O Deus que nos chama também cuida de nós quando nossas forças acabam
Uma reflexão pastoral sobre fé, cansaço, solidão e cuidado à luz de 1 Reis 19
Estamos em setembro, mês em que somos lembrados de olhar com maior atenção para a vida, para o sofrimento humano e para a saúde emocional. Para a igreja, entretanto, essa reflexão não deve transformar o púlpito em consultório nem substituir o trabalho de médicos, psicólogos e outros profissionais capacitados. A contribuição da igreja é outra, e não é pequena: anunciar que Deus se importa com o ser humano por inteiro e lembrar que a fé cristã não nos chama a negar a dor, esconder o sofrimento ou fingir uma força que não possuímos. A Bíblia é surpreendentemente honesta ao apresentar homens e mulheres de fé que choraram, sentiram medo, experimentaram solidão, passaram por momentos de profunda angústia e, em determinados momentos, chegaram a dizer que não suportavam mais. A fé bíblica não nos torna menos humanos; ela nos ensina a viver nossa humanidade diante de Deus, reconhecendo nossa dependência, nossas limitações e nossa necessidade da graça.
É nesse contexto que encontramos Elias em 1 Reis 19. O capítulo anterior nos apresenta um profeta corajoso no monte Carmelo, confrontando os profetas de Baal e testemunhando uma manifestação extraordinária do poder de Deus. Elias havia visto o fogo descer do céu, havia participado de um momento decisivo na história espiritual de Israel e havia experimentado aquilo que, aos olhos humanos, poderia ser considerado o auge de seu ministério. Entretanto, basta virar a página para encontrá-lo em outro cenário. O homem que estava diante de uma multidão agora está sozinho; aquele que havia enfrentado os profetas de Baal agora foge de Jezabel; aquele que havia experimentado o fogo do céu agora está debaixo de um zimbro; aquele que havia proclamado publicamente a soberania do Senhor agora diz: “Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma” (1Rs 19:4). Ontem, o Carmelo; hoje, o deserto. Ontem, fogo do céu; hoje, lágrimas na alma. Ontem, multidão; hoje, solidão. Ontem, coragem; hoje, exaustão.
Talvez seja justamente por isso que essa história seja tão necessária para nós. Há pessoas que chegam à igreja como quem está no Carmelo, mas por dentro estão debaixo do zimbro. Continuam trabalhando, servindo, pregando, cantando, cuidando da família, liderando, sorrindo e dizendo que está tudo bem, enquanto a alma está cansada. Há pessoas que continuam crendo em Deus, amando a Cristo e desejando permanecer fiéis, mas estão fisicamente e emocionalmente exaustas. E aqui encontramos uma verdade que precisamos recuperar: ser usado por Deus não significa ser imune ao cansaço; ter fé não significa nunca chorar; conhecer a Palavra não significa nunca atravessar momentos de angústia.
Até os servos de Deus podem chegar ao limite
Elias não é apresentado pela Escritura como um super-homem espiritual. Ele é um homem de Deus, mas continua sendo homem. Ele conhece o poder de Deus, mas também conhece seus próprios limites. Depois de uma experiência extraordinária no Carmelo, ele sente medo, foge e entra no deserto. A Bíblia não esconde isso. Pelo contrário, registra com honestidade sua fragilidade. Isso é profundamente importante porque, muitas vezes, dentro da igreja, podemos criar uma imagem de espiritualidade na qual o cristão maduro seria aquele que nunca se abate, nunca se cansa, nunca demonstra fragilidade e sempre possui uma resposta pronta. Elias desmonta essa caricatura.
Ter fé não significa nunca ficar cansado. Orar não significa que nunca choraremos. Conhecer a Palavra não significa que jamais experimentaremos angústia. Servir a Deus não significa que nosso corpo, nossa mente e nossas emoções deixaram de possuir limites. Continuamos sendo criaturas, e criaturas são dependentes. Somente Deus é absolutamente suficiente em si mesmo; nós somos seres necessitados. Essa verdade está no próprio fundamento da teologia cristã: fomos criados para depender do Criador e viver de sua graça e providência. A graça de Deus não elimina nossa condição de criaturas; antes, sustenta-nos justamente em nossa dependência.
