É possível ser reformado, arminiano e continuísta? Uma reflexão sobre a identidade teológica da Igreja
Introdução
Uma das características mais marcantes do evangelicalismo contemporâneo é sua diversidade teológica. Ao longo da história da Igreja surgiram diferentes tradições que, embora compartilhem as verdades centrais da fé cristã, desenvolveram compreensões distintas sobre determinados temas doutrinários. Entre essas diferenças encontram-se questões relacionadas à salvação, ao governo da Igreja, aos sacramentos e à atuação contemporânea do Espírito Santo.
Nesse contexto, não é incomum que uma igreja seja questionada sobre sua identidade teológica. Alguns procuram classificá-la como reformada, outros como pentecostal, enquanto outros ainda perguntam se ela pertence à tradição arminiana. Essas perguntas são compreensíveis, mas frequentemente revelam uma dificuldade comum: imaginar que essas categorias sejam necessariamente excludentes. Na realidade, a história da teologia demonstra que muitas dessas classificações descrevem aspectos diferentes da mesma fé cristã.
É justamente nessa perspectiva que a Igreja Gileade compreende sua identidade doutrinária. Nossa intenção nunca foi reunir elementos incompatíveis, mas reconhecer que diferentes tradições contribuíram para preservar aspectos importantes do ensino bíblico. Assim, entendemos que é plenamente possível sustentar uma teologia de aspecto reformado, uma soteriologia arminiana clássica e uma pneumatologia continuísta, desde que cada uma dessas convicções seja construída a partir das Escrituras.
O que significa possuir um aspecto reformado?
Quando afirmamos possuir um aspecto reformado, não estamos dizendo que seguimos integralmente todas as formulações confessionais das igrejas reformadas históricas, nem que adotamos automaticamente todas as conclusões do calvinismo. O termo é utilizado para indicar nossa profunda valorização dos princípios recuperados pela Reforma Protestante do século XVI.
Isso significa reconhecer a autoridade suprema das Escrituras como única regra infalível de fé e prática (Sola Scriptura), afirmar que a salvação é inteiramente resultado da graça divina (Sola Gratia), recebida mediante a fé (Sola Fide), compreender que toda a vida cristã deve glorificar exclusivamente a Deus (Soli Deo Gloria) e confessar que Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (Solus Christus).
Além desses princípios, valorizamos a exposição bíblica, a centralidade da pregação, o discipulado fundamentado nas Escrituras, a reverência no culto e uma compreensão elevada da soberania de Deus sobre toda a criação. Nesse sentido, reconhecemos a profunda contribuição da tradição reformada para a vida da Igreja.
Por que nossa compreensão da salvação é arminiana clássica?
Ao mesmo tempo, entendemos que determinadas questões relacionadas à ordem da salvação são mais bem explicadas pela tradição inaugurada por Jacó Armínio e posteriormente desenvolvida pelos Remonstrantes.
Cremos que a humanidade encontra-se totalmente corrompida pelo pecado e incapaz de voltar-se para Deus por suas próprias forças. A iniciativa da salvação pertence inteiramente ao Senhor. Entretanto, entendemos que Deus concede, por sua graça preveniente, uma capacitação suficiente para que o ser humano possa responder livre e responsavelmente ao chamado do evangelho. Dessa forma, a fé não constitui mérito humano, mas também não é produzida de maneira irresistível.
Consequentemente, compreendemos que a eleição é condicionada à presciência divina da fé, que Cristo morreu em favor de toda a humanidade, que a graça pode ser resistida e que a perseverança na fé deve ser continuamente cultivada pelo crente. Essas convicções aproximam-nos do arminianismo clássico, distinguindo-nos tanto do calvinismo quanto de algumas formulações posteriores do arminianismo wesleyano.
Por que somos continuístas?
