Êxodo pentecostal
UMA REFLEXÃO SOBRE TEOLOGIA, FORMAÇÃO CRISTÃ E IDENTIDADE PENTECOSTAL.
Introdução
Nos últimos anos, tornou-se relativamente comum, especialmente nas redes sociais e entre jovens evangélicos, falar sobre um chamado “êxodo pentecostal”, expressão utilizada para descrever a migração de cristãos oriundos de igrejas pentecostais para comunidades identificadas com a tradição reformada, particularmente aquelas influenciadas pelo chamado novo calvinismo. É preciso, entretanto, fazer uma ressalva metodológica antes de qualquer análise: não dispomos, até o momento, de elementos suficientes para tratar essa expressão como uma categoria sociológica consolidada, mensurável e capaz de explicar, por si mesma, os deslocamentos religiosos contemporâneos. A literatura acadêmica sobre o protestantismo brasileiro demonstra, na realidade, um campo religioso extremamente dinâmico, marcado por migrações denominacionais, mudanças de identidade, pluralização interna, novas formas de circulação religiosa e transformações na relação entre religião, cultura e mídia. Ricardo Mariano, em Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, demonstra como o próprio pentecostalismo brasileiro passou por profundas transformações internas, especialmente com o surgimento e a expansão do neopentecostalismo, enquanto Gedeon Freire de Alencar, em Matriz pentecostal brasileira, chama atenção para a complexidade histórica das Assembleias de Deus e das transformações ocorridas dentro do próprio universo pentecostal. Portanto, o termo “êxodo pentecostal” será utilizado neste artigo como uma categoria descritiva do debate contemporâneo, e não como uma afirmação de que exista um movimento uniforme, nacional e estatisticamente comprovado de pentecostais migrando para igrejas reformadas.
Feita essa ressalva, existe uma questão que merece ser discutida com absoluta seriedade: por que determinados cristãos que cresceram em igrejas pentecostais estão encontrando na tradição reformada uma estrutura teológica que lhes parece mais capaz de responder às suas perguntas sobre a fé cristã? Essa pergunta não deve ser recebida com ressentimento, muito menos com uma postura de competição entre tradições. Tampouco devemos partir da premissa de que todo pentecostal que se torna reformado finalmente “descobriu a verdade”, como se toda igreja pentecostal fosse teologicamente superficial e toda igreja reformada fosse necessariamente sólida. Isso seria uma caricatura de ambos os lados. Há igrejas pentecostais profundamente comprometidas com as Escrituras e com excelente formação teológica, assim como existem comunidades reformadas que podem ser espiritualmente frias, academicamente arrogantes ou pastoralmente deficientes. Ainda assim, uma hipótese merece ser considerada: em determinados contextos pentecostais, a fragilidade da formação bíblica e doutrinária pode estar contribuindo para que alguns membros procurem em outras tradições aquilo que não encontraram suficientemente desenvolvido em suas próprias comunidades.
Essa hipótese não representa uma rejeição do pentecostalismo. Pelo contrário, ela parte da convicção de que o pentecostalismo possui recursos bíblicos e teológicos suficientes para desenvolver uma identidade doutrinariamente robusta. A questão não é saber se existe teologia pentecostal; ela existe e possui uma produção considerável. A questão é saber quanto dessa teologia chega efetivamente ao banco da igreja, ao púlpito, à Escola Bíblica, aos pequenos grupos, aos jovens e aos novos convertidos. Essa diferença entre possuir uma tradição teológica e formar efetivamente pessoas dentro dessa tradição talvez seja uma das chaves para compreender parte da atual movimentação de cristãos entre diferentes comunidades evangélicas.
1. O pentecostalismo possui uma tradição teológica
É importante começar desconstruindo uma ideia equivocada: o pentecostalismo não nasceu como um movimento necessariamente contrário ao pensamento teológico. Sua história está ligada ao protestantismo, ao movimento de santidade, ao avivalismo e a diferentes correntes de renovação espiritual que buscavam recuperar uma experiência mais intensa da presença e da atuação do Espírito Santo. A tradição pentecostal clássica desenvolveu afirmações doutrinárias próprias acerca do batismo no Espírito Santo, dos dons espirituais, da cura divina, da missão, da santificação e da expectativa escatológica, mas permaneceu inserida no horizonte mais amplo das doutrinas cristãs fundamentais. Por isso, seria historicamente inadequado definir o pentecostalismo simplesmente como uma religião da experiência em oposição à religião da doutrina. O problema não está necessariamente na experiência; está na possibilidade de uma experiência religiosa ser praticada sem suficiente fundamentação, avaliação e orientação pelas Escrituras.
Uma evidência clara de que existe uma tradição teológica pentecostal é a publicação de Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, organizada por Stanley M. Horton. A obra, publicada em português pela CPAD, reúne diversos autores e trata de temas centrais da teologia cristã — Deus, criação, humanidade, pecado, salvação, igreja, Espírito Santo, dons espirituais e escatologia — a partir de uma perspectiva pentecostal. A própria descrição editorial da obra a apresenta como um compêndio voltado para a exposição das principais doutrinas cristãs à luz da tradição e da experiência pentecostal. Portanto, não é correto dizer que os pentecostais não possuem teologia sistemática ou tradição doutrinária. Possuem. O desafio é outro: transformar essa produção teológica em cultura de formação nas igrejas locais.