Elias chegou ao limite depois de servir intensamente. Ele não estava fugindo de uma vida de comodismo. Havia enfrentado Acabe, confrontado os profetas de Baal, orado, testemunhado a resposta divina e participado de uma grande demonstração pública da glória do Senhor. O capítulo 18 havia sido intenso, e o capítulo 19 mostra que até mesmo quem está fazendo a obra de Deus pode chegar ao limite de suas forças. Isso precisa ser dito especialmente àqueles que servem na igreja. Existem pessoas que sabem cuidar de todo mundo, mas não sabem reconhecer que também precisam ser cuidadas; pessoas que sabem aconselhar, mas têm dificuldade de dizer “eu preciso conversar”; pessoas que oram pelos outros, mas não conseguem admitir que também precisam que alguém ore por elas.
Elias nos lembra que não somos máquinas ministeriais. Deus não nos chamou para funcionarmos indefinidamente sem descanso, sem limites e sem cuidado. O próprio Jesus se retirava para lugares solitários para orar (Mc 1:35; Lc 5:16), e aos seus discípulos disse: “Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto” (Mc 6:31). O descanso, portanto, não precisa ser interpretado como negligência espiritual. Há momentos em que parar faz parte de continuar. Reconhecer nossos limites não é necessariamente uma declaração de incredulidade; pode ser uma expressão de humildade diante de Deus.
O relato de Elias vai ainda mais fundo. Debaixo do zimbro, ele diz: “Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma”. Não precisamos transformar essa declaração em um diagnóstico psicológico. O texto bíblico não nos autoriza a fazer isso. Podemos, porém, afirmar aquilo que o próprio relato mostra: Elias havia chegado a um nível profundo de abatimento e exaustão. E a resposta pastoral da igreja não deveria ser imediatamente condenatória. Há uma diferença entre pecado e sofrimento. Existem situações em que precisamos confrontar o pecado, mas existem outras em que precisamos simplesmente nos aproximar de alguém e dizer: “Estou aqui. Vamos atravessar isso juntos”.
O cansaço pode nos levar ao isolamento
Outro detalhe do relato merece atenção. Elias começa a se afastar das pessoas. Primeiro chega a Berseba e deixa ali seu moço; depois ele próprio entra no deserto e caminha sozinho (1Rs 19:3–4). Não devemos transformar esse comportamento em um diagnóstico clínico, mas podemos reconhecer uma realidade humana: quando estamos profundamente cansados, feridos ou abatidos, podemos começar a nos afastar das pessoas. Às vezes não queremos conversar, explicar o que está acontecendo, responder mensagens ou encontrar alguém. Em determinados momentos, precisamos mesmo de silêncio e descanso. O problema surge quando o necessário recolhimento se transforma em isolamento e o afastamento nos desconecta das pessoas que poderiam caminhar conosco.
Por isso, a igreja precisa aprender a olhar para além da aparência. Nem sempre aquele que se afastou está simplesmente “desinteressado”. Talvez esteja cansado. Talvez esteja ferido. Talvez esteja sobrecarregado. Talvez não saiba sequer explicar o que está sentindo. Uma comunidade cristã saudável não pergunta somente: “Por que ele não está vindo?”. Ela também pergunta: “Como posso ajudá-lo hoje?” Paulo nos ordena: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6:2). A vida cristã não foi concebida como uma caminhada solitária. Há momentos em que carregamos nossas próprias cargas, momentos em que precisamos que outros nos ajudem a carregá-las e momentos em que Deus nos usa para carregar alguém.
Talvez alguém esteja entrando em seu próprio deserto e nós nem tenhamos percebido. Talvez alguém que sempre foi forte esteja simplesmente cansado de precisar ser forte o tempo inteiro. Talvez alguém que deixou de participar das atividades da igreja não esteja abandonando a fé, mas enfrentando uma batalha que ainda não conseguiu verbalizar. Precisamos construir comunidades nas quais seja possível dizer “eu não estou bem” sem que isso seja imediatamente interpretado como “eu abandonei a fé”. Elias não deixou de ser profeta porque ficou cansado. Sua identidade não desapareceu quando suas forças diminuíram. Seu chamado não foi cancelado porque ele atravessou um momento de profunda fragilidade.
Deus não despreza quem está cansado
É aqui que o texto se torna especialmente belo. Elias está debaixo de um zimbro, cansado, abatido e sem forças. Ele adormece, e então um anjo o toca e lhe diz: “Levanta-te e come” (1Rs 19:5). Observe a maneira como Deus começa a tratar Elias. Deus não começa com uma repreensão. Deus começa cuidando. Elias come, bebe e volta a dormir. Depois o anjo retorna e diz novamente: “Levanta-te e come, porque o caminho te será longo” (1Rs 19:7).
