Dons espirituais: O dom de profecia. O que a bíblia ensina sobre sua natureza e seu propósito

O apóstolo Paulo apresenta o dom de profecia como uma das manifestações do Espírito Santo concedidas à igreja. Em 1 Coríntios 12, a profecia aparece entre os dons distribuídos pelo Espírito “a cada um, individualmente, como ele quer”, enquanto em 1 Coríntios 14 Paulo dedica uma parte considerável de sua instrução à maneira correta de exercer esse dom. Isso já nos oferece uma primeira chave para compreender a questão: a profecia, no Novo Testamento, não aparece como uma atividade estranha à vida da igreja, mas como uma manifestação do Espírito que deve ser exercida para o benefício da comunidade. Ao mesmo tempo, Paulo não apresenta a profecia como uma experiência que dispensa discernimento. Pelo contrário, quanto mais importante é a manifestação espiritual, maior é a necessidade de que ela seja exercida de acordo com os princípios estabelecidos pela Palavra de Deus. Por isso, compreender o dom de profecia exige responder algumas perguntas fundamentais: o que exatamente é profetizar? A profecia significa necessariamente prever o futuro? Profecia é simplesmente uma forma diferente de pregação? Se alguém recebe uma mensagem profética, essa mensagem possui a mesma autoridade das Escrituras? E, se não possui, como a igreja deve recebê-la? Essas perguntas são importantes porque uma compreensão equivocada da profecia pode conduzir tanto à rejeição indevida de uma manifestação legítima do Espírito quanto à aceitação de afirmações humanas como se fossem a própria voz de Deus.

O que é o dom de profecia?

Para compreender a profecia, precisamos começar por quilo que o Novo Testamento efetivamente apresenta como sua finalidade. Paulo afirma: “Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando” (1Co 14:3). Essa afirmação é fundamental porque nos mostra que a profecia não deve ser definida simplesmente como a capacidade de prever acontecimentos futuros. Embora existam manifestações proféticas relacionadas ao futuro nas Escrituras, reduzir a profecia à previsão seria diminuir consideravelmente o conceito bíblico. Os profetas do Antigo Testamento não eram apenas pessoas que anunciavam acontecimentos que ainda aconteceriam; eles também confrontavam o pecado, chamavam o povo ao arrependimento, denunciavam a injustiça, advertiam reis, transmitiam orientações específicas e anunciavam a vontade de Deus para determinadas circunstâncias. A profecia, portanto, está relacionada à comunicação de uma mensagem que Deus concede por meio do Espírito para uma situação específica.

Esse aspecto também aparece no Novo Testamento. Em 1 Coríntios 14, Paulo descreve uma realidade em que pessoas recebiam revelações e as comunicavam à congregação. Ele afirma, por exemplo: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14:29). A própria instrução de Paulo é extremamente importante. Se a profecia fosse simplesmente uma repetição das Escrituras ou se toda declaração profética tivesse automaticamente a mesma autoridade da própria Palavra de Deus, não haveria sentido em ordenar que outros julgassem aquilo que havia sido profetizado. Paulo reconhece a existência da manifestação profética, mas também estabelece um princípio de discernimento. A igreja deveria ouvir, avaliar e discernir.

Wayne Grudem dedica atenção especial a essa questão ao distinguir a profecia do Novo Testamento da profecia que possui autoridade canônica. Em sua compreensão, existe uma diferença entre a autoridade das Escrituras e o tipo de profecia exercido nas reuniões da igreja. Essa distinção é essencial para uma compreensão continuísta responsável: afirmar que o dom de profecia continua não significa afirmar que Deus continua produzindo novas Escrituras. A Bíblia permanece única como revelação escrita, normativa e infalível para a fé e para a vida cristã. A existência do dom de profecia, portanto, não acrescenta livros à Bíblia, não cria uma segunda Bíblia e não coloca uma palavra profética contemporânea no mesmo nível de autoridade da Escritura.

Essa distinção resolve uma das principais dificuldades relacionadas ao tema. Se toda manifestação profética contemporânea tivesse exatamente a mesma autoridade das Escrituras, qualquer pessoa que afirmasse receber uma mensagem de Deus estaria, na prática, reivindicando autoridade divina para suas próprias palavras. Nesse caso, seria impossível estabelecer uma diferença real entre Escritura e profecia contemporânea. Entretanto, a compreensão apresentada por Grudem permite distinguir essas duas realidades: a Escritura possui autoridade absoluta e normativa; a manifestação profética na congregação deve ser submetida à Escritura e discernida pela igreja. Isso significa que uma pessoa pode sinceramente acreditar que recebeu uma impressão, direção ou mensagem do Espírito e, ainda assim, estar equivocada em sua compreensão ou em sua maneira de comunicá-la. Por isso, a igreja não deve simplesmente aceitar toda declaração profética como verdadeira pelo fato de alguém atribuí-la ao Espírito Santo.

Craig Keener também enfatiza a importância de compreender os dons espirituais dentro da finalidade estabelecida pelo próprio Novo Testamento. Os dons não foram concedidos para produzir uma espiritualidade centrada na experiência individual, mas para servir à comunidade cristã. O Espírito Santo distribui os dons para o bem comum, e isso significa que a manifestação espiritual precisa produzir benefício real para o corpo de Cristo. A pergunta fundamental, portanto, não deve ser apenas “alguém profetizou?”, mas “essa manifestação está cumprindo o propósito para o qual Deus concede os dons?”. Em 1 Coríntios 14, Paulo responde que a profecia deve edificar a igreja.

Profecia é prever o futuro?

Uma das maiores dificuldades para compreender a profecia ocorre porque, na linguagem popular, profeta é quase sempre entendido como alguém que anuncia acontecimentos futuros. Entretanto, a Bíblia apresenta um quadro muito mais amplo. Existem profecias relacionadas ao futuro, mas existem também manifestações proféticas que envolvem advertência, orientação, exortação, revelação de situações presentes e aplicação específica da vontade de Deus.

O próprio Antigo Testamento oferece diversos exemplos. Débora exerceu o ministério profético e também atuou como juíza em Israel. Samuel exerceu funções proféticas relacionadas à liderança espiritual da nação e à instituição da monarquia. Natã confrontou Davi por causa de seu pecado com Bate-Seba e Urias, não simplesmente anunciando um acontecimento futuro, mas trazendo uma palavra de confronto diante de uma situação concreta. Gade aconselhou Davi em circunstâncias específicas, e Hulda foi consultada durante o reinado de Josias quando o Livro da Lei foi encontrado. Esses episódios mostram que a atividade profética estava profundamente relacionada à comunicação da vontade de Deus para situações concretas.

Isso também ajuda a compreender por que não devemos transformar a profecia em uma espécie de “previsão espiritual”. Uma pessoa pode profetizar sem anunciar datas, acontecimentos políticos, casamentos, empregos, viagens ou qualquer outro evento futuro. Da mesma maneira, uma declaração sobre algo futuro não se torna automaticamente profecia simplesmente porque contém uma previsão. O conceito bíblico é mais amplo e mais profundo. A questão central é a manifestação da mensagem concedida pelo Espírito e sua finalidade dentro da vida do povo de Deus.

Por isso, quando Paulo afirma que “o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando” (1Co 14:3), ele desloca nossa atenção da curiosidade sobre o futuro para a edificação da igreja. A profecia não existe primordialmente para satisfazer nossa curiosidade sobre aquilo que ainda não aconteceu. Ela existe para servir ao propósito de Deus na comunidade cristã.

Profecia é a mesma coisa que pregação?

Outra distinção importante é entre profecia e pregação. As duas podem acontecer no mesmo culto, podem produzir edificação e podem utilizar a Bíblia como referência, mas não são exatamente a mesma coisa.

A pregação cristã é fundamentada na Palavra já revelada. O pregador recebe das Escrituras o conteúdo que deve anunciar e, por meio da exposição, explicação e aplicação do texto bíblico, comunica à igreja aquilo que Deus já revelou em sua Palavra. Quando Paulo ordena a Timóteo: “prega a palavra” (2Tm 4:2), a responsabilidade do ministro está diretamente ligada à Palavra que já foi entregue à igreja. O pregador não precisa receber uma nova revelação para explicar Romanos, Efésios, os Evangelhos ou qualquer outro livro da Bíblia. Ele precisa compreender corretamente o texto e anunciá-lo fielmente.

A profecia possui outra característica. No contexto apresentado por Paulo, ela envolve uma manifestação específica do Espírito para uma determinada situação. É por isso que Paulo pode falar de “revelação” em 1 Coríntios 14:26 e, posteriormente, relacioná-la à atividade profética. A profecia, nesse sentido, não deve ser confundida com a exposição sistemática das Escrituras. O pregador explica aquilo que Deus já revelou; o profeta, no entendimento continuísta defendido por Grudem, comunica aquilo que acredita ter recebido de maneira específica do Espírito para aquela situação.

Isso não significa que profecia e pregação estejam em competição. Pelo contrário, elas podem trabalhar juntas. A pregação estabelece a igreja na verdade objetiva das Escrituras, enquanto a manifestação profética, quando genuína e corretamente discernida, pode trazer uma aplicação específica, uma exortação, um encorajamento ou uma palavra de consolo para determinada circunstância. Entretanto, a profecia jamais deve assumir o lugar da pregação bíblica. Uma igreja saudável não precisa escolher entre Palavra e Espírito. Precisa compreender que o Espírito Santo não conduz a igreja para longe da Palavra que ele mesmo inspirou.

Essa distinção também impede outro erro bastante comum: chamar toda boa pregação de profecia. Um sermão pode ser poderoso, profundamente aplicado e usado por Deus para transformar uma vida sem ser, tecnicamente, uma manifestação do dom de profecia. O pregador pode estudar o texto durante horas, compreender seu contexto, analisar sua estrutura, consultar outras passagens e construir uma exposição fiel. Isso é pregação. A profecia, por sua vez, pertence a outra categoria de manifestação espiritual.

A profecia contemporânea ameaça a suficiência das Escrituras?

É justamente aqui que surge uma das questões teológicas mais importantes. Se a profecia envolve revelação, então a continuidade do dom significaria que Deus ainda está acrescentando algo à sua revelação? Se alguém pode dizer “Deus me mostrou”, isso não coloca essa mensagem no mesmo nível da Bíblia?

A resposta precisa começar com uma distinção fundamental: a continuidade do dom de profecia não implica a continuidade da revelação canônica. A Escritura é suficiente e permanece como autoridade final para a igreja. Nenhuma profecia contemporânea pode acrescentar doutrinas à Bíblia, corrigir a Bíblia, contradizer a Bíblia ou estabelecer uma nova norma de fé.

É exatamente por isso que o discernimento é indispensável. Paulo não diz simplesmente: “os profetas falarão e todos deverão obedecer”. Ele determina: “falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14:29). Em 1 Tessalonicenses 5:20-21, também encontramos uma combinação extremamente significativa: “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” Observe a tensão existente nessas duas orientações. De um lado, Paulo não permite que a igreja despreze a profecia. De outro, ele também não permite que a igreja aceite qualquer declaração profética sem avaliação.

Essa é uma postura muito diferente tanto do ceticismo absoluto quanto da credulidade absoluta. O ceticismo absoluto diz: “Como existem falsificações, nenhuma profecia pode ser legítima.” A credulidade absoluta diz: “Se alguém afirmou que Deus falou, precisamos aceitar.” O modelo bíblico apresentado por Paulo é diferente: não desprezar, mas julgar; não rejeitar automaticamente, mas também não aceitar indiscriminadamente.

Nesse sentido, a suficiência das Escrituras continua preservada. A Bíblia estabelece a doutrina, define os limites da fé cristã e funciona como autoridade normativa para a igreja. Uma manifestação profética precisa ser avaliada à luz dessa Palavra. Se uma suposta profecia contradiz claramente a Escritura, ela deve ser rejeitada, independentemente de quão impressionante tenha sido a experiência de quem a proferiu. Se alguém afirma receber uma revelação que modifica o evangelho, acrescenta uma nova doutrina ou apresenta uma nova autoridade espiritual, estamos diante de algo que não pode ser aceito como manifestação legítima do dom.

Portanto, dizer que alguém pode profetizar hoje não significa dizer que alguém pode escrever uma nova Bíblia. Significa reconhecer que o Espírito Santo continua ativo na igreja e que os dons descritos no Novo Testamento podem continuar sendo exercidos, sempre dentro dos limites estabelecidos pela própria Escritura.

Por que Paulo manda julgar a profecia?

A necessidade de julgamento é uma das características que tornam a doutrina da profecia particularmente importante para a vida da igreja. O fato de Paulo ordenar que a profecia seja julgada demonstra que a igreja não deve abandonar seu discernimento quando o assunto é uma manifestação espiritual. Experiência espiritual não elimina responsabilidade teológica.

Quando alguém profetiza, a congregação não precisa simplesmente desligar o pensamento crítico. Pelo contrário, deve ouvir atentamente e avaliar aquilo que foi dito. A liderança tem uma responsabilidade especial nesse processo, mas o princípio de discernimento pertence à comunidade cristã. A pergunta é: essa palavra está de acordo com as Escrituras? Está exaltando Cristo? Está produzindo edificação? Está conduzindo a igreja à obediência? Existe coerência com o caráter de Deus revelado na Bíblia? O conteúdo está sendo apresentado de maneira que respeite a autoridade da Escritura?

Isso também significa que o profeta não pode utilizar sua suposta experiência espiritual para escapar de correção. Uma das formas mais perigosas de abuso acontece quando alguém diz: “Não questione o que eu falei, porque foi Deus quem falou.” Essa atitude é incompatível com o princípio apresentado por Paulo em 1 Coríntios 14. Se a própria congregação é chamada a julgar a profecia, então nenhum indivíduo pode transformar sua declaração em uma autoridade incontestável simplesmente utilizando a expressão “Deus disse”.

Essa compreensão produz uma cultura espiritual mais madura. A igreja não precisa ter medo dos dons, mas também não precisa ser ingênua diante deles. Não precisamos escolher entre uma igreja que rejeita toda manifestação espiritual e uma igreja que aceita qualquer experiência como sendo necessariamente divina. O caminho bíblico é buscar os dons e, ao mesmo tempo, desenvolver discernimento.

Edificação, exortação e consolação

Paulo resume o propósito da profecia em três palavras: “edificação, exortação e consolação” (1Co 14:3). Essas três funções ajudam a igreja a compreender aquilo que deve esperar de uma manifestação profética saudável.

Edificação significa fortalecimento. Uma palavra profética deve contribuir para o crescimento espiritual da pessoa ou da comunidade. Ela não existe para produzir dependência emocional do profeta, para criar celebridades espirituais ou para estabelecer controle sobre a vida dos outros. Seu propósito é fortalecer o corpo de Cristo.

Exortação significa encorajamento e chamado à ação. A profecia pode confrontar, estimular, despertar e chamar alguém à perseverança. Em 1 Timóteo 1:18, Paulo lembra Timóteo das profecias anteriormente proferidas a seu respeito e relaciona essas palavras à sua perseverança no combate espiritual. Isso demonstra que uma manifestação profética pode ter relação com o chamado e com a perseverança de uma pessoa.

Consolação, por sua vez, aponta para o encorajamento e o conforto. Em momentos de sofrimento, fragilidade ou incerteza, uma palavra específica pode trazer encorajamento profundo ao coração de alguém. Entretanto, até mesmo nesse contexto é necessário discernimento. A consolação cristã não consiste em prometer aquilo que Deus não prometeu. Uma palavra não se torna verdadeira apenas porque é emocionalmente reconfortante. A verdadeira consolação precisa permanecer submetida à verdade de Deus.

Essas três dimensões oferecem também um critério pastoral importante: a profecia deve servir à igreja, e não ao profeta. Quando o exercício do dom produz medo, dependência, manipulação, exaltação pessoal ou controle espiritual, algo está profundamente errado. Os dons foram dados para o bem comum, e não para a construção de uma autoridade pessoal incontestável.

O abuso do dom significa que o dom deixou de existir?

A história da igreja demonstra que manifestações espirituais podem ser utilizadas de maneira inadequada. Pessoas podem atribuir a Deus aquilo que Deus não disse, utilizar experiências espirituais para manipular outras pessoas e transformar dons legítimos em instrumentos de poder. Esses problemas precisam ser denunciados e corrigidos.

Entretanto, existe uma diferença entre afirmar que há abusos do dom e afirmar que o dom é necessariamente ilegítimo. O mau uso de alguma coisa não prova, por si só, que seu uso correto seja impossível. O problema do abuso exige correção, não necessariamente abandono.

O próprio contexto de 1 Coríntios demonstra isso. A igreja de Corinto tinha problemas sérios relacionados aos dons espirituais. Havia desordem, competição e falta de amor. Paulo poderia simplesmente ter proibido os dons. Entretanto, ele faz exatamente o contrário: ensina a igreja a utilizá-los corretamente. Em 1 Coríntios 14:1, ele afirma: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar.” Portanto, a resposta apostólica ao mau uso não foi abolir a manifestação, mas corrigir sua utilização.

Essa perspectiva é importante para a igreja contemporânea. Não devemos fechar os olhos para os abusos existentes no meio cristão. Ao mesmo tempo, também não devemos concluir que todo abuso demonstra que o dom em si é falso. O caminho mais coerente com o ensino apostólico é buscar uma prática dos dons que seja bíblica, madura, cristocêntrica e submetida ao discernimento da igreja.

Uma igreja guiada pela Palavra e aberta à atuação do Espírito

O desafio, portanto, não é escolher entre Escritura e Espírito Santo. A verdadeira questão é aprender a viver sob a autoridade das Escrituras enquanto reconhecemos a atuação presente do Espírito Santo. A igreja não precisa escolher entre uma teologia bíblica e uma vida espiritual dinâmica. Precisa rejeitar tanto o racionalismo que transforma a fé cristã em mero intelectualismo quanto o emocionalismo que transforma qualquer experiência em palavra de Deus.

O dom de profecia deve ser compreendido dentro dessa tensão saudável. A Escritura permanece como fundamento, regra e autoridade final. O Espírito Santo continua sendo aquele que distribui dons à igreja. A profecia não acrescenta uma nova Bíblia, não cria novas doutrinas e não substitui a pregação das Escrituras. Ela deve ser exercida para edificação, exortação e consolação, e precisa ser julgada pela comunidade cristã.

Uma igreja madura, portanto, não é aquela que simplesmente aceita tudo o que se apresenta como manifestação espiritual, mas também não é aquela que rejeita antecipadamente tudo aquilo que não consegue enquadrar em sua experiência. É uma igreja que conhece as Escrituras, ama a verdade, busca os dons, exerce discernimento e mantém Cristo no centro. Como Paulo ensina em 1 Coríntios 14, devemos procurar a edificação da igreja e fazer “tudo decentemente e com ordem” (1Co 14:26,40).

O dom de profecia, quando compreendido dessa maneira, deixa de ser apresentado como uma ameaça à suficiência das Escrituras e passa a ser compreendido dentro de uma teologia mais ampla da atuação do Espírito Santo. A questão não é colocar profecia e Bíblia em competição, mas reconhecer que a Palavra de Deus ocupa uma posição única e normativa, enquanto os dons do Espírito servem à edificação do povo de Deus. A igreja precisa da Palavra para conhecer a verdade e precisa da ação do Espírito para viver essa verdade com fé, obediência e poder. Por isso, a pergunta não deveria ser simplesmente se devemos falar sobre profecia, mas se estamos dispostos a compreender e exercer esse dom da maneira como o Novo Testamento determina: com amor, discernimento, ordem e submissão à autoridade das Escrituras.

Referências

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Edições Vida Nova.

KEENER, Craig. O Espírito na igreja: O que a Bíblia ensina sobre os dons. Edições Vida Nova.

Soli Deo gloria.

Como Viveremos? O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade

“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo.”

Mateus 5.13–16

Chegamos à última mensagem da série Como Viveremos? — O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade. Durante estas semanas, procuramos compreender não apenas o mundo em que vivemos, mas principalmente as ideias que ajudaram a construí-lo. Começamos no Éden, porque a crise humana não começou na internet, nas universidades, na política ou nas redes sociais; começou quando o ser humano decidiu interpretar a realidade independentemente da Palavra de Deus. Depois acompanhamos, de maneira resumida, o deslocamento da centralidade de Deus na cultura ocidental, passando pela crescente autonomia da razão humana até chegarmos a uma cultura em que o indivíduo, seus desejos e seus sentimentos ocupam um espaço cada vez maior na definição da verdade, da identidade e da moralidade. Na terceira mensagem, ouvimos o chamado de Paulo em Romanos 12.2: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Agora, porém, precisamos dar o passo decisivo. Se sabemos que não devemos nos conformar com este mundo, como devemos viver dentro dele?

Essa pergunta está no coração do livro de Francis Schaeffer, Como Viveremos?. Publicado originalmente em 1976, o livro procura interpretar a história ocidental a partir das ideias, pressuposições e cosmovisões que moldaram sua filosofia, ciência, arte, política e cultura. Schaeffer não olha para a história como uma sequência de acontecimentos desconectados; ele procura enxergar o fluxo das ideias e mostrar como aquilo que os homens acreditam sobre Deus, o homem, a verdade e a realidade acaba aparecendo na maneira como constroem suas sociedades. Sua tese fundamental é que as ideias têm consequências e que uma sociedade não muda primeiro seus comportamentos para depois mudar suas crenças; normalmente acontece o contrário: mudam-se as pressuposições, depois os valores, depois os comportamentos e, finalmente, a cultura. É justamente por isso que a pergunta “Como viveremos?” não pode ser respondida apenas com regras de comportamento. Precisamos saber em que cremos, a quem pertencemos e que visão de mundo governa nossa existência.

E é aqui que as palavras de Jesus se tornam extraordinariamente atuais. No Sermão do Monte, depois de apresentar as bem-aventuranças, Jesus olha para seus discípulos e declara: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo”. Observe que Jesus não começa dizendo: “Façam alguma coisa”. Ele começa dizendo: “Vós sois”. Antes da missão existe identidade. Antes da influência existe pertencimento. Antes de Jesus falar sobre aquilo que seus discípulos precisam fazer no mundo, ele diz quem eles são diante do mundo. Essa ordem é fundamental para a igreja contemporânea, porque existe sempre o perigo de tentarmos transformar a sociedade sem permitir que Cristo transforme primeiro nossa própria vida. A igreja não recebeu uma estratégia de marketing para conquistar a cultura; recebeu uma identidade em Cristo. Somos discípulos, somos povo de Deus, somos aqueles que foram alcançados pela graça e chamados para viver sob o senhorio de Jesus. A missão nasce da identidade.

Essa verdade também nos ajuda a compreender o que significa não nos conformarmos com este século. Paulo não está dizendo que devemos abandonar o mundo. O cristão não é chamado para desaparecer da sociedade, construir uma bolha religiosa e esperar a volta de Cristo. Jesus, inclusive, orou pelos seus discípulos dizendo ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). O problema não é estarmos no mundo; o problema é permitirmos que o mundo determine quem somos. Não fomos chamados para fugir da cultura, mas para entrar nela sem assumir sua forma. Não fomos chamados para viver isolados, mas para viver de tal maneira que nossa presença produza uma diferença real. Schaeffer insistia justamente nessa dimensão pública da fé cristã: o discípulo de Jesus precisa compreender a cultura, pensar biblicamente sobre ela e agir dentro dela de acordo com a verdade de Deus. Para ele, conhecer uma cosmovisão cristã sem agir a partir dela seria insuficiente; o cristão precisa conhecer, agir e falar.

Somos o sal da terra

Quando Jesus diz “vós sois o sal da terra”, ele apresenta uma das imagens mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas para explicar a presença cristã no mundo. O sal não precisa ser maioria para exercer influência. Pelo contrário, normalmente existe muito menos sal do que comida, mas uma pequena quantidade é capaz de alterar significativamente o sabor de uma grande quantidade de alimento. Essa imagem precisa ser recuperada pela igreja em uma época em que somos constantemente tentados a medir nossa relevância pela quantidade. Talvez não sejamos maioria. Talvez nossos valores não sejam os valores dominantes. Talvez aquilo que cremos pareça estranho para parte da sociedade. Talvez nossos filhos estejam crescendo em uma cultura muito diferente daquela em que nós crescemos. Mas Jesus não disse: “Vocês serão o sal quando forem maioria”. Ele disse: “Vós sois o sal da terra.” A eficácia do sal não está em sua quantidade absoluta, mas em sua presença e em sua capacidade de produzir efeito.

Ser sal significa, portanto, preservar uma identidade. O sal não pode perder seu sabor e continuar cumprindo sua função. Por isso, existe uma relação inseparável entre santidade e missão. A igreja não influencia o mundo tornando-se semelhante ao mundo. Influencia justamente porque continua sendo diferente. Se o cristão adota os mesmos critérios de sucesso, os mesmos padrões de relacionamento, a mesma ética sexual, a mesma relação com dinheiro, a mesma linguagem agressiva, a mesma obsessão por poder e a mesma lógica de vingança que domina a cultura, sua capacidade de testemunhar diminui. Não porque precise ser perfeito — nenhum de nós é —, mas porque a graça que professamos precisa produzir uma vida que seja reconhecivelmente diferente. O sal precisa continuar sendo sal.

Isso significa que santidade não é isolamento, mas distinção. O cristão precisa estar perto das pessoas sem perder sua identidade. Precisa trabalhar com pessoas que não compartilham sua fé, estudar com pessoas que pensam de maneira diferente, conviver com pessoas que possuem outras convicções e participar da sociedade sem permitir que a sociedade determine seus valores. A santidade cristã não é uma fuga da realidade; é uma maneira diferente de viver dentro da realidade. É possível estar profundamente envolvido com a sociedade sem ser absorvido por ela. É possível amar pessoas sem concordar com tudo o que elas pensam. É possível dialogar sem abandonar convicções. É possível ser firme sem ser agressivo. É possível ser sal sem deixar de estar na comida.

E talvez essa seja uma das maiores necessidades da igreja de nosso tempo. Precisamos parar de imaginar que só teremos influência quando formos maioria. O sal quase sempre será menor do que aquilo que tempera. O cristão pode ser minoria dentro de uma sala de aula, de uma empresa, de uma universidade, de um ambiente profissional ou até mesmo de uma família. Ainda assim, pode fazer diferença. Um funcionário que se recusa a participar de uma desonestidade está sendo sal. Uma jovem que decide manter sua pureza em uma cultura que banalizou a sexualidade está sendo sal. Um marido que permanece fiel quando a cultura ensina que relacionamentos são descartáveis está sendo sal. Um empresário que se recusa a corromper seus princípios para ganhar dinheiro está sendo sal. Um cristão que, em uma discussão política, mantém convicções firmes sem transformar o adversário em inimigo está sendo sal. Não precisamos controlar o ambiente para influenciá-lo. Precisamos estar nele como discípulos de Cristo.

Isso também vale para nossa participação política. O cristão não pode transformar nenhum partido ou político em seu salvador. Podemos e devemos participar da sociedade, votar, discutir políticas públicas, defender a vida, a família, a justiça e a dignidade humana, mas nossa esperança jamais pode repousar em um candidato. Existe um perigo espiritual quando conhecemos mais profundamente os discursos de determinados políticos do que conhecemos a Palavra de Deus, quando defendemos nossos candidatos com mais paixão do que defendemos o evangelho e quando somos capazes de romper relacionamentos cristãos por causa de preferências partidárias. O político não morreu por nós. O político não ressuscitou por nós. O político não perdoa nossos pecados. Cristo é o nosso Senhor. Schaeffer nos ajuda justamente a recuperar uma visão cristã abrangente da sociedade sem transformar a participação cultural em idolatria política. O cristão deve agir publicamente, mas sua esperança continua sendo escatológica e cristocêntrica.

Aqui cabe uma advertência simples, mas necessária: cuidado para não confundir sal com pimenta. Há cristãos que, quando entram na política, deixam de preservar e começam apenas a provocar; deixam de temperar e passam a inflamar; deixam de testemunhar e passam a brigar. O sal conserva e dá sabor. A pimenta pode tornar algo mais ardido. A igreja não foi chamada para ser a pimenta da terra. Podemos ter convicções políticas fortes sem transformar cada conversa em uma guerra. Podemos denunciar o erro sem odiar pessoas. Podemos discordar sem desumanizar. Podemos defender a verdade sem abandonar a graça. Nossa paixão por Cristo precisa ser maior do que nossa paixão por qualquer político.

Somos a luz do mundo

Jesus acrescenta: “Vós sois a luz do mundo.” Se a imagem do sal enfatiza uma influência que penetra e muitas vezes não é percebida imediatamente, a luz possui uma característica diferente: ela é visível. A luz revela. A luz torna aquilo que estava escondido perceptível. Por isso, Jesus afirma que ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de um cesto. A fé cristã não foi criada para permanecer confinada ao domingo, ao templo ou ao espaço privado da consciência. A fé cristã é pessoal, mas nunca foi planejada para ser privada.

Cristo precisa aparecer na família, no trabalho, na escola, nos relacionamentos, na maneira como tratamos as pessoas, na maneira como usamos o dinheiro, na nossa sexualidade, na maneira como falamos, na maneira como lidamos com autoridade e poder e na maneira como enfrentamos o sofrimento. Se Cristo é realmente Senhor, então ele não pode governar apenas algumas horas da semana. Ele precisa governar a totalidade da vida. É justamente aqui que a contribuição de Schaeffer permanece tão relevante: o senhorio de Cristo não pode ser reduzido ao culto, à oração e à leitura bíblica. A cosmovisão cristã precisa alcançar a maneira como pensamos sobre ciência, arte, política, economia, família, trabalho, cultura e sociedade. Para Schaeffer, o cristão precisa compreender que todas as áreas da vida estão diante de Deus.

