. Que nossas igrejas sejam ambientes de formação da mente cristã, nos quais a Escritura não seja apenas lida, mas aplicada à totalidade da vida. Que não sejamos cristãos que simplesmente frequentam cultos, mas discípulos que pensam, amam, escolhem e vivem sob o senhorio de Cristo. Afinal, como temos repetido desde o início desta série: a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

Não se conforme.

Seja transformado.

Renove sua mente.

E viva debaixo do senhorio de Cristo.

Porque a grande pergunta não é apenas: “Como viveremos?”

Antes dela existe outra:

“Quem está formando a nossa mente?”

Como viveremos – quando Deus deixou de ser o centro

A transformação de uma cosmovisão e suas consequências para a vida

Na primeira parte desta série, voltamos ao jardim do Éden para compreender onde começou a grande ruptura que continua marcando a história humana. Descobrimos que a queda não começou simplesmente quando Eva tomou o fruto. Antes do ato houve uma mudança na maneira de pensar. A serpente questionou a Palavra de Deus, colocou em dúvida a bondade do Criador e apresentou ao ser humano a possibilidade de viver de maneira independente de Deus: “Sereis como Deus” (Gn 3.5). A primeira grande mentira, portanto, não era apenas uma mentira sobre uma árvore; era uma mentira sobre quem tem autoridade para definir a realidade. A criatura passou a imaginar que poderia interpretar o mundo, definir o bem e o mal e determinar seu próprio destino sem depender do Criador. Por isso, a frase que acompanha toda esta série continua sendo fundamental: a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

A partir dessa perspectiva, a segunda pergunta da série é inevitável: o que aconteceu depois do Éden? A humanidade continuou carregando consigo a disposição de viver sem Deus no centro. Os nomes mudaram, as filosofias mudaram, as culturas mudaram e as tecnologias mudaram, mas a antiga tentação permaneceu. O ser humano continuou procurando estabelecer sua própria autoridade sobre a realidade. É exatamente essa trajetória que esta segunda reflexão procura acompanhar. Não se trata de afirmar que houve um determinado dia em que Deus simplesmente desapareceu da cultura ocidental, nem de idealizar períodos anteriores da história. Trata-se de observar uma transformação progressiva nas pressuposições pelas quais o Ocidente passou a compreender autoridade, verdade, conhecimento, humanidade e identidade. Em termos muito simples, podemos acompanhar esse deslocamento por meio de quatro movimentos: Deus ocupando o centro; a razão ocupando progressivamente o centro; o homem ocupando o centro; e, finalmente, o eu e os sentimentos ocupando o centro.

Essa perspectiva possui profunda afinidade com a proposta de Francis Schaeffer em Como viveremos?. Schaeffer não estava simplesmente interessado em denunciar os pecados de sua época. Seu interesse era compreender as ideias que haviam moldado a cultura ocidental. Para ele, uma sociedade não muda apenas porque seus costumes mudam; seus costumes mudam porque suas pressuposições mudam. As pessoas passam a pensar de determinada maneira, essa maneira de pensar produz uma determinada visão de realidade e, posteriormente, essa visão de realidade se manifesta na arte, na filosofia, na ciência, na política, na moralidade, na família e no comportamento cotidiano. A cultura visível é, em grande medida, o resultado de pressupostos invisíveis. É por isso que uma análise cristã da cultura precisa ir além dos sintomas e procurar compreender as raízes intelectuais e espirituais que estão por trás deles.

Deus no centro: o horizonte cristão

Para compreender o que mudou, precisamos primeiro compreender aquilo que existia antes dessa transformação. Durante grande parte da história do Ocidente cristão, Deus funcionava como referência fundamental para a interpretação da realidade. Isso não significa que todas as pessoas fossem verdadeiramente convertidas, nem que as sociedades cristãs fossem moralmente perfeitas. A história da cristandade está marcada por pecado, corrupção, guerras, abusos de poder, injustiças e graves contradições. A própria igreja, em determinados períodos, cometeu erros que precisam ser reconhecidos sem qualquer tentativa de romantização. Portanto, dizer que Deus ocupava o centro do horizonte cultural não significa dizer que todos obedeciam a Deus. Significa que Deus fazia parte da estrutura fundamental pela qual a realidade era compreendida.

Essa distinção é importante porque evita dois erros opostos. O primeiro é o saudosismo, que imagina que houve uma época em que a sociedade cristã era perfeita e que bastaria retornar ao passado para resolver nossos problemas. O segundo é o anacronismo, que olha para épocas anteriores utilizando categorias contemporâneas e não consegue perceber que a própria estrutura de pensamento era diferente. Durante séculos, no horizonte cristão ocidental, a existência humana era compreendida dentro de uma ordem criada por Deus. Havia um Criador, havia uma criação, havia propósito para a existência, havia uma ordem moral objetiva e havia responsabilidade diante de Deus. O indivíduo não era concebido como uma realidade completamente autônoma, capaz de determinar sozinho o significado de sua existência.

Essa diferença pode ser percebida nas perguntas fundamentais que organizavam a existência. Em um horizonte fortemente cristão, a pergunta não era apenas “O que quero fazer da minha vida?”, mas “Como devo viver diante de Deus?”. A morte não era apenas um acontecimento biológico; remetia à eternidade. O pecado não era simplesmente uma violação das normas sociais; era uma ofensa contra Deus. A moralidade não era apenas uma convenção estabelecida pela sociedade; estava vinculada à convicção de que existia uma ordem moral objetiva. A existência humana não começava no indivíduo. Ela começava em Deus.

Essa visão pode ser resumida em uma afirmação simples e, ao mesmo tempo, fundamental para toda a antropologia cristã: Deus é Deus e nós somos criaturas. A Bíblia começa justamente dessa maneira: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). A Escritura não começa com o homem perguntando se Deus existe. Ela começa afirmando Deus como Criador e apresentando o universo como criação. Essa estrutura é decisiva. Se Deus é Criador, então o mundo não é autônomo. Se Deus é Criador, o homem não é autônomo. Se Deus é Criador, a existência humana possui uma finalidade que não é simplesmente inventada pelo indivíduo.

Paulo expressará essa verdade de maneira magnífica em Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”. A vida procede de Deus, depende de Deus e encontra nele sua finalidade. Essa é a estrutura fundamental da cosmovisão cristã. O homem não é o centro da realidade porque não é o autor da realidade. Ele é criatura, e sua dignidade não diminui por isso. Pelo contrário: sua dignidade deriva precisamente do fato de ter sido criado à imagem de Deus.

Romanos 1 acrescenta uma dimensão ainda mais profunda. Paulo afirma que os homens, embora tivessem conhecimento de Deus, “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21). O problema não era simplesmente ausência de informação. O problema era uma recusa em reconhecer Deus em seu devido lugar. O pecado envolve uma desordem fundamental da adoração. O homem deixa de glorificar o Criador como Criador e, consequentemente, passa a reorganizar a realidade ao redor de outra coisa.

Aqui encontramos o princípio que acompanhará toda a nossa análise: o centro determina a estrutura da vida. Aquilo que ocupa o lugar de autoridade última acaba determinando nossa compreensão da verdade, da moralidade, da identidade, da liberdade e do propósito. Se Deus está no centro, o homem recebe sua identidade de Deus. Se o homem ocupa o centro, ele passa a produzir sua própria identidade. Se a razão ocupa o centro, aquilo que pode ser conhecido será definido pela razão. Se os sentimentos ocupam o centro, aquilo que é verdadeiro passa a ser progressivamente determinado pela experiência subjetiva.

A questão, portanto, não é simplesmente se uma sociedade continua mencionando o nome de Deus. Uma cultura pode continuar falando sobre Deus, celebrando determinadas festas religiosas, mantendo símbolos religiosos e preservando tradições cristãs e, ainda assim, ter deslocado Deus do centro. A questão decisiva é outra: Deus ainda funciona como a referência última pela qual a realidade é interpretada?

Quando a razão ocupou o centro

O deslocamento não aconteceu de uma vez. Foi progressivo. Uma das mudanças fundamentais ocorreu quando a confiança humana começou a se deslocar da revelação divina para a capacidade da razão humana. É importante fazer aqui uma distinção que a própria mensagem enfatiza: não existe nada de errado com a razão. Pensar, investigar, perguntar, argumentar e buscar conhecimento são capacidades boas e legítimas, pois fazem parte daquilo que significa ser humano criado à imagem de Deus. O problema não está em utilizar a razão; está em transformar a razão em autoridade absoluta.

O cristianismo nunca ensinou que devemos abandonar a razão para crer. A fé cristã possui conteúdo proposicional, afirma verdades sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem e sobre a salvação, e essas verdades podem e devem ser examinadas racionalmente. A tradição cristã sempre produziu teólogos, filósofos, cientistas e intelectuais precisamente porque a realidade criada por Deus pode ser investigada. A criação é inteligível porque possui um Criador racional. O problema surge quando a criatura transforma sua própria razão no tribunal diante do qual toda realidade deve comparecer, inclusive Deus.

Esse deslocamento tornou-se especialmente importante na modernidade e no Iluminismo. A razão humana adquiriu um papel cada vez mais decisivo como instrumento de conhecimento e autoridade. A pergunta começou a mudar. Já não era somente “O que Deus revelou?”. Passou a ser também — e, em determinados ambientes, predominantemente — “O que posso conhecer pela minha própria razão?”. A questão não é que essa pergunta seja ilegítima. Ela se torna problemática quando pressupõe que aquilo que não pode ser validado segundo determinados critérios humanos não pode ser verdadeiro.

Um exemplo contemporâneo ajuda a compreender a questão. Imagine alguém afirmando: “Só acredito naquilo que a ciência consegue observar, medir e reproduzir em laboratório; portanto, Deus não existe”. Parece uma afirmação científica, mas não é. A ciência não realizou um experimento que demonstrou a inexistência de Deus. Antes da conclusão, foi estabelecido um pressuposto filosófico: somente aquilo que pode ser submetido ao método científico possui validade cognitiva. O método foi transformado em uma teoria sobre a totalidade da realidade. Nesse momento, já não estamos diante de uma conclusão científica, mas de uma afirmação filosófica que utiliza a ciência como fundamento de uma visão de mundo.

A diferença entre ciência e cientificismo é fundamental. A ciência investiga aspectos observáveis e mensuráveis da realidade por meio de métodos apropriados. O cientificismo, por outro lado, transforma a ciência em uma espécie de metafísica total, afirmando que somente aquilo que a ciência pode investigar existe ou possui significado. O problema é que essa própria afirmação não pode ser demonstrada cientificamente. Não existe experimento de laboratório capaz de provar que somente aquilo que pode ser testado em laboratório é verdadeiro. Trata-se de uma pressuposição filosófica.

Isso também aparece quando discutimos moralidade. A ciência pode investigar como determinada ação afeta o cérebro, quais hormônios estão envolvidos, quais consequências sociais podem ocorrer ou como determinados comportamentos se desenvolvem. Mas descrever o que acontece não é necessariamente determinar o que deve acontecer. O fato de uma determinada prática produzir determinada consequência não responde, por si só, à pergunta moral sobre se aquela prática é certa ou errada. A passagem do “é” para o “deve ser” envolve pressupostos éticos que não podem ser simplesmente extraídos de dados empíricos.

Portanto, o cristão não precisa temer a ciência. Pelo contrário, podemos estudar a criação justamente porque cremos que existe um Criador. Descobrir como a criação funciona não significa descobrir que o Criador não existe. A questão decisiva é outra: quem possui autoridade para interpretar o significado último da realidade? A razão é uma excelente serva, mas um péssimo deus.

Quando o homem ocupou o centro

O passo seguinte é ainda mais significativo. À medida que a razão humana ganhou confiança, o próprio homem começou a ocupar um lugar cada vez maior no centro da cosmovisão. Romanos 1.23 descreve esse processo com a linguagem da troca: “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível”. O homem não suporta permanecer sem um centro de adoração. Quando Deus é deslocado, alguma outra coisa precisa ocupar seu lugar.

A modernidade alimentou uma confiança extraordinária na capacidade humana de conhecer, organizar e transformar a realidade. A ciência poderia avançar; a tecnologia poderia desenvolver-se; a educação poderia transformar as pessoas; a política poderia reorganizar a sociedade; o progresso poderia construir um futuro melhor. Há elementos verdadeiros nessas expectativas. Ciência, educação, tecnologia e instituições podem produzir benefícios reais e extraordinários. O problema aparece quando essas coisas recebem uma expectativa que ultrapassa aquilo que podem legitimamente oferecer.

A esperança no progresso pode se transformar em uma espécie de soteriologia secular. O homem passa a acreditar que pode salvar a si mesmo por meio do conhecimento, da ciência, da política, da tecnologia ou da reorganização social. A criatura começa a esperar da criação aquilo que somente o Criador pode oferecer.

Aqui a trajetória se torna muito clara: primeiro Deus; depois a razão; finalmente o próprio homem.

A pergunta deixa de ser apenas “O que Deus quer?” e passa a ser “O que somos capazes de fazer?”. É nesse ponto que o conceito de autonomia se torna fundamental. Autonomia, nesse contexto, significa a tentativa de determinar os rumos fundamentais da existência a partir do próprio indivíduo, sem uma autoridade transcendente que possua a palavra final. O homem passa a enxergar a si mesmo como capaz de estabelecer sua própria direção.

E novamente estamos diante da antiga promessa do Éden: “Sereis como Deus”. A linguagem filosófica pode ser sofisticada; os argumentos podem ser intelectualmente elaborados; os instrumentos tecnológicos podem ser impressionantes; mas a tentação permanece. A criatura deseja ocupar o lugar do Criador.

É importante, entretanto, evitar uma caricatura. A modernidade não produziu apenas coisas negativas. A expansão do conhecimento científico, avanços médicos, desenvolvimento tecnológico, alfabetização, instituições jurídicas e inúmeras outras conquistas trouxeram benefícios concretos à humanidade. Uma crítica cristã séria não precisa negar essas conquistas. A questão é perguntar qual é o fundamento último da esperança depositada nelas. A ciência pode curar enfermidades, mas não pode eliminar a morte. A educação pode transmitir conhecimento, mas não pode regenerar o coração. A tecnologia pode ampliar nossas possibilidades, mas não pode reconciliar o pecador com Deus. A política pode organizar sociedades, mas não pode remover a corrupção moral do coração humano.

O problema não está em reconhecer aquilo que o homem pode fazer. O problema está em imaginar que o homem pode fazer aquilo que somente Deus pode fazer.