Deus percebe que Elias não precisava apenas de uma palavra; precisava de cuidado. Isso não significa que todo sofrimento emocional se resolva com alimento e sono. O texto não ensina isso. O que o texto revela é que Deus reconhece a condição concreta daquele homem. Elias era uma pessoa espiritual, mas também era um ser humano com corpo, limites e necessidades. A Bíblia nunca trata o ser humano como uma alma sem corpo. Somos criaturas integrais, e o Deus que nos criou conhece nossa fragilidade.
Existe aqui uma importante correção à cultura da produtividade que também pode contaminar a vida cristã. Somos frequentemente avaliados pelo que fazemos, produzimos e entregamos. E, sem perceber, podemos transportar essa lógica para o ministério: quanto mais fazemos, mais importantes pensamos ser; quanto mais ocupados estamos, mais espirituais imaginamos que somos. Elias nos mostra outra coisa. Antes da missão, vem o cuidado. Antes de Deus mandar Elias novamente para o caminho, Deus permite que ele durma, coma, beba e recupere as forças.
Descansar pode ser uma forma de reconhecer diante de Deus que somos criaturas e não o Criador. Deus não precisa que sejamos onipotentes, porque somente Ele é onipotente. Deus não exige que sejamos ilimitados, porque somente Ele é ilimitado. Ele nos fez com limites. E reconhecer esses limites pode ser uma expressão de humildade.
Por isso, não devemos usar a fé como instrumento de condenação contra quem está sofrendo. Oração é fundamental. A Palavra é indispensável. A comunhão da igreja é necessária. A esperança em Cristo é o centro da nossa existência. Mas nada disso autoriza a igreja a dizer que toda pessoa cansada precisa simplesmente “ter mais fé”. Elias tinha fé. Elias conhecia Deus. Elias era profeta. Elias havia acabado de experimentar uma manifestação extraordinária do poder divino. E, ainda assim, precisava ser cuidado.
A igreja também precisa reconhecer seus limites. Ela não deve assumir o lugar de médicos, psicólogos ou outros profissionais quando uma situação exige conhecimento especializado. Ao mesmo tempo, não deve abandonar sua própria vocação. A igreja pode orar, acolher, ouvir, discipular, acompanhar, encorajar e apontar para Cristo. Pode ser uma comunidade onde o sofrimento não precise ser escondido. Pode ser o lugar onde alguém encontra irmãos que dizem: “Você não precisa atravessar isso sozinho.”
E há uma frase que resume esse momento da história de Elias: Deus não trata Elias como uma máquina ministerial; Deus trata Elias como uma pessoa. O Deus que havia usado Elias no Carmelo era o mesmo Deus que o encontrou no deserto. O Deus que havia respondido com fogo era o Deus que agora cuidava de um homem cansado. Isso é graça.
Deus nos encontra também no lugar da nossa solidão
Depois de descansar e recuperar suas forças, Elias chega ao Horebe. Ali Deus lhe pergunta: “Que fazes aqui, Elias?” (1Rs 19:9). Deus sabia onde Elias estava. Conhecia sua história e conhecia seu coração. Portanto, a pergunta não foi feita por falta de informação, mas abriu espaço para Elias falar. E Elias falou: “Eu fiquei só” (1Rs 19:10).
Há uma diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho. Elias estava fisicamente isolado, mas sua conclusão de que era o único fiel ao Senhor não correspondia completamente à realidade. Mais tarde, Deus lhe dirá que havia preservado sete mil em Israel que não haviam dobrado os joelhos a Baal (1Rs 19:18). A dor de Elias era real, mas sua percepção não abrangia toda a realidade.
Isso nos ensina algo muito importante. Quando estamos profundamente cansados, feridos ou abatidos, nossa percepção pode ficar limitada pela própria dor que estamos enfrentando. Isso não significa que aquilo que sentimos seja falso. Elias realmente estava sofrendo. Seu medo era real. Seu cansaço era real. Sua solidão era real. O que precisava ser corrigido era a conclusão de que ele estava completamente sozinho.
