Pode um cristão ser de esquerda?
Depois de percorrermos os quatro primeiros artigos desta série, chegamos à pergunta que naturalmente surge como conclusão: pode um cristão ser de esquerda? A pergunta, embora pareça simples, precisa ser formulada com cuidado. Ela pode significar coisas diferentes. Pode perguntar se uma pessoa que se identifica politicamente com a esquerda pode ser genuinamente cristã; pode perguntar se existem políticas defendidas por partidos de esquerda que um cristão possa considerar legítimas; ou pode perguntar se é possível adotar integralmente os fundamentos de uma cosmovisão política de esquerda e, ao mesmo tempo, afirmar a cosmovisão cristã sem contradição. Essas três perguntas não são exatamente iguais. A primeira envolve uma questão espiritual que não cabe ao observador resolver simplesmente pela identificação política de alguém. A segunda exige análise concreta de propostas e circunstâncias. A terceira, porém, é uma questão de coerência intelectual e teológica e é justamente aquela que esta série procurou investigar. O objetivo, portanto, não é declarar quem é ou não é cristão, muito menos determinar a condição espiritual de indivíduos, mas perguntar se os fundamentos de determinadas correntes da esquerda política podem ser integrados coerentemente à cosmovisão cristã.
A primeira conclusão a que chegamos é que cristianismo não é simplesmente uma opinião religiosa adicionada à vida política. O cristianismo bíblico apresenta uma interpretação abrangente da realidade. Ele começa com Deus como Criador de todas as coisas, compreende o ser humano como criatura feita à imagem de Deus, interpreta a entrada do mal no mundo a partir da queda, compreende a história à luz da providência divina, anuncia a redenção em Cristo e aponta para a consumação de todas as coisas no Reino de Deus. Essa estrutura significa que a fé cristã possui implicações para a maneira como entendemos a pessoa humana, a família, o trabalho, a propriedade, a justiça, a autoridade, a liberdade, o Estado e a sociedade. Abraham Kuyper tornou essa dimensão abrangente especialmente conhecida ao insistir que não existe uma área da existência humana sobre a qual Cristo não possa reivindicar autoridade. D. A. Carson, em sua reflexão sobre Cristo e cultura, também chama atenção para o fato de que o evangelho não pode ser reduzido a uma esfera privada desconectada da maneira como o cristão compreende e participa da cultura. Portanto, quando um cristão entra na esfera política, ele não deixa sua cosmovisão cristã na porta da instituição política.
É exatamente nesse ponto que David T. Koyzis oferece uma contribuição importante para esta discussão. Em Visões e ilusões políticas, Koyzis não trata as ideologias políticas simplesmente como mecanismos técnicos de administração do Estado. Ele argumenta que elas carregam concepções abrangentes sobre a realidade, o indivíduo, a sociedade e o bem comum, razão pela qual possuem uma dimensão que ele caracteriza como religiosa. Na segunda edição, ampliada e atualizada, Koyzis analisa, entre outras tradições, o socialismo, colocando-o no campo das cosmovisões políticas que precisam ser examinadas criticamente pelo cristão. Essa observação é fundamental para nossa conclusão: se determinada ideologia política apresenta uma interpretação abrangente do mundo, então não basta perguntar se o cristão concorda com uma ou outra política. É necessário perguntar se os pressupostos fundamentais dessa ideologia podem ser aceitos sem comprometer os fundamentos da fé cristã.
Quando voltamos ao primeiro artigo, vimos que o ponto de partida é a cosmovisão. O cristianismo começa com Deus; o marxismo clássico começa com uma interpretação materialista da história e das relações sociais. Marx e Engels apresentam no Manifesto do Partido Comunista uma interpretação da história centrada na luta de classes, afirmando que as sociedades históricas foram marcadas por antagonismos entre classes e descrevendo a transformação revolucionária da sociedade como parte do processo histórico. Essa diferença de ponto de partida não é secundária. Se duas cosmovisões começam de fundamentos diferentes acerca da realidade, inevitavelmente chegarão a conclusões diferentes sobre a natureza humana, a moralidade, a propriedade, a justiça, a família e a organização da sociedade.
