Duas visões do homem: criação, pecado e redenção
Se no primeiro artigo estabelecemos que a discussão entre cristianismo e esquerda precisa ser compreendida no nível das cosmovisões, neste segundo texto precisamos avançar para uma questão ainda mais fundamental: o que é o ser humano? Poucas perguntas possuem consequências tão abrangentes para a política, para a economia, para a educação, para a família e para a organização da sociedade. Toda proposta política, ainda que não declare explicitamente sua antropologia, possui alguma concepção acerca da natureza humana. Quando um governo estabelece uma lei, quando uma sociedade define aquilo que considera justo, quando um sistema econômico determina como devem ser distribuídos os bens ou quando uma ideologia propõe transformar radicalmente as estruturas sociais, existe por trás dessas decisões alguma compreensão sobre quem é o homem, quais são suas necessidades, quais são as causas de seus conflitos e o que seria necessário para que sua condição fosse transformada.
É justamente nesse ponto que a diferença entre a cosmovisão cristã e a tradição marxista se torna particularmente profunda. A Bíblia começa sua antropologia não pela economia, pela política ou pela organização social, mas pela criação. O homem é apresentado como criatura de Deus, feito à sua imagem e semelhança (Gn 1.26–27), recebendo de Deus uma dignidade que não depende de sua classe social, capacidade econômica, utilidade produtiva ou posição política. Entretanto, a mesma Bíblia que atribui ao ser humano uma dignidade extraordinária também apresenta uma avaliação profundamente realista de sua condição moral: o homem caiu em pecado e encontra-se afastado de Deus. O problema humano, portanto, não pode ser explicado apenas pelas circunstâncias externas em que a pessoa vive. Existe uma corrupção que alcança o próprio coração. A tradição marxista, especialmente em sua formulação clássica, oferece uma compreensão diferente, na qual as condições materiais de existência, as relações de produção, a alienação e os conflitos entre classes assumem papel central na explicação da condição humana e da história. É nessa diferença de antropologias que muitas das divergências políticas posteriores encontram sua raiz.
O homem como criatura de Deus
A antropologia bíblica começa com uma afirmação que nenhuma teoria política pode ignorar se pretende ser compatível com a cosmovisão cristã: o homem não é a medida última da realidade. Antes que o homem existisse, Deus já existia; antes que o homem produzisse qualquer coisa, Deus já havia criado todas as coisas; e antes que o homem estabelecesse qualquer estrutura social, Deus já havia estabelecido a ordem fundamental da criação. Gênesis 1.26–27 afirma que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. Essa declaração distingue o homem de todas as demais criaturas e estabelece a base de sua dignidade. A pessoa humana não possui valor simplesmente porque produz, trabalha, consome, pertence a determinada classe ou contribui para o desenvolvimento econômico. Seu valor fundamental está relacionado ao fato de ter sido criada por Deus e à imagem de Deus.
Essa doutrina possui consequências profundas para a vida pública. Se a dignidade humana é recebida do Criador, nenhuma autoridade política pode concedê-la ou retirá-la em sentido absoluto. O Estado não cria a dignidade humana; ele deve reconhecê-la e protegê-la. A maioria não cria a dignidade humana; deve respeitá-la. A riqueza não cria dignidade, assim como a pobreza não a elimina. O trabalhador possui dignidade, mas o proprietário também; o pobre possui dignidade, mas o rico também; o criminoso continua sendo uma criatura humana, embora sua conduta possa justificar punição; o governante possui dignidade humana, mas não possui uma dignidade superior à do cidadão comum. Essa compreensão impede que a pessoa seja reduzida à sua utilidade social ou à sua posição econômica. É uma consequência direta da doutrina bíblica da criação.
A antropologia cristã também rejeita qualquer tentativa de dividir a humanidade em grupos cujo valor moral fundamental dependa de sua posição histórica ou econômica. É evidente que a Bíblia reconhece diferenças sociais, econômicas e funcionais entre os seres humanos e denuncia situações concretas de exploração e injustiça. Entretanto, essas diferenças não estabelecem diferentes espécies de humanidade. Tiago, por exemplo, repreende a igreja por tratar o rico de maneira privilegiada em relação ao pobre (Tg 2.1–9), precisamente porque ambos devem ser tratados segundo uma justiça que não depende da riqueza. O princípio bíblico não é que o rico possui menos dignidade por ser rico, nem que o pobre possui mais dignidade simplesmente por ser pobre. A dignidade é anterior à condição econômica, porque deriva da criação.