Essa distinção é fundamental. Uma denominação pode possuir seminários, teólogos, livros, declarações doutrinárias e instituições de ensino e, ainda assim, apresentar comunidades locais nas quais o conhecimento doutrinário seja reduzido. Um pastor pode possuir uma biblioteca teológica e nunca utilizar seus recursos na formação da congregação. Uma igreja pode ter uma declaração de fé excelente e, ao mesmo tempo, dedicar pouquíssimo tempo ao ensino sistemático dessa declaração. Uma denominação pode possuir uma tradição teológica respeitável, mas seus membros podem conhecê-la apenas superficialmente. O problema, portanto, não é necessariamente a ausência de teologia; é a distância entre a teologia da tradição e a formação efetiva do povo.
2. A tradição reformada e a força da sistematização
É nesse ponto que precisamos reconhecer, sem constrangimento e sem espírito de rivalidade, uma característica histórica da tradição reformada: sua extraordinária capacidade de sistematização teológica. Desde a Reforma Protestante, diferentes autores reformados desenvolveram instrumentos para organizar as doutrinas cristãs de maneira coerente, relacionando Escritura, confissões, catecismos e reflexão teológica. Isso não significa que a tradição reformada esteja correta em todas as suas conclusões. Significa que ela construiu uma cultura intelectual profundamente preocupada com a formulação doutrinária, a interpretação das Escrituras e a coerência interna de suas afirmações.
Uma obra contemporânea que demonstra isso é a Teologia Sistemática, de Wayne Grudem, publicada em português pela Vida Nova. A segunda edição brasileira, publicada em 2022, possui 57 capítulos e 1.744 páginas e apresenta as doutrinas cristãs com forte ênfase na fundamentação escriturística e nas aplicações práticas. A própria editora destaca que a obra procura oferecer explicações claras e uma base bíblica para cada doutrina, além de discutir questões contemporâneas do mundo evangélico. É perfeitamente possível discordar de Grudem em diversos pontos — inclusive em questões importantes para pentecostais e arminianos — e ainda assim reconhecer que o leitor encontrará uma tentativa sistemática de responder às grandes questões da fé cristã.
Esse é um ponto que o pentecostalismo precisa reconhecer com maturidade. Não devemos confundir discordância teológica com ausência de qualidade teológica. Posso discordar da doutrina reformada da eleição, por exemplo, e continuar reconhecendo que autores reformados desenvolveram argumentos bíblicos sofisticados em favor dela. Posso discordar do cessacionismo e ainda reconhecer que seus defensores possuem argumentos que precisam ser respondidos biblicamente. Posso ser arminiano clássico e continuísta e, ao mesmo tempo, recomendar que meus alunos leiam autores reformados para compreenderem as posições das quais discordam. O estudo sério não é uma ameaça à convicção; é uma das maneiras pelas quais a convicção se torna intelectualmente responsável.
É justamente essa cultura de argumentação que muitos jovens cristãos estão encontrando atualmente na literatura reformada. Eles encontram livros que apresentam uma doutrina, demonstram os textos bíblicos utilizados em sua defesa, apresentam argumentos contrários, estabelecem categorias teológicas e procuram construir uma visão integrada da fé. Quando um jovem que passou anos em uma igreja na qual ouviu repetidamente afirmações como “Deus quer”, “Deus falou”, “o Espírito revelou” ou “é assim porque sempre aprendemos assim” encontra uma tradição que lhe apresenta dezenas de páginas explicando por que determinada afirmação deve ser aceita, é natural que isso desperte interesse.
A questão que precisamos fazer não é simplesmente: “Por que esse jovem foi atraído pela teologia reformada?” Precisamos perguntar também: “Por que nós não o ensinamos a pensar teologicamente dentro da própria tradição pentecostal?”
3. Experiência espiritual e formação doutrinária
Uma das grandes contribuições do pentecostalismo ao cristianismo contemporâneo foi insistir na atualidade da ação do Espírito Santo. O pentecostalismo recusou a ideia de que os relatos bíblicos sobre a atuação extraordinária do Espírito deveriam ser tratados simplesmente como acontecimentos encerrados no passado. O movimento afirmou que Deus continua agindo, capacitando, curando, consolando, distribuindo dons e conduzindo sua igreja em missão. Essa ênfase possui grande importância para a vida cristã.
O problema aparece quando a experiência espiritual é separada da reflexão bíblica. O Novo Testamento não apresenta uma oposição entre Espírito e Palavra. Pelo contrário, a comunidade cristã é constantemente chamada a discernir, provar, examinar e avaliar. Em 1Coríntios 14, Paulo não elimina as manifestações espirituais; ele estabelece ordem e critérios para sua utilização. Em 1Tessalonicenses 5.19-22, a igreja não deve apagar o Espírito, mas também não deve aceitar indiscriminadamente tudo aquilo que é apresentado como manifestação espiritual: “não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas; retende o que é bom”. A experiência, portanto, precisa ser discernida.