No segundo artigo, examinamos a antropologia. A Bíblia afirma que o ser humano é criado à imagem de Deus e que sua dignidade deriva dessa condição. O homem não é apenas produto de circunstâncias materiais, relações econômicas ou estruturas sociais. Ele é criatura de Deus e, ao mesmo tempo, criatura caída, moralmente responsável diante do Criador. O pecado não é apenas uma estrutura externa que aprisiona o indivíduo; ele também habita o coração humano. Jesus afirma que do interior do coração procedem os pensamentos e comportamentos pecaminosos (Mc 7:21-23), enquanto Paulo declara que todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3:23). Isso não significa negar a existência de estruturas injustas, mas significa rejeitar uma antropologia que deposita a causa fundamental do mal exclusivamente nas estruturas sociais.
No marxismo clássico, a compreensão da história está profundamente ligada às relações materiais de produção e ao conflito entre classes. O Manifesto afirma explicitamente que a sociedade burguesa está marcada pelo antagonismo entre burguesia e proletariado e apresenta a conquista do poder político pelo proletariado como objetivo imediato dos comunistas. O problema aqui não é simplesmente que Marx reconheça a existência de conflitos sociais — conflitos realmente existem e podem ser analisados de diferentes maneiras. A questão é o lugar que o conflito de classes ocupa dentro de sua interpretação histórica. Na cosmovisão bíblica, o conflito social não é a chave última para interpretar a realidade humana. A chave é a relação do homem com Deus e a entrada do pecado no mundo. A reconciliação definitiva, consequentemente, também não pode ser encontrada simplesmente na reorganização das relações econômicas.
O terceiro artigo mostrou que essa diferença antropológica produz consequências para a propriedade e para a economia. A Bíblia reconhece a legitimidade da posse e estabelece proibições contra o furto e a cobiça. Ao mesmo tempo, submete a propriedade ao senhorio de Deus e ordena justiça, generosidade e cuidado pelos necessitados. A propriedade bíblica, portanto, é uma propriedade responsável e subordinada a Deus. O marxismo clássico, por sua vez, estabelece uma crítica estrutural à propriedade burguesa dos meios de produção. Marx e Engels deixam claro no Manifesto que o alvo do comunismo não é simplesmente a eliminação de todo objeto pessoal, mas a abolição da propriedade burguesa entendida como relação de produção baseada em antagonismos de classe. Essa precisão é importante, mas não diminui a diferença fundamental: a Bíblia reconhece a propriedade como uma instituição que pode ser legitimamente exercida sob a soberania de Deus, enquanto a crítica marxista procura superar a propriedade burguesa enquanto estrutura econômica.
No quarto artigo, analisamos a vida, a família, a sexualidade, o crime e o Estado. A Bíblia fundamenta a dignidade humana na criação, apresenta o casamento dentro da ordem criacional estabelecida por Deus, reconhece a autoridade civil e atribui ao Estado uma função legítima de promoção da justiça e punição do mal. Romanos 13 é especialmente significativo porque não apresenta o governo como salvador da humanidade, mas como autoridade que possui uma função limitada e específica. A autoridade civil deve exercer justiça, mas permanece debaixo da autoridade de Deus. Isso significa que o Estado não é a fonte última da moralidade, nem possui autoridade ilimitada para redefinir todas as instituições humanas.
Ao reunirmos esses elementos, percebemos que a questão central não é se existe alguma política defendida por alguém de esquerda que um cristão possa apoiar. Uma pessoa de esquerda pode defender uma determinada medida por razões que não sejam exclusivamente marxistas; uma pessoa de direita pode defender uma determinada medida por razões que também não sejam cristãs. A política concreta é sempre mais complexa do que os rótulos ideológicos. A pergunta decisiva para esta série é outra: o cristão pode adotar como estrutura fundamental de sua visão política uma cosmovisão que contradiz os pressupostos fundamentais da cosmovisão cristã? Se a resposta fosse simplesmente “sim, sem qualquer problema”, teríamos de demonstrar que essas cosmovisões podem compartilhar os mesmos fundamentos. Os artigos anteriores demonstraram precisamente o contrário em áreas fundamentais.
É necessário, nesse ponto, fazer uma distinção entre concordância pontual e adesão ideológica. Um cristão pode reconhecer que determinada proposta de esquerda procura resolver um problema social real sem, por isso, aceitar toda a antropologia, filosofia da história ou teoria econômica que sustenta aquela corrente política. Da mesma maneira, um cristão pode discordar de determinada política associada à direita sem abandonar a cosmovisão cristã. Isso ocorre porque partidos, movimentos e ideologias políticas não são sistemas perfeitamente homogêneos. O erro estaria em transformar uma concordância ou discordância específica em prova de identidade absoluta entre o cristianismo e determinada ideologia política.