O homem depois da queda
A segunda afirmação fundamental da antropologia cristã é igualmente importante: o homem criado à imagem de Deus é também o homem afetado pelo pecado. Gênesis 3 apresenta a entrada do pecado na experiência humana e, a partir daí, toda a narrativa bíblica passa a considerar a humanidade como profundamente marcada pela rebelião contra Deus. Essa doutrina impede tanto o desprezo pelo ser humano quanto o otimismo ingênuo acerca de sua capacidade moral. O cristianismo possui uma visão elevada da dignidade humana e, simultaneamente, uma visão profundamente realista da corrupção humana.
Paulo resume essa condição em Romanos 3.10–12 e chega à conclusão de que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). O problema humano, portanto, não está somente nas instituições, nos sistemas econômicos ou nas estruturas sociais. Essas realidades podem ser injustas e precisam ser avaliadas moralmente, mas também são administradas por homens pecadores. Um sistema novo pode substituir um sistema antigo e ainda assim continuar sendo conduzido por seres humanos capazes de corrupção, violência, mentira, abuso de poder e injustiça. Mudar a estrutura não elimina automaticamente o pecado que existe no coração daqueles que administrarão a nova estrutura.
Essa é uma das razões pelas quais a doutrina cristã do pecado possui implicações políticas tão importantes. Ela nos impede de depositar esperança absoluta em qualquer sistema político. O cristão pode defender reformas, lutar contra injustiças, trabalhar por leis mais justas e participar da vida pública, mas não pode acreditar que a transformação política seja capaz de produzir a redenção humana. O Estado pode punir determinados crimes, estabelecer regras, proteger direitos e limitar determinadas formas de violência; ele não pode regenerar o coração humano. A educação pode transmitir conhecimento e formar hábitos; ela não pode, por si mesma, retirar o pecado do coração. A economia pode produzir riqueza ou pobreza, oportunidades ou dificuldades; ela não pode solucionar definitivamente a alienação do homem em relação ao seu Criador.
A Bíblia, portanto, oferece uma antropologia que é simultaneamente realista e esperançosa. Realista porque reconhece a profundidade do pecado; esperançosa porque não considera o pecado a palavra final sobre o ser humano. A solução cristã para a condição humana não está simplesmente em reorganizar a sociedade, mas na obra redentora de Deus em Cristo. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17). A transformação cristã começa no interior da pessoa e se manifesta posteriormente em sua maneira de viver, trabalhar, relacionar-se e participar da sociedade.
O homem na tradição marxista
Para compreender a diferença entre as duas cosmovisões, precisamos permitir que a própria tradição marxista apresente sua compreensão do homem e da sociedade. Em A ideologia alemã, Marx e Engels desenvolvem uma concepção na qual o ponto de partida da análise histórica são os indivíduos reais, suas condições materiais e sua atividade produtiva. A maneira como os seres humanos produzem sua vida material está relacionada à organização social e política, e a consciência humana é analisada em conexão com as condições históricas e materiais nas quais as pessoas vivem. A economia, portanto, não aparece simplesmente como uma área entre outras, mas como elemento fundamental para compreender a estrutura e o desenvolvimento da sociedade. Essa concepção materialista da história será decisiva para o desenvolvimento posterior do pensamento marxista.
No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels apresentam uma interpretação da história em termos de conflitos entre classes. O texto inicia sua análise afirmando que a história das sociedades existentes até então está relacionada aos conflitos entre grupos em posições antagônicas e apresenta a sociedade moderna como marcada principalmente pela oposição entre burguesia e proletariado. A própria estrutura do argumento revela que a classe social não é apenas uma categoria econômica utilizada para descrever diferenças entre pessoas, mas ocupa uma posição central na interpretação marxista da dinâmica histórica.