Nossa compreensão da obra do Espírito Santo parte da convicção de que o Novo Testamento não ensina a cessação dos dons espirituais antes da volta de Cristo. Entendemos que os dons descritos em Romanos 12, 1 Coríntios 12–14, Efésios 4 e 1 Pedro 4 continuam sendo distribuídos pelo Espírito conforme sua soberana vontade para a edificação da Igreja.
Isso significa que cremos na atualidade da profecia, das curas, dos milagres, do discernimento de espíritos, das línguas e das demais manifestações espirituais. Entretanto, também entendemos que toda experiência deve ser examinada à luz das Escrituras, pois a Bíblia permanece sendo a única revelação inspirada, infalível e normativa para a Igreja.
Nossa expectativa não está fundamentada na busca de experiências extraordinárias em si mesmas, mas na convicção de que Deus continua agindo soberanamente por meio do Espírito Santo para cumprir sua missão no mundo.
O que essa combinação produz na prática?
Essa identidade teológica produz uma espiritualidade que procura unir profundidade doutrinária e sensibilidade espiritual.
Valorizamos o estudo sério das Escrituras porque entendemos que a fé cristã não pode ser construída sobre emoções passageiras. Ao mesmo tempo, rejeitamos a ideia de que uma sólida teologia implique uma vida espiritual fria ou distante da atuação sobrenatural de Deus. O mesmo Espírito que inspirou as Escrituras continua iluminando a compreensão do seu povo, concedendo dons e capacitando a Igreja para servir.
Da mesma forma, reconhecemos que a verdadeira espiritualidade não pode ser medida apenas pela intensidade das experiências religiosas. O fruto do Espírito, o crescimento em santidade, a fidelidade à Palavra e o amor ao próximo constituem evidências igualmente indispensáveis da obra divina na vida do cristão.
Essa compreensão também influencia nossa liturgia. Buscamos um culto profundamente bíblico, centrado em Cristo, reverente e organizado, mas aberto à livre atuação do Espírito Santo. Não acreditamos que ordem e espontaneidade sejam conceitos opostos. Pelo contrário, seguimos a orientação apostólica de que “tudo seja feito com decência e ordem” (1Co 14.40), sem apagar o Espírito nem desprezar as manifestações espirituais (1Ts 5.19–21).
Uma identidade construída sobre as Escrituras
Vivemos em uma época em que muitas vezes as pessoas procuram definir uma igreja a partir de rótulos. Entretanto, nenhuma tradição teológica, isoladamente, esgota a riqueza do ensino bíblico. A Reforma preservou verdades fundamentais sobre a autoridade das Escrituras e a centralidade da graça. O arminianismo clássico contribuiu para uma compreensão robusta da responsabilidade humana diante da graça divina. O continuísmo recorda à Igreja que o Espírito Santo permanece atuando poderosamente na missão de Cristo.
Nossa identidade nasce exatamente da convicção de que essas contribuições não precisam ser vistas como concorrentes quando permanecem submetidas à autoridade das Escrituras. Antes de pertencermos a uma tradição, pertencemos a Cristo. Antes de defendermos um sistema teológico, somos chamados a proclamar o evangelho.
Conclusão
A Igreja Gileade não pretende construir sua identidade sobre novidades nem sobre modismos teológicos. Nossa aspiração é permanecer fiel às Escrituras, aprendendo com a história da Igreja e reconhecendo as contribuições que diferentes tradições ofereceram ao longo dos séculos.
Por isso, afirmamos com tranquilidade que somos uma igreja de aspecto reformado, de orientação arminiana clássica e continuísta. Não entendemos essas convicções como contraditórias, mas como expressões complementares de uma mesma busca: conhecer com fidelidade a Palavra de Deus, viver sob a direção do Espírito Santo e glorificar a Cristo em todas as coisas.
Nossa oração é que essa identidade não seja apenas uma definição doutrinária, mas uma realidade visível em nossa comunhão, em nossa adoração, em nosso compromisso com a verdade e em nossa missão de anunciar o evangelho até que Cristo volte.
Soli Deo gloria