Por essa razão, afirmar que “um cristão não pode concordar com absolutamente nada que venha da esquerda” seria uma formulação excessivamente ampla e pouco rigorosa. Mas afirmar o contrário — que o cristão pode incorporar integralmente os fundamentos de uma cosmovisão marxista ou de outras formas de esquerda sem qualquer tensão teológica — também seria intelectualmente insustentável. O que importa é identificar onde estão os fundamentos. Se uma proposta política defende algo que também pode ser defendido a partir de princípios cristãos, é necessário examinar sua fundamentação. Se, entretanto, uma determinada proposta depende de negar uma verdade fundamental da cosmovisão cristã, a incompatibilidade torna-se muito mais profunda.
Essa distinção nos ajuda a compreender por que palavras como “justiça”, “igualdade”, “liberdade”, “dignidade” e “solidariedade” não podem ser usadas como prova automática de compatibilidade entre cristianismo e esquerda. Duas cosmovisões podem utilizar a mesma palavra e atribuir-lhe significados diferentes. A palavra “justiça”, por exemplo, pode ser utilizada para descrever a conformidade com a ordem moral estabelecida por Deus ou pode ser empregada dentro de uma teoria que identifica a justiça principalmente com a superação de determinadas relações econômicas e sociais. “Liberdade” pode significar responsabilidade diante de Deus ou autonomia diante de qualquer autoridade transcendente. “Igualdade” pode referir-se à dignidade moral de todos os seres humanos diante de Deus ou à igualdade de determinadas condições sociais e econômicas. O simples compartilhamento do vocabulário não demonstra compartilhamento da cosmovisão.
Esse é um dos pontos mais importantes para compreender o problema da identificação cristã com a esquerda. Muitas pessoas se aproximam politicamente de determinadas propostas porque reconhecem problemas reais na sociedade: pobreza, corrupção, exploração, violência, desigualdade, abandono de vulneráveis ou injustiças históricas. O reconhecimento de problemas reais, porém, não determina automaticamente que a explicação oferecida para esses problemas seja verdadeira nem que a solução proposta seja compatível com a cosmovisão cristã. O cristão precisa perguntar não apenas “qual problema esta ideologia identifica?”, mas também “como ela explica a origem desse problema?”, “qual concepção de ser humano está por trás dessa explicação?”, “qual solução ela oferece?” e, principalmente, “essa solução pressupõe algo que a Escritura nega?”
Essa última pergunta é decisiva porque uma cosmovisão não pode ser avaliada apenas pelos objetivos que declara. É necessário examinar seus pressupostos e seus meios. Uma ideologia pode falar de justiça e, simultaneamente, possuir uma concepção de justiça incompatível com a justiça bíblica. Pode falar de libertação e, ao mesmo tempo, definir a libertação de maneira incompatível com a redenção cristã. Pode falar dos pobres sem compreender a pobreza exatamente nos mesmos termos das Escrituras. Pode falar de dignidade sem fundamentar essa dignidade na imagem de Deus. Pode defender a família ou criticá-la a partir de uma compreensão de família completamente diferente da compreensão bíblica. Por isso, o cristão não deve avaliar ideologias apenas pelo vocabulário moral que utilizam, mas pelo significado que atribuem a esse vocabulário.
Há ainda uma diferença decisiva na compreensão da esperança humana. O cristianismo anuncia que o problema fundamental do homem não será resolvido por uma transformação política. A solução definitiva para a condição humana é a obra redentora de Cristo. O evangelho não promete que uma nova estrutura econômica produzirá homens novos; ele anuncia que Deus transforma pecadores por meio de Cristo. O Reino de Deus não é estabelecido pela conquista do poder político por uma classe social. A nova criação não é produto de uma revolução econômica. A esperança cristã é escatológica: aguardamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça (2Pe 3:13). Essa esperança não torna a política irrelevante, mas coloca a política em seu devido lugar.