Essa maneira de interpretar o homem e a sociedade produz uma diferença significativa em relação à antropologia cristã. Para a Bíblia, a distinção fundamental entre os seres humanos não é determinada pela posição econômica. Ricos e pobres, trabalhadores e proprietários, governantes e governados são igualmente criaturas de Deus e igualmente necessitados da graça. O pecado atravessa todas as classes sociais. O rico pode pecar por avareza e exploração, mas o pobre também pode pecar por inveja, violência ou desonestidade. O governante pode abusar de seu poder, mas o cidadão comum também pode agir injustamente. O cristianismo não identifica o mal moral com uma única classe social.
Na perspectiva marxista, porém, o conflito entre classes assume uma função explicativa muito mais central. O Manifesto apresenta a história como marcada por antagonismos entre classes e descreve a sociedade burguesa moderna como organizada em torno da oposição entre burguesia e proletariado. Na tradição revolucionária de Marx e Engels, a emancipação do proletariado está vinculada à superação das relações sociais que caracterizam a sociedade capitalista.
Essa diferença precisa ser levada a sério. Não é simplesmente uma divergência sobre política econômica. É uma diferença sobre como devemos compreender a própria humanidade. A Bíblia começa dizendo que o homem é criatura de Deus e que sua crise fundamental é espiritual e moral. A tradição marxista começa sua análise moderna da sociedade a partir dos indivíduos concretos e de suas condições materiais, desenvolvendo uma explicação histórica centrada nas relações de produção e nos conflitos de classe. São pontos de partida diferentes e, consequentemente, produzem diagnósticos diferentes.
O problema da alienação
Um conceito particularmente importante para compreender a antropologia marxista é o de alienação. Nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Marx desenvolve sua análise do trabalho alienado, argumentando que, sob determinadas condições, o trabalhador pode experimentar seu próprio trabalho como uma atividade que não lhe pertence e que se volta contra ele. O trabalhador encontra-se alienado do produto de seu trabalho, da própria atividade, de sua vida como ser humano e, posteriormente, dos outros homens.
A questão da alienação é importante porque mostra que Marx não estava interessado apenas em salários ou distribuição de renda. Existia uma preocupação antropológica: que tipo de ser humano está sendo produzido pelas relações sociais existentes? O problema do trabalhador não era somente receber pouco dinheiro; envolvia a maneira como o trabalho e as relações econômicas poderiam deformar a própria experiência humana.
Há aqui uma questão que merece reconhecimento intelectual. A tradição cristã também possui uma compreensão profunda da alienação humana, mas localiza sua raiz em outro lugar. O homem bíblico está alienado de Deus por causa do pecado. Isaías declara: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus” (Is 59.2). Paulo descreve os seres humanos como estando “separados da vida de Deus” por causa da ignorância e dureza de coração (Ef 4.18). Portanto, existe uma diferença fundamental entre reconhecer que o homem experimenta alienação e explicar a causa última dessa alienação.
Na perspectiva cristã, a alienação fundamental é a ruptura da comunhão com Deus. As injustiças sociais podem produzir sofrimento, exploração e formas reais de desumanização, mas a raiz última da alienação humana é o pecado. Na perspectiva marxista, a alienação é analisada fundamentalmente em relação às condições materiais e sociais do trabalho e da produção. Essa diferença demonstra novamente que não basta observar que duas tradições utilizam palavras semelhantes. Precisamos perguntar o que cada uma entende pelo problema e qual solução considera capaz de resolvê-lo.
O conflito de classes e a unidade da humanidade
Outro ponto de divergência aparece na maneira como cada cosmovisão compreende a relação entre grupos humanos. A Bíblia reconhece que existem conflitos entre grupos, diferenças de poder e situações de exploração. Os profetas denunciaram reis e elites que praticavam injustiça; Jesus confrontou autoridades religiosas; Tiago denunciou ricos que exploravam trabalhadores; e a igreja primitiva precisou lidar com desigualdades concretas entre seus membros. A Bíblia, portanto, não possui uma visão ingênua da sociedade.