Imagine, por exemplo, um jovem cristão que passa todos os dias com seus amigos não cristãos. Ele trabalha ou estuda com eles, conversa, brinca, participa das atividades e é querido pelo grupo. Não existe necessariamente nada errado em sua conduta. Ele é educado, honesto e prestativo. De certo modo, ele é sal: sua presença produz algum efeito. Mas existe um problema: ninguém sabe por que ele vive como vive. Ele nunca fala de Cristo. Nunca aponta para o evangelho. Quando alguém está sofrendo, oferece apenas conselhos humanos. Quando perguntam sobre sua fé, muda de assunto. Seus amigos sabem que ele “é da igreja”, mas talvez nunca tenham ouvido dele aquilo que Cristo significa para sua vida. Ele está presente, mas sua luz está escondida.

E esse é um problema que precisamos enfrentar. Não fomos chamados apenas para sermos boas pessoas. Fomos chamados para testemunhar de Cristo. Nossa vida precisa preparar o terreno, mas em algum momento nossa boca precisa anunciar aquilo em que cremos. A vida cristã coerente abre portas para o testemunho verbal. A integridade desperta perguntas. A fidelidade desperta curiosidade. A esperança em meio ao sofrimento desperta atenção. E então podemos dizer: “O que você está percebendo em mim não nasceu de mim. Cristo fez isso em minha vida.” A luz não existe para chamar atenção para o cristão; existe para apontar para Cristo.

Por isso, Jesus conclui: “…e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” Essa frase impede que o nosso testemunho se transforme em autopromoção. Nós não somos luz para que as pessoas digam: “Que cristãos extraordinários”. Somos luz para que, vendo nossas boas obras, glorifiquem o Pai. A luz começa aparecendo em nossa vida, mas termina apontando para Deus. A santidade aponta para Deus. A generosidade aponta para Deus. A fidelidade aponta para Deus. O perdão aponta para Deus. A esperança no sofrimento aponta para Deus. Nossa vida deve ser uma janela pela qual as pessoas consigam enxergar algo da glória de Cristo.

Como viveremos em uma cultura de “paz pessoal” e “prosperidade”?

Aqui encontramos outra contribuição importante de Schaeffer para nossa geração. Ele identificou dois valores que considerava especialmente perigosos na cultura moderna: paz pessoal e prosperidade. A paz pessoal é o desejo de não ser incomodado pelos problemas do mundo; a prosperidade é a busca crescente por conforto, segurança e abundância material. O problema não está em desejar paz ou em usufruir aquilo que Deus concede. O problema aparece quando esses desejos se tornam absolutos e nos levam a abandonar nossas convicções para preservar nosso conforto. Schaeffer advertia que uma sociedade pode chegar ao ponto de preferir segurança à liberdade e conforto à verdade.

Essa advertência continua profundamente relevante para a igreja. Talvez nosso maior perigo não seja apenas sermos perseguidos por causa de Cristo. Talvez seja sermos seduzidos pelo conforto. Porque é muito mais fácil ser fiel quando a fidelidade não custa nada. É fácil dizer que Cristo é Senhor quando isso não interfere em nossas escolhas. É fácil defender a verdade quando ninguém se incomoda com ela. É fácil falar de santidade quando não precisamos renunciar a nenhum desejo. Mas quando ser fiel começa a custar uma oportunidade, uma amizade, uma promoção, uma vantagem financeira, uma aceitação social ou uma parte do nosso conforto, então descobrimos quem realmente governa nossa vida.

Como viveremos, então? Viveremos como pessoas que não têm o conforto como seu deus. Não significa procurar sofrimento desnecessariamente, mas estar disposto a obedecer quando obedecer custa alguma coisa. Não significa desprezar prosperidade, mas recusar fazer da prosperidade o propósito da existência. Não significa desejar perseguição, mas estar preparado para permanecer fiel caso ela venha. Cristo vale mais do que nosso conforto. A verdade vale mais do que nossa aprovação social. A fidelidade vale mais do que nossa conveniência.

Como viveremos dentro de nossas famílias?

Talvez nenhuma aplicação desta série seja mais urgente do que esta. Se a cultura está formando a mente de nossos filhos, precisamos perguntar: quem está discipulando nossos filhos? Não podemos entregar a formação espiritual deles ao algoritmo, às redes sociais, à televisão, aos influenciadores, aos colegas ou à universidade e depois esperar que algumas horas de culto por semana sejam suficientes para corrigir tudo. A ausência de formação consciente não significa ausência de formação. Nossos filhos estão sendo formados todos os dias. A questão é: por quem?

A resposta não pode ser simplesmente criar uma bolha. Não conseguiremos proteger nossos filhos de toda influência cultural, e talvez nem devamos tentar. Precisamos ensiná-los a pensar cristianamente, discernir, questionar, argumentar, conhecer as Escrituras, amar a verdade e encontrar em Cristo sua identidade. Precisamos construir casas onde o evangelho não seja apenas assunto de domingo. Casas onde se ora, onde a Bíblia é lida, onde os pais pedem perdão, onde os filhos aprendem a perdoar, onde o dinheiro é tratado com responsabilidade, onde a sexualidade é ensinada à luz da criação de Deus, onde o sofrimento é interpretado à luz da providência divina e onde Cristo não é apenas convidado para a casa, mas reconhecido como Senhor da casa.

Schaeffer compreendeu que uma cosmovisão cristã não poderia ficar confinada ao intelecto. Ela precisava tornar-se uma maneira de viver. Essa é uma das grandes contribuições de sua obra para a igreja: não basta saber o que é verdade; precisamos viver como se a verdade fosse realmente verdadeira. A fé cristã precisa sair da teoria e entrar na mesa de jantar, no orçamento familiar, na educação dos filhos, no casamento, na profissão e nas decisões diárias.

Como viveremos?

Depois de quatro mensagens, chegamos finalmente à pergunta que deu nome à série. E talvez agora possamos respondê-la.

Como viveremos?

Não viveremos conformados.

Não viveremos escondidos.

Não viveremos assustados.

Não viveremos como quem precisa dominar o mundo para provar que Cristo é Senhor.

Não viveremos como quem abandona suas convicções para ser aceito pelo mundo.

Viveremos como sal e luz.

Seremos sal porque precisamos preservar aquilo que Deus revelou como verdadeiro, bom e santo. Seremos sal porque precisamos influenciar nossas famílias, nossos ambientes de trabalho, nossas escolas, nossas comunidades e nossa sociedade. Seremos sal mesmo quando formos minoria, porque nossa missão nunca dependeu de sermos maioria.

Seremos luz porque não esconderemos nossa fé. Cristo aparecerá na nossa casa, no nosso casamento, no nosso trabalho, na nossa maneira de tratar as pessoas, no uso do dinheiro, na sexualidade, na política, na maneira de falar e na maneira de sofrer. Não queremos apenas que as pessoas percebam que somos diferentes; queremos que descubram por que somos diferentes.

E aqui está talvez a resposta mais importante de toda a série: não fomos chamados simplesmente para vencer uma guerra cultural. Fomos chamados para viver fielmente diante de Deus. Schaeffer não escreveu sua obra para ensinar os cristãos a dominar a cultura, mas para fazê-los compreender o mundo em que estavam vivendo e responder a ele com uma fé cristã integral, intelectualmente coerente, moralmente distinta e publicamente comprometida. Sua proposta é que o cristão conheça a verdade, viva de acordo com ela e a proclame.

Portanto, a pergunta “Como viveremos?” começa muito antes das decisões políticas, dos debates culturais ou das estratégias apologéticas. Ela começa diante do senhorio de Cristo. Quem governa minha mente? Quem governa meus desejos? Quem governa minha família? Quem governa meu dinheiro? Quem governa minha sexualidade? Quem governa minhas decisões? Quem governa minhas ambições? Quem governa minha maneira de reagir quando sou contrariado?

Porque, no final, a questão não é simplesmente se estamos vivendo em uma sociedade pós-moderna.

A questão é:

Estamos vivendo como discípulos de Jesus Cristo dentro dela?

A cultura continuará mudando. Ideias continuarão surgindo. Valores continuarão sendo disputados. Governos mudarão. Tecnologias mudarão. As gerações passarão. Aquilo que hoje parece absoluto amanhã poderá ser questionado. Mas existe algo que permanece: a Palavra de Deus e o senhorio de Cristo.

Por isso, não precisamos ter medo do futuro.

Precisamos ser fiéis.

Não precisamos ser maioria.

Precisamos ser sal.

Não precisamos esconder nossa fé.

Precisamos ser luz.

Não precisamos colocar nossa esperança em políticos.

Precisamos colocar nossa esperança em Cristo.

Não precisamos viver em uma bolha.

Precisamos viver no mundo sem pertencer ao mundo.

Não precisamos simplesmente reclamar da cultura.

Precisamos encarnar uma cultura cristã de vida, verdade, santidade, justiça, misericórdia e amor onde Deus nos colocou.

E talvez seja justamente aqui que a frase que nos acompanhou durante toda esta série encontre seu sentido completo:

A forma como pensamos determina a forma como vivemos.

Se pensarmos como o mundo, viveremos como o mundo.

Se permitirmos que nossos sentimentos sejam nosso senhor, viveremos governados por nossos sentimentos.

Se fizermos do dinheiro nosso senhor, viveremos para acumular.

Se fizermos da política nossa esperança, viveremos ansiosos a cada eleição.

Se fizermos de nós mesmos nosso centro, viveremos para nós mesmos.

Mas se Cristo for o centro, nossa vida começará a tomar a forma de Cristo.

E essa é a resposta cristã à pergunta de Schaeffer.

Como viveremos?

Viveremos de joelhos diante de Cristo e de pé diante do mundo.

De joelhos, porque reconhecemos que dependemos da graça.

De pé, porque não temos vergonha do evangelho.

De joelhos, porque Cristo é nosso Senhor.

De pé, porque somos suas testemunhas.

De joelhos, porque não confiamos em nossa própria força.

De pé, porque o Espírito Santo nos capacita.

Seremos sal. Seremos luz.

E quando nossa vida terminar, nosso maior desejo não deverá ser que alguém diga que vencemos uma discussão, que elegemos nosso candidato, que defendemos nossa ideologia ou que preservamos nossa reputação.

Nosso desejo deverá ser muito mais simples e muito mais grandioso:

que alguém tenha olhado para nossa vida e conseguido enxergar Cristo.

Porque no fim, essa é a resposta.

Como viveremos?

Viveremos para que o mundo veja Cristo em nós e glorifique o nosso Pai que está nos céus.

Referências

SCHAEFFER, Francis A. How Should We Then Live? The Rise and Decline of Western Thought and Culture. Wheaton: Crossway. A obra foi publicada originalmente em 1976 e percorre a história do pensamento e da cultura ocidental, relacionando filosofia, religião, ciência, arte e sociedade.

BÍBLIA. Mateus 5.13–16; João 17.15; Romanos 12.2.

Soli Deo gloria

Amor e Respeito: Quando aquilo que falta em um casamento alimenta aquilo que machuca

Antes de qualquer palavra sobre casamento, amor, respeito, marido ou esposa, precisamos estabelecer uma distinção fundamental. Existem, por assim dizer, dois universos nos quais podemos pensar o relacionamento conjugal. Há o universo distante de Deus, no qual o homem e a mulher vivem segundo seus próprios desejos, referências e valores, sem necessariamente reconhecer a autoridade da Palavra de Deus sobre a vida. E existe o universo cristão, no qual, embora o homem continue sendo uma criatura caída, limitada e profundamente necessitada da graça de Deus, ele foi alcançado pelo evangelho e agora vive debaixo do senhorio de Cristo, tendo como alvo a glória de Deus. É nesse segundo universo que estamos pensando. Isso é fundamental porque os padrões que apresentaremos aqui não são descrições pessimistas de como homens e mulheres “normalmente são”, nem estereótipos produzidos pela cultura. Estamos tratando dos ideais apresentados pelas Escrituras, padrões que Deus estabelece e que, pela graça, podem ser buscados e vividos. O cristão não deve conformar seu casamento simplesmente àquilo que observa na sociedade; deve permitir que a Palavra de Deus reforme a maneira como marido e mulher vivem um com o outro.

Homens e mulheres são diferentes. Essas diferenças não precisam ser motivo de competição, mas podem se tornar instrumentos de complementaridade. Homens e mulheres possuem maneiras diferentes de perceber determinadas situações, expressar sentimentos, processar conflitos e comunicar necessidades. É preciso, contudo, ter cuidado para não transformar observações gerais em caricaturas. Nem todo homem é excessivamente lógico, assim como nem toda mulher é excessivamente sentimental. Há homens profundamente emotivos e mulheres extremamente analíticas. A questão não é estabelecer uma caricatura dos sexos, mas reconhecer que, dentro da realidade conjugal, marido e esposa podem experimentar determinadas necessidades de maneira diferente. Quando essas necessidades não são percebidas ou supridas, as reações também podem ser diferentes. E é justamente aí que começa boa parte dos conflitos conjugais.

Uma das chaves para compreender essa dinâmica é a relação entre amor e respeito. De maneira geral, a esposa deseja sentir-se amada e o marido deseja sentir-se respeitado. Isso não significa que ela não precise de respeito ou que ele não precise de amor. Ambos precisam dos dois. Uma esposa precisa ser amada e respeitada; um marido precisa ser amado e respeitado. Porém, na dinâmica apresentada por essa abordagem, existe uma percepção particularmente importante: o que ela mais deseja é sentir-se amada; aquilo de que ele mais necessita é sentir-se respeitado. Quando essa verdade não é compreendida, aquilo que deveria aproximar marido e esposa pode acabar afastando-os.

O problema é que frequentemente um não reconhece a necessidade do outro. O marido pode acreditar sinceramente que ama sua esposa porque trabalha, sustenta a casa, resolve problemas, protege a família, cumpre suas responsabilidades e estaria disposto a fazer grandes sacrifícios por ela. Entretanto, ele pode não perceber que sua esposa não está apenas perguntando se ele está disposto a morrer por ela; ela deseja perceber o amor dele enquanto ele ainda está vivo, nas pequenas coisas da vida cotidiana. Ela quer perceber carinho, atenção, escuta, consideração e proximidade. Da mesma forma, uma esposa pode acreditar sinceramente que respeita seu marido porque o ama profundamente, mas não perceber que determinadas palavras, críticas, comparações, cobranças ou maneiras de tratar suas decisões comunicam exatamente o contrário daquilo que ela imagina estar transmitindo.

Por isso, uma verdade precisa ser repetida até que se torne impossível esquecê-la: o marido pode amar sua esposa e, ainda assim, não demonstrar amor de uma maneira que ela consiga perceber. A esposa pode amar seu marido e, ainda assim, tratá-lo de uma maneira que ele experimente como desrespeito. Intenção e comunicação nem sempre são a mesma coisa. Podemos dizer “eu amo você” e transmitir rejeição. Podemos acreditar que estamos tentando ajudar e transmitir desprezo. Podemos pensar que estamos corrigindo e fazer o outro sentir-se diminuído. Podemos pensar que estamos apenas evitando uma discussão e fazer o outro experimentar abandono.

É justamente nesse ponto que precisamos compreender aquilo que podemos chamar de Ciclo Insano. Imagine uma esposa que não se sente amada. Ela percebe distância, falta de atenção ou ausência de demonstrações afetivas e começa a reclamar. Quanto menos amada ela se sente, mais tende a falar sobre aquilo que está faltando. O marido, por outro lado, recebe suas palavras como crítica, cobrança ou desrespeito. Ele se sente desrespeitado e, em vez de aproximar-se, pode se calar. Quanto mais ele se cala, mais ela interpreta seu silêncio como falta de amor. Quanto mais ela percebe falta de amor, mais reclama. Quanto mais ela reclama, mais ele percebe desrespeito. E o ciclo continua.

Podemos resumir esse movimento em quatro frases que precisam ficar gravadas em nossa mente: sem amor, ela reclama; sem respeito, ele se cala; o que ela mais deseja é ser amada; o que ele mais necessita é ser respeitado. O problema é que cada um pode estar expressando sua necessidade de uma maneira que produz exatamente a reação que mais teme. Ela deseja amor e, por isso, reclama; ele interpreta a reclamação como desrespeito e se cala. Ele deseja respeito e, por isso, se cala; ela interpreta o silêncio como falta de amor e reclama ainda mais. Aquilo que começou como uma necessidade legítima transforma-se em uma reação que produz uma nova ferida.

É por isso que muitos conflitos conjugais começam antes mesmo de o casal perceber que está entrando em um conflito. Um comentário aparentemente pequeno pode carregar uma mensagem muito maior. Uma pergunta pode ser recebida como acusação. Uma tentativa de aconselhamento pode ser recebida como desqualificação. Um silêncio pode ser recebido como rejeição. Uma reclamação pode ser recebida como desprezo. E, quando marido e mulher deixam de perguntar o que está por trás da reação do outro, começam a responder apenas àquilo que ouviram.

Pensemos em uma frase muito comum: “Não tenho nada para vestir.” O homem pode ouvir literalmente a frase e pensar: “Como assim? O armário está cheio de roupas”. Ele pode imediatamente começar a analisar a afirmação, apresentar argumentos e tentar provar que ela está errada. Mas talvez ela não esteja fazendo uma declaração econômica sobre a quantidade de roupas existentes no guarda-roupa. Talvez esteja comunicando uma frustração, uma insegurança, uma necessidade de atenção ou simplesmente desejando conversar. O homem tende, muitas vezes, a ouvir a informação e procurar resolver o problema; a mulher pode estar procurando, antes de tudo, ser ouvida. Quando ele tenta resolver imediatamente aquilo que ela deseja apenas compartilhar, ela pode sentir que ele não compreendeu seu coração. E quando ela percebe que não foi compreendida, pode aumentar a reclamação. Ele, então, entende a reclamação como mais uma prova de que não consegue conversar com ela sem ser criticado.

O marido precisa aprender algo muito importante: nem toda fala da esposa é um problema a ser solucionado. Algumas vezes ela precisa de uma solução; outras vezes precisa simplesmente ser ouvida. O homem, por sua própria maneira de processar determinadas situações, pode ser profundamente analítico. Ele escuta uma dificuldade e imediatamente começa a procurar a causa, a solução e o caminho para resolver. Essa característica pode ser uma grande virtude. Mas, dentro do casamento, precisa ser acompanhada pela capacidade de ouvir sem transformar imediatamente a conversa em uma sessão de diagnóstico. Às vezes, a esposa não está pedindo uma análise; está pedindo presença. Ela precisa ouvir: “Eu entendo”, “sinto muito”, “imagino como isso foi difícil”, “me perdoe”, “estou aqui”.

Por outro lado, a esposa também precisa compreender algo igualmente importante: a tentativa do marido de analisar, resolver e aconselhar nem sempre significa falta de amor. Muitas vezes, é justamente a maneira pela qual ele procura demonstrar cuidado. O problema não é necessariamente sua intenção, mas a maneira como essa intenção é recebida. Ele pensa: “Se existe um problema, preciso ajudar a resolver”. Ela pensa: “Se ele me amasse, simplesmente me ouviria”. Ele acredita que está oferecendo amor; ela experimenta ausência de amor. Ela acredita que está buscando proximidade; ele experimenta desrespeito. É assim que duas pessoas que se amam podem, sem perceber, entrar em um ciclo de afastamento.

Essa dinâmica aparece de maneira ainda mais clara quando chegamos à crítica. Muitas vezes, a intenção da esposa é fazer com que o marido melhore. Ela percebe algo que considera errado e procura corrigi-lo. Talvez esteja tentando ajudá-lo a ser um marido melhor, um pai melhor, um profissional melhor ou simplesmente uma pessoa melhor. O problema é que a maneira como uma mensagem é transmitida pode produzir uma resposta completamente diferente daquela que se pretendia. Uma crítica que, na cabeça dela, significa “eu quero que você melhore” pode ser ouvida por ele como “você não é bom o suficiente”. Uma correção pode ser recebida como desqualificação. Uma reclamação pode ser interpretada como desprezo. E o homem, ao sentir-se desrespeitado, pode se fechar.

Há uma expressão que ajuda a compreender essa dinâmica: “Ela não me respeita.” Talvez seja isso que o marido esteja ouvindo emocionalmente por trás de determinadas palavras, mesmo que essa nunca tenha sido a intenção da esposa. E quando ele se cala, ela pode ouvir outra mensagem: “Ele não me ama.” Assim, o silêncio dele confirma a interpretação dela, e a reclamação dela confirma a interpretação dele.

O silêncio masculino, nesse contexto, precisa ser compreendido com cuidado. Nem todo silêncio é desprezo, frieza ou falta de sentimento. Às vezes, o silêncio é justamente uma tentativa de não piorar aquilo que já está ruim. O homem pode perceber que, se responder naquele momento, poderá falar palavras duras e ferir ainda mais sua esposa. Então ele se cala. Entretanto, o que para ele é uma tentativa de controlar sua reação pode ser experimentado por ela como abandono emocional. Ela não consegue enxergar o conflito que ele está travando internamente; ela apenas percebe que falou, falou e não recebeu a reação que esperava. Quanto mais ela fala, menos dele recebe; quanto menos ele a faz sentir-se amada, mais ela fala. E quanto mais ela fala, mais ele se fecha.

Aqui está o coração do Ciclo Insano: cada um reage à reação do outro sem perceber que ambos estão alimentando o mesmo ciclo. Ela não está necessariamente pensando: “Hoje vou desrespeitar meu marido”. Ele não está necessariamente pensando: “Hoje vou deixar minha esposa sem amor”. Nenhum dos dois precisa acordar de manhã planejando destruir o casamento. O problema é que pequenas atitudes repetidas podem produzir exatamente esse resultado. A esposa pode desrespeitar o marido sem perceber que está fazendo isso. O marido pode deixar de demonstrar amor sem perceber que está fazendo isso. E os dois podem continuar afirmando que se amam enquanto, na prática, estão se machucando.

É nesse ponto que Provérbios 14:1 precisa ser levado a sério: “A mulher sábia edifica a sua casa, mas com as próprias mãos a insensata derruba a sua.” A Escritura reconhece de maneira muito forte a influência da mulher sobre o ambiente do lar. A mulher sábia possui capacidade de edificar sua casa; a insensata pode, pelas próprias mãos, contribuir para sua destruição. Isso não significa que o marido esteja isento de responsabilidade. Pelo contrário, Efésios 5 responsabiliza profundamente o marido por amar sua esposa sacrificialmente. Mas o provérbio nos lembra que as palavras, atitudes e escolhas da esposa possuem enorme poder sobre a atmosfera do lar.

Às vezes, a mulher pode estar destruindo aquilo que mais deseja receber. Ela deseja ser amada, mas trata o marido de uma maneira que comunica desrespeito. Talvez não tenha consciência disso. Talvez nunca tenha pensado: “Hoje vou desrespeitar meu marido”. Mas, por meio de críticas constantes, palavras ásperas, comparações, humilhações ou desqualificação, pode produzir nele exatamente aquilo que mais teme: distanciamento. E quanto mais ele se distancia, mais ela sente que não é amada. Então ela reclama mais. O ciclo se fortalece.

É preciso dizer isso com toda clareza: palavras podem assassinar a reputação de uma pessoa dentro da própria casa. Há mulheres extremamente habilidosas em apontar defeitos, lembrar fracassos, expor erros e atingir exatamente os pontos frágeis do marido. Muitas vezes fazem isso sem perceber o poder destrutivo de suas palavras. O marido pode suportar críticas vindas de outras pessoas e reagir; mas, quando vêm da mulher que ama, podem atingir profundamente sua identidade. Não porque o homem seja incapaz de receber correção, mas porque existe uma diferença entre ser corrigido por alguém e ser constantemente desqualificado por alguém cuja opinião possui enorme peso emocional.

Da mesma forma, os homens possuem seu próprio modo de ferir. Os homens podem ser excelentes em ignorar os sentimentos das mulheres. Podem ouvir uma dor e responder com uma solução. Podem ouvir uma lágrima e oferecer um argumento. Podem ouvir uma reclamação e apresentar uma lista de razões pelas quais ela está errada. Podem acreditar que estão sendo objetivos enquanto a esposa sente que está sendo abandonada emocionalmente. O marido precisa aprender que ouvir não significa necessariamente concordar, e demonstrar empatia não significa admitir culpa. Às vezes, amar a esposa significa simplesmente parar e ouvir.

Por isso, marido, quando sua esposa reclamar, criticar ou chorar, procure ouvir além das palavras. Algumas vezes, por trás de tudo aquilo está uma mensagem muito simples: “Eu quero me sentir amada.” Isso não significa que toda reclamação esteja correta. Não significa que toda crítica seja justa. Não significa que o marido deva concordar com tudo. Significa que, antes de responder à forma da mensagem, ele pode procurar compreender a necessidade que existe por trás dela. Talvez ela não esteja dizendo apenas “você nunca faz isso”; talvez esteja dizendo “sinto falta de você”. Talvez não esteja dizendo apenas “você não presta atenção”; talvez esteja dizendo “preciso sentir que sou importante para você”.

E existe uma cena particularmente dolorosa dentro do casamento: o homem sabe que daria a própria vida por sua esposa, mas ouve dela: “Você não me ama.” Ele pensa em tudo aquilo que faria por ela e não consegue compreender como ela pode dizer isso. Mas talvez a questão seja exatamente essa: ele está pensando no amor como disposição para um grande sacrifício, enquanto ela está pensando no amor como uma realidade que precisa ser experimentada diariamente. Ele pensa: “Eu morreria por você”. Ela responde emocionalmente: “Eu sei, mas eu queria que você conversasse comigo hoje”. Os dois podem estar falando sobre amor, mas estão falando linguagens diferentes.

Ao mesmo tempo, esposa, existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: “Você deseja ser tratada como princesa ou ser reverenciada como rainha?” A pergunta não pretende diminuir a dignidade da mulher, mas provocar reflexão sobre aquilo que acontece quando o relacionamento conjugal se transforma em uma disputa de autoridade. No casamento cristão não existe espaço para dois soberanos competindo pelo trono. O lar não deve ser um reino onde marido e esposa disputam quem dará a última palavra. O marido não foi chamado para ser um tirano, e a esposa não foi chamada para ser uma adversária. Ambos foram chamados a viver debaixo do senhorio de Cristo.

O marido deve ser respeitado como aquele que, segundo o padrão de Efésios 5, deve estar disposto a amar sacrificialmente sua esposa, assim como Cristo amou a Igreja. O texto bíblico apresenta um padrão elevadíssimo para o marido: Cristo não amou a Igreja de maneira conveniente; entregou-se por ela. Portanto, o homem que exige respeito sem assumir a responsabilidade de amar está mutilando o próprio ensino bíblico. O marido não pode dizer “quero ser respeitado” enquanto negligencia aquilo que Deus ordenou a ele. Da mesma forma, a esposa não pode dizer “quero ser amada” enquanto utiliza constantemente palavras e atitudes que comunicam desprezo.

Amor e respeito precisam ser incondicionais. O marido não deveria dizer: “Como posso demonstrar amor se não sou respeitado?”. A esposa não deveria dizer: “Como posso respeitar se não sou amada?”. Se cada um esperar que o outro cumpra primeiro sua obrigação, o Ciclo Insano continuará funcionando. A esposa espera amor para oferecer respeito; o marido espera respeito para oferecer amor. E ninguém começa. O casamento fica paralisado.

A Escritura, entretanto, chama cada um a obedecer independentemente da resposta do outro. O marido deve amar. A esposa deve respeitar. Isso não significa que o comportamento do outro seja irrelevante, mas significa que minha responsabilidade diante de Deus não pode ser determinada pela desobediência do outro. O marido não deixa de ser responsável por amar porque sua esposa está sendo difícil. A esposa não deixa de ser responsável por respeitar porque seu marido falhou. Ambos precisam responder diante de Deus pelo próprio coração, pelas próprias palavras e pelas próprias atitudes.

Isso é especialmente importante porque existe uma tendência humana de justificar o próprio comportamento pelo comportamento do outro. “Eu falei assim porque ele fez aquilo.” “Eu me calei porque ela começou.” “Eu critiquei porque ele não muda.” “Eu me afastei porque ela não me respeita.” E assim todos encontram uma razão para continuar fazendo exatamente aquilo que mantém o ciclo funcionando.

Mas alguém precisa parar.

Quem deve iniciar a transformação?

A resposta mais madura não é necessariamente “quem começou”. É quem tem maturidade para começar. Se o marido percebe o ciclo, que comece ele. Se a esposa percebe o ciclo, que comece ela. Se ambos perceberem, melhor ainda: comecem os dois. O casamento não precisa ser uma investigação para descobrir quem é o culpado original. O objetivo não é encontrar o primeiro dominó que caiu; é impedir que os próximos continuem caindo.

Talvez o marido precise dizer: “Eu percebi que tenho amado você apenas da maneira que eu considero amor. Quero aprender a demonstrar isso de uma maneira que você consiga perceber.” Talvez a esposa precise dizer: “Percebi que minhas palavras têm comunicado desrespeito, mesmo quando minha intenção era ajudar. Quero aprender a falar com você de outra maneira.” Essas frases exigem humildade. E a humildade é uma das grandes ferramentas de restauração dentro do casamento.

Esposa, pense também em uma pergunta desconcertante, mas extremamente útil: “O que eu faria se meu filho se casasse com uma mulher exatamente como eu?” Se a resposta produzir desconforto, talvez seja hora de olhar para dentro. Que tipo de esposa você gostaria que seu filho tivesse? Uma mulher que o corrigisse constantemente, o diminuísse, o comparasse e o tratasse com desprezo? Ou uma mulher que pudesse discordar dele sem humilhá-lo, corrigi-lo sem destruí-lo e ajudá-lo sem desqualificá-lo? A pergunta não é para produzir culpa, mas reflexão. A mesma mulher que deseja que seu filho seja respeitado por sua futura esposa precisa perguntar se está ensinando esse padrão dentro da própria casa.