Quando o eu ocupou o centro

Se a modernidade colocou enorme confiança na razão e no progresso, o século XX abalou profundamente essa confiança. Guerras mundiais, totalitarismos, genocídios, armas de destruição em massa e outras tragédias produziram uma crise na crença de que a razão humana e o progresso seriam suficientes para conduzir a humanidade a um futuro inevitavelmente melhor. A própria história passou a questionar o otimismo moderno.

É nesse ambiente que a pós-modernidade desenvolve uma crítica profunda às grandes narrativas, à ideia de verdade universal e à confiança em sistemas totalizantes. Se a modernidade dizia, em linhas gerais, “existe uma verdade e a razão pode encontrá-la”, a pós-modernidade passou a perguntar: “Quem disse que existe uma única verdade?”. A consequência é uma subjetivação crescente da verdade. A pergunta muda de “O que é verdade?” para “O que é verdade para mim?”.

Nesse processo, ocorre mais uma mudança de centro. O eixo passa de Deus para a razão, da razão para o homem e do homem para o eu. O indivíduo torna-se progressivamente a referência de sua própria identidade, de suas escolhas e de sua experiência. O que antes era avaliado à luz de uma verdade objetiva passa a ser avaliado cada vez mais a partir da experiência pessoal.

Chegamos, então, a uma característica particularmente marcante da cultura contemporânea: o sentimento passa a exercer função de autoridade.

Não basta mais afirmar “esta é a minha verdade”. Surge uma linguagem ainda mais subjetiva: “é assim que eu me sinto”. “Siga seu coração.” “Seja fiel a quem você é.” “Faça aquilo que faz você feliz.” “Ninguém pode dizer quem você deve ser.” Essas expressões podem parecer apenas frases motivacionais, mas carregam uma determinada antropologia. Elas pressupõem que o indivíduo possui dentro de si a autoridade necessária para determinar sua identidade e sua verdade.

O problema não é reconhecer que sentimentos são importantes. Eles são. Deus criou seres humanos capazes de sentir, amar, sofrer, alegrar-se e desejar. A fé cristã não é uma religião de pessoas emocionalmente anestesiadas. O problema surge quando o sentimento deixa de ser uma dimensão da pessoa e passa a ser o juiz da realidade.

Quando isso acontece, a lógica se torna: “Eu sinto, portanto, isso é verdadeiro para mim”. Mas sentimentos são reais sem serem necessariamente normativos. Eu posso sentir medo e, ainda assim, não estar diante de um perigo real. Posso sentir-me rejeitado sem ter sido rejeitado. Posso desejar algo profundamente e, ainda assim, aquilo que desejo ser prejudicial. Posso sentir que uma determinada decisão é certa e descobrir posteriormente que estava errado.

A Bíblia nunca nos ensina a ignorar nossos sentimentos, mas também nunca os transforma em autoridade final. Pelo contrário, a Escritura chama o coração à submissão à verdade de Deus. O cristão não é alguém que não sente; é alguém que aprende a interpretar seus sentimentos à luz da verdade revelada.

Essa diferença é crucial. A cultura contemporânea frequentemente diz: “Seja fiel a si mesmo.” Jesus diz: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34). A primeira mensagem coloca o eu no centro; a segunda coloca Cristo no centro.

Deus → razão → homem → eu

Quando observamos essa trajetória em conjunto, percebemos que não estamos simplesmente diante de uma sucessão de filosofias. Estamos diante de uma mudança de centro.

No primeiro estágio, a pergunta fundamental era: “O que Deus revelou?”

Depois, ganha força a pergunta: “O que a razão humana pode conhecer?”

Em seguida: “O que o homem pode construir?”

E finalmente: “O que eu sinto e o que isso significa para mim?”

Podemos resumir essa trajetória assim:

Deus → razão → homem → eu → sentimentos.

Essa sequência não pretende oferecer uma descrição exaustiva de toda a história intelectual do Ocidente, nem deve ser utilizada como uma cronologia rígida. A história é muito mais complexa. Houve cristãos usando a razão, houve filósofos modernos profundamente religiosos, houve pensadores pós-modernos com posições muito diferentes entre si e houve elementos de subjetividade presentes muito antes do século XX. Portanto, o mapa é uma ferramenta interpretativa, não uma cronologia absoluta.

Ainda assim, ele nos ajuda a perceber uma tendência importante: o deslocamento progressivo da autoridade transcendente para a autoridade humana e, finalmente, para a autoridade subjetiva do indivíduo.

E esse deslocamento tem consequências. Quando a visão de Deus muda, a visão do homem muda. Quando a visão do homem muda, a visão da moralidade muda. Quando a moralidade muda, a visão da família muda. Quando a família muda, a compreensão da identidade muda. E quando a identidade passa a ser construída subjetivamente, o próprio eu torna-se a medida pela qual a realidade deve ser interpretada.

É justamente aqui que a tese de Schaeffer se torna pastoralmente importante. Se queremos compreender uma cultura, não basta observar seus comportamentos. Precisamos perguntar quais pressuposições estão por trás deles. Uma sociedade não chega simplesmente a determinadas conclusões morais; ela chega a essas conclusões porque primeiro adotou determinada compreensão de Deus, do homem, da verdade e da realidade.

Por isso, a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

O problema não está apenas “lá fora”

Existe, entretanto, um perigo pastoral nessa discussão. Podemos facilmente terminar este artigo apontando o dedo para a cultura e dizendo: “Veja como o mundo está perdido”. Podemos denunciar o relativismo, a cultura do eu, a subjetivização da verdade, a crise da família e a centralidade dos sentimentos. Podemos lamentar aquilo que nossos filhos encontram nas escolas e nas redes sociais. Podemos criticar televisão, internet, universidades e movimentos culturais.

Mas Romanos 1 não foi escrito para que nos sentíssemos superiores aos pecadores.

O texto precisa primeiro nos examinar.

A pergunta mais importante não é simplesmente: “Quando Deus deixou de ser o centro da sociedade?”. A pergunta que o texto de Romanos 1 coloca diante de cada cristão é muito mais pessoal: “Deus ainda é o centro da minha vida?”

É perfeitamente possível viver dentro da igreja e, ainda assim, colocar outra coisa no centro. É possível cantar louvores, conhecer a Bíblia, defender a doutrina correta e organizar a vida em torno do dinheiro. É possível falar sobre Deus e viver para a aprovação das pessoas. É possível professar fé em Cristo e ser governado pelo desejo de controle. É possível defender a verdade objetiva e, ao mesmo tempo, fazer dos próprios sentimentos a autoridade final quando a Palavra confronta nossos desejos.

Aquilo que ocupa o centro governa o restante da existência. Se o dinheiro ocupa o centro, nossas decisões serão orientadas pelo dinheiro. Se o sucesso ocupa o centro, sacrificaremos coisas importantes para alcançá-lo. Se a aprovação das pessoas ocupa o centro, viveremos tentando agradar aos outros. Se nossos sentimentos ocupam o centro, seremos governados por aquilo que sentimos em cada momento. Mas quando Deus ocupa o centro, as outras coisas começam a encontrar seu devido lugar. O dinheiro deixa de ser senhor e passa a ser instrumento; o trabalho deixa de ser identidade e passa a ser vocação; a família deixa de ser um ídolo e passa a ser uma responsabilidade recebida de Deus; os sentimentos deixam de ser o senhor da vida e passam a ser submetidos à verdade da Palavra.

Essa é uma das grandes contribuições de uma cosmovisão cristã: ela não exige que abandonemos as coisas criadas; exige que as coloquemos no lugar correto. O problema não é possuir dinheiro, mas fazer dele um deus. Não é trabalhar, mas transformar o trabalho em identidade absoluta. Não é amar a família, mas permitir que ela ocupe o lugar de Deus. Não é sentir, mas transformar o sentimento em autoridade final.

A idolatria não consiste somente em ajoelhar-se diante de uma imagem. Ela consiste em colocar uma criatura no lugar do Criador.

O centro determina o modo de viver

Talvez seja possível compreender toda essa discussão a partir de uma pergunta simples: quem tem a palavra final?

Quem determina o que é verdadeiro?

Quem determina o que é bom?

Quem determina quem somos?

Quem determina para que existimos?

Quem determina o que devemos amar?

Quem tem a palavra final quando nossos desejos entram em conflito com a Palavra de Deus?

Essa é a verdadeira questão por trás da batalha cultural.

A cultura contemporânea frequentemente nos diz: “Faça o que fizer você feliz”. A Escritura nos conduz a uma pergunta diferente: “O que glorifica a Deus?”

A cultura diz: “Siga seu coração”. A Escritura nos chama a guardar o coração e submetê-lo à verdade.

A cultura diz: “Seja fiel a você mesmo”. Cristo diz: “Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.

A cultura coloca o eu no centro. O evangelho coloca Cristo no centro.

É aqui que percebemos que o problema da nossa geração não pode ser resolvido apenas por uma mudança de comportamento. Não precisamos simplesmente ensinar pessoas a terem comportamentos mais cristãos. Precisamos anunciar o evangelho que reconcilia pecadores com Deus e transforma a maneira como eles compreendem a realidade.

O homem não precisa simplesmente aprender a administrar melhor sua vida. Ele precisa ser reconciliado com seu Criador.

O evangelho: Deus vem ao encontro do homem

É neste ponto que precisamos fazer uma distinção essencial. O evangelho não é simplesmente uma ordem para “colocar Deus novamente no centro”. Se fosse apenas isso, ainda estaríamos dependendo da capacidade humana. O evangelho é muito mais glorioso: Deus veio ao encontro do homem quando o homem havia se afastado de Deus.

No Éden, Adão se escondeu, mas Deus foi ao seu encontro. Na história da redenção, Deus continua tomando a iniciativa. O Senhor chama Abraão, estabelece aliança com Israel, envia os profetas e, na plenitude dos tempos, entra na própria história humana na pessoa de Jesus Cristo.

O Criador entrou na criação.

Aquele que foi rejeitado pelo homem veio buscar o homem que o rejeitou.

Aquele contra quem pecamos tomou sobre si a culpa do pecado.

Aquele cuja autoridade questionamos entregou-se voluntariamente na cruz para nos reconciliar com Deus.

Essa é a grande diferença entre uma filosofia moral e o evangelho. Uma filosofia pode dizer: “Mude sua maneira de viver”. O evangelho anuncia: “Cristo morreu e ressuscitou para dar nova vida ao pecador.” Uma filosofia pode oferecer princípios. O evangelho oferece reconciliação. Uma filosofia pode tentar reorganizar a sociedade. O evangelho começa regenerando o coração.

Por isso a nossa esperança não está simplesmente em reconstruir uma sociedade que volte a mencionar Deus. Nossa esperança está em Cristo. Precisamos, sim, pensar biblicamente, educar biblicamente, viver biblicamente e testemunhar biblicamente. Mas fazemos tudo isso porque fomos alcançados pela graça de Deus em Cristo.

O Deus que o homem retirou do centro não abandonou o homem. Deus veio ao encontro do homem.

Afinal, quem está no centro?

Depois de percorrermos essa trajetória, a pergunta que fica não é apenas histórica. É profundamente pessoal.

Quem está no centro da sua vida?

Talvez seja você mesmo.

Talvez sejam seus sentimentos.

Talvez seja o dinheiro.

Talvez seja sua carreira.

Talvez seja um relacionamento.

Talvez seja sua imagem.

Talvez seja a aprovação das pessoas.

Talvez seja o desejo de controlar tudo.

É possível que você tenha passado anos correndo atrás de alguma coisa acreditando: “Quando eu conseguir isso, finalmente serei feliz”. “Quando ganhar mais dinheiro, estarei seguro.” “Quando aquela pessoa me amar, estarei completo.” “Quando alcançar aquele cargo, minha vida terá sentido.” “Quando todos reconhecerem meu valor, finalmente ficarei em paz”.

Mas nenhuma criatura consegue ocupar satisfatoriamente o lugar do Criador.

O dinheiro pode comprar conforto, mas não pode comprar paz com Deus. O conhecimento pode ampliar nossa compreensão do mundo, mas não pode reconciliar o pecador com seu Criador. A ciência pode produzir tratamentos extraordinários, mas não pode solucionar o problema fundamental do pecado. A tecnologia pode colocar uma quantidade gigantesca de informação em nossas mãos, mas não consegue preencher o vazio da alma. O prazer pode proporcionar satisfação momentânea, mas não consegue produzir a alegria profunda de uma vida reconciliada com Deus. O reconhecimento humano pode alimentar o ego, mas não pode determinar nosso verdadeiro valor diante do Criador.

Tudo aquilo que colocamos no lugar de Deus, cedo ou tarde, nos mostrará que é pequeno demais para carregar o peso da nossa existência.

A grande questão, portanto, não é simplesmente saber se acreditamos que Deus existe. A questão é se Deus é Senhor.

Podemos acreditar que Deus existe e ainda assim viver como se Ele não fosse necessário. Podemos falar sobre Deus e não glorificá-lo como Deus. Podemos preservar uma linguagem religiosa e, ao mesmo tempo, construir a existência em torno de nós mesmos.

Romanos 1 nos chama de volta ao centro.

E o centro não somos nós.

O centro não é a razão.

O centro não são os sentimentos.

O centro não é a cultura.

O centro é Deus.

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36).

Essa é a realidade para a qual precisamos retornar.

Uma ponta para o próximo artigo

Mas aqui surge uma pergunta inevitável.

Se o centro mudou, quem está formando a nossa mente?

Porque não basta saber que a cultura mudou. Não basta reconhecer que o eu e os sentimentos ganharam enorme influência. Precisamos descobrir como essas ideias chegam até nós, como entram em nossas casas, como moldam nossos filhos, como influenciam nossa linguagem e como, muitas vezes, passam a determinar nossas próprias categorias sem que percebamos.

Se a primeira mensagem nos levou ao Éden, para descobrir onde começou a grande mentira, e esta segunda nos levou pela trajetória do deslocamento do centro — Deus, razão, homem, eu e sentimentos —, a próxima precisa tratar de uma questão ainda mais próxima de nós:

Quem está formando a nossa mente?

Porque o mundo não precisa necessariamente nos convencer a abandonar Deus de uma vez. Basta formar nossa maneira de pensar pouco a pouco, até que passemos a interpretar a realidade com categorias que já não vêm das Escrituras.

A batalha, portanto, não terminou quando descobrimos quem está no centro.

Agora precisamos descobrir quem está ocupando a nossa mente.

E essa será a pergunta do próximo artigo:

Quem está formando sua mente?