Entretanto, a solução cristã não consiste em transformar o conflito entre grupos em princípio permanente da organização social. O Evangelho anuncia uma reconciliação que atravessa as divisões humanas. Paulo afirma que Cristo “é a nossa paz”, aquele que derrubou a barreira de separação entre judeus e gentios e criou “em si mesmo, dos dois, um novo homem” (Ef 2.14–16). A igreja é chamada a uma unidade que não se fundamenta na eliminação das diferenças sociais, mas na reconciliação realizada por Cristo.
Isso não significa negar as diferenças econômicas ou afirmar que todos os conflitos sociais são imaginários. Significa que, para o cristianismo, nenhuma classe social possui uma identidade moral que permita definir automaticamente o outro grupo como inimigo. O rico não deve ser tratado como inimigo simplesmente por possuir riqueza, e o trabalhador não deve ser tratado como inimigo simplesmente por vender sua força de trabalho. O cristianismo julga pessoas e estruturas segundo a justiça de Deus, e não simplesmente segundo sua posição numa determinada categoria econômica.
Essa diferença se torna particularmente relevante quando o conceito de luta de classes passa de uma ferramenta de análise histórica para uma estrutura normativa de ação política. Se determinado grupo é considerado estruturalmente opressor e outro estruturalmente oprimido, o conflito entre eles pode deixar de ser entendido como um problema moral a ser solucionado pela justiça e pela reconciliação e passar a ser compreendido como motor necessário da transformação histórica. É precisamente nesse ponto que a visão cristã entra em tensão com a lógica revolucionária marxista.
O problema da transformação do homem
Aqui encontramos talvez a diferença mais profunda entre as duas cosmovisões. Tanto o cristianismo quanto as tradições revolucionárias desejam transformação. A questão é saber qual transformação, qual é sua causa e quem pode produzi-la.
O cristianismo ensina que o homem precisa ser reconciliado com Deus. O problema fundamental é o pecado, e a solução definitiva é a obra de Cristo. A transformação cristã é inseparável da regeneração e da santificação. Deus transforma o pecador e essa transformação produz novas relações, novas atitudes e uma nova maneira de viver.
A tradição marxista, por sua vez, procura transformar as condições sociais que produzem alienação e exploração. No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels vinculam a emancipação do proletariado à superação das relações sociais e econômicas próprias da sociedade de classes. O objetivo não é simplesmente reformar a consciência individual enquanto as estruturas permanecem intactas; é transformar as próprias relações sociais que sustentam a estrutura existente.
Aqui aparece uma diferença decisiva. O cristianismo não acredita que a mudança da estrutura social possa produzir, por si mesma, um novo coração. Uma sociedade pode alterar suas instituições e continuar composta de pecadores. Um governo pode substituir outro governo; uma classe dominante pode ser substituída por outra; uma forma de propriedade pode substituir outra; uma revolução pode derrubar uma ordem antiga. Nada disso, por si só, resolve o problema do pecado.
Jeremias já havia colocado o problema em termos que continuam fundamentais: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9). A resposta cristã ao problema humano não pode, portanto, limitar-se à transformação das estruturas externas. A estrutura precisa ser avaliada e, quando injusta, reformada; mas o homem que constrói, administra e reforma essas estruturas também precisa ser transformado.
Dignidade humana: uma diferença fundamental
Essa discussão nos permite retornar à questão da dignidade. O cristianismo possui uma base objetiva para afirmar o valor de cada pessoa: Deus criou o ser humano à sua imagem. Essa dignidade não depende de circunstâncias históricas e não é concedida pelo Estado. Por isso, ela permanece mesmo quando a pessoa é pobre, incapaz, idosa, doente, nascitura, socialmente improdutiva ou condenada por um crime. A pessoa humana possui valor porque é criatura de Deus.
Essa afirmação será particularmente importante quando, no quarto artigo, tratarmos da vida humana, do aborto, da criminalidade e da função do Estado. Também será importante para compreender por que o cristianismo não pode aceitar qualquer sistema que reduza o valor da pessoa à sua função econômica ou à sua posição social.
Na tradição marxista, a crítica da exploração e da alienação possui uma preocupação real com a condição humana, mas essa preocupação está inserida em uma antropologia materialista e histórica. O fundamento último da dignidade humana não é a criação do homem à imagem de Deus, porque a estrutura marxista não começa com Deus como fundamento da realidade. Consequentemente, temos novamente uma diferença de fundamento que não pode ser ignorada.