Marido, a pergunta também precisa ser feita a você. Que tipo de homem você está ensinando seus filhos a ser? Eles estão vendo um homem que ama sua esposa? Estão vendo alguém capaz de pedir perdão? Estão vendo alguém que ouve? Estão vendo um marido que protege sua esposa inclusive das próprias palavras? Ou estão aprendendo que masculinidade significa silêncio, distância emocional, dureza e incapacidade de reconhecer erros? Seus filhos aprendem casamento observando o casamento de seus pais muito mais do que ouvindo discursos sobre casamento.

É necessário, portanto, ter cuidado para não cair no Ciclo Insano. Sem amor, ela reclama. Sem respeito, ele se cala. Quanto mais ela reclama, mais ele se cala. Quanto mais ele se cala, mais ela reclama. O ciclo pode continuar por anos se ninguém decidir interrompê-lo. Mas a mesma relação que pode alimentar um ciclo destrutivo pode alimentar um ciclo de restauração. Quando o marido demonstra amor, a esposa pode sentir-se segura para responder com respeito. Quando a esposa demonstra respeito, o marido pode sentir-se encorajado a demonstrar amor. Uma atitude pode estimular a outra.

E talvez essa seja uma das decisões mais importantes que um casal possa tomar: não esperar que o outro comece.

Comece você.

  • Se é marido, ame.
  • Se é esposa, respeite.
  • Se você errou, peça perdão.
  • Se foi ferido, procure perdoar.
  • Se não entendeu, pergunte.
  • Se ela estiver falando, ouça.
  • Se ele estiver em silêncio, procure compreender antes de interpretar.
  • Se você precisa corrigir, faça isso sem humilhar.
  • Se você precisa discordar, faça isso sem desprezar.
  • Se você está certo, não precisa transformar sua razão em uma arma.
  • E se você estiver errado, tenha coragem de dizer: “Eu errei.”

No casamento cristão, maturidade não significa nunca errar. Significa reconhecer o erro com humildade e permitir que a graça de Deus transforme aquilo que precisa ser transformado.

No final, amor e respeito não são simplesmente técnicas para melhorar a comunicação conjugal. São expressões de uma vida submetida a Deus. O marido que ama sua esposa está respondendo ao chamado de Cristo. A esposa que respeita seu marido está respondendo ao chamado de Cristo. E quando ambos deixam de viver em função daquilo que recebem e passam a viver em função daquilo que Deus ordena, o casamento começa a experimentar uma mudança profunda.

O Ciclo Insano precisa ser interrompido.

Não amanhã, não quando o outro mudar, não quando ele aprender a amar, não quando ela aprender a respeitar, mas Agora.

Porque talvez o primeiro passo para salvar uma conversa seja parar de tentar vencer a discussão. Talvez o primeiro passo para restaurar a intimidade seja reconhecer a ferida. Talvez o primeiro passo para recuperar o amor seja aprender novamente a respeitar. Talvez o primeiro passo para recuperar o respeito seja voltar a demonstrar amor.

E talvez, depois de tantas palavras duras, o casamento precise simplesmente ouvir novamente duas palavras que nunca deveriam desaparecer de dentro de uma casa:

“Eu amo você.”

E duas outras:

“Eu respeito você.”

Não como uma fórmula mágica, mas como uma decisão consciente de viver o casamento diante de Deus.

Porque quando marido e esposa deixam de lutar um contra o outro e começam a lutar pelo casamento, o ciclo pode ser quebrado. E quando o amor volta a ser demonstrado e o respeito volta a ser praticado, aquilo que antes alimentava a distância pode começar a alimentar a aproximação.

O casamento continua tendo problemas. Continuamos sendo pecadores. Continuamos precisando da graça. Mas agora existe uma diferença: não estamos mais sozinhos tentando consertar nosso casamento com nossas próprias forças. Estamos aprendendo a viver nossa aliança debaixo da Palavra de Deus.

E é aí que amor e respeito deixam de ser apenas palavras.

Tornam-se uma maneira de viver.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Efésios 5:21–33; Provérbios 14:1; Romanos 5:8; Tito 2:4–5; Eclesiastes 9:9.

EGGERICHS, Emerson. Amor e Respeito: O que ela mais deseja, o que ele mais precisa. São Paulo: Thomas Nelson Brasil.

Soli Deo gloria

Quem disse que os dons cessaram? A Bíblia certamente não!

Há perguntas que a igreja não deveria responder com base naquilo que experimentou, mas naquilo que está escrito. A questão da continuidade dos dons espirituais é uma delas. Durante muito tempo, o debate entre cessacionistas e continuístas foi conduzido como se houvesse apenas duas alternativas: de um lado, aceitar todo tipo de manifestação atribuída ao Espírito Santo, sem discernimento, critério ou submissão às Escrituras; de outro, concluir que dons como profecia, línguas, interpretação e curas pertenciam exclusivamente ao período apostólico e desapareceram com o encerramento daquela era. Essa polarização, porém, é desnecessária. É perfeitamente possível rejeitar os excessos cometidos em nome do Espírito sem rejeitar os dons do Espírito; defender vigorosamente a suficiência das Escrituras sem afirmar aquilo que as próprias Escrituras não afirmam; e reconhecer que existem abusos no meio carismático sem transformar o abuso de uma dádiva em argumento para a inexistência da dádiva. Afinal, falsos mestres não nos fizeram abandonar o ensino, falsas conversões não nos fizeram abandonar o evangelismo e orações equivocadas não nos fizeram abandonar a oração. Por que, então, manifestações equivocadas dos dons deveriam provar que os dons verdadeiros desapareceram?

Wayne Grudem começa sua discussão reconhecendo exatamente o ponto em disputa. Há cristãos que entendem que todos os dons mencionados no Novo Testamento permanecem disponíveis à igreja, enquanto outros sustentam que determinados dons mais extraordinários — especialmente profecia, línguas, interpretação, curas e manifestações semelhantes — foram concedidos para autenticar os apóstolos durante o período inicial da proclamação do evangelho e, consequentemente, desapareceram com o fim da era apostólica. A questão, portanto, não é se os dons um dia cessarão. Nesse ponto, Paulo é suficientemente claro: profecias desaparecerão, línguas cessarão e o conhecimento parcial passará. A verdadeira questão é outra: quando isso acontecerá? É justamente aqui que 1Coríntios 13.8-13 se torna decisivo. O debate não deveria começar perguntando se gostamos ou não das manifestações carismáticas contemporâneas, nem relatando experiências positivas ou negativas que tivemos em ambientes pentecostais. A pergunta deve ser exegética: qual foi o momento determinado por Paulo para a cessação daquilo que é parcial?

Sim, os dons cessarão — mas quando?

Curiosamente, o continuísta não precisa negar que os dons cessarão. Pelo contrário, pode afirmar isso tranquilamente, porque Paulo o afirma. “Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo conhecimento, passará” (1Co 13.8). Portanto, não existe qualquer necessidade de defender uma permanência eterna dos dons. Eles pertencem à presente condição da igreja peregrina. São provisões divinas para um povo que ainda caminha pela fé, ainda não vê o Senhor face a face e ainda conhece em parte. O ponto crucial aparece logo depois: “porque conhecemos em parte e profetizamos em parte. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é parcial passará” (1Co 13.9-10). O texto fornecido chama atenção para a repetição da expressão grega ek merous, “em parte”, “parcialmente”, ligando diretamente nosso conhecimento presente e a profecia à condição incompleta desta era. Os dons são temporários não porque sejam defeituosos como dádivas de Deus, mas porque servem a uma igreja que ainda vive em uma condição escatologicamente incompleta.

Isso muda significativamente a pergunta. Paulo não está discutindo primeiramente a formação do cânon, a morte do último apóstolo ou a maturidade institucional da igreja. Seu contraste fundamental é entre o agora e o depois, entre nossa condição presente e aquilo que acontecerá quando vier “o perfeito”. Hoje conhecemos parcialmente; depois conheceremos de outra maneira. Hoje enxergamos obscuramente; depois veremos face a face. Hoje precisamos daquilo que pertence à nossa peregrinação; então chegaremos à consumação. Os dons, portanto, são provisórios precisamente porque a presente era é provisória. Eles pertencem ao tempo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. São ferramentas para a igreja que espera, serve, testemunha, sofre, evangeliza e edifica enquanto aguarda seu Senhor.

Há ainda uma beleza pastoral nesse argumento que facilmente desaparece quando transformamos 1Coríntios 13 apenas em munição para uma controvérsia. Paulo não escreveu esse capítulo simplesmente para estabelecer uma cronologia dos dons. Seu grande propósito é mostrar a supremacia do amor. A discussão sobre dons em 1Coríntios 12 desemboca no capítulo 13 e continua no capítulo 14. O amor está no centro porque dons sem amor podem produzir barulho religioso sem edificação espiritual. Podemos buscar os dons e, ao mesmo tempo, buscá-los pelas razões erradas. Podemos desejar manifestações espirituais para sermos vistos, admirados ou considerados mais espirituais que os outros. É por isso que o apóstolo coloca tudo debaixo da supremacia do amor: os dons são importantes, mas o amor é maior; os dons são temporários, mas o amor é eterno. O material de Grudem ressalta precisamente que o argumento de Paulo consiste em contrastar aquilo que permanece para sempre com os dons, que possuem uma função temporária.

O “perfeito” não é a Bíblia

Uma das interpretações mais conhecidas dentro de determinadas formas de cessacionismo afirma que “quando vier o que é perfeito” refere-se à conclusão do cânon do Novo Testamento. Segundo essa leitura, enquanto as Escrituras ainda estavam sendo produzidas, a igreja necessitava de determinados meios revelacionais; uma vez concluído o cânon, esses dons teriam perdido sua função. É importante reconhecer que essa posição geralmente nasce de uma preocupação legítima: preservar a autoridade, a suficiência e a finalidade das Escrituras. Essa preocupação deve ser compartilhada pelos continuístas. Nenhuma profecia contemporânea, impressão espiritual, sonho, visão ou manifestação pode ser colocada no mesmo nível da Escritura, acrescentar doutrina ao depósito apostólico ou funcionar como uma espécie de “Bíblia 2.0”. Nesse ponto, qualquer continuísmo responsável precisa estabelecer limites claros. Entretanto, uma preocupação teológica legítima não pode determinar antecipadamente a interpretação de um texto. A pergunta continua sendo: Paulo estava falando sobre o fechamento do cânon em 1Coríntios 13?

O problema é que nada no contexto imediato menciona o fechamento do cânon. Não há referência à conclusão dos escritos apostólicos, à reunião dos livros do Novo Testamento ou ao momento em que a igreja possuiria todas as Escrituras. Essas ideias precisam ser introduzidas no texto a partir de fora. Robert L. Reymondem em What about continuing revelations and miracles in the Presbyterian Church today?, diz que os elementos “imperfeitos” seriam meios incompletos de revelação e, consequentemente, “o perfeito” deveria ser um meio completo de revelação, identificado com o processo revelacional que culminou nas Escrituras. Grudem considera o raciocínio coerente internamente, mas chama atenção para sua pressuposição determinante: é preciso primeiro assumir que a profecia congregacional neotestamentária possui necessariamente autoridade equivalente à Escritura para então chegar à conclusão de que sua existência seria incompatível com um cânon completo.

Em outras palavras, a conclusão depende daquilo que primeiro precisaria ser demonstrado. E existe uma dificuldade ainda maior. Paulo explica o que acontecerá quando chegar “o perfeito” utilizando expressões extraordinariamente fortes: “então veremos face a face” e “então conhecerei plenamente, assim como também sou conhecido plenamente”. O argumento apresentado por Grudem é que essa linguagem se encaixa muito mais naturalmente na consumação escatológica do que no fechamento do cânon. O apóstolo não está dizendo que possuirá uma Bíblia completa em suas mãos; está apontando para o dia em que a presente condição de conhecimento parcial será superada pela presença de Cristo. A linguagem de ver “face a face”, considerada à luz de seu pano de fundo bíblico, aponta para um encontro pessoal com Deus. É a esperança que alcança sua expressão final em Apocalipse 22.4: “contemplarão a sua face”.

Aqui surge uma pergunta desconfortável para a interpretação que identifica “o perfeito” com o cânon completo: nós realmente conhecemos hoje como somos conhecidos? A posse das Escrituras completas fez com que nossa percepção deixasse de ser parcial? Deixamos de enxergar “como por espelho, obscuramente”? Certamente não. Temos algo que Paulo e os primeiros cristãos ainda não possuíam em sua forma final: o cânon completo do Novo Testamento. E devemos agradecer profundamente a Deus por isso. Mas continuamos esperando. Continuamos caminhando pela fé. Continuamos sujeitos a interpretações equivocadas, limitações, fraquezas e incompreensões. A condição descrita como “face a face” ainda está diante de nós. Grudem ainda argumenta sobre Martyn Lloyd-Jones: identificar “o perfeito” com o fechamento do cânon produziria a estranha implicação de que nós, simplesmente por possuirmos o Novo Testamento completo, estaríamos numa condição de conhecimento superior à do próprio apóstolo Paulo.

Se Cristo ainda não voltou, por que declarar encerrado aquilo que Paulo colocou até sua volta?

É aqui que o argumento se torna particularmente forte. Se “o perfeito” aponta para a volta de Cristo, então Paulo localiza a cessação dos dons não no final do primeiro século, mas na consumação. Grudem parafraseia o argumento de 1Coríntios 13.10 desta maneira: quando Cristo voltar, profecia, línguas e os demais dons parciais passarão. Sua conclusão é igualmente explícita: isso implica que tais dons continuam sendo úteis à igreja durante a era presente, inclusive hoje, até o dia em que Cristo retornar.

Essa conclusão encontra um paralelo significativo no início da própria carta. Em 1Coríntios 1.7, Paulo diz aos coríntios: “não lhes falta nenhum dom, enquanto aguardam a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo”. A relação é impressionante. A igreja possui os charismata enquanto aguarda a manifestação de Cristo. Os dons pertencem, portanto, à igreja que espera. Não são apresentados apenas como andaimes utilizados durante a construção inicial do edifício e posteriormente descartados; são provisões concedidas à comunidade cristã durante sua peregrinação escatológica. O material de Grudem interpreta esse texto como um paralelo importante de 1Coríntios 13: os dons equipam os cristãos para o ministério enquanto aguardam a volta do Senhor.

É preciso, contudo, evitar uma conclusão maior do que a evidência permite. Demonstrar que 1Coríntios 13 não ensina a cessação dos dons no fechamento do cânon não resolve automaticamente todas as questões relacionadas ao continuísmo. Ainda precisamos discutir o que é profecia no Novo Testamento, como ela se relaciona com a autoridade das Escrituras, o que significa falar em línguas, como os dons devem ser avaliados, quais critérios regulam seu exercício e como distinguir uma manifestação genuína de entusiasmo humano, manipulação religiosa ou erro. Uma teologia continuísta madura não deveria fugir dessas perguntas. Pelo contrário, deve enfrentá-las precisamente porque leva os dons a sério. Dizer “os dons continuam” é apenas o começo da conversa, não o fim. Nos próximos artigos falarei sobre o dom de profecia com detalhes.

Continuidade não significa credulidade

Aqui precisamos conversar pastoralmente com nosso próprio campo. Defender a continuidade dos dons não significa autenticar automaticamente tudo aquilo que alguém chama de manifestação espiritual. Nem toda emoção intensa é presença do Espírito. Nem todo arrepio é unção. Nem toda frase iniciada com “Deus me revelou” veio de Deus. Nem toda reunião barulhenta é avivamento, assim como nem toda reunião silenciosa é reverente. A igreja não recebeu autorização para trocar discernimento por entusiasmo. O mesmo Paulo que diz “não apaguem o Espírito” imediatamente acrescenta: “não desprezem as profecias; examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.19-21). Observe o equilíbrio apostólico: não apagar, não desprezar, examinar e reter. Esse equilíbrio é muito mais difícil do que simplesmente aceitar tudo ou rejeitar tudo.

Por isso, o continuísmo saudável precisa andar de mãos dadas com uma robusta doutrina das Escrituras. A Bíblia permanece nossa única regra infalível de fé e prática. Nenhuma manifestação espiritual possui autoridade para corrigir a Escritura, acrescentar novas doutrinas ao evangelho ou obrigar universalmente a consciência cristã como a Palavra inspirada de Deus. A continuidade dos dons não implica continuidade do apostolado fundacional nem abertura do cânon. Efésios 2.20 descreve a igreja edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo Cristo como pedra angular. Fundamentos não são lançados repetidamente. Portanto, defender que o Espírito continua distribuindo dons não exige que imaginemos novos apóstolos escrevendo novas Escrituras ou novos profetas competindo com Isaías, Paulo ou João. Essa distinção precisa ser preservada se quisermos construir uma pneumatologia biblicamente responsável.

Da mesma maneira, a centralidade do Espírito Santo jamais pode ser separada da centralidade de Cristo. O Espírito não veio estabelecer um espetáculo paralelo ao evangelho. Ele glorifica Cristo, edifica a igreja, distribui dons soberanamente e capacita o povo de Deus para o serviço. Por isso, a pergunta mais madura não é simplesmente: “Houve manifestação?” A pergunta é: Cristo foi glorificado? A igreja foi edificada? A Palavra permaneceu soberana? Houve amor? Houve ordem? Houve discernimento? Paulo não opõe Espírito e ordem em 1Coríntios 14; ele exige ambos. A mesma igreja que é instruída a desejar os dons espirituais também recebe a ordem de fazer tudo “com decência e ordem” (1Co 14.40). Espontaneidade não é sinônimo de desordem, e ordem não precisa significar ausência de manifestação espiritual.

Talvez o problema não seja o silêncio de Deus, mas nossa teologia do Espírito

Existe uma ironia que merece nossa atenção. Alguns cristãos reconhecem sem dificuldade que Deus continua salvando, santificando, consolando, guiando, respondendo orações, fortalecendo missionários e agindo providencialmente na história, mas ficam profundamente desconfortáveis diante da possibilidade de que o Espírito continue distribuindo determinados dons mencionados explicitamente no Novo Testamento. Evidentemente, desconforto não é argumento teológico. A pergunta não é aquilo com que estamos acostumados, mas aquilo que podemos demonstrar biblicamente.

Também seria injusto caricaturar nossos irmãos cessacionistas como pessoas que não creem na atuação do Espírito Santo. Muitos deles possuem profunda piedade, sólida teologia, compromisso missionário e uma compreensão robusta da providência e da atuação soberana de Deus. O debate precisa ser conduzido com respeito. A discordância está em um ponto mais específico: existe fundamento bíblico suficiente para afirmar que determinados dons foram retirados da igreja antes da volta de Cristo? E, particularmente em 1Coríntios 13, o argumento analisado por Grudem indica que não.

Isso é importante porque o ônus da prova não pode ser ignorado. Se o Novo Testamento ordena “procurai, com zelo, os dons espirituais” (1Co 14.1), “procurai abundar neles, para a edificação da igreja” (14.12), “procurai, com zelo, profetizar e não proibais falar em línguas” (14.39), então a afirmação de que algumas dessas instruções deixaram de ser aplicáveis exige fundamento bíblico consistente. Não basta argumentar que houve abusos, porque Paulo escreveu 1Coríntios justamente para uma igreja em que havia abusos. E é profundamente instrutivo observar sua resposta pastoral: diante do abuso dos dons, Paulo não ordenou a extinção deles; ordenou sua correção.

Corinto tinha problemas suficientes para fazer qualquer pastor perder algumas noites de sono. Havia competição, imaturidade, desordem e manifestações sendo utilizadas de maneira inadequada. Mesmo assim, Paulo não escreveu: “Irmãos, diante de tanta confusão, parem com tudo”. Ele ensinou. Regulamentou. Corrigiu. Colocou o amor no centro. Estabeleceu critérios de edificação. Exigiu ordem. E, depois de tudo isso, ainda disse: “não proibais falar em línguas”. Talvez haja aqui uma lição pastoral importante para nosso tempo: o remédio bíblico para o abuso não é o abandono, mas a reforma.

Não precisamos escolher entre Palavra e Espírito

Talvez uma das maiores tragédias da história recente da igreja seja a falsa oposição entre igrejas “da Palavra” e igrejas “do Espírito”. Essa divisão é teologicamente insustentável. Quem inspirou a Palavra? O Espírito. Quem ilumina a mente para compreendê-la? O Espírito. Quem aplica a obra de Cristo ao coração? O Espírito. Quem distribui dons à igreja? O mesmo Espírito. Portanto, não existe cristianismo autenticamente bíblico que obrigue a igreja a escolher entre Escritura e Espírito Santo.

Precisamos de igrejas profundamente bíblicas e genuinamente abertas à atuação do Espírito; igrejas capazes de estudar cuidadosamente uma palavra grega em 1Coríntios 13 e, ao mesmo tempo, dobrar os joelhos pedindo que Deus manifeste seu poder; igrejas que conheçam teologia sistemática, mas também saibam orar pelos enfermos; igrejas que não sejam enganadas por charlatães, mas também não transformem prudência em incredulidade prática; igrejas que saibam dizer “isso não é bíblico” quando necessário e, com a mesma convicção, dizer “não apaguem o Espírito”.

O continuísmo que precisamos não é triunfalista. Não promete milagres sob demanda. Não transforma dons em mercadoria. Não mede espiritualidade pelo volume do culto. Não cria uma elite dos “ungidos”. Não substitui pregação por espetáculo. Não permite que alguém utilize “Deus me disse” como mecanismo de controle sobre a consciência de outro cristão. Não diminui o sofrimento, não culpa automaticamente o enfermo pela ausência de cura e não transforma a soberania divina numa máquina previsível. Precisamos de um continuísmo bíblico, cristocêntrico, pastoral, criterioso e humilde.

Até que Ele venha

No fim das contas, a questão dos dons é também uma questão de escatologia. Vivemos entre o “já” e o “ainda não”. Cristo já ressuscitou, mas ainda aguardamos nossa ressurreição. O Reino já foi inaugurado, mas ainda aguardamos sua consumação. O Espírito já foi derramado, mas ainda aguardamos a redenção completa de nosso corpo. Já conhecemos Deus verdadeiramente, mas ainda conhecemos em parte. Já vemos a glória de Cristo pela fé, mas ainda não o vemos face a face.

É exatamente nesse intervalo que os dons fazem sentido.

  • Eles pertencem a uma igreja peregrina.
  • A uma igreja que conhece em parte.
  • A uma igreja que ainda necessita de edificação.
  • A uma igreja que geme.
  • A uma igreja que evangeliza.
  • A uma igreja que sofre.
  • A uma igreja que ora.
  • A uma igreja que espera.

Quando Cristo voltar, não precisaremos mais dos sinais que pertencem à peregrinação porque teremos chegado ao destino. Não precisaremos daquilo que é parcial porque estaremos diante daquele que é perfeito. Não veremos mais obscuramente, como por espelho, mas face a face. A esperança dará lugar à visão. A fé encontrará seu objeto diante dos olhos. E os dons terão cumprido sua missão.

Mas Cristo ainda não voltou.

Essa talvez seja a frase mais simples e, ao mesmo tempo, mais provocativa de toda essa discussão. Se Paulo relaciona a passagem daquilo que é parcial com a chegada da consumação; se associa nosso presente conhecimento parcial à futura visão “face a face”; se descreve os charismata como pertencentes à igreja enquanto ela aguarda a revelação de Jesus Cristo; então devemos ter muito cuidado antes de anunciar o encerramento de algo cujo término o apóstolo colocou no horizonte da volta do Senhor.

Sim, os dons cessarão.

Mas não fomos nós que recebemos autoridade para antecipar a data de sua cessação.

Até lá, nossa responsabilidade não é inventar manifestações, nem falsificar experiências, nem aceitar qualquer coisa em nome do Espírito. Também não é apagar aquilo que Deus deseja fazer em sua igreja. Nossa responsabilidade é mais difícil e mais bonita: buscar os dons sem abandonar o amor; desejar a atuação do Espírito sem diminuir a suficiência das Escrituras; exercer discernimento sem cair no medo; cultivar ordem sem sufocar a vida; testar tudo sem desprezar aquilo que é genuíno.

A igreja não precisa escolher entre verdade e poder, Escritura e Espírito, doutrina e experiência. Precisamos da Palavra que o Espírito inspirou e do Espírito que age conforme a Palavra.

E continuaremos precisando até que Ele venha.

Referências para aprofundamento

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova. Especialmente a discussão sobre a continuidade e cessação dos dons espirituais e a interpretação de 1Coríntios 13.8-13.

BÍBLIA SAGRADA. 1Coríntios 1.7; 12–14; 1Tessalonicenses 5.19-21; Efésios 2.20; Apocalipse 22.4.

Para compreender adequadamente o debate, também é proveitoso observar que o próprio material de Grudem dialoga com representantes da posição cessacionista, particularmente Robert L. Reymond, Walter Chantry e Richard Gaffin, procurando responder a seus argumentos exegéticos em vez de simplesmente descartá-los. Essa abordagem é importante: divergências entre cristãos comprometidos com a autoridade bíblica devem ser tratadas com exegese cuidadosa, argumentos verificáveis e caridade cristã, não com caricaturas.

Soli Deo gloria

Como viveremos – quem está formando sua mente?

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” — Romanos 12.2

Vivemos em um tempo em que ninguém precisa mais declarar abertamente que não quer Deus. Basta construir uma sociedade na qual Deus deixe de ser necessário. A cultura contemporânea é marcada por elementos como a pós-modernidade, o relativismo, a pós-verdade e a valorização da experiência pessoal. Somos constantemente ensinados a acreditar que não existe uma verdade absoluta, que cada pessoa possui sua própria verdade, que nossas escolhas pertencem exclusivamente à esfera individual e que ninguém deveria interferir na maneira como decidimos viver. Ao mesmo tempo, a religião é frequentemente empurrada para o âmbito privado, como se a fé pudesse ser tolerada desde que permanecesse dentro das quatro paredes da igreja e não tivesse influência sobre a maneira como pensamos a respeito da política, da educação, da família, da sexualidade, da moralidade, do trabalho ou da vida pública. Entretanto, a fé cristã nunca foi apresentada nas Escrituras como uma experiência restrita ao espaço religioso. O evangelho alcança a totalidade da existência humana, porque Cristo não é Senhor apenas do culto que prestamos no domingo; ele é Senhor da nossa mente, dos nossos relacionamentos, das nossas decisões, dos nossos valores e de toda a nossa existência.

É justamente aqui que encontramos uma questão fundamental: a maneira como pensamos determina, em grande medida, a maneira como vivemos. Por isso, precisamos perguntar honestamente: nossa fé tem moldado nossos pensamentos e, consequentemente, nossas ações? Vivemos em uma cultura que nos ensina a consumir antes de nos ensinar a agradecer, a buscar realização antes de buscar santidade, a defender nossos direitos antes de reconhecer nossos deveres, a seguir nossos sentimentos antes de examinar nossos desejos e a perguntar “o que eu quero?” antes de perguntar “o que Deus quer?”. O mais perigoso, porém, é que essa formação cultural raramente acontece por meio de grandes discursos filosóficos. Ela acontece de maneira muito mais silenciosa e cotidiana: nas músicas que ouvimos, nos filmes e séries que assistimos, nos vídeos que consumimos, nas redes sociais que acessamos diariamente, nas propagandas que determinam o que aparentemente precisamos para sermos felizes, nos influenciadores que admiramos, nas conversas que mantemos, na escola, na universidade, no ambiente profissional e até mesmo nas expressões que repetimos sem perceber a visão de mundo que carregam. Muitas vezes ninguém precisa nos convencer diretamente de uma determinada ideia; basta repeti-la tantas vezes que ela deixe de parecer uma ideia e passe a parecer simplesmente a realidade. A cultura não apenas nos ensina o que pensar; ela também nos ensina aquilo que devemos considerar normal.

É nesse contexto que devemos compreender a proposta da série “Como Viveremos? — O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade”. Não estamos tentando construir uma igreja assustada com a cultura, tampouco uma comunidade cristã escondida em uma espécie de bolha religiosa. Também não estamos simplesmente procurando motivos para reclamar do mundo. A pergunta é muito mais séria: como um cristão permanece fiel a Cristo quando vive em uma cultura que pensa de maneira cada vez mais diferente da fé cristã? Como devemos criar nossos filhos? Como escolhemos nossos valores? Como discernimos aquilo que devemos aceitar e aquilo que precisamos rejeitar? Como podemos estar no mundo sem permitir que o mundo determine aquilo que pensamos, amamos e fazemos? Na primeira mensagem, voltamos ao Éden e refletimos sobre “A Primeira Grande Mentira”, percebendo que a queda começou antes de o fruto ser tomado, pois a serpente começou atacando a maneira como o ser humano pensava sobre Deus. Na segunda mensagem, avançamos na história e observamos o que acontece quando Deus deixa de ocupar o centro da cosmovisão humana: Deus é substituído pela razão, a razão pelo homem, o homem pelo eu e, cada vez mais, o eu pelos próprios sentimentos. Agora precisamos avançar um passo e perguntar: como essas ideias chegaram até nós? Como uma ideia filosófica se transforma em comportamento? Como aquilo que começa nas universidades chega às nossas casas? Como uma visão de mundo que nunca estudamos conscientemente começa a determinar nossas escolhas, nossos desejos, nossos medos e até aquilo que consideramos normal? A resposta é simples, mas profundamente inquietante: alguém está formando a nossa mente.