A forma como pensamos determina a forma como vivemos. E, se quisermos viver biblicamente em uma cultura pós-moderna, precisaremos aprender não apenas o que pensar, mas também quem está nos ensinando a pensar.

Soli Deo gloria

Como viveremos – onde tudo começou

A forma como pensamos determina a forma como vivemos

Estamos vivendo um período de profundas transformações culturais. Aquilo que durante séculos foi considerado evidente passou a ser questionado; valores que pareciam sólidos tornaram-se objetos de disputa; conceitos fundamentais como verdade, identidade, família, moralidade e autoridade passaram a ser reinterpretados a partir de novas categorias. Não é difícil perceber essas mudanças. Elas estão presentes nas conversas dentro de nossas casas, nas escolas, nas universidades, nas redes sociais, nos meios de comunicação, na política e até mesmo, em alguma medida, dentro das igrejas. O desafio, entretanto, não consiste simplesmente em identificar que a cultura mudou. A pergunta verdadeiramente importante é: por que ela mudou? E, sobretudo, como a igreja de Cristo deve viver quando os pressupostos que governam a cultura ao seu redor são cada vez mais diferentes daqueles apresentados pelas Escrituras?

É justamente nesse ponto que a reflexão de Francis A. Schaeffer continua sendo extraordinariamente relevante. Em Como viveremos?, publicado originalmente em 1976, Schaeffer procura demonstrar que a história cultural não é uma sucessão aleatória de acontecimentos, mas possui uma relação profunda com as ideias e pressuposições que os seres humanos adotam. Seu argumento parte de uma percepção fundamental: aquilo que uma sociedade pensa acaba determinando, em grande medida, aquilo que essa sociedade considera verdadeiro, bom, belo e desejável e, consequentemente, aquilo que ela passa a praticar. A edição brasileira publicada pela Cultura Cristã apresenta a obra precisamente como uma análise das raízes da decadência cultural, moral e espiritual do Ocidente, destacando o abandono da verdade absoluta revelada por Deus. Schaeffer, portanto, não começa sua análise perguntando simplesmente o que as pessoas estão fazendo; ele procura compreender as ideias que tornaram determinadas práticas possíveis e aceitáveis. Essa é uma contribuição fundamental para qualquer reflexão cristã sobre cultura: antes de confrontarmos os comportamentos, precisamos compreender as cosmovisões que os produzem.

Essa perspectiva também nos ajuda a compreender por que a conhecida afirmação que acompanha esta série é tão importante: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. O princípio está presente na própria estrutura da mensagem que dá início a esta série: se desejamos compreender por que nossa geração vive como vive, precisamos primeiro compreender como ela passou a pensar dessa maneira; e, se desejamos viver de modo diferente do mundo, precisamos aprender a pensar segundo a Palavra de Deus. Essa não é uma afirmação meramente psicológica. Trata-se de uma afirmação antropológica, epistemológica e teológica. O ser humano não vive simplesmente a partir de impulsos isolados; ele interpreta a realidade, estabelece pressupostos, atribui significado aos acontecimentos e, a partir dessas interpretações, organiza sua existência. Por isso Paulo escreve aos cristãos de Roma: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). A transformação cristã começa na mente porque o evangelho não pretende apenas modificar determinados comportamentos externos; ele reconstrói a maneira pela qual enxergamos Deus, o mundo, nós mesmos e a própria vida.

A batalha pela mente começou no Éden

Há, porém, uma questão ainda mais profunda. Quando observamos a crise contemporânea, podemos facilmente imaginar que estamos diante de um fenômeno essencialmente moderno. Talvez atribuamos o problema à internet, às redes sociais, à televisão, às universidades, ao secularismo, ao Iluminismo ou à pós-modernidade. Todos esses elementos podem participar do processo cultural que testemunhamos, mas nenhum deles constitui a verdadeira origem do problema. A crise é muito mais antiga. Antes de existir uma universidade, uma imprensa, uma televisão ou uma rede social, já existia uma humanidade confrontada com a questão fundamental da autoridade. Antes de qualquer sociedade moderna discutir quem define a verdade, o jardim do Éden já havia testemunhado a primeira grande tentativa humana de estabelecer uma autoridade alternativa à autoridade de Deus.

É por isso que Gênesis 3 não deve ser lido apenas como a narrativa de uma desobediência individual. O texto apresenta a matriz teológica da rebelião humana. A questão central não era simplesmente o fruto. O fruto era apenas o ponto final de um processo que havia começado anteriormente, no campo das ideias. A serpente não começou dizendo a Eva: “Coma o fruto”. Ela começou com uma pergunta: “É assim que Deus disse?” (Gn 3.1). A primeira batalha da história da humanidade, portanto, não foi travada contra o fruto, mas contra a Palavra de Deus. Antes que a mão de Eva alcançasse o fruto, sua mente já havia sido confrontada com uma interpretação alternativa da realidade.

Essa observação é essencial para uma teologia cristã da cultura. A tentação começa quando a criatura é levada a reconsiderar aquilo que Deus estabeleceu como verdade. A serpente procura introduzir dúvida onde Deus havia estabelecido certeza, suspeita onde havia confiança e autonomia onde havia dependência. A pergunta “É assim que Deus disse?” parece pequena, mas carrega uma enorme implicação epistemológica: a Palavra de Deus será recebida como autoridade final ou será submetida ao julgamento humano? É nesse ponto que a batalha começa.

Gênesis 2 apresenta uma realidade na qual Deus é a referência absoluta. Ele cria, ordena, estabelece limites, nomeia, define e declara aquilo que é bom. O ser humano recebe a realidade, não a inventa. A criação possui uma estrutura objetiva porque foi estabelecida pelo Criador. Deus não é apenas mais uma voz dentro do universo; Ele é o Senhor do universo. A ordem moral não nasce da preferência humana, mas da vontade daquele que criou todas as coisas. Por isso, quando chegamos ao capítulo 3, a tentação não consiste simplesmente em quebrar uma regra. O que está em jogo é a própria autoridade de Deus para definir o que é verdadeiro e bom.

A serpente percebe exatamente esse ponto. Ela não apresenta inicialmente uma negação absoluta; ela distorce. Deus havia dito: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (Gn 2.16-17). A serpente, porém, formula sua pergunta de maneira a ampliar a restrição: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1). A generosidade de Deus é transformada em opressão. A liberdade concedida por Deus desaparece da formulação, enquanto a única proibição passa a ocupar o centro da conversa. O resultado é uma imagem completamente diferente do caráter divino.

Eva, por sua vez, também altera a Palavra. Sua resposta acrescenta elementos que Deus não havia estabelecido e modifica a força da advertência divina. Em lugar de “certamente morrerás”, aparece uma formulação mais próxima de uma possibilidade: “para que não morrais”. O texto mostra, portanto, que a distorção da verdade não precisa assumir imediatamente a forma de uma negação completa. Muitas vezes, basta uma alteração aparentemente pequena. A Palavra pode ser diminuída, aumentada, deslocada ou reinterpretada até que diga algo diferente daquilo que Deus originalmente disse. A mensagem da primeira tentação é assustadoramente atual: uma mentira não precisa ser composta inteiramente de falsidades para destruir; basta que a verdade seja suficientemente distorcida.

Da dúvida à negação: a progressão da mentira

A estratégia da serpente possui uma progressão cuidadosamente construída. Primeiro, ela questiona a Palavra: “É assim que Deus disse?” Depois, nega diretamente aquilo que Deus havia declarado: “É certo que não morrereis” (Gn 3.4). Finalmente, lança uma suspeita sobre as motivações do próprio Deus: “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5). A questão passa, então, da Palavra ao caráter de Deus. Deus não apenas teria dado uma ordem que deveria ser questionada; segundo a serpente, Deus estaria escondendo algo de Adão e Eva.

Podemos perceber aqui quatro movimentos teológicos que permanecem presentes na história humana. Primeiro, Deus não é confiável: “Foi assim que Deus disse?”. Segundo, Deus não é verdadeiro: “Certamente não morrereis”. Terceiro, Deus não é bom: “Deus sabe…”. Quarto, o homem pode ocupar o lugar de Deus: “Sereis como Deus”. A sequência é importante porque mostra que a rebelião moral nasce de uma determinada compreensão da realidade. O homem não simplesmente desobedece porque deseja desobedecer; ele passa a desejar a desobediência porque adotou uma interpretação alternativa da realidade.

Aqui encontramos novamente o princípio que orienta toda esta série: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. Eva viu, desejou e comeu, mas o processo não começou quando ela viu o fruto. Começou quando passou a acreditar em uma narrativa diferente daquela que Deus havia estabelecido. O fruto tornou-se desejável porque uma nova interpretação da realidade havia sido aceita. A árvore proibida passou a parecer uma oportunidade de realização. A limitação estabelecida por Deus passou a parecer uma privação injusta. A dependência do Criador passou a parecer inferior à autonomia da criatura.

O pecado, portanto, não é irracional no sentido de não possuir nenhuma lógica. Ele possui uma lógica própria, uma lógica construída sobre uma mentira. A criatura passa a organizar a vida a partir de pressupostos falsos. É por isso que o pecado é tão sedutor. Ele raramente se apresenta como aquilo que realmente é. Ele promete liberdade, mas produz escravidão; promete conhecimento, mas conduz à alienação; promete realização, mas produz vazio; promete vida, mas conduz à morte. A serpente não vendeu simplesmente um fruto. Ela vendeu uma cosmovisão.

A mentira do Éden e a cultura contemporânea

Quando observamos a cultura contemporânea à luz de Gênesis 3, percebemos que a humanidade não inventou uma nova rebelião contra Deus. Ela apenas desenvolveu, sofisticou e institucionalizou a antiga. A antiga mensagem era: “Vocês podem determinar a realidade por si mesmos”. Hoje ela aparece em diferentes formulações: “Minha verdade”, “minha identidade”, “minha realidade”, “eu determino quem sou”, “ninguém pode dizer o que é certo para mim”. Naturalmente, as expressões contemporâneas são muito mais complexas do que essas fórmulas resumidas, e não devemos reduzir toda a cultura moderna a uma caricatura. Entretanto, existe um princípio comum que merece atenção: a autoridade objetiva de Deus é substituída pela autonomia do indivíduo.

Nesse ponto, a análise de Schaeffer se mostra particularmente útil. Para ele, a história cultural deve ser compreendida a partir das mudanças nas pressuposições fundamentais de uma sociedade. A cultura não surge do nada. Há uma relação entre aquilo que as pessoas acreditam e aquilo que elas produzem. A descrição de Schaeffer é justamente a de um fluxo que parte do mundo das ideias e chega às manifestações concretas da cultura. Sua análise da história ocidental acompanha esse desenvolvimento através de filosofia, ciência, religião, arte, literatura e outras expressões culturais.

Isso significa que a igreja não pode responder adequadamente às transformações culturais simplesmente reclamando dos resultados. Se uma determinada sociedade possui uma determinada visão de ser humano, de verdade, de liberdade e de moralidade, os comportamentos produzidos por essa visão não deveriam nos surpreender. A questão mais importante não é apenas perguntar: “O que nossa cultura está fazendo?”, mas: “Que visão de realidade torna essas práticas coerentes?”

É exatamente aqui que Romanos 1 aprofunda o diagnóstico. Paulo não começa dizendo simplesmente que a humanidade possui comportamentos ruins. Ele afirma que os seres humanos “suprimem a verdade pela injustiça” (Rm 1.18), que “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus” (Rm 1.21) e que “trocaram a verdade de Deus pela mentira” (Rm 1.25). Observe a sequência: verdade, conhecimento, pensamento, adoração e comportamento. A questão moral está ligada à questão epistemológica e à questão espiritual. O problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas; é que, em nossa condição caída, recusamos reconhecer Deus como Deus.

Por isso Paulo pode dizer que “os seus pensamentos tornaram-se fúteis, e o coração insensato deles se obscureceu” (Rm 1.21). O pecado afeta a totalidade da pessoa. A queda não destruiu a capacidade humana de pensar, estudar, criar, pesquisar ou desenvolver conhecimento; mas corrompeu sua relação com a verdade e com o próprio Deus. O ser humano continua sendo portador da imagem divina e, por isso, continua produzindo ciência, arte, filosofia, tecnologia e cultura. Entretanto, quando procura interpretar a realidade sem submissão ao Criador, sua inteligência torna-se instrumento de autonomia.

É por isso que Romanos 1 termina dizendo que a humanidade “trocaram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador” (Rm 1.25). Essa é, em essência, a repetição do Éden. A criatura toma o lugar do Criador. O ser humano passa a procurar na criação aquilo que somente Deus pode oferecer.

A idolatria moderna e a busca pela autonomia

A idolatria bíblica não deve ser compreendida apenas como a adoração de imagens de madeira, pedra ou metal. Esses ídolos existem, mas a Escritura revela algo mais profundo: idolatria é conceder à criatura aquilo que pertence exclusivamente ao Criador. É procurar segurança, identidade, significado, prazer ou esperança em algo que não é Deus.

Por isso, embora os ídolos tenham mudado de aparência, o coração humano permanece essencialmente o mesmo. Alguns procuram segurança no dinheiro; outros, no poder; outros, no prazer; outros, no reconhecimento; outros, na carreira, na ciência, na política, na tecnologia ou mesmo na religião. O problema não está necessariamente no objeto em si. Dinheiro, conhecimento, trabalho, tecnologia, reconhecimento e influência podem ser dons legítimos da providência divina. O problema surge quando uma coisa criada recebe o lugar que pertence ao Criador.

É nesse sentido que a primeira grande mentira continua operando. Ela afirma que a criatura pode encontrar vida afastando-se de Deus. O coração humano continua ouvindo a promessa: “Você será como Deus”. A linguagem muda, os meios mudam, as instituições mudam, as tecnologias mudam, mas o centro da rebelião permanece. O homem deseja determinar sua própria existência independentemente de Deus.

E aqui a igreja precisa tomar cuidado para não transformar essa análise em uma simples condenação da cultura. Não estamos diante de “eles” e “nós”. O problema do Éden também está dentro de nós. O diagnóstico de Romanos 3 é universal: “não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10); “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A cultura secular não criou a pecaminosidade humana. Ela apenas fornece novos ambientes nos quais a velha natureza encontra novas formas de expressão.

Esse ponto é pastoralmente decisivo. É possível denunciar a idolatria do mundo e, ao mesmo tempo, cultivar ídolos dentro da própria igreja. É possível combater o relativismo moral e, simultaneamente, transformar nossas preferências pessoais em mandamentos divinos. É possível defender a autoridade das Escrituras e, ao mesmo tempo, interpretar a Bíblia segundo aquilo que desejamos que ela diga. A serpente não está interessada apenas em levar pessoas para fora da igreja; ela também procura distorcer a Palavra dentro dela.