Por isso, quando alguém diz “eu estou sozinho”, a resposta cristã não deveria ser simplesmente: “Não está, não!”. Talvez a pessoa esteja experimentando uma solidão profunda. Talvez esteja cercada de pessoas e, ainda assim, sinta que ninguém a compreende. Precisamos primeiro ouvir. Deus perguntou, Elias respondeu. Deus permitiu que o profeta colocasse diante dele aquilo que estava carregando.
A fé bíblica não exige que finjamos diante de Deus. Podemos chegar diante dele dizendo: “Senhor, estou cansado”; “Senhor, estou com medo”; “Senhor, não estou entendendo”; “Senhor, estou me sentindo sozinho”. Os Salmos estão cheios desse tipo de oração. O salmista pergunta: “Até quando, Senhor?” (Sl 13:1). Em outro momento pergunta: “Por que estás abatida, ó minha alma?” (Sl 42:5). A Bíblia não apresenta a fé como capacidade de esconder sentimentos diante de Deus, mas como a disposição de levar a própria vida, inclusive sua dor, à presença daquele que permanece fiel.
E isso também transforma nossa compreensão da igreja. Não devemos ser uma comunidade que celebra apenas quem está forte. Precisamos ser uma comunidade que sabe caminhar com quem está fraco. Paulo diz: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12:15). Há um ministério poderoso na presença. Às vezes não sabemos o que dizer, e tudo bem. Às vezes o melhor que podemos fazer é sentar ao lado de alguém, ouvir, orar e permanecer presente.
Talvez por isso seja tão importante trocar algumas perguntas. Em vez de perguntar apenas “Você está bem?”, pergunta para a qual frequentemente recebemos a resposta automática “Estou”, podemos perguntar: “Como você realmente está?” E, depois de perguntar, precisamos estar dispostos a ouvir.
Quando estamos fracos, precisamos de pessoas maduras que nos ajudem a enxergar aquilo que, naquele momento, não conseguimos enxergar sozinhos. Elias pensava que estava sozinho; Deus mostrou que não estava. Elias pensava que sua história havia terminado; Deus mostrou que ainda havia caminho. Elias pensava que tudo havia acabado; Deus mostrou que ainda havia propósito.
A solidão pode dizer que estamos sozinhos; a presença de Deus nos lembra que nunca estamos abandonados.
Deus nem sempre fala no estrondo; às vezes fala na quietude
Depois de ouvir Elias, Deus o chama para fora da caverna. Então vem um grande e forte vento, depois um terremoto e depois fogo. O texto, porém, ressalta que o Senhor não estava se revelando a Elias por meio dessas manifestações. Depois do fogo veio “uma voz mansa e delicada” (1Rs 19:12).
Não devemos interpretar essa passagem como se Deus jamais falasse por meio do extraordinário. O próprio Elias havia acabado de experimentar o fogo no Carmelo. A questão é outra: Deus não está limitado ao extraordinário. O Deus do Carmelo também é o Deus do Horebe. O Deus do fogo também é o Deus da quietude.
Isso é particularmente importante para uma alma cansada. Elias vinha de um ambiente de extremo barulho: confronto, ameaça, multidão, fogo, corrida, medo e fuga. Agora Deus o conduz a um lugar em que ele precisa parar e ouvir. Talvez exista aqui uma palavra muito necessária para o nosso tempo. Vivemos cercados por informações, opiniões, notificações, cobranças, comparações e expectativas. Há tanto barulho ao nosso redor que, às vezes, perdemos a capacidade de permanecer em silêncio.
A quietude bíblica não é uma fórmula psicológica nem uma técnica espiritual. É uma disposição de parar diante de Deus, reconhecer nossa dependência e permitir que nosso coração seja novamente orientado pela sua presença. “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46:10). Quando tudo fica quieto, talvez comecemos a perceber coisas que o barulho estava escondendo: “Estou cansado”; “Estou preocupado”; “Estou com medo”; “Estou triste”; “Preciso conversar”.
Há momentos em que queremos que Deus explique tudo imediatamente. Queremos respostas, soluções e explicações. Mas, algumas vezes, Deus não nos entrega uma explicação completa; Ele nos oferece sua presença. Elias não recebeu naquele momento uma longa explicação sobre Jezabel. Deus primeiro cuidou dele, ouviu-o, conduziu-o e então falou. Existe aqui uma pedagogia divina: Deus vai tratando Elias passo a passo.