Você pode nunca ter estudado filosofia, mas alguém está ensinando você a pensar. Pode nunca ter lido um livro sobre pós-modernidade, mas está diariamente exposto a uma visão pós-moderna de mundo. Pode nunca ter estudado formalmente o relativismo moral, mas pode ter aprendido a viver como se cada pessoa pudesse estabelecer sua própria verdade. Pode nunca ter estudado a ideia de autonomia humana, mas pode ter aprendido a acreditar que ninguém possui autoridade para dizer como você deve viver. A ausência de uma formação consciente não significa ausência de formação. É justamente por isso que Paulo escreve aos cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). Observe a profundidade da linguagem do apóstolo. Paulo não diz simplesmente: “Não façam as coisas que o mundo faz”. Ele vai muito mais fundo. Ele fala de conformação e transformação, colocando a mente no centro desse processo. Existe uma pressão para nos conformarmos ao padrão deste século, mas existe também uma ação transformadora de Deus que alcança nossa maneira de pensar. Por isso, a pergunta fundamental não é apenas “o que você está fazendo?”, mas uma pergunta anterior e muito mais profunda: “Quem está formando a maneira como você pensa?” Antes de uma pessoa viver de determinada maneira, ela aprende a pensar daquela maneira; antes de uma criança defender determinada ideia, alguém ensinou aquela criança a enxergar o mundo daquela forma; antes de uma sociedade mudar seu comportamento, alguma coisa mudou na maneira como essa sociedade compreendia a verdade, a moral, o homem e a realidade.

Não vos conformeis com este século

Paulo começa Romanos 12.2 com uma ordem clara: “E não vos conformeis com este século.” Antes de falar sobre transformação, ele fala sobre conformação. Antes de apresentar aquilo que Deus deseja produzir em nós, ele nos alerta sobre aquilo que está tentando nos moldar. A linguagem utilizada pelo apóstolo transmite a ideia de assumir uma forma, tomar o molde de alguma coisa. É como se houvesse um padrão colocado diante de nós e uma pressão constante para que nos encaixemos nele. Paulo está dizendo à igreja: não permitam que este século determine a forma da sua vida. Isso não significa que o cristão possa viver em um mundo sem influência, pois isso seria impossível. Significa que o cristão precisa discernir as influências que recebe e resistir àquelas que são contrárias à vontade de Deus. Quando Paulo fala de “este século”, ele não está simplesmente falando das pessoas que vivem ao nosso redor, da criação de Deus ou de tudo aquilo que existe fora da igreja. Ele está falando de uma ordem de pensamento, de valores, desejos e estruturas de uma humanidade que vive afastada de Deus. Existe uma maneira de pensar característica daqueles que estão distantes de Deus, uma maneira de compreender a verdade, a moralidade, a identidade e a própria realidade. O problema é que ninguém precisa conscientemente escolher esse padrão para começar a ser moldado por ele. A repetição transforma o estranho em normal.

Desde o Éden, o pensamento humano pecaminoso tende à valorização do eu. Em nossa cultura contemporânea, isso assume uma forma ainda mais intensa na hiper valorização dos sentimentos, da autoimagem e da realização individual. O discurso dominante frequentemente nos diz: “seja fiel a quem você é”, “siga seu coração”, “faça aquilo que faz você feliz”, “você define sua própria verdade”. Entretanto, Jesus apresenta uma lógica completamente diferente: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). O cristianismo não começa com a afirmação de que o eu deve ocupar o centro; começa com a convocação para que o eu seja submetido ao senhorio de Cristo. Essa diferença é decisiva. A cultura contemporânea pergunta: “O que você deseja?”. Cristo pergunta: “Você está disposto a me seguir?”. A cultura diz: “Seja fiel aos seus sentimentos”. O evangelho diz: “Seja fiel a Cristo”. A cultura afirma que nossa identidade deve ser descoberta dentro de nós mesmos; o evangelho nos conduz para fora de nós mesmos, para encontrarmos nossa verdadeira identidade em Deus.

Essa influência cultural aparece inclusive em áreas nas quais muitos cristãos imaginam estar pensando biblicamente. Pense, por exemplo, em uma mãe cristã que ensina seu filho desde pequeno a amar a Deus, mas que, quando ele chega à adolescência, começa a pensar: “Não quero impor minha fé a ele; quando crescer, ele decidirá no que acredita”. A ideia pode parecer respeitosa, moderna e até tolerante. Mas precisamos perguntar: de onde veio essa maneira de pensar? A Escritura orienta os pais a ensinarem seus filhos no caminho do Senhor, enquanto a cultura contemporânea frequentemente afirma que a religião é uma escolha estritamente privada e que os pais não deveriam formar a consciência religiosa de seus filhos. Sem perceber, aquela mãe pode continuar acreditando em Deus, frequentando a igreja e valorizando a Bíblia, mas já ter adotado uma categoria cultural para pensar a educação dos filhos.

O mesmo pode acontecer com nossa compreensão da moralidade. Um cristão pode começar a pensar: “Se duas pessoas concordam, se ninguém está sendo prejudicado e se isso faz bem aos dois, então não há nada de errado”. Parece razoável. Parece tolerante. Parece até uma posição madura. Entretanto, perceba a mudança: o critério da moralidade deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser o consentimento e a ausência de dano aparente. A pergunta já não é “Deus considera isso certo?”, mas “quem está sendo prejudicado?”. A autoridade moral foi deslocada. E o mesmo acontece quando permitimos que nossos sentimentos assumam o lugar de autoridade. Uma pessoa pode enfrentar uma crise no casamento e concluir: “Eu não amo mais meu cônjuge. Meu coração mudou. Não sinto mais aquilo que sentia no começo. Se continuar nesse casamento, estarei sendo falsa comigo mesma”. Talvez continue acreditando em Deus, frequentando a igreja e orando, mas naquele momento surge uma pergunta fundamental: quem está determinando sua decisão — a Palavra de Deus ou o seu sentimento? A cultura ensina que os sentimentos são uma espécie de revelação interior: se sinto, deve ser verdade; se não sinto, deixou de ser verdadeiro. Mas a Bíblia nunca ensinou que todo sentimento é verdadeiro, nem que todo desejo merece ser obedecido. Pelo contrário, a Escritura nos manda examinar o coração, porque o coração humano foi afetado pelo pecado: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas” (Jr 17.9).

Aqui está uma das formas mais sutis pelas quais o mundo nos forma: primeiro, ele muda nosso critério de moralidade; em vez de perguntarmos “o que Deus diz?”, perguntamos “isso faz mal a alguém?”. Depois, muda nosso critério de verdade; em vez de perguntarmos “o que Deus diz?”, perguntamos “como eu me sinto?”. E, sem perceber, podemos continuar acreditando em Deus, mas deixar de pensar a partir de Deus. Esse é um dos maiores perigos para a igreja contemporânea. O perigo não é apenas o mundo convencer o cristão a praticar aquilo que o mundo pratica; o perigo é muito mais profundo: o mundo convencer o cristão a pensar como o mundo pensa. Por isso, precisamos fazer uma pergunta que não pode ser evitada: Deus é apenas alguém em quem você acredita ou é verdadeiramente o Senhor da sua vida? Existe uma diferença enorme entre acreditar que Deus existe e viver debaixo do senhorio de Deus. Podemos acreditar em Deus e continuar sendo senhores das próprias decisões; podemos orar a Deus e ainda assim não obedecer a Deus; podemos conhecer a vontade de Deus e continuar escolhendo a nossa própria vontade; podemos chamar Jesus de Senhor e, na prática, dizer: “Nesta área da minha vida, quem decide sou eu”.

Não existe coerência em dizer que Deus é Senhor apenas de determinadas áreas da nossa existência. Não podemos afirmar: “Deus é Senhor da minha salvação, mas não da minha sexualidade”; “Deus é Senhor da minha vida espiritual, mas não das minhas finanças”; “Deus é Senhor aos domingos, mas durante a semana eu faço as coisas do meu jeito”. Essas tentativas de separar a vida em compartimentos revelam uma compreensão inadequada do senhorio de Cristo. Ou Cristo é Senhor, ou não é. Como afirmou Abraham Kuyper, em sua conhecida declaração sobre a soberania de Cristo, “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”. A afirmação de Kuyper expressa uma verdade profundamente bíblica: não existe uma área neutra da existência humana onde Cristo possa ser excluído. Nossa mente pertence a Cristo. Nossa família pertence a Cristo. Nosso trabalho pertence a Cristo. Nossa sexualidade pertence a Cristo. Nossos recursos pertencem a Cristo. Nossos relacionamentos pertencem a Cristo. Nossa vida pública pertence a Cristo.

Essa verdade também precisa orientar a maneira como discipulamos nossos filhos. Não basta dizer: “Meu filho, não pense assim”. Precisamos ensiná-los a pensar biblicamente. Não basta dizer: “Não veja isso”. Precisamos ajudá-los a compreender por que determinada coisa contradiz a Palavra de Deus. Não basta simplesmente retirar uma influência; precisamos apresentar a verdade. Se apenas retirarmos o mundo e não enchermos a mente com a verdade de Deus, teremos produzido apenas um vazio, e o vazio sempre será preenchido por alguma coisa. Por isso, Paulo não diz apenas: “Não vos conformeis”. Ele continua: “mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. O cristão não é chamado simplesmente a resistir ao molde deste século; é chamado a ser transformado.

A renovação da mente

O cristianismo não é apenas uma religião de proibições. Paulo não está dizendo simplesmente: “Não faça isso, não pense aquilo, não assista aquilo, não vá ali”. Se a vida cristã fosse apenas aprender uma lista de coisas que não podemos fazer, poderíamos até produzir pessoas comportadas, mas não necessariamente pessoas transformadas. O evangelho apresenta algo muito mais profundo: Deus quer transformar a pessoa a partir de dentro, começando pela mente. O evangelho não quer apenas modificar comportamentos; quer renovar nossa maneira de enxergar a realidade. A expressão “transformai-vos” aponta para uma transformação profunda, não para uma maquiagem espiritual. Não se trata de fazer algumas mudanças superficiais para parecer cristão, mas de uma transformação que alcança aquilo que somos e, a partir daí, começa a produzir uma nova maneira de viver. Deus não quer apenas que tenhamos comportamentos cristãos; ele quer formar em nós uma mente cristã, um coração cristão e uma vida coerente com nossa nova identidade em Cristo.

A transformação cristã começa na mente, mas não termina nela. O objetivo é que aquilo que conhecemos de Deus transforme aquilo que pensamos, aquilo que amamos, aquilo que desejamos e, finalmente, aquilo que fazemos. Uma mente renovada produz uma vida renovada. É justamente por isso que, depois de Romanos 12.2, Paulo passa a tratar de humildade, serviço, amor, relacionamento com os irmãos, submissão às autoridades, amor aos inimigos e vida prática. A mente renovada produz uma vida transformada. Somos influenciados pela família, pela cultura, pelos amigos, pela escola, pela igreja, pelos livros que lemos, pelos filmes que assistimos e pelas redes sociais que consumimos. Tudo aquilo que repetidamente ouvimos começa a construir dentro de nós uma maneira de interpretar a realidade. Por isso, quando Paulo fala da renovação da mente, está nos chamando a permitir que Deus reoriente aquilo que já foi formado em nós. A renovação começa quando a Palavra de Deus confronta nossa maneira de pensar. Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Palavra entra em nossa mente e começa a confrontar aquilo que aprendemos, corrigir aquilo que pensamos, desmascarar aquilo que chamávamos de normal, reorganizar aquilo que estava fora do lugar e ensinar-nos novamente a enxergar a vida a partir de Deus.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da vida cristã: permitir que Deus mexa naquilo que aprendemos a chamar de “eu”. Muitas vezes chegamos diante da Bíblia querendo que ela confirme aquilo que já pensamos. Queremos que Deus abençoe nossas escolhas, aprove nossos desejos e concorde com nossa maneira de enxergar a vida. Mas a Palavra de Deus não foi dada para se conformar conosco; somos nós que precisamos ser conformados à Palavra de Deus. A Bíblia não existe para simplesmente dizer que estamos certos. Muitas vezes ela existe precisamente para mostrar onde estamos errados. Quando a Palavra confronta nossa mente, temos duas possibilidades: resistir e continuar pensando como sempre pensamos, ou nos render e permitir que Deus nos transforme. Deus não quer apenas melhorar a versão de nós mesmos que o mundo produziu. Ele quer formar em nós uma nova maneira de viver. Ele quer que olhemos para o casamento de maneira diferente, para os filhos de maneira diferente, para o dinheiro de maneira diferente, para o trabalho de maneira diferente, para o sofrimento de maneira diferente, para o sucesso de maneira diferente, para o nosso corpo de maneira diferente e até mesmo para nossos fracassos de maneira diferente. Quando Deus renova a mente, aquilo que antes parecia indispensável pode perder seu poder; aquilo que parecia pequeno pode adquirir valor eterno; aquilo que parecia normal pode ser reconhecido como pecado; e aquilo que parecia impossível pode ser recebido como vontade de Deus.

É por isso que a afirmação central desta série permanece tão importante: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. Se nossa mente é moldada pelo mundo, nossa vida começará a tomar a forma do mundo. Se nossa mente é renovada por Deus, nossa vida começará a tomar a forma da vontade de Deus. E é justamente nesse ponto que Paulo apresenta o propósito da renovação: “para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). A ordem é importante. Primeiro, não nos conformamos. Depois, somos transformados. A transformação acontece pela renovação da mente. E então começamos a experimentar a vontade de Deus.

A boa, agradável e perfeita vontade de Deus

A vontade de Deus não é apresentada por Paulo como um peso destinado a destruir nossa vida, mas como algo bom, agradável e perfeito. A cultura frequentemente afirma que, se entregarmos nossa vida a Deus, perderemos nossa liberdade; o evangelho afirma que, quando nossa mente é renovada, descobrimos a boa vontade de Deus. O mundo diz: “Se você não seguir seus desejos, não será feliz”; o evangelho nos ensina: “Quando sua mente for renovada, você descobrirá que Deus sabe melhor do que você aquilo que é verdadeiramente bom”. Talvez tenhamos passado muito tempo tentando descobrir o que nos faria felizes. Talvez tenhamos seguido oportunidades, desejos, relacionamentos, dinheiro, reconhecimento e prazer, tomando decisões com base na pergunta: “O que me faz bem?”. Mas Romanos 12 nos conduz a uma pergunta muito melhor: “Senhor, o que é bom aos teus olhos?” Existe uma liberdade que o mundo não consegue oferecer: a liberdade de não ser governado pelos próprios desejos. Existe uma paz que não nasce de conseguir tudo o que queremos, mas de saber que estamos vivendo debaixo da vontade daquele que nos criou. Existe uma alegria que não depende de satisfazer cada impulso do coração, mas de descobrir que a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

A vontade de Deus é boa porque Deus não deseja aquilo que é mau para seus filhos. Podemos não compreender imediatamente o caminho que ele está nos conduzindo, e podemos até discordar inicialmente daquilo que ele está permitindo ou ordenando, mas a bondade de Deus não depende da nossa compreensão. Uma criança pequena pode não entender por que os pais dizem “não”. Pode não compreender por que não pode atravessar a rua sozinha ou colocar a mão no fogo. Para a criança, o limite pode parecer restrição; para os pais, o limite é proteção. Da mesma maneira, muitas vezes olhamos para os mandamentos de Deus e pensamos: “Por que Deus está me impedindo disso?”. Talvez uma pergunta melhor seja: “Do que Deus está me protegendo ao me impedir disso?” Deus conhece aquilo que nós não conhecemos. Ele vê aquilo que não conseguimos ver. Ele conhece o fim desde o princípio. Portanto, quando a Palavra de Deus confronta nossos desejos, não precisamos concluir que Deus está contra nós. Podemos confiar que sua vontade é boa.

A vontade de Deus também é agradável, mas isso não significa que Paulo esteja prometendo uma vida sem sofrimento. A vontade de Deus pode nos conduzir por caminhos difíceis. Pode envolver renúncia, sofrimento, perdão, perseverança e decisões que exigem coragem. Pode exigir que permaneçamos fiéis quando seria mais fácil desistir ou que digamos “não” quando todos estão dizendo “sim”. Então, em que sentido a vontade de Deus é agradável? Ela é agradável porque viver debaixo da vontade de Deus é viver em harmonia com aquilo para o qual fomos criados. Existe uma diferença entre aquilo que é prazeroso e aquilo que é verdadeiramente bom. Há desejos que produzem prazer imediato e sofrimento posterior; há decisões que exigem sacrifício imediato, mas produzem frutos que permanecem. A Bíblia chama de maturidade aquilo que a cultura muitas vezes chama de privação. Por isso, não podemos utilizar nossos sentimentos como medida definitiva da vontade de Deus. Às vezes obedecer será difícil; às vezes obedecer vai doer. Mas isso não significa que a vontade de Deus deixou de ser agradável. Significa que precisamos aprender que alegria não é a mesma coisa que conforto.

Finalmente, a vontade de Deus é perfeita. Isso significa muito mais do que simplesmente afirmar que Deus não comete erros. A perfeição da vontade de Deus está relacionada ao próprio caráter de Deus. Deus não pode desejar para seus filhos algo que contradiga quem ele é. Sua vontade é perfeita porque ele é perfeito em sabedoria, bondade, justiça e amor. Nós enxergamos apenas uma pequena parte da realidade; Deus vê o todo. Conhecemos o presente e tentamos imaginar o futuro; Deus conhece o princípio, o meio e o fim. Tomamos decisões a partir de informações limitadas, experiências particulares e, muitas vezes, desejos confusos; Deus não está limitado por aquilo que conseguimos perceber. Por isso, quando Paulo chama a vontade de Deus de perfeita, ele nos ensina a confiar em Deus mesmo quando não conseguimos compreender completamente aquilo que ele está fazendo.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades da fé cristã. Muitas vezes confiamos em Deus enquanto conseguimos entendê-lo. Enquanto sua vontade coincide com aquilo que desejamos, dizemos que Deus é bom. Enquanto a porta que pedimos se abre, dizemos que Deus é fiel. Enquanto a resposta que esperamos chega, afirmamos que Deus sabe o que faz. Mas a verdadeira maturidade espiritual aparece quando Deus nos conduz por um caminho que não entendemos; quando oramos e a resposta não vem; quando pedimos cura e continuamos enfrentando a enfermidade; quando planejamos uma coisa e Deus permite outra; quando uma porta se fecha e não sabemos por quê; quando obedecer custa alguma coisa. É nesse lugar que descobrimos se confiamos realmente na perfeição de Deus ou apenas naquilo que conseguimos compreender dos caminhos de Deus. A fé cristã não é a certeza de que entenderemos todos os caminhos de Deus; é a confiança de que, mesmo quando não compreendemos seus caminhos, podemos confiar no Deus que os conduz.

Essa verdade confronta diretamente a cultura contemporânea, que frequentemente trata o desejo como autoridade: se eu quero, devo buscar; se eu sinto, devo obedecer; se algo me faz feliz, preciso preservá-lo; se algo me impede de realizar meus desejos, preciso removê-lo. O evangelho apresenta uma liberdade completamente diferente. A liberdade cristã não consiste em ter a possibilidade de realizar todos os nossos desejos; consiste em sermos libertos da escravidão aos nossos próprios desejos para podermos desejar aquilo que é verdadeiramente bom. Por isso, quando Paulo afirma que a vontade de Deus é perfeita, ele nos convida a abandonar uma postura muito comum: colocar Deus como conselheiro da nossa vida, enquanto mantemos o governo em nossas próprias mãos. Muitas vezes dizemos: “Senhor, abençoa o meu projeto; abençoa o meu relacionamento; abençoa a minha escolha”. Uma mente renovada começa em outro lugar. Ela não chega diante de Deus dizendo: “Senhor, confirme aquilo que eu quero”. Ela chega dizendo: “Senhor, se aquilo que quero estiver errado, muda o meu querer. Se meu caminho não for o teu caminho, muda o meu caminho. Se minha vontade estiver em conflito com a tua vontade, que a tua vontade prevaleça.”

Isso não significa que Romanos 12.2 seja uma frase fácil para situações difíceis. Há dores que são reais. Existem perdas que doem, despedidas que doem, orações sem resposta que cansam e injustiças que provocam indignação. Há momentos em que não conseguimos compreender o que Deus está fazendo. Mas o evangelho nos dá algo que o mundo não consegue oferecer: podemos chorar sem perder a esperança, podemos não compreender sem abandonar a fé e podemos sofrer sem concluir que Deus deixou de ser bom. A perfeição da vontade de Deus não significa que nossa caminhada será sempre confortável; significa que, em todos os caminhos, podemos confiar naquele que continua sendo Deus. Talvez alguém esteja vivendo exatamente esse momento. Talvez exista uma área da vida sobre a qual você olha e pensa: “Eu não teria feito assim”. Talvez exista uma oração antiga ainda sem resposta, uma perda que você não consegue compreender ou uma decisão diante da qual não consegue enxergar o caminho. A Palavra de Deus não vem necessariamente para dizer que você entenderá tudo. Ela vem para lembrar uma verdade muito mais profunda: você não precisa entender tudo para confiar naquele que entende tudo.

Quem está formando sua mente?

Romanos 12.2 nos coloca diante de uma decisão. Existe um padrão tentando nos moldar, mas Deus nos chama para uma transformação que começa na mente. O mundo diz: “Pense como nós pensamos, deseje o que nós desejamos, viva como nós vivemos”. Deus diz: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.” Por isso, a pergunta que precisamos levar para casa não é simplesmente “o que eu penso?”, mas “quem está me ensinando a pensar?” Quem está formando meus valores? Quem está dizendo o que é certo e errado? Quem está definindo minha identidade? Quem está educando meus filhos? Quem tem a palavra final quando meus sentimentos entram em conflito com a Palavra de Deus?

A resposta cristã precisa ser clara: Cristo é o Senhor. Não apenas da nossa salvação, mas da nossa mente, dos nossos desejos, dos nossos relacionamentos, da nossa família, do nosso trabalho e de toda a nossa existência. Talvez Deus esteja hoje confrontando alguma coisa que chamamos de normal, mas que precisa ser renovada. Talvez seja um pensamento, um desejo, uma prioridade ou uma maneira de viver que trouxemos da cultura sem perceber. Não precisamos ter medo de ser confrontados pela Palavra de Deus. Precisamos permitir que Deus nos transforme. O objetivo não é simplesmente pensar diferente do mundo; é aprender a pensar como discípulos de Cristo. E quando nossa mente é renovada, começamos a descobrir aquilo que Paulo afirma: a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

Por isso, a pergunta desta terceira mensagem da série “Como Viveremos?” permanece diante de cada um de nós: Quem está formando sua mente? Não existe neutralidade. Estamos sendo formados. Nossos pensamentos estão sendo educados. Nossos desejos estão sendo moldados. Nossa consciência está sendo discipulada. A questão não é se isso está acontecendo, mas quem está fazendo isso. A cultura está constantemente nos oferecendo uma forma de interpretar o mundo, a nós mesmos, nossos relacionamentos, nosso corpo, nosso trabalho, nossa família e nosso futuro. A Palavra de Deus, porém, oferece uma cosmovisão diferente, centrada no Deus que criou todas as coisas, que revelou sua verdade e que, em Cristo, nos chama para uma vida de discipulado integral.

Que a igreja de Cristo não seja uma comunidade que apenas sabe dizer “não” ao mundo, mas uma comunidade que aprendeu a dizer “sim” à vontade de Deus. Que nossos lares sejam lugares onde nossos filhos aprendam não apenas o que acreditar, mas por que acreditamos. Que nossas igrejas sejam ambientes de formação da mente cristã, nos quais a Escritura não seja apenas lida, mas aplicada à totalidade da vida. Que não sejamos cristãos que simplesmente frequentam cultos, mas discípulos que pensam, amam, escolhem e vivem sob o senhorio de Cristo. Afinal, como temos repetido desde o início desta série: a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

Não se conforme.

Seja transformado.

Renove sua mente.

E viva debaixo do senhorio de Cristo.

Porque a grande pergunta não é apenas: “Como viveremos?”

Antes dela existe outra:

“Quem está formando a nossa mente?”

Como viveremos – quando Deus deixou de ser o centro

A transformação de uma cosmovisão e suas consequências para a vida

Na primeira parte desta série, voltamos ao jardim do Éden para compreender onde começou a grande ruptura que continua marcando a história humana. Descobrimos que a queda não começou simplesmente quando Eva tomou o fruto. Antes do ato houve uma mudança na maneira de pensar. A serpente questionou a Palavra de Deus, colocou em dúvida a bondade do Criador e apresentou ao ser humano a possibilidade de viver de maneira independente de Deus: “Sereis como Deus” (Gn 3.5). A primeira grande mentira, portanto, não era apenas uma mentira sobre uma árvore; era uma mentira sobre quem tem autoridade para definir a realidade. A criatura passou a imaginar que poderia interpretar o mundo, definir o bem e o mal e determinar seu próprio destino sem depender do Criador. Por isso, a frase que acompanha toda esta série continua sendo fundamental: a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

A partir dessa perspectiva, a segunda pergunta da série é inevitável: o que aconteceu depois do Éden? A humanidade continuou carregando consigo a disposição de viver sem Deus no centro. Os nomes mudaram, as filosofias mudaram, as culturas mudaram e as tecnologias mudaram, mas a antiga tentação permaneceu. O ser humano continuou procurando estabelecer sua própria autoridade sobre a realidade. É exatamente essa trajetória que esta segunda reflexão procura acompanhar. Não se trata de afirmar que houve um determinado dia em que Deus simplesmente desapareceu da cultura ocidental, nem de idealizar períodos anteriores da história. Trata-se de observar uma transformação progressiva nas pressuposições pelas quais o Ocidente passou a compreender autoridade, verdade, conhecimento, humanidade e identidade. Em termos muito simples, podemos acompanhar esse deslocamento por meio de quatro movimentos: Deus ocupando o centro; a razão ocupando progressivamente o centro; o homem ocupando o centro; e, finalmente, o eu e os sentimentos ocupando o centro.

Essa perspectiva possui profunda afinidade com a proposta de Francis Schaeffer em Como viveremos?. Schaeffer não estava simplesmente interessado em denunciar os pecados de sua época. Seu interesse era compreender as ideias que haviam moldado a cultura ocidental. Para ele, uma sociedade não muda apenas porque seus costumes mudam; seus costumes mudam porque suas pressuposições mudam. As pessoas passam a pensar de determinada maneira, essa maneira de pensar produz uma determinada visão de realidade e, posteriormente, essa visão de realidade se manifesta na arte, na filosofia, na ciência, na política, na moralidade, na família e no comportamento cotidiano. A cultura visível é, em grande medida, o resultado de pressupostos invisíveis. É por isso que uma análise cristã da cultura precisa ir além dos sintomas e procurar compreender as raízes intelectuais e espirituais que estão por trás deles.

Deus no centro: o horizonte cristão

Para compreender o que mudou, precisamos primeiro compreender aquilo que existia antes dessa transformação. Durante grande parte da história do Ocidente cristão, Deus funcionava como referência fundamental para a interpretação da realidade. Isso não significa que todas as pessoas fossem verdadeiramente convertidas, nem que as sociedades cristãs fossem moralmente perfeitas. A história da cristandade está marcada por pecado, corrupção, guerras, abusos de poder, injustiças e graves contradições. A própria igreja, em determinados períodos, cometeu erros que precisam ser reconhecidos sem qualquer tentativa de romantização. Portanto, dizer que Deus ocupava o centro do horizonte cultural não significa dizer que todos obedeciam a Deus. Significa que Deus fazia parte da estrutura fundamental pela qual a realidade era compreendida.

Essa distinção é importante porque evita dois erros opostos. O primeiro é o saudosismo, que imagina que houve uma época em que a sociedade cristã era perfeita e que bastaria retornar ao passado para resolver nossos problemas. O segundo é o anacronismo, que olha para épocas anteriores utilizando categorias contemporâneas e não consegue perceber que a própria estrutura de pensamento era diferente. Durante séculos, no horizonte cristão ocidental, a existência humana era compreendida dentro de uma ordem criada por Deus. Havia um Criador, havia uma criação, havia propósito para a existência, havia uma ordem moral objetiva e havia responsabilidade diante de Deus. O indivíduo não era concebido como uma realidade completamente autônoma, capaz de determinar sozinho o significado de sua existência.

Essa diferença pode ser percebida nas perguntas fundamentais que organizavam a existência. Em um horizonte fortemente cristão, a pergunta não era apenas “O que quero fazer da minha vida?”, mas “Como devo viver diante de Deus?”. A morte não era apenas um acontecimento biológico; remetia à eternidade. O pecado não era simplesmente uma violação das normas sociais; era uma ofensa contra Deus. A moralidade não era apenas uma convenção estabelecida pela sociedade; estava vinculada à convicção de que existia uma ordem moral objetiva. A existência humana não começava no indivíduo. Ela começava em Deus.

Essa visão pode ser resumida em uma afirmação simples e, ao mesmo tempo, fundamental para toda a antropologia cristã: Deus é Deus e nós somos criaturas. A Bíblia começa justamente dessa maneira: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). A Escritura não começa com o homem perguntando se Deus existe. Ela começa afirmando Deus como Criador e apresentando o universo como criação. Essa estrutura é decisiva. Se Deus é Criador, então o mundo não é autônomo. Se Deus é Criador, o homem não é autônomo. Se Deus é Criador, a existência humana possui uma finalidade que não é simplesmente inventada pelo indivíduo.

Paulo expressará essa verdade de maneira magnífica em Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”. A vida procede de Deus, depende de Deus e encontra nele sua finalidade. Essa é a estrutura fundamental da cosmovisão cristã. O homem não é o centro da realidade porque não é o autor da realidade. Ele é criatura, e sua dignidade não diminui por isso. Pelo contrário: sua dignidade deriva precisamente do fato de ter sido criado à imagem de Deus.