O problema é mais profundo do que comportamento

A mensagem de Gênesis 3 nos impede de acreditar que a solução para a crise humana seja simplesmente fornecer mais informação. Se o problema fosse falta de conhecimento, a educação resolveria. Se fosse falta de dinheiro, o desenvolvimento econômico resolveria. Se fosse falta de tecnologia, a inovação resolveria. Mas a história humana demonstra repetidamente que conhecimento, riqueza e tecnologia podem coexistir com violência, injustiça, exploração, corrupção, solidão e desespero.

O problema está no coração humano. A queda afetou nossa relação com Deus, com o próximo, com a criação e conosco mesmos. O pecado desordenou nossos afetos e nossa vontade, de modo que frequentemente desejamos aquilo que nos destrói e rejeitamos aquilo que poderia nos conduzir à vida. O problema da humanidade não é apenas que ela precisa aprender novas regras; ela precisa ser reconciliada com Deus.

Essa é uma distinção fundamental entre o evangelho e qualquer projeto meramente moralista de transformação cultural. O cristianismo não oferece apenas uma lista melhor de comportamentos. O evangelho anuncia uma nova realidade em Cristo. Deus não enviou seu Filho simplesmente para tornar pessoas ruins um pouco melhores. Cristo veio para salvar pecadores, reconciliá-los com Deus e conceder-lhes nova vida. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

A esperança cristã, portanto, não está no homem. Está em Deus. A resposta para o Éden não é simplesmente uma humanidade mais educada, mais informada ou mais civilizada. A resposta é Cristo. Aquele que foi prometido imediatamente após a queda é o Descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). A história da redenção começa justamente no lugar em que a história da rebelião humana começa.

A verdade que vence a mentira

Há uma impressionante contraposição entre Gênesis 3 e o evangelho. No jardim, a serpente diz ao homem que a vida está em afastar-se de Deus. No evangelho, Deus demonstra que a verdadeira vida está em reconciliar-se com Ele. No Éden, a criatura deseja ocupar o lugar do Criador. No evangelho, o próprio Filho de Deus assume a condição humana e humilha-se até à morte de cruz (Fp 2.5-8). No jardim, Adão tenta esconder sua vergonha. No evangelho, Cristo toma sobre si a vergonha do pecador. No Éden, o homem foge de Deus. Na redenção, Deus vem ao encontro do homem.

A pergunta divina “Onde estás?” (Gn 3.9) não deve ser entendida como uma busca por informação, como se Deus não soubesse onde Adão estava. É uma pergunta que revela a iniciativa divina em direção ao pecador. O homem havia se escondido, mas Deus veio procurá-lo. Desde então, a história da redenção pode ser vista como a história da graça de Deus buscando pecadores perdidos. O mesmo Deus que entrou no jardim depois da queda é aquele que, na plenitude dos tempos, enviou seu Filho ao mundo para salvar aquilo que estava perdido.

Essa verdade também corrige qualquer leitura excessivamente pessimista da análise cultural de Schaeffer. Sim, a cultura humana pode afastar-se da verdade. Sim, civilizações podem entrar em decadência. Sim, ideias falsas produzem consequências terríveis. Sim, a rejeição dos absolutos bíblicos pode produzir relativismo, niilismo e desordem moral. Mas o cristão não olha para tudo isso como alguém que perdeu a esperança. Nossa confiança não está na capacidade da cultura de se regenerar por si mesma, nem na capacidade da igreja de controlar a história. Nossa esperança está no Deus que reina sobre a história e no evangelho que continua sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).

É justamente por isso que Romanos 12.2 precisa ocupar lugar central em nossa reflexão: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. A igreja não pode simplesmente copiar a cultura, mas também não deve fugir dela. Somos chamados a discerni-la. Não podemos abandonar a verdade para sermos aceitos, mas também não podemos abandonar as pessoas porque discordamos de suas pressuposições. Schaeffer foi importante precisamente porque insistiu na necessidade de compreender o pensamento do mundo para comunicar o evangelho a pessoas reais. A editora brasileira destaca essa dimensão apologética de sua obra: ele procurava dialogar com questões de arte, história, ciência e cultura, levando o pensamento contemporâneo cativo a Cristo.

Como viveremos?

Chegamos, então, à pergunta que dá nome à série: como viveremos?

A primeira resposta precisa ser: viveremos reconhecendo que Deus é Deus e que sua Palavra é a verdade. Não podemos construir nossa existência a partir das tendências do momento. A cultura muda. As ideologias mudam. As gerações mudam. Os valores sociais mudam. As tecnologias mudam. Mas “a palavra do nosso Deus permanece eternamente” (Is 40.8).

Viveremos também reconhecendo que a batalha cultural é, antes de tudo, uma batalha por cosmovisões. Precisamos ensinar nossos filhos não apenas o que pensar, mas como pensar biblicamente. Precisamos formar cristãos capazes de compreender as perguntas de sua geração e respondê-las sem abandonar os pressupostos do evangelho. Precisamos de uma fé que não seja meramente emocional, mas intelectualmente coerente; não simplesmente defensiva, mas apologética; não isolada da cultura, mas capaz de discerni-la; não conformada ao mundo, mas transformada pela renovação da mente.

E precisamos começar por nós mesmos. Antes de perguntarmos onde o mundo está errado, devemos perguntar onde nós estamos sendo conformados. Em quais áreas temos permitido que a cultura determine nossa compreensão de felicidade, sucesso, identidade, família, sexualidade, dinheiro, poder, beleza e realização? Quais ideias absorvemos sem perceber? Quais pressupostos da nossa época entraram silenciosamente em nossa maneira de pensar? Onde temos acrescentado à Palavra de Deus aquilo que Deus não disse? Onde temos diminuído aquilo que Deus afirmou? Onde estamos ouvindo a voz da serpente enquanto imaginamos estar simplesmente seguindo a nossa própria consciência?

A primeira grande mentira não foi simplesmente “Deus está errado”. Foi algo mais sutil: “Você pode interpretar a realidade sem precisar submeter-se à Palavra de Deus.” É essa mentira que atravessou os séculos. E é essa mentira que o evangelho confronta.

A resposta cristã não é simplesmente trocar uma ideologia por outra. É voltar à realidade criada por Deus, reconhecer sua autoridade, receber sua Palavra e encontrar em Cristo a verdadeira vida. O homem tentou encontrar liberdade tornando-se independente de Deus, mas descobriu a escravidão. Cristo chama o homem à rendição e oferece verdadeira liberdade: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).

A primeira grande mentira começou com uma pergunta sobre a Palavra de Deus. A restauração começa com uma resposta à Palavra de Deus. A serpente disse: “É assim que Deus disse?” O discípulo de Cristo precisa responder: “Sim, Deus falou, e porque Deus falou, nós ouvimos, cremos e obedecemos.”

Uma pergunta permanece

Mas se a batalha começou no campo das ideias, precisamos dar um passo além. Como exatamente chegamos à sociedade em que vivemos? Como uma cultura que durante séculos foi profundamente influenciada pelo cristianismo passou a questionar os próprios fundamentos sobre os quais havia sido construída? Que mudanças aconteceram no pensamento ocidental para que a autoridade de Deus fosse progressivamente substituída pela autoridade do homem?

Essa será a questão da próxima mensagem.

Se nesta primeira palavra voltamos ao Éden para descobrir onde tudo começou, na próxima precisamos avançar pela história das ideias para compreender como aquela antiga rebelião foi assumindo novas formas ao longo dos séculos. Precisaremos olhar para o desenvolvimento da cultura ocidental e perceber como mudanças filosóficas e intelectuais acabaram produzindo mudanças morais, sociais e espirituais.

A pergunta continuará sendo a mesma:

Como viveremos?

Mas, para respondê-la, precisaremos compreender primeiro como chegamos até aqui.

Referências

SCHAEFFER, Francis A. Como viveremos? São Paulo: Cultura Cristã, 2025. A edição brasileira corresponde à obra originalmente publicada em inglês como How Should We Then Live?, cuja primeira edição apareceu em 1976.

BÍBLIA SAGRADA. Gênesis 2–3; Salmo 119; Isaías 40.8; João 3.16; João 8.32; Romanos 1.18-25; Romanos 3.10,23; Romanos 12.1-2; Filipenses 2.5-11; Apocalipse 22.18-19.

EDGAR, William. Francis Schaeffer e a vida cristã: a espiritualidade contracultural. São Paulo: Cultura Cristã, 2018. A obra examina especialmente a espiritualidade de Schaeffer e sua compreensão da vida cristã em confronto com a cultura.

Soli Deo gloria

Cosmovisão, política e cidadania

Como o cristianismo molda nossa compreensão da vida pública

Vivemos tempos confusos. Palavras perderam significado, rótulos substituíram argumentos e convicções profundas são tratadas como extremismo. Nesse cenário, conceitos fundamentais como cidadania, cosmovisão e política precisam ser resgatados com seriedade histórica, clareza filosófica e, sobretudo, discernimento bíblico.

O ser humano é inevitavelmente religioso. Essa é uma das grandes verdades esquecidas da modernidade. A tentativa de expulsar Deus do espaço público não gerou neutralidade, mas novas formas de religião. Quando o sagrado é negado, ele retorna disfarçado — agora na política, na ideologia, na nação ou no líder carismático.

É nesse ponto que a discussão sobre cosmovisão, cidadania e política deixa de ser acadêmica e se torna pastoral. O que está em jogo não é apenas como votamos, mas a quem pertencemos. James Sire nos ajuda a entender as estruturas do pensamento; Abraham Kuyper nos lembra que todo o solo da vida é religioso; e Yago Martins nos alerta para um fenômeno contemporâneo específico: a transformação da política em religião dentro do evangelicalismo brasileiro.

Uma das marcas mais evidentes da crise contemporânea não é apenas a polarização política, mas a sacralização da política. Em muitos contextos, especialmente no Ocidente pós-cristão, a política deixou de ser um instrumento de organização da vida comum e passou a ocupar o lugar de fonte última de sentido, identidade e esperança.

Isso explica por que debates políticos assumem tons religiosos: hereges, fiéis, dogmas, conversões, apóstatas e até “ungidos”. A linguagem muda, mas a estrutura é a mesma. Como já alertava Agostinho, quando o coração humano não repousa em Deus, ele se apega a qualquer coisa que prometa ordem, segurança e redenção (Cidade de Deus, XIX).

É justamente aqui que a teologia precisa entrar em cena. Não para defender partidos, mas para discernir fundamentos.

Antes de perguntar “em quem votar?”, o cristão precisa perguntar:
“Que cosmovisão está moldando minha compreensão de cidadania, poder e esperança?”

Essa pergunta nos conduz, de forma natural, ao primeiro conceito-chave deste artigo: cidadania.

Cidadania: pertencimento, dever e limite

Por que a bíblia nunca absolutiza o Estado

A palavra “cidadão” vem do latim civis, indicando pertencimento a uma comunidade política organizada. Ser cidadão não é apenas residir em um território, mas participar de uma ordem jurídica, usufruir direitos e assumir deveres.

No entanto, a Bíblia introduz uma tensão fundamental nesse conceito. O cristão é chamado a respeitar autoridades (Rm 13), orar por governantes (1Tm 2.1–2) e buscar o bem da cidade (Jr 29.7). Ao mesmo tempo, é advertido a jamais oferecer lealdade absoluta a qualquer poder terreno.

Paulo resolve essa tensão em Filipenses 3.20:

“Nossa cidadania está nos céus.”

Isso não nega a cidadania terrena; relativiza-a. O cristão pertence ao Estado, mas não em última instância. Sua identidade final não vem da pátria, do partido ou do líder, mas do Reino de Deus.

Historicamente, sempre que essa distinção foi perdida, surgiram formas de idolatria política:

  • no Império Romano, com o culto ao imperador;
  • no absolutismo moderno, com o Estado soberano;
  • nos totalitarismos do século XX;
  • e, hoje, em populismos ideológicos.

Quando o Estado exige devoção, ele deixa de ser Estado e se torna ídolo.

Mas como as pessoas chegam a esse ponto sem perceber? A resposta está mais fundo, no nível da cosmovisão.

Cosmovisão: o alicerce invisível da vida visível

Por que não existe neutralidade política nem espiritual

James Sire define cosmovisão como um “comprometimento fundamental do coração”. Essa definição é crucial, porque nos impede de reduzir cosmovisão a um simples conjunto de ideias conscientes.

Cosmovisão é:

  • o que assumimos antes de argumentar;
  • o que sentimos como “óbvio”;
  • o filtro através do qual interpretamos fatos, textos bíblicos e acontecimentos históricos.

Por isso, duas pessoas lendo a mesma Bíblia podem chegar a conclusões políticas radicalmente diferentes. Não é apenas exegese; é pressuposição.

Sire mostra que toda cosmovisão responde, queira ou não, a perguntas fundamentais:

  • O que é a realidade?
  • Quem é o ser humano?
  • O que é o bem?
  • Para onde a história caminha?

Essas respostas moldam:

  • nossa ética;
  • nossa visão de poder;
  • nossa compreensão de justiça;
  • nossa expectativa de redenção.

A política é sempre a aplicação prática de uma cosmovisão.

Quando isso não é reconhecido, o indivíduo imagina estar apenas “sendo pragmático”, quando, na verdade, está vivendo uma teologia implícita — muitas vezes incoerente com o Evangelho.

Esse ponto nos leva ao próximo passo: o que acontece quando o teísmo cristão deixa de ser o fundamento da cultura?

O declínio do teísmo e o surgimento das religiões políticas

Quando Deus sai de cena, alguém assume o papel

Sire demonstra que o pensamento ocidental passou por um deslocamento progressivo:

  • do teísmo,
  • para o deísmo,
  • depois para o naturalismo,
  • culminando no niilismo e no pós-modernismo.

O resultado desse processo não foi neutralidade, mas vácuo de sentido. O ser humano não suporta viver sem uma narrativa que explique:

  • de onde veio,
  • por que sofre,
  • e para onde tudo caminha.

Quando Deus deixa de oferecer essa narrativa, outras instâncias assumem o papel:

  • a nação,
  • a raça,
  • a classe,
  • o Estado,
  • ou o líder carismático.