Aqui está uma das diferenças mais profundas entre o cristianismo e os projetos políticos que atribuem à transformação histórica uma função redentora. O cristão trabalha pela justiça, protege a vida, cuida dos necessitados, defende a família, exerce sua profissão com integridade e participa da vida pública. Mas ele não espera que o Estado produza aquilo que somente Deus pode produzir. Não espera que uma revolução elimine o pecado. Não espera que uma estrutura econômica produza a santidade. Não espera que uma legislação transforme o coração. A política pode organizar a convivência humana; ela não pode reconciliar o pecador com Deus.
Por isso, também é necessário reconhecer que nenhuma ideologia política moderna é sinônimo de cristianismo. Esse princípio impede que a crítica à esquerda se transforme em uma canonização da direita. O cristão não recebe autorização bíblica para tratar uma ideologia política específica como se fosse o equivalente secular da fé cristã. A Escritura não apresenta partido político, sistema econômico moderno ou ideologia contemporânea como expressão perfeita do Reino de Deus. O cristão pode avaliar todas essas coisas, mas deve submetê-las ao senhorio de Cristo. Essa é precisamente a vantagem de começar pela cosmovisão: em vez de fazer o cristianismo servir a uma ideologia, o cristão avalia as ideologias à luz da fé cristã.
Isso também significa que o cristão precisa estar disposto a reconhecer as próprias limitações de sua tradição política. Um cristão que defende propriedade privada, por exemplo, não pode utilizar essa defesa para justificar ganância ou exploração. Um cristão que valoriza a autoridade estatal não pode justificar autoritarismo. Um cristão que defende a família não pode ignorar violência doméstica, abandono ou irresponsabilidade paterna. Um cristão que defende punição para o criminoso não pode esquecer a possibilidade de arrependimento e restauração. Um cristão que defende liberdade econômica não pode transformar o mercado em objeto de confiança absoluta. A cosmovisão cristã julga todas as posições políticas, inclusive aquelas com as quais o cristão possui maior afinidade em determinados temas.
Chegamos, então, ao ponto central desta série. Pode um cristão ser de esquerda? Se por “ser de esquerda” entendemos simplesmente votar ocasionalmente em um candidato de esquerda, concordar com uma política específica ou identificar-se com alguma proposta concreta sem adotar os fundamentos da ideologia, a pergunta não pode ser respondida simplesmente por um rótulo. A identificação partidária ou eleitoral, isoladamente, não revela toda a cosmovisão de uma pessoa. Porém, se por “ser de esquerda” entendemos aderir conscientemente aos pressupostos fundamentais de uma cosmovisão política que, em suas formulações materialistas ou marxistas, nega ou contradiz elementos fundamentais da cosmovisão cristã, então surge uma incompatibilidade de fundamentos que não pode ser ignorada.
Essa conclusão precisa ser formulada com precisão. Não estamos dizendo que todo indivíduo que se identifica como “de esquerda” é marxista. Não estamos dizendo que todo partido de esquerda possui exatamente a mesma filosofia de Marx e Engels. Não estamos dizendo que uma pessoa que vota em determinado candidato necessariamente conhece ou aceita toda a teoria política do movimento ao qual aquele candidato pertence. E não estamos dizendo que podemos olhar para a identidade política de alguém e determinar sua condição espiritual diante de Deus. A questão desta série é mais específica: uma pessoa não pode reivindicar coerência intelectual entre o cristianismo e uma cosmovisão política quando os fundamentos dessa cosmovisão negam verdades fundamentais da fé cristã.
Essa distinção permite formular de maneira mais cuidadosa uma afirmação que frequentemente aparece de maneira simplista no debate público: alguém que se identifica simultaneamente como cristão e como adepto de uma determinada ideologia política precisa examinar seriamente se realmente compreende os fundamentos de ambas as posições. Pode haver desconhecimento da própria ideologia; pode haver desconhecimento dos fundamentos da fé cristã; pode haver uma tentativa de combinar elementos incompatíveis sem perceber a tensão existente entre eles. Em alguns casos, a pessoa conhece suficientemente bem os dois lados e procura construir uma síntese própria. Nesse caso, a questão continua sendo se essa síntese é teologicamente e filosoficamente coerente. O que não pode ser feito é simplesmente presumir que duas cosmovisões são compatíveis porque compartilham algumas palavras, preocupações ou propostas.