Romanos 1 acrescenta uma dimensão ainda mais profunda. Paulo afirma que os homens, embora tivessem conhecimento de Deus, “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21). O problema não era simplesmente ausência de informação. O problema era uma recusa em reconhecer Deus em seu devido lugar. O pecado envolve uma desordem fundamental da adoração. O homem deixa de glorificar o Criador como Criador e, consequentemente, passa a reorganizar a realidade ao redor de outra coisa.

Aqui encontramos o princípio que acompanhará toda a nossa análise: o centro determina a estrutura da vida. Aquilo que ocupa o lugar de autoridade última acaba determinando nossa compreensão da verdade, da moralidade, da identidade, da liberdade e do propósito. Se Deus está no centro, o homem recebe sua identidade de Deus. Se o homem ocupa o centro, ele passa a produzir sua própria identidade. Se a razão ocupa o centro, aquilo que pode ser conhecido será definido pela razão. Se os sentimentos ocupam o centro, aquilo que é verdadeiro passa a ser progressivamente determinado pela experiência subjetiva.

A questão, portanto, não é simplesmente se uma sociedade continua mencionando o nome de Deus. Uma cultura pode continuar falando sobre Deus, celebrando determinadas festas religiosas, mantendo símbolos religiosos e preservando tradições cristãs e, ainda assim, ter deslocado Deus do centro. A questão decisiva é outra: Deus ainda funciona como a referência última pela qual a realidade é interpretada?

Quando a razão ocupou o centro

O deslocamento não aconteceu de uma vez. Foi progressivo. Uma das mudanças fundamentais ocorreu quando a confiança humana começou a se deslocar da revelação divina para a capacidade da razão humana. É importante fazer aqui uma distinção que a própria mensagem enfatiza: não existe nada de errado com a razão. Pensar, investigar, perguntar, argumentar e buscar conhecimento são capacidades boas e legítimas, pois fazem parte daquilo que significa ser humano criado à imagem de Deus. O problema não está em utilizar a razão; está em transformar a razão em autoridade absoluta.

O cristianismo nunca ensinou que devemos abandonar a razão para crer. A fé cristã possui conteúdo proposicional, afirma verdades sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem e sobre a salvação, e essas verdades podem e devem ser examinadas racionalmente. A tradição cristã sempre produziu teólogos, filósofos, cientistas e intelectuais precisamente porque a realidade criada por Deus pode ser investigada. A criação é inteligível porque possui um Criador racional. O problema surge quando a criatura transforma sua própria razão no tribunal diante do qual toda realidade deve comparecer, inclusive Deus.

Esse deslocamento tornou-se especialmente importante na modernidade e no Iluminismo. A razão humana adquiriu um papel cada vez mais decisivo como instrumento de conhecimento e autoridade. A pergunta começou a mudar. Já não era somente “O que Deus revelou?”. Passou a ser também — e, em determinados ambientes, predominantemente — “O que posso conhecer pela minha própria razão?”. A questão não é que essa pergunta seja ilegítima. Ela se torna problemática quando pressupõe que aquilo que não pode ser validado segundo determinados critérios humanos não pode ser verdadeiro.

Um exemplo contemporâneo ajuda a compreender a questão. Imagine alguém afirmando: “Só acredito naquilo que a ciência consegue observar, medir e reproduzir em laboratório; portanto, Deus não existe”. Parece uma afirmação científica, mas não é. A ciência não realizou um experimento que demonstrou a inexistência de Deus. Antes da conclusão, foi estabelecido um pressuposto filosófico: somente aquilo que pode ser submetido ao método científico possui validade cognitiva. O método foi transformado em uma teoria sobre a totalidade da realidade. Nesse momento, já não estamos diante de uma conclusão científica, mas de uma afirmação filosófica que utiliza a ciência como fundamento de uma visão de mundo.

A diferença entre ciência e cientificismo é fundamental. A ciência investiga aspectos observáveis e mensuráveis da realidade por meio de métodos apropriados. O cientificismo, por outro lado, transforma a ciência em uma espécie de metafísica total, afirmando que somente aquilo que a ciência pode investigar existe ou possui significado. O problema é que essa própria afirmação não pode ser demonstrada cientificamente. Não existe experimento de laboratório capaz de provar que somente aquilo que pode ser testado em laboratório é verdadeiro. Trata-se de uma pressuposição filosófica.

Isso também aparece quando discutimos moralidade. A ciência pode investigar como determinada ação afeta o cérebro, quais hormônios estão envolvidos, quais consequências sociais podem ocorrer ou como determinados comportamentos se desenvolvem. Mas descrever o que acontece não é necessariamente determinar o que deve acontecer. O fato de uma determinada prática produzir determinada consequência não responde, por si só, à pergunta moral sobre se aquela prática é certa ou errada. A passagem do “é” para o “deve ser” envolve pressupostos éticos que não podem ser simplesmente extraídos de dados empíricos.

Portanto, o cristão não precisa temer a ciência. Pelo contrário, podemos estudar a criação justamente porque cremos que existe um Criador. Descobrir como a criação funciona não significa descobrir que o Criador não existe. A questão decisiva é outra: quem possui autoridade para interpretar o significado último da realidade? A razão é uma excelente serva, mas um péssimo deus.

Quando o homem ocupou o centro

O passo seguinte é ainda mais significativo. À medida que a razão humana ganhou confiança, o próprio homem começou a ocupar um lugar cada vez maior no centro da cosmovisão. Romanos 1.23 descreve esse processo com a linguagem da troca: “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível”. O homem não suporta permanecer sem um centro de adoração. Quando Deus é deslocado, alguma outra coisa precisa ocupar seu lugar.

A modernidade alimentou uma confiança extraordinária na capacidade humana de conhecer, organizar e transformar a realidade. A ciência poderia avançar; a tecnologia poderia desenvolver-se; a educação poderia transformar as pessoas; a política poderia reorganizar a sociedade; o progresso poderia construir um futuro melhor. Há elementos verdadeiros nessas expectativas. Ciência, educação, tecnologia e instituições podem produzir benefícios reais e extraordinários. O problema aparece quando essas coisas recebem uma expectativa que ultrapassa aquilo que podem legitimamente oferecer.

A esperança no progresso pode se transformar em uma espécie de soteriologia secular. O homem passa a acreditar que pode salvar a si mesmo por meio do conhecimento, da ciência, da política, da tecnologia ou da reorganização social. A criatura começa a esperar da criação aquilo que somente o Criador pode oferecer.

Aqui a trajetória se torna muito clara: primeiro Deus; depois a razão; finalmente o próprio homem.

A pergunta deixa de ser apenas “O que Deus quer?” e passa a ser “O que somos capazes de fazer?”. É nesse ponto que o conceito de autonomia se torna fundamental. Autonomia, nesse contexto, significa a tentativa de determinar os rumos fundamentais da existência a partir do próprio indivíduo, sem uma autoridade transcendente que possua a palavra final. O homem passa a enxergar a si mesmo como capaz de estabelecer sua própria direção.

E novamente estamos diante da antiga promessa do Éden: “Sereis como Deus”. A linguagem filosófica pode ser sofisticada; os argumentos podem ser intelectualmente elaborados; os instrumentos tecnológicos podem ser impressionantes; mas a tentação permanece. A criatura deseja ocupar o lugar do Criador.

É importante, entretanto, evitar uma caricatura. A modernidade não produziu apenas coisas negativas. A expansão do conhecimento científico, avanços médicos, desenvolvimento tecnológico, alfabetização, instituições jurídicas e inúmeras outras conquistas trouxeram benefícios concretos à humanidade. Uma crítica cristã séria não precisa negar essas conquistas. A questão é perguntar qual é o fundamento último da esperança depositada nelas. A ciência pode curar enfermidades, mas não pode eliminar a morte. A educação pode transmitir conhecimento, mas não pode regenerar o coração. A tecnologia pode ampliar nossas possibilidades, mas não pode reconciliar o pecador com Deus. A política pode organizar sociedades, mas não pode remover a corrupção moral do coração humano.

O problema não está em reconhecer aquilo que o homem pode fazer. O problema está em imaginar que o homem pode fazer aquilo que somente Deus pode fazer.

Quando o eu ocupou o centro

Se a modernidade colocou enorme confiança na razão e no progresso, o século XX abalou profundamente essa confiança. Guerras mundiais, totalitarismos, genocídios, armas de destruição em massa e outras tragédias produziram uma crise na crença de que a razão humana e o progresso seriam suficientes para conduzir a humanidade a um futuro inevitavelmente melhor. A própria história passou a questionar o otimismo moderno.

É nesse ambiente que a pós-modernidade desenvolve uma crítica profunda às grandes narrativas, à ideia de verdade universal e à confiança em sistemas totalizantes. Se a modernidade dizia, em linhas gerais, “existe uma verdade e a razão pode encontrá-la”, a pós-modernidade passou a perguntar: “Quem disse que existe uma única verdade?”. A consequência é uma subjetivação crescente da verdade. A pergunta muda de “O que é verdade?” para “O que é verdade para mim?”.

Nesse processo, ocorre mais uma mudança de centro. O eixo passa de Deus para a razão, da razão para o homem e do homem para o eu. O indivíduo torna-se progressivamente a referência de sua própria identidade, de suas escolhas e de sua experiência. O que antes era avaliado à luz de uma verdade objetiva passa a ser avaliado cada vez mais a partir da experiência pessoal.

Chegamos, então, a uma característica particularmente marcante da cultura contemporânea: o sentimento passa a exercer função de autoridade.

Não basta mais afirmar “esta é a minha verdade”. Surge uma linguagem ainda mais subjetiva: “é assim que eu me sinto”. “Siga seu coração.” “Seja fiel a quem você é.” “Faça aquilo que faz você feliz.” “Ninguém pode dizer quem você deve ser.” Essas expressões podem parecer apenas frases motivacionais, mas carregam uma determinada antropologia. Elas pressupõem que o indivíduo possui dentro de si a autoridade necessária para determinar sua identidade e sua verdade.

O problema não é reconhecer que sentimentos são importantes. Eles são. Deus criou seres humanos capazes de sentir, amar, sofrer, alegrar-se e desejar. A fé cristã não é uma religião de pessoas emocionalmente anestesiadas. O problema surge quando o sentimento deixa de ser uma dimensão da pessoa e passa a ser o juiz da realidade.

Quando isso acontece, a lógica se torna: “Eu sinto, portanto, isso é verdadeiro para mim”. Mas sentimentos são reais sem serem necessariamente normativos. Eu posso sentir medo e, ainda assim, não estar diante de um perigo real. Posso sentir-me rejeitado sem ter sido rejeitado. Posso desejar algo profundamente e, ainda assim, aquilo que desejo ser prejudicial. Posso sentir que uma determinada decisão é certa e descobrir posteriormente que estava errado.

A Bíblia nunca nos ensina a ignorar nossos sentimentos, mas também nunca os transforma em autoridade final. Pelo contrário, a Escritura chama o coração à submissão à verdade de Deus. O cristão não é alguém que não sente; é alguém que aprende a interpretar seus sentimentos à luz da verdade revelada.

Essa diferença é crucial. A cultura contemporânea frequentemente diz: “Seja fiel a si mesmo.” Jesus diz: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34). A primeira mensagem coloca o eu no centro; a segunda coloca Cristo no centro.

Deus → razão → homem → eu

Quando observamos essa trajetória em conjunto, percebemos que não estamos simplesmente diante de uma sucessão de filosofias. Estamos diante de uma mudança de centro.

No primeiro estágio, a pergunta fundamental era: “O que Deus revelou?”

Depois, ganha força a pergunta: “O que a razão humana pode conhecer?”

Em seguida: “O que o homem pode construir?”

E finalmente: “O que eu sinto e o que isso significa para mim?”

Podemos resumir essa trajetória assim:

Deus → razão → homem → eu → sentimentos.

Essa sequência não pretende oferecer uma descrição exaustiva de toda a história intelectual do Ocidente, nem deve ser utilizada como uma cronologia rígida. A história é muito mais complexa. Houve cristãos usando a razão, houve filósofos modernos profundamente religiosos, houve pensadores pós-modernos com posições muito diferentes entre si e houve elementos de subjetividade presentes muito antes do século XX. Portanto, o mapa é uma ferramenta interpretativa, não uma cronologia absoluta.

Ainda assim, ele nos ajuda a perceber uma tendência importante: o deslocamento progressivo da autoridade transcendente para a autoridade humana e, finalmente, para a autoridade subjetiva do indivíduo.

E esse deslocamento tem consequências. Quando a visão de Deus muda, a visão do homem muda. Quando a visão do homem muda, a visão da moralidade muda. Quando a moralidade muda, a visão da família muda. Quando a família muda, a compreensão da identidade muda. E quando a identidade passa a ser construída subjetivamente, o próprio eu torna-se a medida pela qual a realidade deve ser interpretada.

É justamente aqui que a tese de Schaeffer se torna pastoralmente importante. Se queremos compreender uma cultura, não basta observar seus comportamentos. Precisamos perguntar quais pressuposições estão por trás deles. Uma sociedade não chega simplesmente a determinadas conclusões morais; ela chega a essas conclusões porque primeiro adotou determinada compreensão de Deus, do homem, da verdade e da realidade.

Por isso, a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

O problema não está apenas “lá fora”

Existe, entretanto, um perigo pastoral nessa discussão. Podemos facilmente terminar este artigo apontando o dedo para a cultura e dizendo: “Veja como o mundo está perdido”. Podemos denunciar o relativismo, a cultura do eu, a subjetivização da verdade, a crise da família e a centralidade dos sentimentos. Podemos lamentar aquilo que nossos filhos encontram nas escolas e nas redes sociais. Podemos criticar televisão, internet, universidades e movimentos culturais.

Mas Romanos 1 não foi escrito para que nos sentíssemos superiores aos pecadores.

O texto precisa primeiro nos examinar.

A pergunta mais importante não é simplesmente: “Quando Deus deixou de ser o centro da sociedade?”. A pergunta que o texto de Romanos 1 coloca diante de cada cristão é muito mais pessoal: “Deus ainda é o centro da minha vida?”

É perfeitamente possível viver dentro da igreja e, ainda assim, colocar outra coisa no centro. É possível cantar louvores, conhecer a Bíblia, defender a doutrina correta e organizar a vida em torno do dinheiro. É possível falar sobre Deus e viver para a aprovação das pessoas. É possível professar fé em Cristo e ser governado pelo desejo de controle. É possível defender a verdade objetiva e, ao mesmo tempo, fazer dos próprios sentimentos a autoridade final quando a Palavra confronta nossos desejos.

Aquilo que ocupa o centro governa o restante da existência. Se o dinheiro ocupa o centro, nossas decisões serão orientadas pelo dinheiro. Se o sucesso ocupa o centro, sacrificaremos coisas importantes para alcançá-lo. Se a aprovação das pessoas ocupa o centro, viveremos tentando agradar aos outros. Se nossos sentimentos ocupam o centro, seremos governados por aquilo que sentimos em cada momento. Mas quando Deus ocupa o centro, as outras coisas começam a encontrar seu devido lugar. O dinheiro deixa de ser senhor e passa a ser instrumento; o trabalho deixa de ser identidade e passa a ser vocação; a família deixa de ser um ídolo e passa a ser uma responsabilidade recebida de Deus; os sentimentos deixam de ser o senhor da vida e passam a ser submetidos à verdade da Palavra.

Essa é uma das grandes contribuições de uma cosmovisão cristã: ela não exige que abandonemos as coisas criadas; exige que as coloquemos no lugar correto. O problema não é possuir dinheiro, mas fazer dele um deus. Não é trabalhar, mas transformar o trabalho em identidade absoluta. Não é amar a família, mas permitir que ela ocupe o lugar de Deus. Não é sentir, mas transformar o sentimento em autoridade final.

A idolatria não consiste somente em ajoelhar-se diante de uma imagem. Ela consiste em colocar uma criatura no lugar do Criador.

O centro determina o modo de viver

Talvez seja possível compreender toda essa discussão a partir de uma pergunta simples: quem tem a palavra final?

Quem determina o que é verdadeiro?

Quem determina o que é bom?

Quem determina quem somos?

Quem determina para que existimos?

Quem determina o que devemos amar?

Quem tem a palavra final quando nossos desejos entram em conflito com a Palavra de Deus?

Essa é a verdadeira questão por trás da batalha cultural.

A cultura contemporânea frequentemente nos diz: “Faça o que fizer você feliz”. A Escritura nos conduz a uma pergunta diferente: “O que glorifica a Deus?”

A cultura diz: “Siga seu coração”. A Escritura nos chama a guardar o coração e submetê-lo à verdade.

A cultura diz: “Seja fiel a você mesmo”. Cristo diz: “Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.

A cultura coloca o eu no centro. O evangelho coloca Cristo no centro.

É aqui que percebemos que o problema da nossa geração não pode ser resolvido apenas por uma mudança de comportamento. Não precisamos simplesmente ensinar pessoas a terem comportamentos mais cristãos. Precisamos anunciar o evangelho que reconcilia pecadores com Deus e transforma a maneira como eles compreendem a realidade.

O homem não precisa simplesmente aprender a administrar melhor sua vida. Ele precisa ser reconciliado com seu Criador.

O evangelho: Deus vem ao encontro do homem

É neste ponto que precisamos fazer uma distinção essencial. O evangelho não é simplesmente uma ordem para “colocar Deus novamente no centro”. Se fosse apenas isso, ainda estaríamos dependendo da capacidade humana. O evangelho é muito mais glorioso: Deus veio ao encontro do homem quando o homem havia se afastado de Deus.

No Éden, Adão se escondeu, mas Deus foi ao seu encontro. Na história da redenção, Deus continua tomando a iniciativa. O Senhor chama Abraão, estabelece aliança com Israel, envia os profetas e, na plenitude dos tempos, entra na própria história humana na pessoa de Jesus Cristo.

O Criador entrou na criação.

Aquele que foi rejeitado pelo homem veio buscar o homem que o rejeitou.

Aquele contra quem pecamos tomou sobre si a culpa do pecado.

Aquele cuja autoridade questionamos entregou-se voluntariamente na cruz para nos reconciliar com Deus.

Essa é a grande diferença entre uma filosofia moral e o evangelho. Uma filosofia pode dizer: “Mude sua maneira de viver”. O evangelho anuncia: “Cristo morreu e ressuscitou para dar nova vida ao pecador.” Uma filosofia pode oferecer princípios. O evangelho oferece reconciliação. Uma filosofia pode tentar reorganizar a sociedade. O evangelho começa regenerando o coração.

Por isso a nossa esperança não está simplesmente em reconstruir uma sociedade que volte a mencionar Deus. Nossa esperança está em Cristo. Precisamos, sim, pensar biblicamente, educar biblicamente, viver biblicamente e testemunhar biblicamente. Mas fazemos tudo isso porque fomos alcançados pela graça de Deus em Cristo.

O Deus que o homem retirou do centro não abandonou o homem. Deus veio ao encontro do homem.

Afinal, quem está no centro?

Depois de percorrermos essa trajetória, a pergunta que fica não é apenas histórica. É profundamente pessoal.

Quem está no centro da sua vida?

Talvez seja você mesmo.

Talvez sejam seus sentimentos.

Talvez seja o dinheiro.

Talvez seja sua carreira.

Talvez seja um relacionamento.

Talvez seja sua imagem.

Talvez seja a aprovação das pessoas.

Talvez seja o desejo de controlar tudo.

É possível que você tenha passado anos correndo atrás de alguma coisa acreditando: “Quando eu conseguir isso, finalmente serei feliz”. “Quando ganhar mais dinheiro, estarei seguro.” “Quando aquela pessoa me amar, estarei completo.” “Quando alcançar aquele cargo, minha vida terá sentido.” “Quando todos reconhecerem meu valor, finalmente ficarei em paz”.

Mas nenhuma criatura consegue ocupar satisfatoriamente o lugar do Criador.

O dinheiro pode comprar conforto, mas não pode comprar paz com Deus. O conhecimento pode ampliar nossa compreensão do mundo, mas não pode reconciliar o pecador com seu Criador. A ciência pode produzir tratamentos extraordinários, mas não pode solucionar o problema fundamental do pecado. A tecnologia pode colocar uma quantidade gigantesca de informação em nossas mãos, mas não consegue preencher o vazio da alma. O prazer pode proporcionar satisfação momentânea, mas não consegue produzir a alegria profunda de uma vida reconciliada com Deus. O reconhecimento humano pode alimentar o ego, mas não pode determinar nosso verdadeiro valor diante do Criador.

Tudo aquilo que colocamos no lugar de Deus, cedo ou tarde, nos mostrará que é pequeno demais para carregar o peso da nossa existência.

A grande questão, portanto, não é simplesmente saber se acreditamos que Deus existe. A questão é se Deus é Senhor.

Podemos acreditar que Deus existe e ainda assim viver como se Ele não fosse necessário. Podemos falar sobre Deus e não glorificá-lo como Deus. Podemos preservar uma linguagem religiosa e, ao mesmo tempo, construir a existência em torno de nós mesmos.

Romanos 1 nos chama de volta ao centro.

E o centro não somos nós.

O centro não é a razão.

O centro não são os sentimentos.

O centro não é a cultura.

O centro é Deus.

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36).

Essa é a realidade para a qual precisamos retornar.

Uma ponta para o próximo artigo

Mas aqui surge uma pergunta inevitável.

Se o centro mudou, quem está formando a nossa mente?

Porque não basta saber que a cultura mudou. Não basta reconhecer que o eu e os sentimentos ganharam enorme influência. Precisamos descobrir como essas ideias chegam até nós, como entram em nossas casas, como moldam nossos filhos, como influenciam nossa linguagem e como, muitas vezes, passam a determinar nossas próprias categorias sem que percebamos.

Se a primeira mensagem nos levou ao Éden, para descobrir onde começou a grande mentira, e esta segunda nos levou pela trajetória do deslocamento do centro — Deus, razão, homem, eu e sentimentos —, a próxima precisa tratar de uma questão ainda mais próxima de nós:

Quem está formando a nossa mente?

Porque o mundo não precisa necessariamente nos convencer a abandonar Deus de uma vez. Basta formar nossa maneira de pensar pouco a pouco, até que passemos a interpretar a realidade com categorias que já não vêm das Escrituras.

A batalha, portanto, não terminou quando descobrimos quem está no centro.

Agora precisamos descobrir quem está ocupando a nossa mente.

E essa será a pergunta do próximo artigo:

Quem está formando sua mente?

A forma como pensamos determina a forma como vivemos. E, se quisermos viver biblicamente em uma cultura pós-moderna, precisaremos aprender não apenas o que pensar, mas também quem está nos ensinando a pensar.

Soli Deo gloria

Como viveremos – onde tudo começou

A forma como pensamos determina a forma como vivemos

Estamos vivendo um período de profundas transformações culturais. Aquilo que durante séculos foi considerado evidente passou a ser questionado; valores que pareciam sólidos tornaram-se objetos de disputa; conceitos fundamentais como verdade, identidade, família, moralidade e autoridade passaram a ser reinterpretados a partir de novas categorias. Não é difícil perceber essas mudanças. Elas estão presentes nas conversas dentro de nossas casas, nas escolas, nas universidades, nas redes sociais, nos meios de comunicação, na política e até mesmo, em alguma medida, dentro das igrejas. O desafio, entretanto, não consiste simplesmente em identificar que a cultura mudou. A pergunta verdadeiramente importante é: por que ela mudou? E, sobretudo, como a igreja de Cristo deve viver quando os pressupostos que governam a cultura ao seu redor são cada vez mais diferentes daqueles apresentados pelas Escrituras?

É justamente nesse ponto que a reflexão de Francis A. Schaeffer continua sendo extraordinariamente relevante. Em Como viveremos?, publicado originalmente em 1976, Schaeffer procura demonstrar que a história cultural não é uma sucessão aleatória de acontecimentos, mas possui uma relação profunda com as ideias e pressuposições que os seres humanos adotam. Seu argumento parte de uma percepção fundamental: aquilo que uma sociedade pensa acaba determinando, em grande medida, aquilo que essa sociedade considera verdadeiro, bom, belo e desejável e, consequentemente, aquilo que ela passa a praticar. A edição brasileira publicada pela Cultura Cristã apresenta a obra precisamente como uma análise das raízes da decadência cultural, moral e espiritual do Ocidente, destacando o abandono da verdade absoluta revelada por Deus. Schaeffer, portanto, não começa sua análise perguntando simplesmente o que as pessoas estão fazendo; ele procura compreender as ideias que tornaram determinadas práticas possíveis e aceitáveis. Essa é uma contribuição fundamental para qualquer reflexão cristã sobre cultura: antes de confrontarmos os comportamentos, precisamos compreender as cosmovisões que os produzem.

Essa perspectiva também nos ajuda a compreender por que a conhecida afirmação que acompanha esta série é tão importante: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. O princípio está presente na própria estrutura da mensagem que dá início a esta série: se desejamos compreender por que nossa geração vive como vive, precisamos primeiro compreender como ela passou a pensar dessa maneira; e, se desejamos viver de modo diferente do mundo, precisamos aprender a pensar segundo a Palavra de Deus. Essa não é uma afirmação meramente psicológica. Trata-se de uma afirmação antropológica, epistemológica e teológica. O ser humano não vive simplesmente a partir de impulsos isolados; ele interpreta a realidade, estabelece pressupostos, atribui significado aos acontecimentos e, a partir dessas interpretações, organiza sua existência. Por isso Paulo escreve aos cristãos de Roma: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). A transformação cristã começa na mente porque o evangelho não pretende apenas modificar determinados comportamentos externos; ele reconstrói a maneira pela qual enxergamos Deus, o mundo, nós mesmos e a própria vida.

A batalha pela mente começou no Éden

Há, porém, uma questão ainda mais profunda. Quando observamos a crise contemporânea, podemos facilmente imaginar que estamos diante de um fenômeno essencialmente moderno. Talvez atribuamos o problema à internet, às redes sociais, à televisão, às universidades, ao secularismo, ao Iluminismo ou à pós-modernidade. Todos esses elementos podem participar do processo cultural que testemunhamos, mas nenhum deles constitui a verdadeira origem do problema. A crise é muito mais antiga. Antes de existir uma universidade, uma imprensa, uma televisão ou uma rede social, já existia uma humanidade confrontada com a questão fundamental da autoridade. Antes de qualquer sociedade moderna discutir quem define a verdade, o jardim do Éden já havia testemunhado a primeira grande tentativa humana de estabelecer uma autoridade alternativa à autoridade de Deus.

É por isso que Gênesis 3 não deve ser lido apenas como a narrativa de uma desobediência individual. O texto apresenta a matriz teológica da rebelião humana. A questão central não era simplesmente o fruto. O fruto era apenas o ponto final de um processo que havia começado anteriormente, no campo das ideias. A serpente não começou dizendo a Eva: “Coma o fruto”. Ela começou com uma pergunta: “É assim que Deus disse?” (Gn 3.1). A primeira batalha da história da humanidade, portanto, não foi travada contra o fruto, mas contra a Palavra de Deus. Antes que a mão de Eva alcançasse o fruto, sua mente já havia sido confrontada com uma interpretação alternativa da realidade.

Essa observação é essencial para uma teologia cristã da cultura. A tentação começa quando a criatura é levada a reconsiderar aquilo que Deus estabeleceu como verdade. A serpente procura introduzir dúvida onde Deus havia estabelecido certeza, suspeita onde havia confiança e autonomia onde havia dependência. A pergunta “É assim que Deus disse?” parece pequena, mas carrega uma enorme implicação epistemológica: a Palavra de Deus será recebida como autoridade final ou será submetida ao julgamento humano? É nesse ponto que a batalha começa.

Gênesis 2 apresenta uma realidade na qual Deus é a referência absoluta. Ele cria, ordena, estabelece limites, nomeia, define e declara aquilo que é bom. O ser humano recebe a realidade, não a inventa. A criação possui uma estrutura objetiva porque foi estabelecida pelo Criador. Deus não é apenas mais uma voz dentro do universo; Ele é o Senhor do universo. A ordem moral não nasce da preferência humana, mas da vontade daquele que criou todas as coisas. Por isso, quando chegamos ao capítulo 3, a tentação não consiste simplesmente em quebrar uma regra. O que está em jogo é a própria autoridade de Deus para definir o que é verdadeiro e bom.

A serpente percebe exatamente esse ponto. Ela não apresenta inicialmente uma negação absoluta; ela distorce. Deus havia dito: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (Gn 2.16-17). A serpente, porém, formula sua pergunta de maneira a ampliar a restrição: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1). A generosidade de Deus é transformada em opressão. A liberdade concedida por Deus desaparece da formulação, enquanto a única proibição passa a ocupar o centro da conversa. O resultado é uma imagem completamente diferente do caráter divino.

Eva, por sua vez, também altera a Palavra. Sua resposta acrescenta elementos que Deus não havia estabelecido e modifica a força da advertência divina. Em lugar de “certamente morrerás”, aparece uma formulação mais próxima de uma possibilidade: “para que não morrais”. O texto mostra, portanto, que a distorção da verdade não precisa assumir imediatamente a forma de uma negação completa. Muitas vezes, basta uma alteração aparentemente pequena. A Palavra pode ser diminuída, aumentada, deslocada ou reinterpretada até que diga algo diferente daquilo que Deus originalmente disse. A mensagem da primeira tentação é assustadoramente atual: uma mentira não precisa ser composta inteiramente de falsidades para destruir; basta que a verdade seja suficientemente distorcida.