O século XX foi a prova histórica dessa substituição. Nazismo e comunismo não foram apenas sistemas políticos; foram cosmovisões completas, com:

  • doutrina,
  • ética,
  • escatologia,
  • sacrifício,
  • e promessa de redenção histórica.

Aqui Abraham Kuyper entra em cena…

Kuyper: soberania de Deus e soberania das esferas

O antídoto reformado contra o messianismo político

Kuyper parte de um princípio simples e devastador:

Não existe área da vida neutra ou autônoma diante de Deus.

Sua famosa frase — “não há um centímetro quadrado da existência sobre o qual Cristo não diga: é meu” — não é slogan triunfalista, mas limite teológico. Se Cristo é Senhor de tudo, então:

  • o Estado não é senhor absoluto;
  • a igreja não governa a política;
  • e nenhuma esfera pode absorver as demais.

A doutrina da soberania das esferas protege a sociedade de dois extremos:

  • o Estado totalitário;
  • e a igreja politizada.

Quando essa doutrina é esquecida, o poder se concentra, e o pecado humano encontra terreno fértil. Kuyper insistia: quem leva a queda a sério não entrega poder ilimitado a ninguém.

É exatamente esse alerta que Yago Martins traz para o contexto brasileiro contemporâneo.

Yago Martins e a religião do bolsonarismo

Quando o evangelicalismo troca discernimento por devoção política

Em A Religião do Bolsonarismo, Yago Martins não faz um ataque partidário. Ele faz uma análise teológica de um fenômeno específico: a transformação de um projeto político em estrutura religiosa funcional dentro de setores do evangelicalismo.

Segundo Yago, o bolsonarismo assumiu características clássicas de religião:

  • narrativa de salvação nacional;
  • líder visto como escolhido providencial;
  • demonização moral dos opositores;
  • linguagem espiritual aplicada à política;
  • relativização ética em nome da “causa maior”.

Isso não é conservadorismo bíblico. É idolatria política.

O problema central não é votar em Bolsonaro, Lula ou qualquer outro. O problema é transferir para a política expectativas que pertencem exclusivamente a Cristo.

Quando isso acontece:

  • o Evangelho é instrumentalizado;
  • a igreja perde sua voz profética;
  • e a fé se torna refém do poder.

Exemplos concretos da idolatria política na prática

Para não ficar abstrato, vejamos manifestações claras desse fenômeno:

  1. Púlpitos transformados em trincheiras ideológicas
    O sermão deixa de expor o texto bíblico e passa a defender agendas políticas.
  2. Leitura bíblica seletiva
    Textos sobre autoridade são exaltados; textos proféticos de denúncia são silenciados.
  3. Silêncio moral estratégico
    Pecados são relativizados quando cometidos “do lado certo”.
  4. Divisão maniqueísta da realidade
    Quem discorda não é apenas errado; é inimigo de Deus.

Isso não nasce da Bíblia. Nasce de uma cosmovisão deformada.

Conclusão

Entre a cruz e o poder, com quem ficamos?

À luz de Sire, Kuyper e Yago Martins, fica claro que:

  • política é importante;
  • cidadania é necessária;
  • participação pública é legítima.

Mas nenhuma dessas coisas pode ocupar o lugar do senhorio de Cristo.

A igreja não foi chamada para salvar a nação por meio do poder, mas para anunciar o Reino por meio da cruz. Sempre que ela troca o Cordeiro pelo leão político, perde ambos.

Como pastor, concluo com serenidade e firmeza:

O cristão pode votar, militar, argumentar e participar.
Mas jamais pode adorar, sacralizar ou absolver o poder.

Porque, no fim das contas, toda cosmovisão será julgada pelo Cristo ressuscitado, o único Rei que governa sem corrupção e salva sem coerção.

Um apelo pastoral em ano de eleição: silêncio também é tomada de posição

Chegando ao fim desta reflexão, permitam-me agora falar não apenas como teólogo, mas como pastor que carrega o mesmo peso que muitos colegas carregam ao subir no púlpito domingo após domingo.

Estamos em ano eleitoral. E a experiência histórica mostra que, nesses períodos, duas tentações rondam a igreja:

  1. a politização do púlpito, quando a fé é usada para promover projetos de poder;
  2. o silêncio covarde, quando, por medo ou comodismo, temas fundamentais são evitados.

Ambos os caminhos são perigosos.

A Escritura nunca autorizou o pastor a transformar o púlpito em palanque, mas também nunca permitiu que ele se omitisse diante de questões que moldam a consciência, a ética e a cosmovisão do povo de Deus. Quando deixamos de ensinar biblicamente sobre poder, autoridade, Estado, justiça, idolatria e cidadania, alguém ocupará esse espaço — geralmente a ideologia mais barulhenta do momento.

Pastores, precisamos dizer isso com clareza:
o silêncio teológico gera confusão espiritual.

Não estou defendendo campanhas eleitorais na igreja. Estou defendendo algo muito mais sério:
que falemos sobre cosmovisão,
sobre limites do poder,
sobre idolatria política,
sobre o senhorio de Cristo sobre todas as áreas da vida,
à luz das Escrituras.

Não faltam ferramentas para isso. Deus tem sido generoso com a igreja brasileira. Temos excelentes autores cristãos tratando do tema com profundidade, equilíbrio e fidelidade bíblica — de Agostinho a Kuyper, de James Sire a pensadores contemporâneos como Yago Martins, entre tantos outros que ajudam a igreja a pensar sem idolatrar e agir sem se vender.

Ensinar esses assuntos não divide a igreja; o que divide a igreja é a ausência de ensino, que deixa o rebanho refém de discursos prontos, rótulos fáceis e soluções messiânicas.

Se não ensinarmos o povo a discernir:

  • ele confundirá fé com ideologia;
  • confundirá líder político com ungido;
  • confundirá Reino de Deus com projeto de poder.

Como pastores, fomos chamados a formar consciências bíblicas, não torcidas organizadas. A igreja precisa aprender a votar como cidadã responsável, mas adorar somente como povo do Reino.

Concluo, portanto, com um apelo fraterno e urgente:
neste ano de eleição, falemos mais, e melhor, sobre essas coisas à luz da Bíblia.
Com coragem, com amor, com profundidade e com fidelidade ao Cristo que reina — não do Planalto, não do Congresso, mas do trono eterno.

Porque quando o púlpito se cala, a idolatria encontra microfone.
E quando a igreja ensina bem, o Evangelho permanece livre.

Referências

  • SIRE, James W. O Universo ao Lado. Vida Nova.
  • KUYPER, Abraham. Calvinismo. Cultura Cristã.
  • MARTINS, Yago. A Religião do Bolsonarismo.
  • AGOSTINHO. A Cidade de Deus.
  • Bíblia Sagrada.

 

Soli Deo gloria

Pastores-Mestre: O Dom de Cristo à sua igreja

E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres

Efésios 4:11

As sociedades não se tornam seculares simplesmente quando abandonam totalmente a religião, mas quando já não se sentem incomodadas por ela. Esse é o sinal mais perigoso: quando a fé já não mexe, já não confronta, já não incomoda. E, ironicamente, esse mesmo risco ronda também a própria igreja de Cristo, justamente no lugar em que menos esperaríamos — na compreensão do seu clero. Não porque estejamos descartando o ministério pastoral, mas porque já não enxergamos sua natureza teológica como algo estimulante ou central. A figura do pastor como teólogo — aquele que abre as Escrituras para ajudar o povo a conhecer a Deus, a si mesmo e ao mundo — já não faz mais os corações arderem, como os discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.32).

Em nossos dias, muitos pastores, como Esaú, têm trocado sua herança vocacional por um prato de lentilhas (Gn 25.29-34; Hb 12.16). Em vez de mergulharem na Palavra, tornam-se especialistas em gestão, estrategistas de marketing, coachs de liderança e terapeutas improvisados. E o pior: muitas congregações passaram a exigir exatamente isso deles — preferindo títulos de MBA a homens de oração. Não é de se estranhar que tantos recém-formados saiam do seminário reclamando que não foram preparados para o “verdadeiro trabalho” do ministério. Enquanto isso, os próprios seminários, pressionados pelas demandas do mercado eclesiástico, reformulam seus currículos e acabam contribuindo ainda mais para a perda da teologia na vida da igreja.

A história, é claro, é longa e complexa. Já foi contada em muitos livros. Mas a ideia central é clara: a teologia foi banida de Jerusalém e posta em exílio. O resultado é que o conhecimento de Deus se torna cada vez mais raso entre nós. E a comunidade da aliança, chamada a ser jardim frutífero, passa a parecer um deserto — uma terra seca, cheia de oportunidades desperdiçadas, que já não cultiva discípulos como outrora.

Por isso, mais do que nunca, precisamos resgatar a identidade do pastor como teólogo. Não como um acadêmico de gabinete, mas como um servo que conduz o rebanho às verdes pastagens da Palavra. O povo de Deus não precisa de mais “gestores” — precisa de homens que façam os corações arderem novamente com as Escrituras abertas diante deles.

Escrevo a vocês, meus colegas de ministério — e aqui não me refiro apenas aos pastores titulares! — porque percebo o quanto precisamos resgatar a essência teológica da nossa vocação. Não importa se o ministério que você exerce é definido como “pastor de jovens”, “educador cristão”, “pastor de vida congregacional”, “líder de louvor” ou qualquer outra função. A verdade é que todos nós fomos chamados para algo maior do que um cargo: fomos chamados para falar de Deus e, ao mesmo tempo, lidar com as pessoas. E vamos ser honestos: nenhuma dessas duas tarefas é simples… mas ambas são inevitáveis. Cabe a nós, em qualquer área de atuação, comunicar Cristo e ministrar a Palavra em todo tempo, de várias formas e a todas as pessoas. Esse é o coração do nosso chamado: ministrar a Palavra de Deus ao povo de Deus.

Escrevo também a vocês, igrejas, porque sei que precisam ser lembradas da seriedade dessa vocação. É urgente repensar a natureza, a função e até mesmo as credenciais que vocês exigem de seus pastores. Mais do que diplomas bonitos na parede, seus pastores precisam de condições para servir e crescer como teólogos públicos — homens que falam de Deus para o mundo e do mundo diante de Deus. Além disso, lembro a vocês que a igreja não é apenas uma comunidade social, mas uma comunidade teológica, criada pela Palavra e sustentada pelo Espírito. Vocês não escrevem a própria história com Deus como coadjuvante; é o contrário: estão inseridos na grande história de Deus. E é exatamente aí que entra a nossa vocação pastoral. Um pastor-teólogo existe para ajudá-los a enxergar isso, a viver isso e a ensinar outros a crer nisso.

Problema: uma visão perdida

Eu tenho aprendido que, sem visão teológica, nós, pastores, perecemos. A visão é aquilo que nos permite enxergar onde estamos e para onde devemos ir. Muitas vezes, o que vemos assusta e intimida. Pedro andou sobre as águas com os olhos fixos em Jesus, mas quando olhou para o vento e as ondas, começou a afundar (Mt 14.28-31). O que o fez tropeçar não foi a tempestade em si, mas o deslocamento do olhar. E confesso: muitas vezes acontece o mesmo conosco. Quando nossa visão é dominada pela realidade aparente, sufocamos a fé; mas, quando a fé em Cristo guia nosso olhar, somos capazes de ver o mundo como ele realmente é — criado, redimido e amado por Deus. Essa sempre foi a mensagem dos profetas: anunciar o que viam, testemunhando que Deus está renovando todas as coisas por meio de Seu Servo e de Seu povo da aliança. Se essa é a visão que nos foi dada, eu pergunto: por que tantos pastores estão se afogando em pleno mar?

A tempestade não é o problema. O que nos faz afundar, muitas vezes, não são as ondas do mar, mas as ondas do sentimento popular; não é o vento do mar, mas os ventos da opinião pública. Eles sopram contra nós e nos tentam a abandonar nossa tarefa teológica, impedindo-nos de levar o povo de Deus à maturidade em Cristo (cf. Ef 4.14). Nadar contra a corrente cultural nunca é fácil, e sei que o pastor fiel sempre será alguém da contracultura. Afinal, como não ser contracultural quando proclamamos Cristo crucificado e chamamos os discípulos a imitarem o Senhor, morrendo para si mesmos? O chamado ao autoesvaziamento nunca será atraente para um mundo que ama carteiras cheias e guarda-roupas abarrotados.

Mas reconheço que nosso chamado se torna ainda mais desafiador porque lidamos com três públicos diferentes, três realidades sociais diante das quais precisamos falar de Deus: (1) a academia, (2) a igreja e (3) a sociedade em geral. Se Deus é o Criador de tudo, visível e invisível, e se o evangelho é para todo o mundo, então não existe sequer um centímetro quadrado do universo nem um único aspecto da vida humana que não estejam debaixo do senhorio de Cristo. O problema é que a maioria de nós vive em mais de um desses mundos ao mesmo tempo, e isso exige de nós uma sabedoria pastoral que só o Espírito pode dar.

Já aconteceu comigo no púlpito: no mesmo culto tenho diante de mim um adolescente cheio de dúvidas, um universitário mergulhado em filosofia, um marceneiro desempregado, uma mãe exausta pelo trabalho, um prefeito da cidade e até um professor de física. Como falar de Deus a todos eles de forma clara e fiel? Esse é o desafio do pastor-teólogo. O contexto principal é, sem dúvida, a igreja. Mas será que isso me exime de falar também à sociedade mais ampla ou até de dialogar com a academia? De jeito nenhum! O evangelho precisa ecoar em todos os cantos.

É por isso que entendo que nós, pastores-teólogos, precisamos ser “trilíngues”. Não no sentido de dominar idiomas, mas de aprender a falar a língua de cada contexto: da igreja, da universidade e da sociedade em geral. Nem sempre vamos falar com perfeição, mas precisamos, ao menos, nos esforçar para compreender e nos fazer compreender. Esse é o nosso chamado: traduzir fielmente a Palavra eterna em meio aos muitos mundos em que nosso povo vive.

E é justamente aqui que quero começar: analisando como a visão pastoral e teológica foi sendo perdida nesses três públicos.

Academia

E aqui está o ponto: se a teologia é, muitas vezes, escrita por acadêmicos para acadêmicos, eu — como pastor — não posso simplesmente me render a essa distância. É verdade que certas discussões acadêmicas parecem áridas ou irrelevantes para a vida de fé, mas a responsabilidade de mostrar a conexão entre doutrina e vida pertence a nós, pastores-teólogos. Quando alguém me pergunta, por exemplo, o que a doutrina da Trindade tem a ver com o desemprego de um pai de família, eu não posso me esquivar. Preciso mostrar que a vida cristã não é sustentada por psicologia de autoajuda, mas pelo fato de que o Deus triúno, eterno em amor e comunhão, nos chama para viver nele e dele participar. A Trindade não é apenas uma fórmula bonita para recitar — é a base da nossa salvação, da nossa comunhão e da nossa esperança.