O cristão e a esperança de transformação
O cristão, portanto, não é chamado à indiferença diante da injustiça. A Bíblia ordena justiça, condena opressão, exige honestidade e manda cuidar daqueles que sofrem. Entretanto, o cristão precisa distinguir entre reformar uma estrutura injusta e acreditar que a transformação da estrutura produzirá a redenção do homem. A primeira pode ser uma responsabilidade legítima; a segunda pertence a uma esperança que o cristianismo não pode depositar na política.
É precisamente por isso que a cosmovisão cristã precisa manter simultaneamente duas verdades. Primeiro, as estruturas sociais podem ser injustas e precisam ser corrigidas. Segundo, nenhuma estrutura social consegue eliminar o pecado humano. O cristão pode trabalhar por uma sociedade mais justa sem transformar a justiça social em um substituto da salvação. Pode defender trabalhadores sem transformar a classe trabalhadora em uma categoria moralmente superior. Pode denunciar a exploração sem transformar todo proprietário em inimigo. Pode defender os pobres sem considerar a pobreza uma condição que automaticamente torna alguém moralmente superior. Pode defender a liberdade sem transformar o indivíduo em sua própria autoridade absoluta.
Essa visão equilibrada é consequência da doutrina cristã do pecado e da graça.
Conclusão
A pergunta “quem é o homem?” não é uma questão abstrata reservada aos filósofos. Ela determina profundamente aquilo que uma sociedade entende por justiça, liberdade, igualdade, responsabilidade e transformação. Se o homem é essencialmente criatura de Deus, feito à sua imagem e corrompido pelo pecado, então sua dignidade é objetiva, sua responsabilidade é moral e sua necessidade mais profunda é a reconciliação com Deus. Se, por outro lado, a condição humana é interpretada primordialmente a partir das relações materiais, econômicas e sociais, então as estruturas históricas assumem papel muito mais decisivo na explicação do problema humano e na busca de sua transformação.
A diferença entre essas duas antropologias não é pequena. A cosmovisão cristã não permite reduzir o homem à sua classe, ao seu trabalho, à sua condição econômica ou às estruturas sociais que o cercam. O homem é criatura de Deus, portador de sua imagem, pecador e destinatário da graça. Por isso, nenhum projeto político pode oferecer aquilo que somente Deus pode realizar.
A tradição marxista trouxe para o centro da discussão questões importantes sobre trabalho, exploração, alienação e desigualdade, mas fez isso dentro de uma estrutura materialista de interpretação da história e da sociedade. O cristianismo, porém, não pode aceitar que as condições materiais sejam a explicação última do homem, nem pode colocar a transformação das estruturas econômicas no lugar da redenção realizada por Cristo.
É justamente aqui que encontramos uma das raízes da incompatibilidade entre as duas cosmovisões. O cristianismo começa com Deus e interpreta o homem à luz de Deus; o materialismo marxista interpreta o homem e a história a partir das condições materiais e das relações sociais. A diferença entre esses pontos de partida inevitavelmente alcançará as concepções de liberdade, igualdade, propriedade, economia, família, justiça e Estado.
E é para essas consequências que precisamos voltar nossa atenção no próximo artigo. Se a Bíblia reconhece o homem como responsável diante de Deus e reconhece também a legitimidade da propriedade, do trabalho e da administração dos bens, enquanto a tradição socialista desenvolve uma crítica profunda à propriedade privada dos meios de produção, precisamos perguntar: o que a Bíblia realmente ensina sobre propriedade, riqueza, pobreza e justiça econômica?
Essa será a questão do próximo texto.
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Gênesis 1–3; Êxodo 20; Isaías 59; Jeremias 17; Marcos 7; Romanos 3; 2Coríntios 5; Efésios 2 e 4; Tiago 2.
KOYZIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. 2. ed. ampliada e atualizada. São Paulo: Vida Nova, 2021.
KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. 1845–1846.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 1848.
Soli Deo gloria











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