Isso também nos ensina a respeito de como devemos lidar com pessoas que sofrem. Às vezes queremos explicar a dor do outro. Queremos dizer exatamente por que aquilo aconteceu, o que Deus está fazendo e qual será o resultado. Mas talvez, naquele momento, a pessoa não precise de uma explicação. Talvez precise de alguém que fique ao seu lado. Talvez precise de oração. Talvez precise de silêncio. Talvez precise simplesmente ouvir: “Eu estou aqui.”
Não precisamos viver procurando constantemente experiências extraordinárias para saber que Deus está conosco. Ele está presente na oração silenciosa, na leitura das Escrituras, na comunhão dos irmãos, no abraço recebido em um momento difícil, na oração da igreja e até mesmo na força que recebemos para levantar depois de uma noite difícil.
A quietude não significa ausência de Deus. Às vezes, é na quietude que aprendemos novamente a perceber sua presença.
O Deus que restaura também devolve propósito
Depois de cuidar de Elias, ouvi-lo e falar com ele, Deus diz: “Vai, volta ao teu caminho” (1Rs 19:15). Essa ordem é carregada de significado. Elias havia chegado ao deserto pensando que sua história tinha terminado. Havia dito “basta”, havia se deitado debaixo do zimbro, havia se sentido sozinho e experimentado medo, cansaço e profunda frustração. Mas Deus não havia terminado a história de Elias.
Observe novamente a ordem dos acontecimentos. Deus não começa exigindo que Elias volte ao trabalho. Primeiro ele dorme. Depois come. Depois bebe. Depois descansa. Depois conversa com Deus. Depois ouve a voz do Senhor. E somente então recebe novamente uma missão.
Isso nos ensina que Deus não reduz seus filhos àquilo que eles conseguem produzir. Elias não precisava provar seu valor para Deus. Seu chamado não dependia de sua capacidade de estar permanentemente forte. O Deus que havia chamado Elias continuava sendo seu Deus quando Elias estava cansado.
Ao mesmo tempo, a restauração bíblica não significa permanecer eternamente debaixo do zimbro. Deus restaura Elias e o coloca novamente no caminho. O propósito de Deus não é uma máquina de produtividade espiritual. Propósito é vocação: viver diante de Deus, debaixo de sua graça, cumprindo aquilo para o qual fomos chamados, dentro dos limites que Ele mesmo estabeleceu.
E há algo muito importante no que Deus faz em seguida. Ele determina que Elias prepare Eliseu para sucedê-lo. A obra de Deus não dependia exclusivamente de Elias. Isso é libertador. A obra é de Deus. O Reino é de Deus. A igreja é de Cristo. O ministério pertence ao Senhor. Nós somos servos.
Talvez parte do esgotamento de Elias estivesse associada à percepção de que tudo dependia dele. “Eu fiquei só.” Mas Deus mostra que havia sete mil que não haviam dobrado os joelhos a Baal. Elias não estava sozinho e, mais do que isso, a obra de Deus não dependia exclusivamente dele.
Essa é uma palavra necessária para quem serve na igreja. Às vezes pensamos: “Se eu parar, tudo vai parar”; “Se eu não fizer, ninguém fará”; “Se eu não estiver aqui, nada funciona”. Mas precisamos aprender a dizer: “Tudo depende de Deus.” Temos responsabilidades, devemos ser fiéis, precisamos servir com excelência e cuidar daqueles que Deus colocou sob nossa responsabilidade. Mas precisamos reconhecer nossos limites. O Senhor é o Senhor da igreja. Nós somos servos.
A perspectiva arminiana clássica também nos ajuda a preservar essa verdade sem cair em fatalismo. A graça de Deus não anula nossa responsabilidade, e a providência divina não transforma o ser humano em uma máquina passiva. Deus chama, capacita, adverte, corrige, sustenta e convida seus filhos a perseverarem. Somos responsáveis por responder à graça e permanecer no caminho da fé, mas jamais somos chamados a viver como se tudo dependesse de nossa própria força. A graça precede, acompanha e sustenta nossa caminhada.
Elias também aprenderia que não precisava continuar sozinho. Deus lhe daria Eliseu. Havia outros sete mil. Havia uma comunidade de fiéis que Elias não conseguia enxergar. A restauração também passa pela comunhão. Precisamos de pessoas com quem possamos conversar, irmãos que possam orar conosco, pessoas maduras que possam nos corrigir e amigos que possam caminhar conosco quando nossas pernas estiverem fracas.
Há momentos em que carregamos. Há momentos em que somos carregados. E há momentos em que carregamos alguém.