Esse é um dos maiores dramas da transferência da teologia para a academia: quando deixamos de perceber que toda doutrina é pastoral. O ensino sobre a soberania de Deus, por exemplo, não é uma tese para congressos, mas a rocha firme para aquele irmão que acaba de enterrar sua esposa. A doutrina da encarnação não é apenas um debate cristológico — é a boa notícia para a irmã que se sente abandonada: em Cristo, Deus assumiu nossa carne e conhece, por experiência, nossas dores. Cada artigo de fé é alimento para a vida da igreja.

É por isso que digo: quando me coloco diante da congregação, não posso falar apenas como “gestor de pessoas” ou “especialista em liderança”. Preciso ser pastor-teólogo, alguém capaz de traduzir a profundidade das Escrituras e da fé cristã para a realidade concreta do povo de Deus. Isso não significa transformar o púlpito em sala de aula acadêmica, mas deixar que a Palavra forme mentes e corações para viverem no mundo real, com esperança e santidade.

E aqui está a tensão: como falar, ao mesmo tempo, para o erudito que conhece as discussões acadêmicas e para a irmã simples que nunca leu um livro de teologia, mas que carrega no peito a dor de um filho perdido? A resposta é que só conseguiremos isso se não abrirmos mão da nossa vocação pastoral-teológica. É preciso, de fato, aprender a ser “trilíngue” — falar com clareza bíblica na igreja, com rigor teológico na academia e com testemunho vivo na sociedade.

Se a visão pastoral foi perdida na academia, parte da nossa missão é resgatá-la: não como inimigos da teologia acadêmica, mas como aqueles que lembram ao mundo universitário que a teologia não é mero exercício intelectual. Ela é confissão, é doxologia, é pastoral. O verdadeiro teólogo não é apenas quem escreve livros complexos, mas quem abre a Escritura e mostra à igreja que toda verdade sobre Deus é boa nova para o coração cansado.

E aqui está outro grande desafio: o tal “muro de Berlim” erguido dentro da própria academia, separando estudos bíblicos e teologia. Essa divisão, tão artificial quanto prejudicial, tem produzido consequências sérias para a igreja. Nós, pastores, sabemos bem que a pregação é o coração do nosso ministério. Se nos obrigassem a escolher, a maioria de nós, sem pensar duas vezes, ficaria com os estudos bíblicos. Mas aí vem o problema: grande parte do que encontramos nos comentários acadêmicos modernos é quase impossível de ser pregado.

Explico: a academia, em muitos casos, trata a Bíblia apenas como documento histórico, e isso não é pouca coisa. Claro que contexto histórico, línguas originais e paralelos culturais têm o seu valor, mas quando a ênfase se desloca exclusivamente para o “mundo por trás do texto”, a voz de Deus no texto é silenciada. É como se, no esforço de explicar como Israel viveu no Antigo Oriente Próximo, esquecêssemos que o mesmo Deus que falou a Israel fala hoje à Sua igreja. O resultado? Sermões que parecem mais aulas de arqueologia ou história antiga do que proclamação do evangelho.

E aqui eu preciso dizer: um comentário bíblico que não conduz o pregador a Cristo e ao plano de Deus revelado em Cristo falhou em sua tarefa. Porque, no fim das contas, toda a Escritura aponta para Ele (Lc 24.27) e encontra sua unidade no mistério revelado de que Deus está reconciliando todas as coisas em Cristo (Ef 1.9-10). O que me entristece é ver estudiosos tratando a Escritura como material de pesquisa em vez de Palavra viva, e, consequentemente, muitos pastores se alimentando desse tipo de material para, depois, subir ao púlpito com mensagens que não alimentam ninguém.

Não me entendam mal: eu não sou contra a pesquisa acadêmica, nem contra a seriedade histórica. Mas eu creio que qualquer abordagem que retire a centralidade de Cristo do texto bíblico já deixou de ser teológica, ainda que tenha o rótulo de “estudo bíblico”. Para mim, um verdadeiro comentário bíblico é aquele que ajuda o pastor a proclamar o Cristo das Escrituras ao povo de Deus, e não apenas a demonstrar erudição.

É por isso que insisto: o pastor não pode abrir mão de sua identidade de teólogo. Precisamos ser capazes de discernir quando a academia nos oferece ferramentas úteis e quando ela tenta nos oferecer pedras em vez de pão. A igreja não sobrevive de curiosidades históricas, mas da Palavra que revela Cristo e o faz presente em cada geração.

Igreja

A muito tempo, tenho observado uma confusão crescente sobre o que realmente significa ser pastor e o que se espera que os pastores façam. E digo com franqueza: ainda há muita incerteza. O próprio termo “pastor” é uma metáfora, e essas metáforas podem se tornar prisões invisíveis. Muitas vezes, elas não refletem quem somos de fato, mas as preocupações e tendências da sociedade em que vivemos. A imagem que as pessoas têm de nós geralmente revela mais sobre a cultura do que sobre a nossa vocação.

Hoje, temos uma variedade enorme de imagens sobre o pastor: gestor de programas, terapeuta, líder comunitário, administrador de pessoas, comunicador de mídia, conselheiro emocional, agente de esperança… A lista poderia continuar. Cada uma dessas imagens traz alguma verdade, mas nenhuma pode definir integralmente o que significa ser pastor. A questão central permanece: o que faz da nossa vocação algo único e insubstituível?

E essa confusão não se limita à sociedade; ela alcança a formação de pastores. Muitos seminários estruturam seus cursos e conteúdos baseados em modelos de mercado, técnicas de gestão ou ferramentas de aconselhamento, muitas vezes esquecendo que a essência do ministério pastoral é teológica e bíblica.

Não me entendam mal: organizar programas, cuidar de pessoas e aconselhar são tarefas importantes. Mas não podem substituir o que só o pastor pode fazer: ministrar a Palavra de Deus, ensinar, pregar, aconselhar espiritualmente e moldar o povo de Deus para refletir a nova humanidade em Cristo. Essa é a nossa identidade e nossa vocação.

O perigo que vejo é a tendência de nos tornarmos pastores “profissionais” no sentido cultural: buscando reconhecimento, status, carreira ou técnica, e esquecendo que nossa principal autoridade vem de Deus e da fidelidade à Sua Palavra. Quando isso acontece, o pastor perde sua relevância espiritual, e a igreja se empobrece. Deixamos de aplicar categorias teológicas e espirituais à vida cotidiana, e o resultado é que desaparece o sentido do pecado, da graça e, muitas vezes, a presença viva de Deus.

Portanto, pergunto a mim mesmo e a vocês, colegas de ministério: quem queremos ser? Pastores guiados por modismos e pressões culturais ou pastores-teólogos, firmes na Escritura, moldados pelo Espírito e comprometidos em fazer discípulos, pregando, ensinando e formando o povo de Deus para viver a vida nova em Cristo? Minha convicção é clara: sem essa identidade, o ministério perde sua força, e a igreja deixa de cumprir sua missão.

Sociedade

Era uma vez, e nem faz tanto tempo assim — me refiro ao século XIX — pastores que eram figuras públicas respeitadas, valorizadas e reverenciadas. Não raro, eram as pessoas de maior nível educacional em cidades pequenas ou médias, verdadeiros intelectuais de suas comunidades. Avançando um século, porém, vemos como a situação mudou radicalmente. Hoje, a imagem do pastor muitas vezes se reduz a caricaturas: o moralista reprimido, o megalomaníaco cheio de si ou aquele que parece mais preocupado com a aparência do que com a Palavra de Deus. Infelizmente, há uma boa dose de verdade nesse retrato superficial, e precisamos encará-la.

O brasileiro médio que frequenta igreja confessa sua fé em Cristo, mas vive mergulhado na mesma cultura que todo mundo: novelas, filmes, programas de TV e redes sociais moldam suas expectativas e percepções. A cultura popular tanto reflete quanto molda a forma como as pessoas enxergam os pastores. E, nesse cenário, eu me pergunto: que tipo de figura pública o pastor representa? Que imagem projetamos quando falamos de Deus?

Ser um pastor-teólogo — alguém que fala de Deus para diferentes públicos — é, antes de tudo, ser honesto com os olhos das pessoas. E aqui está a difícil situação: precisamos apresentar verdades sobre Deus de maneira que façam sentido no discurso público, sem nos render às expectativas culturais de reconhecimento ou aprovação. Falar de Deus é paradoxal: somos humanos, limitados, e ainda assim chamados a proclamar o Criador do universo. Quem somos nós, criaturas falíveis, para ousar falar sobre Aquele que é soberano, infinito e santo?

Mas é justamente nesse paradoxo que reside o chamado do pastor. Não estamos aqui para crescer socialmente, para angariar prestígio ou fama, nem para atrair atenção para nós mesmos. Nosso objetivo é apontar para Deus, levando as pessoas a adotarem a forma de pensar, sentir e viver que Ele deseja. É um chamado que exige humildade: muitas vezes precisamos diminuir nossa posição social, reconhecer nossa fragilidade e nossa contínua necessidade da graça de Deus, assim como Paulo fazia (1Tm 1.15).

Além disso, somos chamados a falar em público sobre temas amplos — o sentido da vida, o bem comum, a moralidade, a fé — mesmo sem ter credenciais reconhecidas pela sociedade, ao contrário de especialistas que dominam suas áreas. A situação é ainda mais desafiadora quando consideramos que, na opinião geral, figuras públicas são frequentemente vistas com desconfiança. As pessoas tendem a questionar as motivações de quem representa uma instituição ou organização.

É certo que confiamos em neurocirurgiões para operar cérebros ou em pilotos para voar aviões, porque suas habilidades são reconhecidas e mensuráveis. O pastor, porém, enfrenta outro tipo de desafio: explicar sua contribuição para o bem público exige afirmar um conhecimento especializado que nem sempre é tangível aos olhos da sociedade — um conhecimento que une teologia, ética e a aplicação da Palavra de Deus à vida cotidiana. Precisamos vestir o manto da autoridade intelectual sem nos tornarmos arrogantes, sempre apontando para Cristo e não para nós mesmos.

O paradoxo é grande, mas necessário: o pastor deve ser autoridade sem buscar prestígio, guia sem buscar adulação, e mestre sem se reduzir a mero consultor de bem-estar social. A tarefa é difícil, mas é o que nos distingue. Falar de Deus ao mundo de forma pública e relevante é o que nos mantém fiéis ao chamado, e é isso que garante que nossas comunidades realmente conheçam e experimentem a presença viva de Cristo.

Então, vamos resumir o que venho afirmando até aqui. Primeiro, os pastores são e sempre foram teólogos. Em segundo lugar, cada teólogo é, de certa forma, um teólogo público, um intelectual com uma missão específica, um generalista da fé que fala para pessoas reais, em contextos reais. E quero enfatizar algo que considero central: não é preciso ter uma cadeira acadêmica ou QI elevado para ser um intelectual. Mas é preciso ter QT — quociente de teologia — elevado, uma capacidade de pensar, compreender e aplicar a Palavra de Deus de forma clara, fiel e relevante. Em terceiro lugar, o propósito de o pastor-teólogo atuar como intelectual público é servir ao povo de Deus, edificando-o na fé que nos foi entregue “uma vez por todas” (Jd 3).

Quando falo que pastores são teólogos, não me refiro apenas a títulos acadêmicos ou publicações em revistas especializadas. Falo de algo muito mais profundo: dizer com clareza e fidelidade o que Deus está fazendo em Cristo. Historicamente, esse aspecto de nossa vocação tem sido esquecido, relegado a um grupo restrito de “profissionais da teologia”. Mas essa separação é prejudicial. Ela sugere — ainda que indiretamente — que pastores e leigos não seriam capazes de elaborar teologia, ou que não teriam autoridade para falar de Deus porque não possuem credenciais formais. Essa é uma mentira que precisa ser confrontada.

A teologia é demasiado importante para ser monopolizada. Cada pastor, cada discípulo, cada cristão é responsável diante de Deus por compreender e agir conforme o conhecimento de Deus que lhe é dado — seja por meio da criação, seja pelo coração humano, seja pela própria Escritura (Rm 1.19-21). O que isso significa na prática? Significa que todos nós somos chamados a ler, meditar, refletir e aplicar a Palavra, sempre com amor, obediência e confiança. Não existe cristão “comum” incapaz de pensar teologicamente; existe, sim, uma responsabilidade real de crescer nesse entendimento e de não deixar que outros falem por nós em questões de fé.

E é exatamente aqui que entra a urgência do pastor-teólogo: precisamos resgatar nossa vocação de falar sobre Deus de maneira pública, relevante e fiel. Precisamos ensinar e guiar nossa igreja para que compreenda Cristo, sua obra e a realidade do mundo segundo os olhos de Deus. Ser pastor não é apenas gerir pessoas ou programas; é ser um mestre do povo de Deus, capaz de traduzir a grandeza de Deus para a vida cotidiana das pessoas.

A pergunta que nos move é simples, mas profunda: se não nós, quem falará? Se não com fidelidade e clareza, quem conduzirá nosso povo ao entendimento da Palavra? Pastores que não exercitam sua função de teólogos públicos correm o risco de ver a igreja perder não apenas a direção, mas o próprio sentido da fé em Cristo. E isso, meus irmãos, é inaceitável.

Quando lemos Efésios 4:11, vemos que Cristo “deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres”. Muitos olham para essa passagem e entendem que “pastor” e “mestre” são dons distintos, como se alguém pudesse ser apenas pastor ou apenas mestre. Mas, na prática, não é assim. A Palavra nos mostra que o dom de pastor e o dom de mestre são, na realidade, duas faces da mesma moeda: o mesmo dom se manifestando de maneiras complementares.

O pastor que não é mestre corre o risco de cuidar de pessoas sem levá-las a entender profundamente a Palavra de Deus. Ele se torna apenas um gestor de emoções ou um conselheiro de situações imediatas. Por outro lado, o mestre que não é pastor corre o risco de ser um acadêmico isolado, incapaz de aplicar sua teologia à vida concreta das pessoas. O dom completo se manifesta quando o pastor é também mestre: alguém que cuida do rebanho e, ao mesmo tempo, ensina e edifica o povo na verdade de Deus.