Da dúvida à negação: a progressão da mentira

A estratégia da serpente possui uma progressão cuidadosamente construída. Primeiro, ela questiona a Palavra: “É assim que Deus disse?” Depois, nega diretamente aquilo que Deus havia declarado: “É certo que não morrereis” (Gn 3.4). Finalmente, lança uma suspeita sobre as motivações do próprio Deus: “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5). A questão passa, então, da Palavra ao caráter de Deus. Deus não apenas teria dado uma ordem que deveria ser questionada; segundo a serpente, Deus estaria escondendo algo de Adão e Eva.

Podemos perceber aqui quatro movimentos teológicos que permanecem presentes na história humana. Primeiro, Deus não é confiável: “Foi assim que Deus disse?”. Segundo, Deus não é verdadeiro: “Certamente não morrereis”. Terceiro, Deus não é bom: “Deus sabe…”. Quarto, o homem pode ocupar o lugar de Deus: “Sereis como Deus”. A sequência é importante porque mostra que a rebelião moral nasce de uma determinada compreensão da realidade. O homem não simplesmente desobedece porque deseja desobedecer; ele passa a desejar a desobediência porque adotou uma interpretação alternativa da realidade.

Aqui encontramos novamente o princípio que orienta toda esta série: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. Eva viu, desejou e comeu, mas o processo não começou quando ela viu o fruto. Começou quando passou a acreditar em uma narrativa diferente daquela que Deus havia estabelecido. O fruto tornou-se desejável porque uma nova interpretação da realidade havia sido aceita. A árvore proibida passou a parecer uma oportunidade de realização. A limitação estabelecida por Deus passou a parecer uma privação injusta. A dependência do Criador passou a parecer inferior à autonomia da criatura.

O pecado, portanto, não é irracional no sentido de não possuir nenhuma lógica. Ele possui uma lógica própria, uma lógica construída sobre uma mentira. A criatura passa a organizar a vida a partir de pressupostos falsos. É por isso que o pecado é tão sedutor. Ele raramente se apresenta como aquilo que realmente é. Ele promete liberdade, mas produz escravidão; promete conhecimento, mas conduz à alienação; promete realização, mas produz vazio; promete vida, mas conduz à morte. A serpente não vendeu simplesmente um fruto. Ela vendeu uma cosmovisão.

A mentira do Éden e a cultura contemporânea

Quando observamos a cultura contemporânea à luz de Gênesis 3, percebemos que a humanidade não inventou uma nova rebelião contra Deus. Ela apenas desenvolveu, sofisticou e institucionalizou a antiga. A antiga mensagem era: “Vocês podem determinar a realidade por si mesmos”. Hoje ela aparece em diferentes formulações: “Minha verdade”, “minha identidade”, “minha realidade”, “eu determino quem sou”, “ninguém pode dizer o que é certo para mim”. Naturalmente, as expressões contemporâneas são muito mais complexas do que essas fórmulas resumidas, e não devemos reduzir toda a cultura moderna a uma caricatura. Entretanto, existe um princípio comum que merece atenção: a autoridade objetiva de Deus é substituída pela autonomia do indivíduo.

Nesse ponto, a análise de Schaeffer se mostra particularmente útil. Para ele, a história cultural deve ser compreendida a partir das mudanças nas pressuposições fundamentais de uma sociedade. A cultura não surge do nada. Há uma relação entre aquilo que as pessoas acreditam e aquilo que elas produzem. A descrição de Schaeffer é justamente a de um fluxo que parte do mundo das ideias e chega às manifestações concretas da cultura. Sua análise da história ocidental acompanha esse desenvolvimento através de filosofia, ciência, religião, arte, literatura e outras expressões culturais.

Isso significa que a igreja não pode responder adequadamente às transformações culturais simplesmente reclamando dos resultados. Se uma determinada sociedade possui uma determinada visão de ser humano, de verdade, de liberdade e de moralidade, os comportamentos produzidos por essa visão não deveriam nos surpreender. A questão mais importante não é apenas perguntar: “O que nossa cultura está fazendo?”, mas: “Que visão de realidade torna essas práticas coerentes?”

É exatamente aqui que Romanos 1 aprofunda o diagnóstico. Paulo não começa dizendo simplesmente que a humanidade possui comportamentos ruins. Ele afirma que os seres humanos “suprimem a verdade pela injustiça” (Rm 1.18), que “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus” (Rm 1.21) e que “trocaram a verdade de Deus pela mentira” (Rm 1.25). Observe a sequência: verdade, conhecimento, pensamento, adoração e comportamento. A questão moral está ligada à questão epistemológica e à questão espiritual. O problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas; é que, em nossa condição caída, recusamos reconhecer Deus como Deus.

Por isso Paulo pode dizer que “os seus pensamentos tornaram-se fúteis, e o coração insensato deles se obscureceu” (Rm 1.21). O pecado afeta a totalidade da pessoa. A queda não destruiu a capacidade humana de pensar, estudar, criar, pesquisar ou desenvolver conhecimento; mas corrompeu sua relação com a verdade e com o próprio Deus. O ser humano continua sendo portador da imagem divina e, por isso, continua produzindo ciência, arte, filosofia, tecnologia e cultura. Entretanto, quando procura interpretar a realidade sem submissão ao Criador, sua inteligência torna-se instrumento de autonomia.

É por isso que Romanos 1 termina dizendo que a humanidade “trocaram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador” (Rm 1.25). Essa é, em essência, a repetição do Éden. A criatura toma o lugar do Criador. O ser humano passa a procurar na criação aquilo que somente Deus pode oferecer.

A idolatria moderna e a busca pela autonomia

A idolatria bíblica não deve ser compreendida apenas como a adoração de imagens de madeira, pedra ou metal. Esses ídolos existem, mas a Escritura revela algo mais profundo: idolatria é conceder à criatura aquilo que pertence exclusivamente ao Criador. É procurar segurança, identidade, significado, prazer ou esperança em algo que não é Deus.

Por isso, embora os ídolos tenham mudado de aparência, o coração humano permanece essencialmente o mesmo. Alguns procuram segurança no dinheiro; outros, no poder; outros, no prazer; outros, no reconhecimento; outros, na carreira, na ciência, na política, na tecnologia ou mesmo na religião. O problema não está necessariamente no objeto em si. Dinheiro, conhecimento, trabalho, tecnologia, reconhecimento e influência podem ser dons legítimos da providência divina. O problema surge quando uma coisa criada recebe o lugar que pertence ao Criador.

É nesse sentido que a primeira grande mentira continua operando. Ela afirma que a criatura pode encontrar vida afastando-se de Deus. O coração humano continua ouvindo a promessa: “Você será como Deus”. A linguagem muda, os meios mudam, as instituições mudam, as tecnologias mudam, mas o centro da rebelião permanece. O homem deseja determinar sua própria existência independentemente de Deus.

E aqui a igreja precisa tomar cuidado para não transformar essa análise em uma simples condenação da cultura. Não estamos diante de “eles” e “nós”. O problema do Éden também está dentro de nós. O diagnóstico de Romanos 3 é universal: “não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10); “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A cultura secular não criou a pecaminosidade humana. Ela apenas fornece novos ambientes nos quais a velha natureza encontra novas formas de expressão.

Esse ponto é pastoralmente decisivo. É possível denunciar a idolatria do mundo e, ao mesmo tempo, cultivar ídolos dentro da própria igreja. É possível combater o relativismo moral e, simultaneamente, transformar nossas preferências pessoais em mandamentos divinos. É possível defender a autoridade das Escrituras e, ao mesmo tempo, interpretar a Bíblia segundo aquilo que desejamos que ela diga. A serpente não está interessada apenas em levar pessoas para fora da igreja; ela também procura distorcer a Palavra dentro dela.

O problema é mais profundo do que comportamento

A mensagem de Gênesis 3 nos impede de acreditar que a solução para a crise humana seja simplesmente fornecer mais informação. Se o problema fosse falta de conhecimento, a educação resolveria. Se fosse falta de dinheiro, o desenvolvimento econômico resolveria. Se fosse falta de tecnologia, a inovação resolveria. Mas a história humana demonstra repetidamente que conhecimento, riqueza e tecnologia podem coexistir com violência, injustiça, exploração, corrupção, solidão e desespero.

O problema está no coração humano. A queda afetou nossa relação com Deus, com o próximo, com a criação e conosco mesmos. O pecado desordenou nossos afetos e nossa vontade, de modo que frequentemente desejamos aquilo que nos destrói e rejeitamos aquilo que poderia nos conduzir à vida. O problema da humanidade não é apenas que ela precisa aprender novas regras; ela precisa ser reconciliada com Deus.

Essa é uma distinção fundamental entre o evangelho e qualquer projeto meramente moralista de transformação cultural. O cristianismo não oferece apenas uma lista melhor de comportamentos. O evangelho anuncia uma nova realidade em Cristo. Deus não enviou seu Filho simplesmente para tornar pessoas ruins um pouco melhores. Cristo veio para salvar pecadores, reconciliá-los com Deus e conceder-lhes nova vida. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

A esperança cristã, portanto, não está no homem. Está em Deus. A resposta para o Éden não é simplesmente uma humanidade mais educada, mais informada ou mais civilizada. A resposta é Cristo. Aquele que foi prometido imediatamente após a queda é o Descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). A história da redenção começa justamente no lugar em que a história da rebelião humana começa.

A verdade que vence a mentira

Há uma impressionante contraposição entre Gênesis 3 e o evangelho. No jardim, a serpente diz ao homem que a vida está em afastar-se de Deus. No evangelho, Deus demonstra que a verdadeira vida está em reconciliar-se com Ele. No Éden, a criatura deseja ocupar o lugar do Criador. No evangelho, o próprio Filho de Deus assume a condição humana e humilha-se até à morte de cruz (Fp 2.5-8). No jardim, Adão tenta esconder sua vergonha. No evangelho, Cristo toma sobre si a vergonha do pecador. No Éden, o homem foge de Deus. Na redenção, Deus vem ao encontro do homem.

A pergunta divina “Onde estás?” (Gn 3.9) não deve ser entendida como uma busca por informação, como se Deus não soubesse onde Adão estava. É uma pergunta que revela a iniciativa divina em direção ao pecador. O homem havia se escondido, mas Deus veio procurá-lo. Desde então, a história da redenção pode ser vista como a história da graça de Deus buscando pecadores perdidos. O mesmo Deus que entrou no jardim depois da queda é aquele que, na plenitude dos tempos, enviou seu Filho ao mundo para salvar aquilo que estava perdido.

Essa verdade também corrige qualquer leitura excessivamente pessimista da análise cultural de Schaeffer. Sim, a cultura humana pode afastar-se da verdade. Sim, civilizações podem entrar em decadência. Sim, ideias falsas produzem consequências terríveis. Sim, a rejeição dos absolutos bíblicos pode produzir relativismo, niilismo e desordem moral. Mas o cristão não olha para tudo isso como alguém que perdeu a esperança. Nossa confiança não está na capacidade da cultura de se regenerar por si mesma, nem na capacidade da igreja de controlar a história. Nossa esperança está no Deus que reina sobre a história e no evangelho que continua sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).

É justamente por isso que Romanos 12.2 precisa ocupar lugar central em nossa reflexão: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. A igreja não pode simplesmente copiar a cultura, mas também não deve fugir dela. Somos chamados a discerni-la. Não podemos abandonar a verdade para sermos aceitos, mas também não podemos abandonar as pessoas porque discordamos de suas pressuposições. Schaeffer foi importante precisamente porque insistiu na necessidade de compreender o pensamento do mundo para comunicar o evangelho a pessoas reais. A editora brasileira destaca essa dimensão apologética de sua obra: ele procurava dialogar com questões de arte, história, ciência e cultura, levando o pensamento contemporâneo cativo a Cristo.

Como viveremos?

Chegamos, então, à pergunta que dá nome à série: como viveremos?

A primeira resposta precisa ser: viveremos reconhecendo que Deus é Deus e que sua Palavra é a verdade. Não podemos construir nossa existência a partir das tendências do momento. A cultura muda. As ideologias mudam. As gerações mudam. Os valores sociais mudam. As tecnologias mudam. Mas “a palavra do nosso Deus permanece eternamente” (Is 40.8).

Viveremos também reconhecendo que a batalha cultural é, antes de tudo, uma batalha por cosmovisões. Precisamos ensinar nossos filhos não apenas o que pensar, mas como pensar biblicamente. Precisamos formar cristãos capazes de compreender as perguntas de sua geração e respondê-las sem abandonar os pressupostos do evangelho. Precisamos de uma fé que não seja meramente emocional, mas intelectualmente coerente; não simplesmente defensiva, mas apologética; não isolada da cultura, mas capaz de discerni-la; não conformada ao mundo, mas transformada pela renovação da mente.

E precisamos começar por nós mesmos. Antes de perguntarmos onde o mundo está errado, devemos perguntar onde nós estamos sendo conformados. Em quais áreas temos permitido que a cultura determine nossa compreensão de felicidade, sucesso, identidade, família, sexualidade, dinheiro, poder, beleza e realização? Quais ideias absorvemos sem perceber? Quais pressupostos da nossa época entraram silenciosamente em nossa maneira de pensar? Onde temos acrescentado à Palavra de Deus aquilo que Deus não disse? Onde temos diminuído aquilo que Deus afirmou? Onde estamos ouvindo a voz da serpente enquanto imaginamos estar simplesmente seguindo a nossa própria consciência?

A primeira grande mentira não foi simplesmente “Deus está errado”. Foi algo mais sutil: “Você pode interpretar a realidade sem precisar submeter-se à Palavra de Deus.” É essa mentira que atravessou os séculos. E é essa mentira que o evangelho confronta.

A resposta cristã não é simplesmente trocar uma ideologia por outra. É voltar à realidade criada por Deus, reconhecer sua autoridade, receber sua Palavra e encontrar em Cristo a verdadeira vida. O homem tentou encontrar liberdade tornando-se independente de Deus, mas descobriu a escravidão. Cristo chama o homem à rendição e oferece verdadeira liberdade: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).

A primeira grande mentira começou com uma pergunta sobre a Palavra de Deus. A restauração começa com uma resposta à Palavra de Deus. A serpente disse: “É assim que Deus disse?” O discípulo de Cristo precisa responder: “Sim, Deus falou, e porque Deus falou, nós ouvimos, cremos e obedecemos.”

Uma pergunta permanece

Mas se a batalha começou no campo das ideias, precisamos dar um passo além. Como exatamente chegamos à sociedade em que vivemos? Como uma cultura que durante séculos foi profundamente influenciada pelo cristianismo passou a questionar os próprios fundamentos sobre os quais havia sido construída? Que mudanças aconteceram no pensamento ocidental para que a autoridade de Deus fosse progressivamente substituída pela autoridade do homem?

Essa será a questão da próxima mensagem.

Se nesta primeira palavra voltamos ao Éden para descobrir onde tudo começou, na próxima precisamos avançar pela história das ideias para compreender como aquela antiga rebelião foi assumindo novas formas ao longo dos séculos. Precisaremos olhar para o desenvolvimento da cultura ocidental e perceber como mudanças filosóficas e intelectuais acabaram produzindo mudanças morais, sociais e espirituais.

A pergunta continuará sendo a mesma:

Como viveremos?

Mas, para respondê-la, precisaremos compreender primeiro como chegamos até aqui.

Referências

SCHAEFFER, Francis A. Como viveremos? São Paulo: Cultura Cristã, 2025. A edição brasileira corresponde à obra originalmente publicada em inglês como How Should We Then Live?, cuja primeira edição apareceu em 1976.

BÍBLIA SAGRADA. Gênesis 2–3; Salmo 119; Isaías 40.8; João 3.16; João 8.32; Romanos 1.18-25; Romanos 3.10,23; Romanos 12.1-2; Filipenses 2.5-11; Apocalipse 22.18-19.

EDGAR, William. Francis Schaeffer e a vida cristã: a espiritualidade contracultural. São Paulo: Cultura Cristã, 2018. A obra examina especialmente a espiritualidade de Schaeffer e sua compreensão da vida cristã em confronto com a cultura.

Soli Deo gloria

O pastor entre o púlpito e a administração

Delegação, treinamento e liderança compartilhada!

Introdução

Uma das questões mais delicadas do ministério pastoral contemporâneo é a relação entre liderança espiritual e administração da igreja. O pastor é chamado a pregar, ensinar, discipular, aconselhar, visitar, orar, liderar e cuidar do rebanho, mas também se vê diante de uma série de responsabilidades administrativas que não podem simplesmente ser ignoradas: orçamento, manutenção, documentos, agenda, pessoal, comunicação, eventos, compras, prestação de contas, organização de espaços, acompanhamento de equipes, tecnologia, registros e inúmeras outras tarefas. Em igrejas pequenas, muitas dessas funções acabam concentradas diretamente nas mãos do pastor; em igrejas maiores, mesmo quando existem funcionários e voluntários, o pastor pode continuar sendo envolvido em praticamente todas as decisões. Surge, então, uma pergunta fundamental: como preservar o tempo necessário para estudo, oração e ensino sem negligenciar a administração necessária para que a comunidade funcione adequadamente?

A primeira resposta precisa ser teológica: administração não é uma atividade espiritualmente inferior. O problema não está em administrar, mas em permitir que a administração ocupe todo o espaço do ministério pastoral. A Escritura apresenta diferentes formas de serviço no corpo de Cristo e demonstra que a igreja possui necessidades práticas que exigem organização. Atos 6 é particularmente significativo nesse sentido. A comunidade cristã cresceu, surgiu uma necessidade concreta relacionada à distribuição diária e os apóstolos reconheceram que não seria adequado abandonar a oração e o ministério da Palavra para assumir pessoalmente aquela responsabilidade. A solução não foi desprezar a administração, mas organizar a comunidade de modo que pessoas capacitadas assumissem aquela tarefa. O princípio é extraordinariamente atual: a igreja precisa ser administrada, mas o pastor não precisa necessariamente administrar pessoalmente tudo aquilo que precisa ser administrado.

1. O erro da centralização pastoral

Um dos maiores problemas administrativos das igrejas locais é a centralização excessiva. Em muitas comunidades, o pastor se transforma simultaneamente em pregador, professor, secretário, tesoureiro, gestor de pessoas, responsável pela comunicação, organizador de eventos, supervisor de manutenção, responsável pela tecnologia e solucionador oficial de qualquer problema que apareça. Algumas vezes essa centralização acontece porque o pastor não confia nas pessoas; em outras, porque não existem pessoas treinadas; em outras ainda, porque a cultura da própria igreja estabeleceu a expectativa de que tudo precisa passar pelo pastor.

Esse modelo pode parecer eficiente inicialmente, porque uma única pessoa toma decisões rapidamente. Entretanto, ele é estruturalmente frágil. Se tudo depende do pastor, a igreja não possui uma liderança desenvolvida; possui uma dependência institucional de uma pessoa. Além disso, a centralização produz dois problemas simultâneos: o pastor fica sobrecarregado e os demais membros permanecem subutilizados. Pessoas que poderiam aprender a servir não recebem oportunidade, enquanto o pastor se torna progressivamente incapaz de dedicar tempo às atividades que exigem sua responsabilidade principal.

Akin e Pace, em Teologia Pastoral, ajudam a pensar o ministério a partir de suas responsabilidades teológicas e pastorais, e não simplesmente como uma coleção de tarefas. Essa perspectiva permite distinguir aquilo que pertence essencialmente ao chamado pastoral daquilo que pode ser realizado por outros membros devidamente capacitados. A liderança pastoral não significa executar todas as tarefas da igreja; significa conduzir o corpo para que seus diferentes membros cumpram suas responsabilidades. A descrição editorial da obra enfatiza justamente a amplitude do trabalho pastoral e a necessidade de compreender teologicamente aquilo que o pastor é e faz.

2. Atos 6 e o princípio da distribuição de responsabilidades

Atos 6 oferece um dos textos mais importantes para essa discussão. A igreja de Jerusalém estava crescendo e surgiu uma queixa relacionada à distribuição diária às viúvas. Os apóstolos não consideraram aquela necessidade irrelevante. Pelo contrário, reconheceram que ela precisava ser resolvida. Mas também compreenderam que assumir pessoalmente aquela tarefa comprometeria outras responsabilidades centrais: “não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas” (At 6.2). A solução foi selecionar homens qualificados para aquela função.

O texto não estabelece uma divisão absoluta entre tarefas “espirituais” e “não espirituais”. Servir às mesas não era uma atividade secular; era uma necessidade concreta da comunidade cristã. O ponto era outro: diferentes membros possuem diferentes responsabilidades dentro do corpo. Os apóstolos deveriam concentrar-se especialmente na oração e no ministério da Palavra, enquanto outros homens assumiriam aquela responsabilidade prática.

Esse princípio pode ser aplicado ao pastorado contemporâneo sem qualquer dificuldade. O pastor não precisa considerar a administração uma tarefa indigna, mas precisa reconhecer que existem tarefas administrativas que podem e devem ser confiadas a pessoas capacitadas. Se o pastor passa horas resolvendo questões que poderiam ser administradas por uma equipe treinada, ele não está necessariamente demonstrando zelo; pode estar demonstrando uma estrutura ministerial mal organizada.

O objetivo da delegação não é simplesmente aliviar o pastor. Esse é um benefício importante, mas não é o fundamento principal. O objetivo é mobilizar o corpo de Cristo para o serviço. Efésios 4.11-12 apresenta os líderes como aqueles que equipam os santos para a obra do ministério. Isso significa que o ministério não deve ser concentrado nos líderes. O pastor não foi chamado para fazer todo o trabalho; foi chamado também para formar pessoas capazes de trabalhar.

3. A diferença entre delegar tarefas e formar líderes

Aqui está uma distinção fundamental: delegação não é simplesmente distribuir tarefas. Se o pastor apenas entrega tarefas às pessoas, sem treinamento, supervisão e acompanhamento, provavelmente estará transferindo problemas em vez de desenvolver líderes.

A verdadeira delegação envolve quatro movimentos: selecionar, treinar, acompanhar e avaliar. Primeiro, é necessário identificar pessoas confiáveis, maduras e capazes de aprender. Depois, essas pessoas precisam ser treinadas para compreender não apenas o que fazer, mas por que fazer. Em seguida, precisam receber acompanhamento enquanto executam a responsabilidade. Finalmente, precisam receber avaliação e feedback para melhorar.

Esse processo é mais trabalhoso inicialmente. É muito mais rápido o pastor fazer pessoalmente determinada tarefa do que ensinar outra pessoa a realizá-la. Entretanto, essa economia de tempo é ilusória. Se o pastor faz tudo sozinho durante cinco anos, terá economizado algumas horas de treinamento, mas terá construído uma igreja dependente de sua presença. Se investir tempo para treinar dez pessoas, talvez perca algumas horas inicialmente, mas terá criado capacidade ministerial que continuará funcionando sem sua intervenção direta.

Colin Marshall e Tony Payne, em A Treliça e a Videira, desenvolvem uma crítica importante à tendência de concentrar energia excessiva nas estruturas e programas da igreja. A imagem da treliça é útil precisamente porque mostra que estruturas são necessárias, mas não são o objetivo final. O foco do ministério deve estar nas pessoas e em seu crescimento como discípulos e trabalhadores do evangelho. A obra insiste na importância de trabalhar próximo das pessoas, ajudá-las a crescer e prepará-las para o ministério.

Esse princípio pode ser aplicado diretamente à administração. O pastor não deve perguntar apenas: “Quem pode fazer essa tarefa?” Deve perguntar: “Quem pode aprender a fazer essa tarefa e, ao mesmo tempo, crescer como líder?” A segunda pergunta produz uma cultura de discipulado muito mais profunda.

4. Treinar pessoas para a administração também é discipulado

Há uma tendência de considerar treinamento administrativo como algo separado do discipulado cristão. Essa separação precisa ser revista. Quando um membro aprende a organizar as finanças da igreja com honestidade, está sendo discipulado em integridade. Quando aprende a administrar uma equipe, está sendo treinado em serviço e liderança. Quando aprende a lidar com documentos, horários, comunicação e recursos, está desenvolvendo responsabilidade. Quando aprende a prestar contas, está praticando transparência. Quando administra recursos financeiros da igreja com temor de Deus, está exercitando mordomia cristã.

A administração da igreja, portanto, pode tornar-se um campo de formação de caráter cristão. A competência técnica é importante, mas a igreja precisa de pessoas tecnicamente capazes e espiritualmente confiáveis. Uma pessoa pode ser excelente administradora e, ao mesmo tempo, não possuir maturidade suficiente para lidar com recursos, informações confidenciais ou conflitos. Por isso, treinamento administrativo precisa caminhar junto com formação espiritual.

Nesse sentido, 1Timóteo 3 é particularmente significativo. Quando Paulo apresenta qualificações para liderança, ele não separa caráter e competência. O líder precisa possuir maturidade espiritual, bom testemunho, domínio próprio, capacidade de ensinar e uma vida familiar coerente. A competência sem caráter é perigosa; o caráter sem competência pode ser insuficiente para determinadas responsabilidades. A igreja precisa formar pessoas em ambas as dimensões.

5. O pastor não deve ser o administrador de tudo, mas o responsável pela direção

Delegar não significa abandonar a supervisão. Esse é outro extremo perigoso. Um pastor pode perceber a necessidade de delegar e, então, simplesmente transferir responsabilidades sem estabelecer critérios, processos e acompanhamento. Isso também pode produzir problemas.

A liderança pastoral precisa estabelecer visão, princípios, limites e mecanismos de prestação de contas. O pastor não precisa conferir cada detalhe, mas precisa saber se as áreas estão funcionando de acordo com os valores e objetivos da igreja. O tesoureiro deve administrar recursos dentro das normas estabelecidas. A equipe de comunicação deve trabalhar dentro da identidade e dos princípios da comunidade. Os responsáveis por eventos devem seguir procedimentos previamente definidos. A manutenção precisa ter responsáveis. A secretaria precisa possuir processos. As equipes precisam saber a quem respondem.

O pastor, portanto, não deve ser o executor de todas as tarefas, mas também não pode ser indiferente à maneira como elas são realizadas. Delegação saudável transfere responsabilidade sem abandonar autoridade e acompanhamento.

Aqui a metáfora de A Treliça e a Videira volta a ser útil. A estrutura é necessária. O problema não é ter treliça; é cuidar da treliça a ponto de esquecer a videira. A administração deve servir à missão da igreja. Orçamentos, prédios, equipamentos, agendas, documentos, equipes e sistemas existem para facilitar a missão e não para se tornar a própria missão.

6. O treinamento precisa ser intencional

Se uma igreja deseja diminuir a dependência administrativa do pastor, precisa abandonar a expectativa de que pessoas simplesmente “aparecerão prontas”. Líderes precisam ser formados. Isso requer um processo intencional.

Uma estratégia possível consiste em criar áreas claras de responsabilidade. Em vez de o pastor receber todas as demandas, cada área deve possuir uma pessoa ou equipe responsável. Finanças, secretaria, patrimônio, comunicação, tecnologia, eventos, recepção, crianças, jovens, ação social e outras áreas podem possuir responsáveis específicos. Cada responsável precisa conhecer sua autoridade, suas obrigações, os limites de sua atuação e os procedimentos de prestação de contas.

O segundo passo é identificar pessoas com potencial. Nem sempre serão aquelas que já ocupam posições de destaque. Algumas pessoas possuem grande capacidade, mas nunca receberam oportunidade. Outras são extremamente organizadas, confiáveis e discretas, características fundamentais para determinadas áreas administrativas. O pastor precisa aprender a observar talentos.

O terceiro passo é treinar. O treinamento precisa ser prático. Não basta dizer: “Agora você é responsável pela secretaria”. É necessário explicar processos, fornecer modelos, mostrar sistemas, estabelecer prazos e acompanhar os primeiros meses. O quarto passo é supervisionar sem microgerenciar. A pessoa precisa possuir espaço para desenvolver competência, cometer pequenos erros e aprender, sem que cada decisão seja imediatamente tomada pelo pastor.

7. O princípio da multiplicação ministerial

A lógica da formação de líderes aparece claramente em 2Timóteo 2.2, quando Paulo orienta Timóteo a transmitir aquilo que recebeu a pessoas fiéis e aptas para ensinar outros. O texto apresenta uma cadeia de transmissão: Paulo, Timóteo, homens fiéis e outros. O princípio é multiplicativo.

Esse princípio pode ser aplicado não apenas à pregação, mas à liderança de maneira geral. O pastor que administra tudo sozinho interrompe a multiplicação. O pastor que treina outros cria continuidade. Se o pastor sabe organizar um orçamento, deve ensinar alguém a fazê-lo. Se sabe administrar uma equipe, deve desenvolver outro líder. Se conhece processos de secretaria, deve capacitar alguém. Se compreende planejamento de eventos, deve preparar outros.

Isso exige humildade. Alguns líderes não delegam porque acreditam que ninguém fará tão bem quanto eles. Pode até ser verdade inicialmente. A pessoa treinada provavelmente fará pior no começo. Mas essa é a natureza do treinamento. Não se pode exigir competência antes de oferecer oportunidade de aprendizado.

O pastor que deseja construir uma igreja madura precisa aceitar que seus discípulos eventualmente farão algumas coisas melhor do que ele. Isso não diminui o pastor; demonstra que seu ministério funcionou.

8. O tempo pastoral precisa ser protegido

A delegação administrativa possui uma consequência direta para o estudo e o ensino: ela protege o tempo pastoral para aquilo que exige sua presença e competência. Um pastor que passa grande parte da semana resolvendo pequenos problemas administrativos dificilmente terá energia mental para preparar exposições bíblicas profundas. Mesmo que tenha algumas horas livres no calendário, a fragmentação da atenção prejudica a concentração necessária para o estudo.

O pastor precisa de períodos de trabalho profundo. Preparar uma série de exposições, estudar uma doutrina, escrever material de formação, ler um livro teológico ou preparar uma aula exige continuidade. Se a cada quinze minutos o pastor interrompe seu estudo para resolver um problema de manutenção, responder uma mensagem ou autorizar uma compra, o tempo aparentemente reservado para estudo deixa de cumprir sua finalidade.