Isso é igreja.
Talvez a restauração de alguém não comece com uma experiência extraordinária, mas com uma pessoa que aparece. Um amigo que liga. Um irmão que visita. Um pastor que pergunta. Uma família que abraça. Uma igreja que acolhe. Uma comunidade que diz: “Você não precisa atravessar isso sozinho.”
E há uma última lição de Elias que não podemos perder. Deus não apenas lhe dá uma nova missão; Deus também corrige sua visão. Elias dizia: “Eu fiquei só”. Deus responde mostrando que havia sete mil. Em outras palavras: “Elias, você não está vendo tudo o que eu estou fazendo”.
Quando estamos cansados, enxergamos apenas uma parte da história. Quando estamos feridos, nossa dor pode ocupar todo o campo de visão. Quando estamos exaustos, o futuro pode parecer fechado. Mas Deus continua trabalhando onde nossos olhos não conseguem enxergar. Isso não significa dizer a quem sofre simplesmente: “É só confiar em Deus”. Significa reconhecer que, mesmo quando não conseguimos enxergar a totalidade da história, podemos confiar naquele que enxerga.
Elias não sabia o que Deus estava fazendo. Deus sabia. Elias não sabia que havia sete mil. Deus sabia. Elias não sabia que Eliseu seria levantado. Deus sabia. Elias pensava que sua história estava terminando. Deus sabia que ainda havia caminho.
Essa é a esperança cristã: nossa visão é limitada; a providência de Deus não é.
Quando a alma está cansada, Deus ainda está presente
Talvez você esteja vivendo hoje um capítulo que não entende. Talvez esteja cansado. Talvez esteja atravessando uma perda, uma decepção, uma mudança, uma crise familiar ou simplesmente uma fase em que as forças parecem menores do que as exigências da vida. Talvez você tenha aprendido a sorrir enquanto sofre e ninguém saiba o que acontece dentro de você.
Então lembre-se de Elias.
Você pode estar debaixo de um zimbro, mas Deus sabe onde você está.
Você pode estar cansado, mas Deus não despreza você.
Você pode sentir-se sozinho, mas não está abandonado.
Você pode não compreender o que Deus está fazendo, mas a providência dele não deixou de operar.
Você pode não enxergar o próximo capítulo, mas isso não significa que Deus tenha abandonado a história.
O mesmo Deus que encontrou Elias no deserto continua sendo o Deus que encontra seus filhos quando suas forças acabam. O mesmo Deus que cuidou do corpo cansado de Elias continua nos lembrando de que somos criaturas dependentes de sua graça. O mesmo Deus que ouviu seu lamento continua nos convidando a derramar diante dele o coração. O mesmo Deus que falou na quietude continua nos chamando a silenciar o ruído para ouvir sua Palavra. E o mesmo Deus que colocou Elias novamente de pé continua sendo fiel para sustentar seus filhos no caminho.
Por isso, a mensagem de 1 Reis 19 não é simplesmente “seja forte”. É muito mais profunda: quando nossas forças acabam, Deus continua sendo Deus.
O Carmelo não era o fim.
O deserto não era o fim.
O zimbro não era o fim.
A caverna não era o fim.
O silêncio não era o fim.
Deus ainda tinha caminho para Elias.
E talvez esta seja a palavra que alguém precisava ouvir hoje: o momento que você está vivendo não precisa definir toda a sua história.
Não precisamos conhecer todas as páginas para confiar no Autor. Não precisamos compreender toda a providência para continuar crendo. Não precisamos carregar sozinhos aquilo que Deus nos chama a compartilhar com irmãos. Não precisamos fingir que estamos fortes quando estamos cansados.
Podemos descansar.
Podemos orar.
Podemos pedir ajuda.
Podemos falar.
Podemos chorar.
Podemos procurar cuidado.
Podemos permanecer junto do povo de Deus.
E podemos continuar confiando na graça daquele que nos chamou.
Porque o Deus que nos chama é o mesmo Deus que cuida de nós quando nossas forças acabam.
E quando a alma estiver cansada, lembre-se:
Deus ainda está presente.
Ele não abandonou você.
O zimbro não é o fim da história.
Há graça para hoje, há presença para o caminho e, no tempo de Deus, há força para o próximo passo.
P.S. Esta mensagem também está disponível em vídeo no YouTube: Assista à mensagem no YouTube.
Soli Deo gloria












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