Ser pastor e mestre significa, portanto, guiar vidas com coração e cabeça: com compaixão e com conhecimento. É proclamar Cristo de maneira que as pessoas compreendam o que Ele fez, o que Ele está fazendo e como Ele quer que vivamos em resposta à sua graça. É transformar a igreja não apenas em um lugar de encontros emocionais, mas em uma comunidade de discípulos formados, capazes de entender, aplicar e defender a fé.

Efésios 4:12 reforça essa aplicação: o propósito desse dom é “aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo”. Ou seja, o pastor-teólogo não está a serviço do próprio ego, nem para ocupar um espaço social ou cultural; está a serviço da igreja, preparando o povo de Deus para crescer em maturidade, em santidade e em conhecimento da Palavra.

Portanto, todo pastor que se vê apenas como cuidador de almas precisa se lembrar: o Senhor o chamou para ser também mestre. E todo mestre que se contenta apenas com o estudo e o ensino da Bíblia precisa se lembrar: Cristo o chamou para pastorear, para se relacionar com pessoas, para guiá-las na vida prática da fé. O verdadeiro pastor-teólogo é aquele que une ambos os aspectos: cuidado e ensino, coração e mente, zelo pastoral e profundidade teológica.

De olho no texto

O versículo de Efésios 4:11 diz:

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (NVI).

No grego original, a expressão é “καὶ ἑτέρους ποιμένας καὶ διδασκάλους” (kai heterous poimenas kai didaskalous). Aqui está a chave: a conjunção καὶ (kai) geralmente significa “e”, mas o grego permite que ela seja usada de forma distributiva ou inclusiva. Ou seja, não necessariamente indica dois grupos distintos; pode muito bem indicar uma função única com duas dimensões.

Em termos práticos, isso significa que o “pastor” e o “mestre” não são dois dons separados, mas duas facetas de um mesmo dom que se manifesta na liderança espiritual do povo de Deus. O pastor cuida do rebanho, protege, guia e sustenta. O mestre, por sua vez, instrui, explica a Palavra, edifica, corrige e ensina o povo a viver segundo a vontade de Deus. Mas na prática do ministério, essas funções se entrelaçam: um verdadeiro pastor não pode cuidar sem ensinar; um verdadeiro mestre não pode ensinar sem cuidar.

O texto grego reforça isso pelo uso da palavra ἑτέρους (heterous), que significa “outros”, ou “uns outros”, e pelo kai entre “poimenas” e “didaskalous”. Paulo não está dizendo que há alguns pastores e outros mestres isolados; ele está descrevendo uma função pastoral completa: cuidar e ensinar ao mesmo tempo.

Essa leitura é reforçada pelo contexto imediato: Efésios 4:12 explica o propósito desses dons:

“para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo”.

O dom de pastor-mestre existe para preparar o povo de Deus, e para isso é necessário que quem o exerce tenha tanto a capacidade de cuidar com amor quanto a de ensinar com clareza e fidelidade. Não há espaço para separar as duas dimensões, porque a maturidade do corpo de Cristo depende de ambas.

Em resumo: o grego nos mostra que o chamado pastoral é unitário e multifacetado. Pastores e mestres não são grupos distintos; são dois aspectos do mesmo dom que Deus dá à igreja para que sua Palavra seja fielmente proclamada e praticada. Quem entende isso reconhece que exercer o ministério é cuidar do povo enquanto o ensina na verdade, e é exatamente essa visão que precisa ser recuperada em nossas igrejas brasileiras hoje.

A necessidade teológica

Diante de tudo que já analisamos, torna-se evidente que o pastor não pode prescindir de uma base teológica sólida. Não estou falando apenas de decorar versículos ou repetir frases bonitas — falo de entender profundamente o que a Bíblia ensina sobre Deus, sobre o ser humano e sobre a salvação, e de conseguir comunicar isso de forma clara e fiel à congregação. Alguns aspectos são absolutamente centrais: escatologia, soteriologia, e a própria definição teológica do pastor quanto a tradições como arminianismo ou calvinismo, pactualismo ou dispensacionalismo.

Por que isso é tão importante? Porque essas áreas da teologia moldam a maneira como o pastor interpreta a Palavra e aplica a fé na vida das pessoas. A escatologia, por exemplo, nos ajuda a orientar o povo em esperança, em perseverança e em discernimento do que virá; a soteriologia nos permite explicar a obra de Cristo na cruz e a relação do pecador com Deus de maneira sólida e não superficial. Se o pastor não tem clareza sobre esses pontos, sua pregação corre o risco de ser vaga, incoerente ou facilmente distorcida por interpretações populares ou modismos culturais.

Além disso, a definição teológica do próprio pastor é fundamental. Saber se você se alinha mais a uma perspectiva arminiana ou calvinista, pactualista ou dispensacionalista, não é um detalhe acadêmico: isso define como você entende a graça, a eleição, o pacto de Deus com seu povo, e como você orienta a vida e a fé de sua igreja. Um pastor que não tem essa clareza está navegando no escuro, e é terrível para a igreja quando ela não tem um norte teológico. Sem esse ponto de referência, a congregação se torna vulnerável a confusões doutrinárias, a interpretações superficiais da Bíblia e a práticas religiosas que podem até ser emocionantes, mas não edificam na fé nem levam à maturidade cristã.

Quando pastores negligenciam a teologia e não conseguem ensinar com segurança sobre Deus, sobre a salvação ou sobre os desígnios do Senhor, a igreja perde identidade. Ela deixa de ser comunidade de discípulos para se tornar apenas um grupo que compartilha sentimentos e experiências, sem entendimento profundo da Palavra. E, como sabemos, uma igreja sem direção teológica sólida facilmente se afasta da verdade, mesmo sem perceber, abrindo espaço para heresias sutis, distorções do evangelho e uma fé que não transforma de verdade.

Portanto, pastores, não podemos fugir desse desafio: devemos ser capazes de explicar e ensinar a teologia em suas dimensões fundamentais, definindo com clareza nossas convicções à luz das Escrituras. Ser pastor-teólogo não é luxo ou formalidade; é necessidade urgente para o bem da igreja, para a fidelidade ao evangelho e para o crescimento espiritual do povo de Deus.

Do púlpito para a sociedade

Além de dominar os fundamentos teológicos da fé — soteriologia, escatologia, cristologia e definição doutrinária —, o pastor tem a responsabilidade de dar respostas bíblicas a questões que atravessam a sociedade. Temas como feminismo, aborto, ética sexual, política, economia e cultura não são meros debates sociais; eles refletem visões de mundo que moldam comportamentos, valores e decisões. A igreja, e o povo de Deus em particular, precisa de orientação clara, baseada na Palavra de Deus, para discernir o que é certo e verdadeiro à luz do evangelho.

Quando falo em feminismo, por exemplo, não me refiro a debates ideológicos simplistas, mas à necessidade de apresentar a dignidade do homem e da mulher como criados à imagem de Deus, respeitando a diferença e a igualdade de valor diante de Deus. No aborto, o pastor deve declarar, com coragem e mansidão, o valor da vida humana desde a concepção, fundamentado nas Escrituras. Em política e cidadania, o pastor deve ajudar o povo a pensar sobre justiça, autoridade e responsabilidade social à luz de Romanos 13, sem cair no ativismo ou no sectarismo partidário, mas trazendo a perspectiva bíblica sobre como viver como sal e luz no mundo.

O pastor-teólogo não pode se omitir dessas discussões. Negar a necessidade de apresentar a cosmovisão bíblica é deixar a igreja sem bússola, vulnerável a ideologias passageiras e modismos culturais. Ao mesmo tempo, o pastor não fala apenas para a congregação. Efésios 4 nos lembra que o dom do pastor-mestre existe para edificar o corpo de Cristo, mas o ministério do pastor também tem dimensão pública. A sociedade em geral precisa ouvir de alguém que entende e pode explicar como a Palavra de Deus responde a grandes questões humanas e sociais, não de forma sectária, mas com clareza e autoridade.

Em outras palavras, o pastor é chamado a ser voz do evangelho em todos os contextos, apresentando a verdade de Deus tanto para os santos quanto para o mundo. Não é sobre impor uma visão, mas sobre apresentar a cosmovisão bíblica, mostrando que a fé cristã não é um sentimento particular ou privado, mas uma forma coerente e prática de compreender e viver o mundo. Uma igreja sem pastores capazes de falar sobre essas questões com segurança teológica e pastoral corre o risco de se perder em um mar de opiniões, modismos e pressões culturais.

Portanto, pastores, precisamos ser pastores-teólogos que conhecem, aplicam e comunicam a Palavra, capazes de cuidar do povo e ao mesmo tempo instruir a sociedade, sem medo, com amor, clareza e fidelidade à Escritura. Esse é o chamado urgente para a igreja brasileira hoje

Conclusão

Diante de tudo que vimos, fica claro que ser pastor-teólogo não é um detalhe ou luxo acadêmico — é uma exigência do próprio Senhor. Não podemos nos contentar com ministérios superficiais, com respostas prontas ou com posições vagas diante das grandes questões da vida e da sociedade. Somos chamados a ministrar a Palavra de Deus com fidelidade, clareza e autoridade, edificando o povo de Deus e proclamando a verdade ao mundo, mesmo quando isso contraria tendências culturais ou opiniões populares.

E, como nos lembra o apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 4:2: “Ora, além disso, o que se requer nos despenseiros é que cada um seja encontrado fiel”. O Senhor não nos cobra sucesso segundo os padrões do mundo, nem prestígio, nem popularidade. Ele espera nos encontrar fieis à Palavra, fiéis à nossa vocação, fiéis em ensinar, pregar, aconselhar e guiar seu povo na verdade. Essa fidelidade é a medida de nosso ministério, e é a fidelidade que produz fruto duradouro na vida da igreja e na sociedade.

Portanto, pastores, nosso desafio é grande, mas nossa recompensa é certa: servir a Cristo com fidelidade, como mestres e pastores, apresentando a Palavra com clareza, coragem e convicção, confiando que o Senhor encontrará cada um de nós sendo fiel ao chamado que Ele confiou. Que possamos abraçar nossa vocação como teólogos públicos, conscientes de que nossa vida e ministério têm impacto eterno, não apenas na igreja, mas em toda a sociedade.


Referências:

O Pastor Como Teólogo Público – Kevin J. Vanhoozer e Owen Strachan – Editora Vida Nova

O Pastor como Mestre e o Mestre como Pastor – John Piper , D. A. Carson – Editora Fiel

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Culto: da Adoração ao Entretenimento

“O culto não é para o homem, mas para Deus; não começa na criatividade humana, mas na revelação divina.”

Vivemos dias de profunda crise litúrgica. O culto cristão, que deveria ser a mais pura expressão de reverência, comunhão e proclamação, está sendo lentamente corroído por tendências pragmáticas, estéticas e mercadológicas. O entretenimento, com suas luzes, sons e dinâmicas cênicas, tem ocupado o espaço da adoração. E como bem observou A. W. Tozer: “O que nos atrai, é o que nos convence; e o que nos convence, é o que nos conquista.”

Esse processo não é novo, mas tem ganhado força em nossos dias com a secularização da espiritualidade. O culto, que deveria ser regido pelas Escrituras, tem se tornado um produto moldado pelos gostos do público. Como evidenciado no artigo A Influência do Entretenimento dentro da Estrutura Litúrgica dos Cultos Cristãos (Salgado & Maximo, 2024), a lógica do espetáculo substituiu a lógica da reverência. O culto virou evento, e o púlpito virou palco.

TEXTO BASE: Levítico 10.1-3

“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre este, e trouxeram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. Disse Moisés a Arão: Isto é o que o Senhor falou, dizendo: Serei santificado naqueles que se chegam a mim, e serei glorificado diante de todo o povo. Arão, pois, calou-se.”

Este episódio dramático e solene nos apresenta uma das bases mais firmes para a doutrina conhecida como o Princípio Regulador do Culto. Segundo este princípio, somente aquilo que Deus expressamente ordenou em Sua Palavra deve ser praticado no culto público. Tudo o que Ele não ordenou deve ser excluído. Nadabe e Abiú pecaram não ao fazer algo que Deus proibira explicitamente, mas ao introduzirem no culto algo que Deus não havia ordenado. O resultado foi desastroso: foram consumidos pelo fogo divino.

“A igreja que entretém não é perseguida pelo mundo — ela é aplaudida por ele.”

A Centralidade do Culto na Vida da Igreja

Para os reformadores, o culto era a principal expressão da fé cristã. Lutero afirmava que a verdadeira igreja é aquela em que o evangelho é pregado e os sacramentos corretamente administrados. Calvino ia além, argumentando que o culto deveria ser inteiramente regulado pela Escritura, pois “Deus desaprova qualquer culto inventado pelo homem”. Calvino ainda afirmou:

“Uma vez que Deus não apenas nos prescreve o que devemos fazer, mas também nos ensina como devemos fazê-lo, é necessário que sigamos essa direção com reverência e obediência.” (João Calvino, Institutas, Livro 4, Capítulo 10).

O culto público não é mero encontro fraterno, tampouco um espaço de expressão artística ou entretenimento emocional. É, antes, o comparecimento do povo de Deus diante do seu Senhor, com temor e tremor, para adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4.23-24). A teologia reformada compreende o culto como uma resposta à iniciativa divina da redenção. É Deus quem chama, é Deus quem fala, é Deus quem edifica — e a nós cabe o papel de ouvintes obedientes e adoradores submissos.

“A Palavra preside o culto; a emoção responde, mas não dirige.”

O Princípio Regulador do Culto: Guardando a Pureza da Adoração

A Reforma Protestante do século XVI não foi apenas um movimento doutrinário, mas também uma revolução litúrgica. Um dos pilares dessa revolução foi o Princípio Regulador do Culto (PRC), que afirma que somente os elementos expressamente prescritos ou claramente inferidos nas Escrituras devem ser utilizados no culto público.

Esse princípio é diferente do Princípio Normativo do Culto, adotado pela Igreja Católica Romana e por algumas tradições protestantes, que permite tudo o que não é proibido pela Bíblia. O problema dessa abordagem é que ela abre espaço para inovações humanas, tradições inventadas, e práticas que, embora não condenadas diretamente, desviam o culto de sua finalidade bíblica e o tornam antropocêntrico.

O Princípio Regulador, por outro lado, reconhece que Deus é o único soberano sobre o culto. Como afirma a Confissão de Fé de Westminster (21.1):

“O modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e, de modo tão limitado por Sua própria vontade revelada, que não se deve adorar a Deus conforme as imaginações e invenções dos homens […], sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Escrituras.”