John Stott, ao tratar do pregador em O Perfil do Pregador, ajuda-nos a compreender que o ministério da Palavra envolve uma responsabilidade que não pode ser tratada de maneira improvisada. O pregador é um despenseiro da mensagem que recebeu e precisa tratar essa responsabilidade com seriedade. A preparação, portanto, não é um luxo reservado aos acadêmicos; é parte da fidelidade do ministro à sua vocação.

A consequência administrativa é clara: se queremos pastores que estudem, precisamos construir estruturas que permitam aos pastores estudar. Não adianta exigir sermões profundos de pastores cuja agenda está permanentemente ocupada com tarefas que outras pessoas poderiam executar.

9. A administração precisa de processos, não apenas de pessoas

Outro aspecto importante é que delegação sem processos pode gerar dependência de indivíduos diferentes. Uma igreja pode substituir a dependência do pastor pela dependência de um tesoureiro, de um secretário ou de um líder específico. Isso não resolve o problema; apenas o desloca.

É necessário criar procedimentos básicos. Como são feitas compras? Quem autoriza? Como funciona a prestação de contas? Quem controla documentos? Como são registrados os pagamentos? Como são administrados eventos? Quem tem acesso a determinadas informações? Como são tratados dados pessoais? Como funcionam contratos? Como são arquivados documentos? Como são comunicadas decisões?

Esses processos não precisam transformar a igreja em uma empresa burocrática. O objetivo é reduzir a dependência de memória individual e aumentar a previsibilidade. Uma boa estrutura administrativa permite que uma pessoa seja substituída sem que todo o sistema desmorone.

Aqui novamente a metáfora de Marshall e Payne é útil: a treliça precisa existir, mas precisa permanecer subordinada à videira. A estrutura administrativa deve ser suficientemente robusta para sustentar o ministério e suficientemente simples para não dominar o ministério.

10. O pastor como formador de líderes

Talvez essa seja a mudança mais importante de mentalidade. O pastor não deveria perguntar somente: “Como posso fazer melhor?” Deveria perguntar também: “Quem estou formando para fazer isso?”

Essa pergunta muda completamente a administração pastoral. Se chega uma tarefa que o pastor sabe executar, ele pode realizá-la imediatamente ou pode utilizá-la como oportunidade de treinamento. Se alguém precisa aprender a organizar um evento, o pastor pode fazer sozinho e terminar rapidamente; ou pode acompanhar uma pessoa durante o processo, permitindo que ela aprenda. Se é necessário preparar uma reunião, pode simplesmente fazer a pauta; ou pode ensinar alguém a preparar pautas e conduzir reuniões.

O segundo caminho é mais lento no curto prazo, mas muito mais produtivo no longo prazo.

Essa é uma das principais contribuições de A Treliça e a Videira: o ministério cristão deve concentrar-se na formação de pessoas e na multiplicação de trabalhadores, e não simplesmente na manutenção de estruturas. O pastor, portanto, precisa enxergar cada responsabilidade como uma oportunidade potencial de desenvolvimento de pessoas.

11. Administração também exige prestação de contas

A descentralização não elimina a necessidade de accountability. Pelo contrário, quanto mais responsabilidades são distribuídas, mais importante se torna estabelecer mecanismos de prestação de contas. Uma igreja saudável não deve depender exclusivamente da confiança pessoal; deve possuir processos que promovam transparência.

Isso é particularmente importante em áreas financeiras. A administração de recursos da igreja precisa ser transparente, documentada e supervisionada. Não basta afirmar que determinada pessoa é “de confiança”. O princípio bíblico de integridade exige procedimentos que protejam tanto a igreja quanto aqueles que administram seus recursos.

O mesmo vale para outras áreas. Informações pastorais sensíveis precisam ser tratadas com responsabilidade. Dados pessoais precisam ser protegidos. Contratações precisam possuir critérios. Despesas precisam ser justificadas. Decisões importantes precisam possuir registro. A boa administração não é inimiga da espiritualidade; ela pode ser uma expressão da mordomia cristã.

12. O objetivo não é tornar a igreja mais eficiente, mas mais saudável

Existe, contudo, um perigo no discurso sobre administração: transformar a igreja em uma organização cuja principal finalidade seja eficiência. A igreja não é uma empresa. Seu objetivo não é maximizar produtividade, reduzir custos ou aumentar indicadores simplesmente porque esses conceitos são valorizados no mundo corporativo.

A administração cristã precisa permanecer subordinada à missão espiritual da igreja. Uma estrutura eficiente que não produz discípulos é apenas uma estrutura eficiente. Uma organização impecável que não proclama o evangelho pode ser administrativamente admirável e espiritualmente vazia.

Por isso, o critério final não deve ser simplesmente: “Estamos fazendo tudo de maneira eficiente?” A pergunta deve ser: “Nossa administração está servindo à missão de fazer discípulos e edificar a igreja de Cristo?”

Essa distinção é fundamental. A igreja precisa de planejamento, organização e responsabilidade, mas não pode permitir que essas ferramentas determinem sua identidade. O objetivo continua sendo Cristo, o evangelho, a Palavra, a comunhão, a missão e a formação de discípulos.

Conclusão

O equilíbrio entre estudo, ensino e administração não será alcançado quando o pastor aprender a fazer tudo sozinho de maneira mais eficiente. Será alcançado quando ele compreender que seu chamado inclui formar uma comunidade capaz de servir coletivamente. O pastor não é o único trabalhador da igreja; é também um equipador de trabalhadores.

Atos 6 oferece o princípio: necessidades administrativas são reais, mas não devem consumir aquilo que constitui a responsabilidade central dos apóstolos. Efésios 4 oferece a finalidade: os líderes existem para equipar os santos para a obra do ministério. 2Timóteo 2 oferece a dinâmica: aquilo que recebemos deve ser transmitido a pessoas fiéis e capazes de ensinar outros. Esses textos, juntos, oferecem uma visão de liderança que não é centralizadora, mas multiplicadora.

O pastor precisa, portanto, aprender a delegar. Mas precisa mais do que isso: precisa treinar. Precisa identificar pessoas, confiar responsabilidades, acompanhar processos, corrigir erros, oferecer feedback e criar oportunidades para que novos líderes amadureçam. O pastor que faz tudo pode produzir uma igreja dependente dele; o pastor que treina outros pode produzir uma igreja capaz de continuar servindo mesmo quando ele não estiver presente.

Richard Baxter nos lembra da seriedade do cuidado pastoral. John Stott nos lembra da responsabilidade do pregador diante da Palavra. Akin e Pace nos ajudam a compreender o caráter teológico do pastorado. Marshall e Payne nos lembram de que estruturas devem servir à formação de pessoas e ao crescimento do evangelho. Essas contribuições convergem em uma conclusão pastoral importante: o pastor não deve abandonar a administração, mas também não deve permitir que ela governe seu ministério.

A boa administração é aquela que libera o pastor para aquilo que exige sua vocação específica e, ao mesmo tempo, oferece aos demais membros oportunidades reais de serviço e crescimento. O pastor deve ensinar a igreja, mas também deve ensinar pessoas a ensinar. Deve liderar, mas também deve formar líderes. Deve administrar, mas também deve formar administradores. Deve cuidar das ovelhas, mas também deve capacitar outras ovelhas maduras para cuidarem umas das outras.

No final, talvez a pergunta mais importante para um pastor não seja “Como consigo dar conta de tudo?”, mas:

“Como posso estruturar a igreja de modo que o ministério não dependa de eu dar conta de tudo?”

Essa mudança de pergunta representa uma mudança de paradigma. O objetivo não é construir um ministério centrado na capacidade extraordinária de um pastor, mas uma igreja na qual cada membro possa cumprir sua vocação e servir de acordo com os dons e responsabilidades que Deus lhe concedeu.

O pastor que chega a essa compreensão não perde autoridade; ele exerce sua autoridade de maneira mais bíblica. Não perde relevância; torna-se ainda mais relevante. Não trabalha menos necessariamente; trabalha de maneira mais estratégica. E, sobretudo, deixa de ser simplesmente aquele que executa o ministério para tornar-se aquilo que o Novo Testamento apresenta como uma das grandes responsabilidades da liderança cristã: aquele que equipa os santos para que toda a igreja participe da obra do ministério.

Referências bibliográficas

  • AKIN, Daniel L.; PACE, R. Scott. Teologia Pastoral: fundamentos teológicos do que é e do que faz um pastor. São Paulo: Pro Nobis, 2023.
  • BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES – Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016.
  • MARSHALL, Colin; PAYNE, Tony. A Treliça e a Videira: a mentalidade de discipulado que muda tudo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015.
  • STOTT, John R. W. O Perfil do Pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011.

Soli Deo gloria

O pastor entre a profundidade teológica e as necessidades da igreja

Como equilibrar estudo, ensino e cuidado pastoral?

Introdução

Uma das tensões mais importantes do ministério pastoral contemporâneo encontra-se na relação entre profundidade teológica e realidade pastoral. O pastor é chamado a ensinar a Palavra de Deus, interpretar as Escrituras, formar discípulos, proteger a igreja de erros doutrinários e conduzir a comunidade à maturidade cristã; ao mesmo tempo, ele pastoreia pessoas concretas, com problemas concretos, em situações que frequentemente não podem ser adiadas para que o ministro tenha tempo de concluir sua próxima leitura teológica. O pastor recebe mensagens durante a semana, visita enfermos, aconselha casais, acompanha famílias em crise, participa de reuniões, prepara cultos, supervisiona líderes, enfrenta conflitos, responde a demandas administrativas e, em determinadas comunidades, ainda precisa lidar pessoalmente com praticamente todas as questões que surgem na vida da igreja. Essa realidade cria uma tensão legítima: como permanecer profundamente dedicado ao estudo e ao ensino sem tornar-se um acadêmico distante das ovelhas que lhe foram confiadas? E, inversamente, como permanecer tão envolvido com as necessidades pastorais imediatas sem permitir que a urgência destrua a formação teológica necessária para exercer o próprio ministério?

A questão não deve ser resolvida mediante a escolha de um dos polos. O pastor não precisa escolher entre ser teólogo e ser pastor, porque o próprio conceito bíblico de pastorado pressupõe ensino, cuidado, liderança, proteção e formação espiritual. Daniel L. Akin e R. Scott Pace, em Teologia Pastoral: Fundamentos teológicos do que é e do que faz um pastor, defendem justamente uma compreensão do ministério pastoral na qual a teologia não aparece como atividade acadêmica separada da prática, mas como fundamento para aquilo que o pastor é e faz. A obra procura relacionar os fundamentos bíblicos e teológicos do ofício pastoral com suas responsabilidades concretas, partindo da convicção de que o pastorado é essencialmente teológico. Essa perspectiva é particularmente importante em uma época na qual existe uma tendência de separar “teologia” e “ministério”, como se o primeiro pertencesse ao seminário e o segundo à igreja local. Na realidade, o pastor precisa pensar teologicamente precisamente porque pastoreia pessoas em situações que exigem discernimento espiritual e doutrinário.

1. O ministério pastoral é, por natureza, um ministério teológico

A primeira questão a ser estabelecida é conceitual: o ensino teológico não é um acréscimo ao ministério pastoral; ele pertence à própria natureza do pastorado. No Novo Testamento, a liderança da igreja está inseparavelmente relacionada à doutrina. Paulo estabelece que o presbítero deve ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2), e, em Tito 1.9, relaciona a liderança pastoral à capacidade de preservar a “palavra fiel” e utilizá-la tanto para exortar pela sã doutrina quanto para convencer aqueles que contradizem essa doutrina. Em 2Timóteo 2.15, Timóteo é chamado a manejar corretamente a Palavra da verdade, enquanto em 2Timóteo 4.2 Paulo o encarrega de pregar a Palavra, insistir “quer seja oportuno, quer não”, corrigir, repreender e exortar com toda longanimidade e doutrina. O ministério pastoral, portanto, não pode ser concebido simplesmente como gestão de pessoas ou prestação de assistência religiosa; ele possui uma dimensão doutrinária constitutiva. O pastor cuida das pessoas por meio da verdade cristã, e não independentemente dela.

Richard Baxter, em O Pastor Aprovado, representa uma das expressões clássicas dessa compreensão pastoral. Sua preocupação não é produzir um ministro meramente intelectual, mas um homem cuja vida, doutrina e prática estejam integradas. O pastor precisa conhecer a verdade, mas precisa igualmente viver aquilo que ensina e aplicá-lo ao rebanho. Baxter é particularmente importante porque não permite que a atividade pastoral seja reduzida a um trabalho de púlpito. Para ele, o pastor precisa conhecer as pessoas, instruí-las, aconselhá-las e acompanhar concretamente sua vida espiritual. Sua concepção de pastorado combina doutrina, piedade, pregação, cuidado individual e vigilância sobre a própria vida. A edição portuguesa de O Pastor Aprovado, publicada pela PES, permanece uma referência clássica para pensar a responsabilidade pastoral e a relação entre o caráter do ministro e o cuidado do rebanho.

Essa integração nos ajuda a superar uma falsa oposição que, infelizmente, pode aparecer em determinados ambientes ministeriais: de um lado estaria o pastor “teológico”, que gosta de estudar, ler e ensinar, mas seria supostamente distante das pessoas; de outro estaria o pastor “prático”, que visita, aconselha, resolve problemas e acompanha a vida da igreja, mas não teria necessidade de grande aprofundamento acadêmico. Essa dicotomia é artificial. O pastor precisa de teologia precisamente porque as pessoas possuem problemas que exigem respostas teologicamente responsáveis. Um casal em crise não precisa apenas de conselhos genéricos; precisa compreender casamento, pecado, perdão, graça, responsabilidade, santificação e reconciliação. Uma pessoa enlutada não precisa apenas de palavras de conforto; precisa de uma esperança cristã fundamentada na ressurreição, na providência e na escatologia. Um membro enfrentando uma crise de fé precisa ser acompanhado por alguém que compreenda doutrina, Escritura, dúvida, sofrimento e perseverança. O estudo teológico, portanto, não afasta o pastor das pessoas quando é corretamente integrado ao ministério; pelo contrário, torna o cuidado pastoral mais profundo.

2. A urgência pastoral não pode destruir a importância do estudo

Uma das maiores dificuldades do pastor é lidar com a tirania da urgência. A igreja produz necessidades continuamente, e muitas delas possuem aparência de emergência. Uma pessoa quer conversar imediatamente, uma família enfrenta uma crise, alguém está hospitalizado, existe um conflito entre líderes, uma reunião precisa ser convocada, uma atividade precisa ser organizada, um problema administrativo precisa ser resolvido. Se o pastor não estabelecer critérios claros, toda a sua agenda será determinada por aquilo que grita mais alto. O resultado é previsível: aquilo que é urgente ocupa todo o espaço, enquanto aquilo que é importante, mas não urgente, é constantemente adiado.

O estudo teológico frequentemente sofre justamente desse problema. Ler um livro de teologia não produz uma emergência. Estudar hebraico ou grego durante duas horas não parece urgente. Ler um comentário bíblico, pesquisar uma passagem, revisar uma doutrina ou acompanhar uma discussão acadêmica não produz necessariamente uma sensação imediata de produtividade. Uma visita hospitalar produz uma necessidade visível; três horas de leitura silenciosa produzem apenas páginas marcadas e anotações. Entretanto, o pastor que abandona sistematicamente o estudo porque precisa resolver problemas urgentes pode acabar tornando-se menos preparado justamente para resolver os problemas que surgirão no futuro.

Nesse ponto, a reflexão de Colin Marshall e Tony Payne em A Treliça e a Videira é extremamente útil. Os autores utilizam a imagem da treliça e da videira para distinguir estruturas e programas daquilo que constitui propriamente o crescimento espiritual e o discipulado. A estrutura possui importância, mas não é o objetivo final. Quando a estrutura passa a dominar a missão, a igreja corre o risco de gastar grande parte de sua energia mantendo a própria máquina funcionando. A aplicação ao pastorado é evidente: as demandas administrativas e pastorais são reais, mas não podem consumir completamente aquilo que constitui a essência do ministério cristão. A própria Editora Fiel apresenta a obra como uma reflexão sobre o discipulado, o desenvolvimento de pessoas e a formação de trabalhadores para o ministério.

O pastor precisa, portanto, proteger deliberadamente seu tempo de estudo. Isso não significa ser irresponsável com as necessidades da congregação. Significa compreender que o estudo também é uma atividade pastoral. Quando o pastor passa uma manhã preparando uma exposição bíblica, estudando o contexto de um texto, consultando comentários e examinando questões doutrinárias, ele não está necessariamente “fugindo do povo”. Está preparando alimento para o povo. Quando lê um livro sobre teologia pastoral, está aumentando sua capacidade de cuidar das pessoas. Quando estuda uma doutrina difícil, está preparando-se para responder às perguntas que algum membro fará amanhã.

3. O estudo deve nascer das necessidades reais da igreja

Isso não significa, entretanto, que o estudo pastoral precise ser abstrato ou desconectado da realidade. Uma das melhores maneiras de equilibrar profundidade teológica e prática pastoral consiste em estudar aquilo que a própria vida da igreja está colocando diante do pastor. A realidade pastoral pode se transformar em agenda teológica.

Se a igreja está enfrentando dúvidas sobre dons espirituais, o pastor deve estudar pneumatologia. Se existem questionamentos sobre predestinação e livre agência, deve estudar soteriologia. Se há dificuldades relacionadas ao sofrimento, deve aprofundar-se em providência, teodiceia e escatologia. Se existem conflitos familiares recorrentes, deve estudar antropologia bíblica, casamento, pecado, reconciliação e santificação. Se os jovens estão sendo influenciados por determinada corrente filosófica ou cultural, o pastor precisa conhecer o assunto e desenvolver uma resposta cristã.

Essa abordagem cria uma espécie de ciclo virtuoso entre teologia e pastorado: a vida da igreja suscita perguntas; as perguntas conduzem o pastor ao estudo; o estudo produz ensino; o ensino amadurece a igreja; uma igreja mais madura formula perguntas melhores; e essas novas perguntas aprofundam novamente o estudo pastoral. O resultado é uma comunidade que cresce teologicamente porque seu pastor não estuda simplesmente para acumular conhecimento, mas para servir.

John Stott, em O Perfil do Pregador, apresenta o ministério do pregador utilizando imagens bíblicas como despenseiro, arauto, testemunha, pai e servo. A combinação dessas imagens é significativa porque impede que o pregador seja reduzido a um intelectual que transmite informação ou a um comunicador que busca produzir impacto. O pregador é alguém encarregado de uma mensagem, mas também é testemunha, pai e servo. Sua tarefa envolve verdade e relacionamento, autoridade bíblica e humildade, proclamação e cuidado. Essa integração é especialmente importante para o pastor que deseja equilibrar estudo profundo e presença pastoral: a verdade precisa ser estudada para ser ensinada, e ensinada para formar pessoas.

4. O pastor precisa aprender a diferenciar presença pastoral de disponibilidade permanente

Outro problema contemporâneo é a confusão entre pastoreio e disponibilidade absoluta. O pastor pode chegar a acreditar que precisa responder imediatamente a todas as mensagens, participar de todas as conversas, resolver pessoalmente todos os problemas e estar fisicamente presente em todas as atividades. Essa expectativa não é sustentável e, em longo prazo, pode produzir esgotamento, superficialidade e centralização excessiva.

Jesus mesmo estabeleceu ritmos de retirada, oração e descanso ministerial. Os Evangelhos mostram o Senhor atendendo multidões e, ao mesmo tempo, retirando-se para lugares solitários para orar. O ministério de Jesus não era governado pela pressão das demandas. Havia uma consciência de missão. Em Marcos 1.35-38, por exemplo, depois de uma noite de intensa atividade, Jesus retira-se para orar e, quando os discípulos o encontram e dizem que todos o procuram, ele não simplesmente retorna porque a demanda aumentou; ele reafirma sua missão e segue para outros lugares. A passagem não oferece um manual de administração de agenda, mas estabelece um princípio: nem toda demanda determina automaticamente a prioridade ministerial.

Richard Baxter também ajuda nesse ponto porque seu modelo pastoral é profundamente pessoal, mas não superficial. O pastor deve conhecer suas ovelhas, ensinar, aconselhar e acompanhar, porém isso exige organização e propósito. O cuidado pastoral não precisa significar que o pastor seja a única pessoa capaz de cuidar. Ao contrário, uma igreja saudável precisa desenvolver outros líderes capazes de visitar, aconselhar dentro de seus limites, discipular, ensinar, liderar pequenos grupos e exercer diferentes formas de serviço.

O pastor que tenta ser pessoalmente responsável por tudo pode, paradoxalmente, impedir o desenvolvimento da própria igreja. Ele se torna indispensável para tarefas que poderiam ser realizadas por outros e, ao mesmo tempo, fica sem tempo para aquelas atividades que realmente exigem sua competência pastoral e teológica.

5. A profundidade teológica precisa chegar ao povo

Outro aspecto importante é que o estudo do pastor não pode transformar-se em um fim em si mesmo. Um pastor pode possuir uma biblioteca extraordinária, conhecer autores importantes, acompanhar debates acadêmicos e dominar conceitos teológicos e, ainda assim, ser um professor ruim. Conhecimento acumulado não é o mesmo que conhecimento transmitido.

O pastor-teólogo precisa desenvolver a capacidade de traduzir conceitos complexos para a linguagem da congregação sem destruir sua precisão. Essa é uma das tarefas mais difíceis do ensino cristão. Simplificar não significa banalizar. Um bom professor consegue explicar uma doutrina profundamente sem exigir que todos os membros dominem a terminologia técnica usada pelos especialistas.

Essa capacidade possui implicações pastorais profundas. Se o pastor estuda predestinação, por exemplo, precisa ser capaz de apresentar a doutrina de maneira que a congregação compreenda os textos bíblicos envolvidos, as diferentes interpretações cristãs e as implicações pastorais do assunto. Se ensina pneumatologia, precisa explicar conceitos como dons, batismo no Espírito, santificação e profecia de maneira acessível. Se aborda hermenêutica, precisa ensinar a igreja a ler o texto bíblico sem transformar cada aula em uma disciplina universitária.

O objetivo final do estudo pastoral não é que o pastor seja admirado por sua erudição, mas que a igreja cresça em maturidade. O conhecimento que não chega à igreja não cumpre plenamente sua finalidade pastoral.

6. O pastor como estudioso permanente

Por fim, é necessário recuperar a ideia de que a formação pastoral nunca termina. O pastor que concluiu um curso de teologia não concluiu sua formação; terminou apenas uma etapa. O ministro precisa continuar lendo, estudando, ouvindo outros autores, revisando suas posições, conhecendo a história da igreja e confrontando suas convicções com as Escrituras.

Esse princípio possui uma dimensão espiritual. O pastor não estuda apenas para ser mais competente; estuda porque ama a verdade e porque sabe que ensina pessoas que pertencem a Cristo. Richard Baxter colocou enorme peso sobre a responsabilidade do ministro diante de Deus e sobre a necessidade de examinar a própria vida. John Stott insistiu na integração entre mensagem e caráter. Akin e Pace defendem uma compreensão teológica do próprio ofício pastoral. Marshall e Payne chamam a atenção para a necessidade de investir em pessoas e não apenas em estruturas. Esses autores, provenientes de contextos e tradições diferentes, convergem em algo importante: o pastor precisa compreender o que está fazendo e por que está fazendo.

A questão, então, não é encontrar um equilíbrio matemático — tantas horas de estudo, tantas horas de visita, tantas horas de aconselhamento. O equilíbrio pastoral é mais profundo. Trata-se de ordenar as atividades de acordo com a missão do ministério. O pastor estuda para ensinar; ensina para formar; forma para multiplicar; cuida para amadurecer; lidera para servir; e serve para glorificar a Cristo.

Conclusão

O pastor não precisa escolher entre profundidade teológica e proximidade pastoral. Na realidade, uma alimenta a outra. Um pastor que conhece profundamente a Escritura está mais preparado para aconselhar, pregar, ensinar, corrigir e consolar. Um pastor que conhece profundamente seu povo consegue perceber quais questões teológicas precisam ser estudadas e ensinadas. O grande desafio não é escolher entre o livro e a ovelha, mas ler o livro por amor à ovelha e conhecer a ovelha para saber quais verdades precisam ser ensinadas.

O pastor precisa, portanto, reservar tempo para estudar, mas também precisa reservar tempo para ouvir. Precisa alimentar a própria mente e alimentar o rebanho. Precisa subir ao púlpito preparado intelectualmente e descer dele disposto a caminhar com pessoas. Precisa ser suficientemente teológico para não ser levado por qualquer vento de doutrina e suficientemente pastoral para não transformar pessoas em meros objetos de suas ideias.

Em última análise, o verdadeiro equilíbrio pastoral não está em dividir o ministério em duas áreas independentes, “teologia” de um lado e “prática” do outro. A teologia deve orientar a prática, e a prática deve manter a teologia pastoralmente encarnada. O pastor que estuda sem pastorear pode tornar-se distante; o pastor que pastoreia sem estudar pode tornar-se superficial. Mas o pastor que une estudo, oração, exposição bíblica, cuidado pessoal e formação de novos líderes pode servir à igreja de maneira muito mais saudável.

A pergunta que o pastor precisa fazer regularmente não é simplesmente “quanto tempo estou estudando?”, mas: “Meu estudo está me tornando um pastor melhor?” E também não basta perguntar “quanto tempo estou atendendo pessoas?”, mas: “Meu envolvimento com as necessidades da igreja está me impedindo de preparar aquilo que a igreja precisa ouvir?”

Quando essas duas perguntas são feitas com honestidade, o pastor começa a perceber que o estudo e o pastoreio não são inimigos. Ambos pertencem ao mesmo chamado.

Referências bibliográficas

  • AKIN, Daniel L.; PACE, R. Scott. Teologia Pastoral: fundamentos teológicos do que é e do que faz um pastor. São Paulo: Pro Nobis, 2023.
  • BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES – Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016.
  • MARSHALL, Colin; PAYNE, Tony. A Treliça e a Videira: a mentalidade de discipulado que muda tudo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015.
  • STOTT, John R. W. O Perfil do Pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011.
  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Utilizada nas citações bíblicas conforme as referências indicadas no texto.

Soli Deo gloria

Êxodo pentecostal

UMA REFLEXÃO SOBRE TEOLOGIA, FORMAÇÃO CRISTÃ E IDENTIDADE PENTECOSTAL.

Introdução

Nos últimos anos, tornou-se relativamente comum, especialmente nas redes sociais e entre jovens evangélicos, falar sobre um chamado “êxodo pentecostal”, expressão utilizada para descrever a migração de cristãos oriundos de igrejas pentecostais para comunidades identificadas com a tradição reformada, particularmente aquelas influenciadas pelo chamado novo calvinismo. É preciso, entretanto, fazer uma ressalva metodológica antes de qualquer análise: não dispomos, até o momento, de elementos suficientes para tratar essa expressão como uma categoria sociológica consolidada, mensurável e capaz de explicar, por si mesma, os deslocamentos religiosos contemporâneos. A literatura acadêmica sobre o protestantismo brasileiro demonstra, na realidade, um campo religioso extremamente dinâmico, marcado por migrações denominacionais, mudanças de identidade, pluralização interna, novas formas de circulação religiosa e transformações na relação entre religião, cultura e mídia. Ricardo Mariano, em Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, demonstra como o próprio pentecostalismo brasileiro passou por profundas transformações internas, especialmente com o surgimento e a expansão do neopentecostalismo, enquanto Gedeon Freire de Alencar, em Matriz pentecostal brasileira, chama atenção para a complexidade histórica das Assembleias de Deus e das transformações ocorridas dentro do próprio universo pentecostal. Portanto, o termo “êxodo pentecostal” será utilizado neste artigo como uma categoria descritiva do debate contemporâneo, e não como uma afirmação de que exista um movimento uniforme, nacional e estatisticamente comprovado de pentecostais migrando para igrejas reformadas.

Feita essa ressalva, existe uma questão que merece ser discutida com absoluta seriedade: por que determinados cristãos que cresceram em igrejas pentecostais estão encontrando na tradição reformada uma estrutura teológica que lhes parece mais capaz de responder às suas perguntas sobre a fé cristã? Essa pergunta não deve ser recebida com ressentimento, muito menos com uma postura de competição entre tradições. Tampouco devemos partir da premissa de que todo pentecostal que se torna reformado finalmente “descobriu a verdade”, como se toda igreja pentecostal fosse teologicamente superficial e toda igreja reformada fosse necessariamente sólida. Isso seria uma caricatura de ambos os lados. Há igrejas pentecostais profundamente comprometidas com as Escrituras e com excelente formação teológica, assim como existem comunidades reformadas que podem ser espiritualmente frias, academicamente arrogantes ou pastoralmente deficientes. Ainda assim, uma hipótese merece ser considerada: em determinados contextos pentecostais, a fragilidade da formação bíblica e doutrinária pode estar contribuindo para que alguns membros procurem em outras tradições aquilo que não encontraram suficientemente desenvolvido em suas próprias comunidades.

Essa hipótese não representa uma rejeição do pentecostalismo. Pelo contrário, ela parte da convicção de que o pentecostalismo possui recursos bíblicos e teológicos suficientes para desenvolver uma identidade doutrinariamente robusta. A questão não é saber se existe teologia pentecostal; ela existe e possui uma produção considerável. A questão é saber quanto dessa teologia chega efetivamente ao banco da igreja, ao púlpito, à Escola Bíblica, aos pequenos grupos, aos jovens e aos novos convertidos. Essa diferença entre possuir uma tradição teológica e formar efetivamente pessoas dentro dessa tradição talvez seja uma das chaves para compreender parte da atual movimentação de cristãos entre diferentes comunidades evangélicas.