A pergunta mais importante, portanto, não é “sou de direita ou de esquerda?”. Para o cristão, a pergunta anterior é: “qual é a cosmovisão que governa minha compreensão da realidade?” Se a resposta for a fé cristã, então Deus precisa permanecer no centro. A criação precisa ser levada a sério. A queda precisa ser levada a sério. A redenção precisa ser levada a sério. A autoridade das Escrituras precisa ser levada a sério. A dignidade humana precisa ser compreendida a partir da imagem de Deus. A família precisa ser compreendida à luz da criação. A propriedade precisa ser compreendida como mordomia. O Estado precisa ser reconhecido como autoridade limitada. A justiça precisa ser compreendida à luz do caráter de Deus. E a esperança última precisa permanecer em Cristo, não em um projeto político.
Ao longo desta série, procuramos mostrar que o conflito entre cristianismo e esquerda, quando analisado em nível de cosmovisão, não é simplesmente uma disputa sobre impostos, programas sociais, tamanho do Estado ou distribuição de renda. Ele alcança questões muito mais profundas: quem é Deus? O que é o homem? O que é o pecado? O que é a propriedade? O que é a justiça? O que é a família? O que é a liberdade? Qual é a função do Estado? E onde está a esperança da humanidade? As respostas dadas a essas perguntas determinam, em grande medida, as respostas políticas que virão depois.
A conclusão da série, portanto, pode ser resumida da seguinte maneira: o cristianismo não é uma ideologia política de esquerda, nem pode ser reduzido a qualquer outra ideologia política moderna. Entretanto, quando uma corrente política assume pressupostos que contradizem verdades fundamentais da cosmovisão cristã, o cristão não pode incorporá-los integralmente sem enfrentar uma contradição real entre sua fé e sua ideologia. A fidelidade cristã exige discernimento. O cristão não deve perguntar apenas o que uma ideologia promete fazer pela sociedade, mas qual visão de mundo está por trás de suas promessas.
Talvez essa seja a maior contribuição que a igreja pode oferecer ao debate político: não transformar o púlpito em palanque, mas formar cristãos capazes de pensar biblicamente. A igreja não precisa ensinar seus membros simplesmente a votar em determinado partido. Precisa ensiná-los a pensar a partir da Escritura. Precisa ensinar que Cristo é Senhor sobre todas as áreas da vida, inclusive sobre a maneira como compreendemos política, economia, cultura, justiça e autoridade. Precisa formar homens e mulheres capazes de examinar criticamente todas as ideologias, inclusive aquelas com as quais possuem maior afinidade. E precisa lembrar constantemente que nenhum governo, partido, sistema econômico ou projeto revolucionário pode ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Jesus Cristo.
No final, a questão fundamental não é simplesmente “cristão de esquerda ou cristão de direita?”. A questão fundamental é: “Cristo é realmente o Senhor da minha cosmovisão?” Essa pergunta muda completamente o debate. O cristão não começa escolhendo uma ideologia e depois procurando textos bíblicos que a confirmem. Ele começa diante das Escrituras e permite que a Palavra de Deus confronte todas as suas convicções políticas. A política deve ser submetida à verdade, e não a verdade submetida à política. O Estado deve ser submetido à justiça, e não a justiça definida pelo Estado. A economia deve ser submetida à moralidade, e não a moralidade determinada pela economia. E todas as coisas devem permanecer debaixo do senhorio daquele que declarou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28:18).
É nesse sentido que a série chega ao seu fim. O objetivo não foi ensinar o cristão a amar ou odiar pessoas por causa de sua posição política, mas ensiná-lo a reconhecer que ideologias também precisam ser submetidas ao exame da verdade cristã. O cristão é chamado a amar o próximo, inclusive aquele de quem discorda politicamente; mas esse amor não exige que abandone a verdade. É chamado a buscar justiça, mas deve perguntar o que a justiça significa diante de Deus. É chamado a participar da sociedade, mas sem transformar a política em religião. E é chamado, acima de todas as coisas, a permanecer fiel a Cristo.
Referências
A BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.
CARSON, D. A. Cristo e cultura: uma releitura. São Paulo: Vida Nova.
FERREIRA, Franklin. Contra a idolatria do Estado. São Paulo: Vida Nova.
GRUDEM, Wayne. Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo: Vida Nova.
GRUDEM, Wayne; ASMUS, Barry. Economia e política na cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova.
KOYZIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. 2. ed. ampliada e atualizada. São Paulo: Vida Nova, 2021.
KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 1848.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. 1845–1846.
Soli Deo gloria












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