A aplicação prática desse princípio significa que os elementos do culto devem se restringir à leitura das Escrituras, pregação fiel da Palavra, oração, cânticos bíblicos, administração dos sacramentos, confissão de pecados e bênção. Tudo mais — encenações, coreografias, luzes, fumaça, “palhaços gospel”, apresentações dramatizadas — por mais bem-intencionado que pareça, não possui respaldo escriturístico e, portanto, não deve ocupar o espaço sagrado do culto.

“O Princípio Regulador protege o culto da corrupção humana e preserva a glória de Deus.”

A Deturpação do Culto: Da Igreja Romana ao Evangelicalismo Pós-moderno

Historicamente, um dos grandes desvios contra os quais os reformadores lutaram foi a deturpação do culto cristão promovida pela Igreja Católica Romana. Esta adicionou ao culto elementos como o latim litúrgico (incompreensível ao povo), os sacramentos como meios mecânicos de graça, a adoração aos santos, as imagens, as relíquias, as velas, os sinos, os incensos, e, sobretudo, a centralização da Eucaristia como sacrifício renovado — algo frontalmente contrário à suficiência do sacrifício de Cristo (Hb 10.10-14).

Ao se afastar da Escritura como única regra de fé e prática, o catolicismo fez do culto um espetáculo ritualista, carregado de misticismo e práticas extrabíblicas. Foi por isso que os reformadores clamaram por uma reforma no culto, restabelecendo a simplicidade, inteligibilidade e centralidade da Palavra.

Infelizmente, o que hoje se vê em muitos contextos evangélicos é um retrocesso para formas similares: liturgias cheias de apelos sensoriais, com destaque ao visível e ao emocional, empobrecendo a instrução doutrinária e substituindo a exposição bíblica por “pregações-show”. O perigo atual é ainda mais sutil, pois não se apresenta como heresia dogmática, mas como um apelo à “relevância cultural” e ao “acesso às novas gerações”.

“A forma do culto revela sua teologia. Se formos frívolos na liturgia, seremos fracos na doutrina.”

As Consequências de Mudar o Culto

Ao modificar a forma do culto para torná-lo mais atrativo, corremos sérios riscos:

  1. Descentralização de Deus – O culto passa a ser centrado nas emoções humanas e não na glória divina.
  2. Degradação doutrinária – O tempo de exposição bíblica é encurtado ou eliminado em favor de atividades “mais leves”.
  3. Infantilização espiritual – Crentes são alimentados com leite emocional, não com o alimento sólido da Palavra (Hb 5.12-14).
  4. Perda da reverência – A solenidade e o senso de santidade são substituídos por barulho e descontração.
  5. Sincretismo litúrgico – Elementos mundanos são inseridos no culto sob o pretexto de “alcance cultural”.

O culto que deveria formar o crente, transforma-se em algo que apenas o agrada. A igreja que deveria confrontar o mundo, começa a imitá-lo.

“Quem molda o culto para agradar o homem, deixará de edificar o povo e de glorificar a Deus.”

Perigos contemporâneos

Infelizmente, mesmo em igrejas evangélicas, há um retorno perigoso à criatividade humana no culto: shows, performances, coreografias, teatralizações, fumaça, luzes, líderes que mais se assemelham a apresentadores de TV do que ministros do evangelho. A música, em vez de ser veículo da verdade bíblica, torna-se entretenimento emocional. Há igrejas que justificam tais práticas com a frase: “Se for para atrair as pessoas, vale a pena” — um pensamento pragmático e antibíblico.

Devemos lembrar que o culto não é para agradar os homens, mas a Deus. O apóstolo Paulo escreveu: “Pois, busco eu agora o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar aos homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1.10).

A música de fundo na pregação

Uma das práticas modernas que deve ser cuidadosamente rejeitada é o uso de música de fundo durante a exposição da Palavra de Deus. A pregação deve ser suficiente em si mesma para comunicar com clareza a verdade do evangelho. O apóstolo Paulo escreve em Romanos 10.17: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” — e não pela ambientação musical. A música emocionalmente manipuladora pode distrair, distorcer ou diminuir o poder simples e direto da Palavra proclamada.

A Escritura é poderosa porque é inspirada por Deus (2 Timóteo 3.16). Ela não precisa de “ajuda” sensorial para convencer ou converter. Essa prática de fundo musical pode transformar o momento da pregação em uma apresentação teatral, e não em uma proclamação de fé consciente.

A Palavra de Deus não precisa de trilha sonora, precisa de exposição fiel.

A arquitetura voltada para o consumismo

Outro grave perigo está na transformação dos espaços de culto em ambientes voltados ao consumo, espelhando-se na estética de shoppings e centros de entretenimento. Palcos, praças de alimentação, cafés temáticos e decorações extravagantes têm substituído a simplicidade reverente que sempre caracterizou a verdadeira casa de oração.

Essa mudança reflete uma teologia antropocêntrica: a igreja é moldada para agradar ao visitante, não para glorificar a Deus. O templo deixa de ser o lugar da Palavra e da oração (Marcos 11.17) e torna-se um espaço de performance e consumo. As pessoas vêm para “experimentar sensações”, não para “oferecer culto racional” (Romanos 12.1).

Quando a igreja parece um shopping, o culto vira um produto e os adoradores, consumidores.

Um Clamor Pastoral por Reforma

Diante desse cenário, é urgente que as igrejas voltem à simplicidade e fidelidade do culto reformado. O culto deve ser regulado, não pelo gosto da congregação, mas pela voz do Pastor supremo da Igreja: Cristo. O púlpito deve ser o trono da Palavra, e o culto, um altar de entrega e adoração.

Como pastor, clamo por um retorno à reverência, à centralidade das Escrituras, à exposição fiel da Palavra, à doutrina sólida nos hinos e à participação consciente e bíblica dos crentes. Que o culto público seja, como Paulo exorta, “tudo feito com decência e ordem” (1Co 14.40), pois “Deus não é Deus de confusão, mas de paz” (1Co 14.33).

“Se queremos um avivamento verdadeiro, devemos começar reformando o culto.”

Conclusão

A forma como cultuamos revela quem cremos que Deus é. Se o culto for casual, frívolo e centrado no homem, o nosso conceito de Deus estará distorcido. Mas se o culto for reverente, bíblico e centrado em Cristo, mostraremos ao mundo que o nosso Deus é Santo, Justo e digno de toda adoração.

Voltemos ao altar. Saiamos do palco. Voltemos à Palavra. Saiamos das invenções. Voltemos ao Cristo glorificado. Saiamos da banalização. E então, nossos cultos serão, de fato, agradáveis ao Senhor e edificantes ao seu povo.

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A morte de Charles James Kirk e o clamor contra o extremismo

A morte de Charles James Kirk não é apenas um acontecimento isolado, mas um espelho que reflete a doença espiritual e moral de nosso tempo. O extremismo, em suas diversas formas, tem sido combustível para ódio, violência e desumanização. Ele transforma adversários em inimigos, opiniões diferentes em guerras pessoais, e pessoas — criadas à imagem de Deus — em meros alvos a serem eliminados.

É possível — e até necessário — sermos adversários no campo das ideias. O debate saudável e construtivo é parte essencial de qualquer sociedade livre. Mas quando se ultrapassa a linha da civilidade e da ética, quando a discordância intelectual dá lugar ao desejo de morte, revela-se um coração dominado pelo ódio e não pelo amor. Como disse o apóstolo João: “Quem odeia seu irmão já é homicida” (1 João 3:15).

Triste exemplo disso foi ver artistas brasileiros e personalidades públicas celebrarem a morte de Charles James Kirk. O que há de glorioso na morte de alguém? Onde está a humanidade em rir, debochar ou festejar a tragédia alheia? Isso não é liberdade de expressão — é a falência moral de uma sociedade que perdeu a noção do sagrado da vida. A alegria pela morte de um ser humano denuncia o quanto estamos desumanizados e revela a necessidade urgente que temos de Cristo, Aquele que disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6).

Aos cristãos, fica o chamado: abandonem a ideologia como guia da vida. Não é a direita nem a esquerda, nem qualquer bandeira política que nos define, mas a cruz de Cristo. Nossas convicções devem brotar não de slogans partidários, mas das páginas das Sagradas Escrituras. Só nelas encontramos luz para discernir, sabedoria para decidir e graça para amar até mesmo quem discorda de nós. Como disse o apóstolo Paulo: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2).

O extremismo é incapaz de construir uma sociedade justa, pois se alimenta da destruição do outro. O Evangelho, por sua vez, nos chama a amar até mesmo os inimigos, a orar pelos que nos perseguem e a proclamar que a vida é dom divino, jamais motivo de escárnio.

Diante disso, como pastor e como cristão, expresso minhas mais sinceras condolências à família de Charles James Kirk. Que o Deus de toda consolação (2 Coríntios 1:3-4) seja o refúgio em meio à dor, e que esta tragédia desperte em todos nós a consciência de que o mundo não precisa de mais ódio, mas de mais Cristo.

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O Brasil e o holocausto

Há decisões que não apenas marcam um governo, mas mancham a memória de um povo. A recente retirada do Brasil da Aliança Internacional em Memória do Holocausto é uma dessas decisões que entristece o coração e deve ser repudiada por todos aqueles que amam a verdade, a justiça e a memória histórica.

O Holocausto não foi um simples episódio da história; foi uma das maiores tragédias da humanidade, em que milhões de vidas — em sua maioria judeus — foram esmagadas pela máquina de ódio do nazismo. A memória desse horror não é negociável. Esquecer é permitir que as trevas se repitam. Como diz o sábio em Eclesiastes 1:11: “Já não há lembrança das coisas passadas; e das coisas futuras também não haverá memória entre os que hão de vir depois.” Por isso, cultivar a memória é um ato de justiça, amor e fidelidade às gerações futuras.

Quando um país se afasta de uma aliança que visa manter viva essa lembrança, ele não apenas dá as costas à história, mas também enfraquece sua autoridade moral diante do mundo. Como cristãos, temos a responsabilidade de ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5:13–14), o que inclui denunciar atitudes que relativizam o mal e banalizam a memória das vítimas.

A decisão brasileira soa como uma traição não apenas ao povo judeu, mas à própria verdade. Israel, com todas as suas imperfeições humanas, carrega consigo uma marca bíblica incontestável: é o povo da aliança, guardião de promessas feitas por Deus (Rm 9:4–5). O mínimo que devemos fazer é honrar sua dor e não desdenhar de sua memória.

Lutero certa vez disse que “esquecer a história é desprezar a graça de Deus nela revelada”. Ao negligenciar a lembrança do Holocausto, o Brasil não apenas despreza a história, mas também fere a dignidade humana. O apóstolo Paulo nos exorta em Romanos 12:15: “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram.” Chorar com Israel é um ato de amor cristão; virar as costas à sua dor é desumano.

Portanto, como pastor e servo do Senhor, conclamo a igreja a permanecer firme em oração por Israel, pelo Brasil e por todos os povos. Devemos ser uma voz contra o esquecimento, um povo que não se curva à política quando esta despreza a verdade. A memória do Holocausto deve ser preservada, não apenas por respeito às vítimas, mas porque recordar é resistir ao mal.

Que o Senhor nos dê coragem para repudiar atitudes que mancham a verdade e sabedoria para sermos, em nosso tempo, fiéis guardiões da memória e da justiça de Deus.

“O Senhor é justo em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras.” (Sl 145:17)

O Brasil: beleza, liberdade e oração

O Brasil é um presente do Senhor. Nossa terra é vasta e cheia de riquezas naturais, mas o maior tesouro está em seu povo. Somos filhos de uma miscigenação que une raças, culturas, sotaques e tradições. Essa diversidade é reflexo da multiforme graça de Deus (1Pe 4:10). Assim como a visão celestial descrita por João em Apocalipse 7:9, onde povos e nações se unem diante do Cordeiro, o Brasil, em sua pluralidade, antecipa algo da beleza da eternidade.

Contudo, não podemos ignorar que a mesma nação que carrega tanta riqueza cultural enfrenta tensões profundas. Muitos que dizem defender a democracia, na prática, rejeitam a voz da maioria — especialmente quando essa maioria expressa valores cristãos. Ora, democracia não é apenas defender minorias, mas também respeitar a vontade coletiva. Se queremos ser fiéis à democracia, precisamos abraçar tanto a pluralidade quanto a escolha majoritária de um povo que, em sua grande parte, tem sua identidade marcada pela fé cristã.

Essa questão nos leva ao ensino bíblico de Romanos 13, onde Paulo nos lembra que “não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas”. Aqui não se trata de idolatrar governos, mas de reconhecer que Deus, em Sua soberania, dirige a história das nações. E se Ele permite que autoridades sejam constituídas, cabe a nós, como cidadãos do céu e da terra, respeitar as instituições, obedecer às leis justas e interceder pelos que governam (1Tm 2:1-2).

Mas o amor à pátria não é um valor estranho ao cristão. Pelo contrário, a Escritura nos ensina a buscar a paz da cidade onde estamos (Jr 29:7) e a desejar o bem de nossa nação. Nesse sentido, ressoa em nossos corações aquele verso marcante do Hino da Independência, escrito por Evaristo da Veiga:

“Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil!”

Essas palavras, forjadas no contexto da luta pela independência, exalam a convicção de que a liberdade é preferível à servidão. O povo brasileiro já nasceu com a marca da bravura, desejando viver livre e digno. A verdadeira liberdade, contudo, só é encontrada em Cristo (Jo 8:36). Uma pátria pode ser livre politicamente, mas somente será plenamente livre quando seu povo for transformado pelo Evangelho.


Um chamado à oração pelo Brasil

O Brasil precisa de nossas orações. Devemos clamar para que Deus levante governantes que amem a justiça e não se dobrem à corrupção. Que a liberdade proclamada em nossa história não seja perdida em discursos vazios, mas se traduza em respeito mútuo e dignidade para todos. Que o Senhor mantenha viva em nossa nação a chama da fé cristã, que sempre iluminou nosso povo.

Oremos porque amamos o Brasil. Oremos porque sabemos que “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” (Sl 33:12). Oremos porque entendemos que a verdadeira democracia se fortalece quando há respeito, liberdade e compromisso com a verdade.

E que, como cristãos, possamos reafirmar: não buscamos apenas uma pátria livre segundo os homens, mas ansiamos pela pátria celestial (Hb 11:16). Enquanto aqui vivemos, oramos e trabalhamos para que o Brasil seja cada vez mais um reflexo da justiça, da liberdade e da graça de Deus