1. O pentecostalismo possui uma tradição teológica

É importante começar desconstruindo uma ideia equivocada: o pentecostalismo não nasceu como um movimento necessariamente contrário ao pensamento teológico. Sua história está ligada ao protestantismo, ao movimento de santidade, ao avivalismo e a diferentes correntes de renovação espiritual que buscavam recuperar uma experiência mais intensa da presença e da atuação do Espírito Santo. A tradição pentecostal clássica desenvolveu afirmações doutrinárias próprias acerca do batismo no Espírito Santo, dos dons espirituais, da cura divina, da missão, da santificação e da expectativa escatológica, mas permaneceu inserida no horizonte mais amplo das doutrinas cristãs fundamentais. Por isso, seria historicamente inadequado definir o pentecostalismo simplesmente como uma religião da experiência em oposição à religião da doutrina. O problema não está necessariamente na experiência; está na possibilidade de uma experiência religiosa ser praticada sem suficiente fundamentação, avaliação e orientação pelas Escrituras.

Uma evidência clara de que existe uma tradição teológica pentecostal é a publicação de Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, organizada por Stanley M. Horton. A obra, publicada em português pela CPAD, reúne diversos autores e trata de temas centrais da teologia cristã — Deus, criação, humanidade, pecado, salvação, igreja, Espírito Santo, dons espirituais e escatologia — a partir de uma perspectiva pentecostal. A própria descrição editorial da obra a apresenta como um compêndio voltado para a exposição das principais doutrinas cristãs à luz da tradição e da experiência pentecostal. Portanto, não é correto dizer que os pentecostais não possuem teologia sistemática ou tradição doutrinária. Possuem. O desafio é outro: transformar essa produção teológica em cultura de formação nas igrejas locais.

Essa distinção é fundamental. Uma denominação pode possuir seminários, teólogos, livros, declarações doutrinárias e instituições de ensino e, ainda assim, apresentar comunidades locais nas quais o conhecimento doutrinário seja reduzido. Um pastor pode possuir uma biblioteca teológica e nunca utilizar seus recursos na formação da congregação. Uma igreja pode ter uma declaração de fé excelente e, ao mesmo tempo, dedicar pouquíssimo tempo ao ensino sistemático dessa declaração. Uma denominação pode possuir uma tradição teológica respeitável, mas seus membros podem conhecê-la apenas superficialmente. O problema, portanto, não é necessariamente a ausência de teologia; é a distância entre a teologia da tradição e a formação efetiva do povo.

2. A tradição reformada e a força da sistematização

É nesse ponto que precisamos reconhecer, sem constrangimento e sem espírito de rivalidade, uma característica histórica da tradição reformada: sua extraordinária capacidade de sistematização teológica. Desde a Reforma Protestante, diferentes autores reformados desenvolveram instrumentos para organizar as doutrinas cristãs de maneira coerente, relacionando Escritura, confissões, catecismos e reflexão teológica. Isso não significa que a tradição reformada esteja correta em todas as suas conclusões. Significa que ela construiu uma cultura intelectual profundamente preocupada com a formulação doutrinária, a interpretação das Escrituras e a coerência interna de suas afirmações.

Uma obra contemporânea que demonstra isso é a Teologia Sistemática, de Wayne Grudem, publicada em português pela Vida Nova. A segunda edição brasileira, publicada em 2022, possui 57 capítulos e 1.744 páginas e apresenta as doutrinas cristãs com forte ênfase na fundamentação escriturística e nas aplicações práticas. A própria editora destaca que a obra procura oferecer explicações claras e uma base bíblica para cada doutrina, além de discutir questões contemporâneas do mundo evangélico. É perfeitamente possível discordar de Grudem em diversos pontos — inclusive em questões importantes para pentecostais e arminianos — e ainda assim reconhecer que o leitor encontrará uma tentativa sistemática de responder às grandes questões da fé cristã.

Esse é um ponto que o pentecostalismo precisa reconhecer com maturidade. Não devemos confundir discordância teológica com ausência de qualidade teológica. Posso discordar da doutrina reformada da eleição, por exemplo, e continuar reconhecendo que autores reformados desenvolveram argumentos bíblicos sofisticados em favor dela. Posso discordar do cessacionismo e ainda reconhecer que seus defensores possuem argumentos que precisam ser respondidos biblicamente. Posso ser arminiano clássico e continuísta e, ao mesmo tempo, recomendar que meus alunos leiam autores reformados para compreenderem as posições das quais discordam. O estudo sério não é uma ameaça à convicção; é uma das maneiras pelas quais a convicção se torna intelectualmente responsável.

É justamente essa cultura de argumentação que muitos jovens cristãos estão encontrando atualmente na literatura reformada. Eles encontram livros que apresentam uma doutrina, demonstram os textos bíblicos utilizados em sua defesa, apresentam argumentos contrários, estabelecem categorias teológicas e procuram construir uma visão integrada da fé. Quando um jovem que passou anos em uma igreja na qual ouviu repetidamente afirmações como “Deus quer”, “Deus falou”, “o Espírito revelou” ou “é assim porque sempre aprendemos assim” encontra uma tradição que lhe apresenta dezenas de páginas explicando por que determinada afirmação deve ser aceita, é natural que isso desperte interesse.

A questão que precisamos fazer não é simplesmente: “Por que esse jovem foi atraído pela teologia reformada?” Precisamos perguntar também: “Por que nós não o ensinamos a pensar teologicamente dentro da própria tradição pentecostal?”

3. Experiência espiritual e formação doutrinária

Uma das grandes contribuições do pentecostalismo ao cristianismo contemporâneo foi insistir na atualidade da ação do Espírito Santo. O pentecostalismo recusou a ideia de que os relatos bíblicos sobre a atuação extraordinária do Espírito deveriam ser tratados simplesmente como acontecimentos encerrados no passado. O movimento afirmou que Deus continua agindo, capacitando, curando, consolando, distribuindo dons e conduzindo sua igreja em missão. Essa ênfase possui grande importância para a vida cristã.

O problema aparece quando a experiência espiritual é separada da reflexão bíblica. O Novo Testamento não apresenta uma oposição entre Espírito e Palavra. Pelo contrário, a comunidade cristã é constantemente chamada a discernir, provar, examinar e avaliar. Em 1Coríntios 14, Paulo não elimina as manifestações espirituais; ele estabelece ordem e critérios para sua utilização. Em 1Tessalonicenses 5.19-22, a igreja não deve apagar o Espírito, mas também não deve aceitar indiscriminadamente tudo aquilo que é apresentado como manifestação espiritual: “não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas; retende o que é bom”. A experiência, portanto, precisa ser discernida.

Stanley Horton e os demais autores da Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal representam justamente uma tentativa de realizar essa articulação entre experiência pentecostal e reflexão doutrinária. A obra trata dos dons, do batismo no Espírito Santo e da atuação do Espírito dentro de uma estrutura de teologia sistemática. Isso é importante porque demonstra que a identidade pentecostal não precisa ser construída contra a teologia. O pentecostalismo pode ser intensamente espiritual e profundamente teológico ao mesmo tempo.

Aliás, talvez seja necessário recuperar uma convicção que deveria ser óbvia: experiência não é o contrário de teologia; experiência cristã precisa de teologia para ser interpretada corretamente. Toda experiência religiosa já contém alguma interpretação. Quando alguém afirma “Deus me revelou”, já está fazendo uma afirmação teológica sobre revelação. Quando alguém afirma “recebi uma palavra profética”, está assumindo uma determinada compreensão sobre profecia. Quando alguém afirma “fui batizado no Espírito Santo”, está utilizando uma categoria teológica. A questão não é saber se haverá teologia, mas se essa teologia será consciente, bíblica e responsável.

4. O problema da formação insuficiente

É aqui que chegamos ao centro da questão. Uma parte do chamado êxodo pentecostal pode estar relacionada à percepção de que determinadas igrejas pentecostais oferecem muita experiência religiosa, mas pouca formação teológica sistemática. Essa afirmação precisa ser feita com cuidado. Não se trata de uma característica universal do pentecostalismo brasileiro, e não seria justo aplicá-la indistintamente às Assembleias de Deus, igrejas pentecostais independentes, comunidades carismáticas ou igrejas neopentecostais. O próprio desenvolvimento histórico do pentecostalismo brasileiro revela enorme diversidade interna.

Gedeon Freire de Alencar, em Matriz pentecostal brasileira, apresenta uma análise histórica e sociológica das Assembleias de Deus entre 1911 e 2011, demonstrando que a tradição assembleiana não pode ser compreendida de maneira simplista. A obra chama atenção para as transformações históricas e institucionais experimentadas pelo movimento ao longo de um século. Ricardo Mariano, por sua vez, em Neopentecostais, analisa especificamente as transformações associadas ao neopentecostalismo brasileiro, mostrando como esse segmento desenvolveu características próprias em sua relação com a sociedade, a mídia, a política e a religião. Portanto, quando falamos em crise de formação, precisamos evitar generalizações que confundam pentecostalismo clássico, neopentecostalismo e outras expressões do campo evangélico.

O problema, porém, permanece relevante: uma igreja que não ensina sua própria fé cria um vácuo que será inevitavelmente preenchido por outras vozes. O membro que deseja compreender eleição, predestinação, dons espirituais, batismo no Espírito Santo, perseverança, santificação, escatologia ou interpretação bíblica encontrará respostas em algum lugar. A questão é saber se essas respostas virão de um pastor comprometido com sua formação, de uma boa literatura cristã, de um seminário responsável ou simplesmente de um influenciador que descobriu teologia ontem e já abriu um canal para explicar o universo.

A expansão da internet modificou profundamente esse cenário. O cristão contemporâneo possui acesso a uma quantidade de material teológico que gerações anteriores jamais imaginaram. Uma pessoa pode assistir a uma exposição reformada de Romanos 9 pela manhã, ouvir um debate sobre continuísmo à tarde e assistir a uma aula sobre arminianismo clássico à noite. Se sua igreja não oferece formação teológica, ela não está competindo apenas com a igreja da esquina. Está competindo, querendo ou não, com uma biblioteca mundial disponível no telefone celular.

Isso não significa que a igreja deva competir com a internet. Significa que ela precisa preparar seus membros para utilizar a internet com discernimento.

5. Quando o entretenimento ocupa o espaço da formação

É necessário ampliar ainda mais a discussão. O problema não pode ser reduzido à política. Em determinados contextos, não foi apenas a discussão política que ocupou espaço excessivo na vida da igreja. Entretenimento, psicologia popular, autoajuda, desenvolvimento pessoal, debates culturais, empreendedorismo, motivacionalismo e outras formas de conteúdo passaram a disputar o espaço que tradicionalmente pertencia ao ensino bíblico e doutrinário.

Isso não significa que todos esses assuntos sejam ilegítimos. A política possui importância para a vida pública; a psicologia pode oferecer contribuições relevantes para a compreensão de determinados aspectos do comportamento humano; questões culturais precisam ser discutidas; família, trabalho, educação, saúde emocional e administração financeira fazem parte da vida real dos membros da igreja. O problema não está na existência desses temas, mas em sua desproporção e deslocamento de centralidade. Quando uma igreja passa a falar constantemente sobre aquilo que as pessoas querem ouvir e pouco sobre aquilo que precisam conhecer para amadurecer na fé, algo está errado.

O problema do entretenimento é particularmente delicado. O culto cristão não precisa ser monótono para ser bíblico, e excelência litúrgica não é pecado. O problema ocorre quando a igreja começa a medir sua eficácia pela capacidade de manter as pessoas estimuladas. A igreja então corre o risco de formar consumidores religiosos, pessoas que avaliam a comunidade pela qualidade do espetáculo, pela música, pela iluminação, pela performance do pregador e pela capacidade de produzir experiências emocionalmente intensas. Nesse cenário, a pergunta deixa de ser “o que a Palavra de Deus está formando em nós?” e passa a ser “o que a igreja está fazendo para me fazer sentir alguma coisa?”.

Esse deslocamento é teologicamente perigoso porque o discipulado cristão envolve também ensino, correção, disciplina, perseverança, maturidade e transformação da mente. Paulo não diz aos romanos simplesmente para terem experiências espirituais; ele os chama a uma transformação mediante a renovação da mente (Rm 12.2). Em Efésios 4.11-14, o propósito dos ministérios concedidos por Cristo inclui conduzir os santos à maturidade, de maneira que não sejam mais “meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina”. A metáfora é bastante expressiva: maturidade cristã envolve estabilidade doutrinária.

6. Psicologia, aconselhamento e a necessidade de uma antropologia bíblica

A relação entre igreja e psicologia exige ainda mais cuidado. Não é necessário assumir uma postura antipsicológica para defender a centralidade da Bíblia. A psicologia, enquanto campo científico, pode contribuir para a compreensão de processos cognitivos, emocionais e comportamentais. O problema começa quando categorias psicológicas passam a substituir categorias teológicas fundamentais.

O ser humano, para a Bíblia, não é simplesmente um conjunto de emoções, traumas, desejos e necessidades. É criatura feita à imagem de Deus, caída em pecado, responsável diante do Criador e necessitada de redenção em Cristo. A antropologia bíblica não elimina a complexidade psicológica do ser humano, mas a coloca dentro de uma narrativa maior: criação, queda, redenção e consumação.

Por isso, uma igreja pode e deve oferecer aconselhamento, mas precisa evitar transformar o púlpito em uma espécie de consultório motivacional. O evangelho não é simplesmente uma técnica para melhorar a autoestima. Cristo não veio apenas para nos ajudar a administrar melhor nossos sentimentos. O evangelho anuncia reconciliação com Deus, perdão dos pecados, nova vida, união com Cristo, santificação e esperança escatológica.

Aqui a teologia sistemática possui novamente uma função pastoral. Millard J. Erickson, em Introdução à Teologia Sistemática, apresenta a teologia como reflexão sobre os conteúdos fundamentais da fé cristã, abordando revelação, Deus, criação, providência, pecado, Cristo, salvação, Espírito Santo, igreja e escatologia. A obra está disponível em português pela Vida Nova. Uma visão assim impede que cada problema humano seja tratado isoladamente, porque os problemas da existência são interpretados dentro de uma visão abrangente da realidade.

7. O pastor precisa ser também mestre

Nesse ponto, chegamos a uma questão que considero fundamental: o pastor precisa ser também mestre. Não digo isso como uma preferência pessoal, mas como uma exigência do próprio Novo Testamento. Entre as qualificações do presbítero está a capacidade de ensinar (1Tm 3.2), e Tito 1.9 apresenta o líder como alguém que deve estar apegado à Palavra fiel para ser capaz de exortar pela sã doutrina e convencer os que contradizem.

Isso significa que o pastor não pode terceirizar completamente a formação teológica de sua congregação. O seminário pode ajudá-lo; bons livros podem ajudá-lo; cursos podem ajudá-lo; outros professores podem ajudá-lo. Mas a igreja local precisa ouvir de seus pastores aquilo que a Escritura ensina.

O pastor precisa ser capaz de responder às perguntas difíceis que sua congregação inevitavelmente fará. O que é eleição? O que significa predestinação? Como funciona a salvação? O que significa ser cheio do Espírito Santo? O que são os dons espirituais? Profecia é revelação? Como distinguir profecia de pregação? Como interpretar Romanos 9? O que significa perseverar na fé? Como compreender a relação entre soberania divina e responsabilidade humana? O que a Bíblia ensina sobre sofrimento? Como devemos interpretar a cultura contemporânea?

Se o pastor não responde, alguém responderá.

Essa afirmação não deve ser entendida como competição, mas como responsabilidade pastoral. O cristão contemporâneo possui perguntas teológicas sofisticadas. O pastor precisa estar preparado para lidar com elas. Não precisa conhecer tudo, mas precisa possuir humildade suficiente para estudar, pesquisar e, quando necessário, dizer: “Não sei; vou estudar e voltamos a conversar.” Essa resposta é infinitamente melhor do que inventar uma explicação espiritual para aquilo que o pastor simplesmente não conhece.

8. A exposição bíblica como caminho de renovação

Uma das respostas mais importantes para essa situação é o retorno à exposição bíblica. Não se trata de transformar todos os sermões em aulas acadêmicas, nem de eliminar a aplicação pastoral. Trata-se de recuperar a convicção de que o conteúdo da pregação deve nascer do texto bíblico e ser explicado em seu contexto.

Augustus Nicodemus Lopes, em A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação, enfatiza a importância de compreender como a igreja interpretou as Escrituras ao longo da história e defende, a partir de sua perspectiva reformada, uma hermenêutica que leve a sério a inspiração das Escrituras, sua historicidade e o sentido do texto. Embora seja necessário reconhecer a perspectiva reformada do autor, a obra pode ser útil precisamente porque mostra que interpretar a Bíblia exige método, pressupostos e responsabilidade.

O pentecostalismo precisa recuperar com força essa cultura de leitura bíblica. Ser pentecostal não deveria significar interpretar qualquer texto bíblico exclusivamente a partir de uma experiência pessoal. O Espírito Santo que inspirou as Escrituras não é inimigo da boa interpretação. Pelo contrário, o mesmo Espírito que capacita a igreja para o serviço também conduz o povo de Deus à verdade.

Por isso, a formação pentecostal precisa ensinar não somente o que a igreja crê, mas também como a igreja chegou a essa conclusão. O membro precisa aprender a ler a Bíblia, interpretar gêneros literários, considerar contexto histórico, observar argumentos, comparar textos e reconhecer diferenças entre interpretação legítima e eisegese.

Uma igreja que ensina seus membros a interpretar a Bíblia produz cristãos menos vulneráveis à manipulação religiosa.

9. O perigo de uma igreja formada por conteúdos periféricos

Quando a formação teológica perde espaço, outros conteúdos naturalmente assumem sua função. A igreja passa a falar sobre política sem uma teologia política suficientemente elaborada; sobre família sem uma antropologia bíblica sólida; sobre sexualidade sem uma teologia do corpo; sobre dinheiro sem uma teologia do trabalho e da providência; sobre ansiedade sem uma compreensão bíblica do sofrimento; sobre sucesso sem uma teologia da vocação; sobre batalha espiritual sem uma pneumatologia e uma demonologia responsáveis; sobre dons sem uma doutrina bíblica da revelação; sobre liderança sem uma eclesiologia adequada.

O resultado é uma espécie de fragmentação da formação cristã. O membro aprende muitas coisas, mas não necessariamente aprende como essas coisas se relacionam dentro de uma cosmovisão cristã.

Esse é um dos grandes benefícios da teologia sistemática: ela procura compreender a relação entre as doutrinas. Wayne Grudem, Millard Erickson e Stanley Horton representam, cada um a partir de perspectivas teológicas diferentes, tentativas de organizar os grandes temas da fé cristã em um todo coerente. Grudem trabalha a partir de uma perspectiva reformada; Erickson apresenta uma abordagem evangélica mais ampla; Horton e seus colaboradores desenvolvem uma perspectiva pentecostal. A existência dessas obras mostra que a discussão não precisa ser “teologia versus experiência”. Existem diferentes tradições teológicas tentando explicar biblicamente a experiência cristã.

O problema, portanto, não é estudar teologia sistemática. O problema é não estudar teologia alguma e, ainda assim, fazer afirmações teológicas o tempo inteiro.

10. O que a tradição pentecostal pode aprender sem perder sua identidade

A resposta ao chamado êxodo pentecostal não deveria ser uma corrida para copiar as igrejas reformadas. O objetivo não é transformar igrejas pentecostais em igrejas reformadas apenas porque a tradição reformada conseguiu desenvolver uma forte cultura de leitura e formação. A resposta deveria ser mais madura: aprender aquilo que pode ser aprendido sem abandonar convicções legítimas da própria tradição.

O pentecostalismo pode aprender com a tradição reformada o valor da exposição bíblica, da leitura sistemática, da história da igreja, da catequese, da formação pastoral, da confessionalidade, da produção intelectual e do rigor hermenêutico. Mas pode fazê-lo permanecendo pentecostal, mantendo suas convicções acerca da atualidade dos dons, da atuação do Espírito Santo, da missão, da oração, da experiência de Deus e da expectativa da intervenção divina na história.

Da mesma forma, a tradição reformada pode aprender com o pentecostalismo a importância de uma espiritualidade que enfatize a expectativa pela atuação presente do Espírito, a oração, a missão, o testemunho e a abertura para a ação extraordinária de Deus. O diálogo entre tradições não precisa ser uma guerra de trincheiras.

É perfeitamente possível dizer: “Eu discordo de você, mas reconheço que você argumentou biblicamente e, por isso, preciso responder biblicamente.” Essa postura é muito mais saudável do que simplesmente rotular o outro como herege ou ignorante.

11. A experiência da igreja local

É justamente por acreditar nisso que tenho procurado desenvolver, na igreja local, uma cultura contínua de formação bíblica e teológica. Tenho entendido que ensinar teologia não é uma atividade secundária da igreja, reservada aos seminários ou a pequenos grupos de interessados. A igreja local precisa ser uma comunidade de formação.

Por isso, temos procurado trabalhar sistematicamente com exposição bíblica, estudos doutrinários e temas teológicos que fazem parte da vida concreta da igreja. O estudo dos dons espirituais é um exemplo disso. Não quero simplesmente afirmar que cremos na atualidade dos dons; precisamos perguntar o que o Novo Testamento realmente ensina sobre eles. Não basta dizer que existe profecia; precisamos discutir biblicamente o que significa profetizar. Não basta falar em revelação; precisamos distinguir revelação normativa da iluminação e discernimento espiritual. Não basta afirmar que Deus cura; precisamos discutir o ensino bíblico sobre oração, sofrimento, fé e providência.

Esse processo é necessariamente contínuo. A igreja nunca chega a um ponto em que possa dizer: “Agora sabemos tudo”. Pelo contrário, quanto mais estudamos as Escrituras, mais percebemos a profundidade de seus temas. O objetivo do ensino teológico não é produzir pessoas arrogantes que tenham resposta para tudo, mas discípulos maduros que saibam pensar biblicamente, discernir espiritualmente e responder com humildade.

12. A política, o entretenimento e os demais temas precisam encontrar seu lugar

É importante, portanto, deixar claro que não defendo uma igreja alienada da sociedade. A igreja precisa pensar sobre política, cultura, entretenimento, psicologia, educação, economia, família, tecnologia e todas as demais dimensões da existência humana. O cristão não vive em uma bolha. A fé cristã possui implicações para a totalidade da vida.

O que precisa ser corrigido é a hierarquia:

  • A política não pode ser maior que o evangelho.
  • O entretenimento não pode ser maior que o discipulado.
  • A psicologia não pode substituir a antropologia bíblica.
  • A autoajuda não pode ocupar o lugar da doutrina da graça.
  • O empreendedorismo não pode substituir a teologia da vocação.
  • As guerras culturais não podem ocupar o lugar da formação cristã.
  • A experiência espiritual não pode substituir o discernimento bíblico.

E nenhuma dessas coisas pode ocupar o lugar da própria Palavra de Deus.

A igreja pode conversar sobre tudo isso, mas precisa fazê-lo a partir de uma cosmovisão cristã, e não simplesmente importar as categorias dominantes da cultura e batizá-las com linguagem religiosa.

Conclusão

O chamado “êxodo pentecostal” merece ser tratado com seriedade, mas também com equilíbrio. Não temos base suficiente para afirmar que exista um fenômeno homogêneo, nacional e estatisticamente estabelecido de pentecostais migrando em massa para igrejas reformadas. O campo evangélico brasileiro é muito mais complexo. O pentecostalismo possui múltiplas expressões, histórias e identidades, e as pessoas mudam de igreja por razões diversas.

Entretanto, existe uma questão que não podemos simplesmente ignorar: alguns cristãos oriundos do pentecostalismo encontram na tradição reformada uma estrutura de ensino bíblico e teológico que lhes parece mais capaz de responder às perguntas que possuem. Se isso acontece, não deveríamos responder apenas com críticas à tradição reformada. Precisamos fazer uma pergunta mais difícil e mais honesta: o que nossas igrejas estão ensinando?

Não devemos concluir que a solução seja abandonar o pentecostalismo. Pelo contrário, talvez a resposta esteja em recuperar aquilo que o próprio pentecostalismo possui de melhor: sua paixão pelas Escrituras, sua confiança na ação do Espírito Santo, sua ênfase na oração, sua vocação missionária e sua expectativa da atuação presente de Deus, acrescentando a isso uma cultura mais profunda de formação teológica.

A questão não é escolher entre fogo e conhecimento. A igreja precisa dos dois. Não precisamos escolher entre Espírito e Escritura, porque o Espírito que age na igreja é o Espírito que inspirou a Palavra. Não precisamos escolher entre experiência e doutrina, porque a experiência cristã precisa ser interpretada pela doutrina, e a doutrina precisa produzir uma vida transformada. Não precisamos escolher entre oração e estudo, porque a igreja primitiva perseverava tanto na doutrina dos apóstolos quanto nas orações (At 2.42).

Precisamos, portanto, de uma renovação que não seja simplesmente estética, litúrgica ou estratégica, mas teológica.

  • Precisamos de pastores que estudem.
  • Precisamos de pregadores que exponham.
  • Precisamos de professores que ensinem.
  • Precisamos de membros que leiam.
  • Precisamos de jovens que façam perguntas.
  • Precisamos de igrejas que não tenham medo das perguntas difíceis.
  • Precisamos de uma geração que não apenas saiba dizer “eu sinto”, mas também saiba explicar “eu creio porque as Escrituras ensinam”.

Essa talvez seja uma das maiores necessidades da igreja pentecostal contemporânea.

Não devemos olhar para aqueles que saem simplesmente com indignação. Devemos perguntar o que os levou a procurar outro ambiente. Alguns talvez estejam apenas seguindo tendências. Outros podem estar procurando uma identidade intelectual. Alguns podem ter sido atraídos pela estética das novas comunidades reformadas. Outros podem realmente ter descoberto convicções doutrinárias diferentes. Mas há aqueles que talvez tenham encontrado, em outro lugar, algo que deveriam ter encontrado em sua própria igreja: uma fé que pode ser estudada, explicada, defendida e vivida.

A resposta, então, não é fechar as portas e dizer aos nossos membros: “Não leiam os reformados”. Isso seria não apenas imprudente, mas contraproducente. A resposta é ensinar nossos membros a ler tudo à luz das Escrituras.

  • Como os bereanos, devemos examinar.
  • Como Timóteo, devemos manejar bem a Palavra.
  • Como a igreja de Éfeso, devemos buscar maturidade para não sermos levados por todo vento de doutrina.
  • Como os cristãos de Corinto, devemos aprender a exercer os dons com ordem e discernimento.
  • E como igreja de Cristo, devemos continuar crescendo “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).

Talvez, no final, a melhor resposta ao chamado êxodo pentecostal não seja perguntar apenas “como fazemos para que eles não saiam?”, mas perguntar:

“Como podemos construir igrejas nas quais nossos membros encontrem profundidade suficiente para que não precisem sair em busca dela?”

Essa é uma pergunta que merece permanecer aberta. E, mais do que isso, merece ser respondida com estudo, oração, humildade e compromisso renovado com a Palavra de Deus.

 

Referências bibliográficas

  • ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz pentecostal brasileira: Assembleias de Deus – 1911 a 2011. 2. ed. São Paulo: Recriar, 2019. A obra apresenta uma análise histórica e sociológica da trajetória das Assembleias de Deus no Brasil e de suas transformações ao longo de um século.
  • ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997. A obra apresenta uma introdução abrangente aos principais temas da teologia cristã, incluindo revelação, Deus, criação, pecado, Cristo, salvação, Espírito Santo, igreja e escatologia.
  • GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Vida Nova, 2022. A edição brasileira possui 1.744 páginas e apresenta uma abordagem sistemática das doutrinas cristãs com ampla fundamentação bíblica.
  • HORTON, Stanley M. (ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD. Obra coletiva de teologia sistemática desenvolvida a partir da perspectiva pentecostal, abrangendo temas como Deus, criação, pecado, salvação, Espírito Santo, dons espirituais, igreja e escatologia.
  • LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. A obra apresenta uma história da interpretação bíblica a partir de uma perspectiva reformada e discute princípios hermenêuticos relacionados à leitura das Escrituras.
  • MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2014. Obra fundamental para o estudo sociológico do neopentecostalismo brasileiro e de suas transformações. A obra foi originalmente publicada pela Loyola e recebeu posteriormente novas edições.
  • SHAULL, Richard; CESAR, Waldo. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs: promessas, limitações, desafios. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1999. A obra resulta de pesquisa interdisciplinar sobre o pentecostalismo e seu impacto sobre as igrejas e a sociedade brasileira.

Observação metodológica

Este artigo deliberadamente evita apresentar como “fato estatístico” aquilo que a literatura acadêmica consultada não permite estabelecer com segurança. A expressão “êxodo pentecostal” é utilizada aqui como categoria descritiva do debate contemporâneo. As obras citadas foram escolhidas prioritariamente entre livros disponíveis em português e autores cuja produção pode ser localizada e consultada. As referências a Grudem, Horton, Erickson e Nicodemus não significam concordância integral com suas posições teológicas; são utilizadas como representantes de tradições e metodologias teológicas relevantes para o argumento. Do mesmo modo, Mariano e Alencar são utilizados principalmente como referências para compreender historicamente e sociologicamente o pentecostalismo brasileiro, e não como autoridades para estabelecer conclusões teológicas.

O ponto central deste artigo é, portanto, uma proposta de reflexão pastoral e teológica, não a pretensão de apresentar uma explicação sociológica definitiva para a mobilidade religiosa contemporânea.

 

Soli Deo gloria