Stanley Horton e os demais autores da Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal representam justamente uma tentativa de realizar essa articulação entre experiência pentecostal e reflexão doutrinária. A obra trata dos dons, do batismo no Espírito Santo e da atuação do Espírito dentro de uma estrutura de teologia sistemática. Isso é importante porque demonstra que a identidade pentecostal não precisa ser construída contra a teologia. O pentecostalismo pode ser intensamente espiritual e profundamente teológico ao mesmo tempo.
Aliás, talvez seja necessário recuperar uma convicção que deveria ser óbvia: experiência não é o contrário de teologia; experiência cristã precisa de teologia para ser interpretada corretamente. Toda experiência religiosa já contém alguma interpretação. Quando alguém afirma “Deus me revelou”, já está fazendo uma afirmação teológica sobre revelação. Quando alguém afirma “recebi uma palavra profética”, está assumindo uma determinada compreensão sobre profecia. Quando alguém afirma “fui batizado no Espírito Santo”, está utilizando uma categoria teológica. A questão não é saber se haverá teologia, mas se essa teologia será consciente, bíblica e responsável.
4. O problema da formação insuficiente
É aqui que chegamos ao centro da questão. Uma parte do chamado êxodo pentecostal pode estar relacionada à percepção de que determinadas igrejas pentecostais oferecem muita experiência religiosa, mas pouca formação teológica sistemática. Essa afirmação precisa ser feita com cuidado. Não se trata de uma característica universal do pentecostalismo brasileiro, e não seria justo aplicá-la indistintamente às Assembleias de Deus, igrejas pentecostais independentes, comunidades carismáticas ou igrejas neopentecostais. O próprio desenvolvimento histórico do pentecostalismo brasileiro revela enorme diversidade interna.
Gedeon Freire de Alencar, em Matriz pentecostal brasileira, apresenta uma análise histórica e sociológica das Assembleias de Deus entre 1911 e 2011, demonstrando que a tradição assembleiana não pode ser compreendida de maneira simplista. A obra chama atenção para as transformações históricas e institucionais experimentadas pelo movimento ao longo de um século. Ricardo Mariano, por sua vez, em Neopentecostais, analisa especificamente as transformações associadas ao neopentecostalismo brasileiro, mostrando como esse segmento desenvolveu características próprias em sua relação com a sociedade, a mídia, a política e a religião. Portanto, quando falamos em crise de formação, precisamos evitar generalizações que confundam pentecostalismo clássico, neopentecostalismo e outras expressões do campo evangélico.
O problema, porém, permanece relevante: uma igreja que não ensina sua própria fé cria um vácuo que será inevitavelmente preenchido por outras vozes. O membro que deseja compreender eleição, predestinação, dons espirituais, batismo no Espírito Santo, perseverança, santificação, escatologia ou interpretação bíblica encontrará respostas em algum lugar. A questão é saber se essas respostas virão de um pastor comprometido com sua formação, de uma boa literatura cristã, de um seminário responsável ou simplesmente de um influenciador que descobriu teologia ontem e já abriu um canal para explicar o universo.
A expansão da internet modificou profundamente esse cenário. O cristão contemporâneo possui acesso a uma quantidade de material teológico que gerações anteriores jamais imaginaram. Uma pessoa pode assistir a uma exposição reformada de Romanos 9 pela manhã, ouvir um debate sobre continuísmo à tarde e assistir a uma aula sobre arminianismo clássico à noite. Se sua igreja não oferece formação teológica, ela não está competindo apenas com a igreja da esquina. Está competindo, querendo ou não, com uma biblioteca mundial disponível no telefone celular.
Isso não significa que a igreja deva competir com a internet. Significa que ela precisa preparar seus membros para utilizar a internet com discernimento.
5. Quando o entretenimento ocupa o espaço da formação
É necessário ampliar ainda mais a discussão. O problema não pode ser reduzido à política. Em determinados contextos, não foi apenas a discussão política que ocupou espaço excessivo na vida da igreja. Entretenimento, psicologia popular, autoajuda, desenvolvimento pessoal, debates culturais, empreendedorismo, motivacionalismo e outras formas de conteúdo passaram a disputar o espaço que tradicionalmente pertencia ao ensino bíblico e doutrinário.
Isso não significa que todos esses assuntos sejam ilegítimos. A política possui importância para a vida pública; a psicologia pode oferecer contribuições relevantes para a compreensão de determinados aspectos do comportamento humano; questões culturais precisam ser discutidas; família, trabalho, educação, saúde emocional e administração financeira fazem parte da vida real dos membros da igreja. O problema não está na existência desses temas, mas em sua desproporção e deslocamento de centralidade. Quando uma igreja passa a falar constantemente sobre aquilo que as pessoas querem ouvir e pouco sobre aquilo que precisam conhecer para amadurecer na fé, algo está errado.
O problema do entretenimento é particularmente delicado. O culto cristão não precisa ser monótono para ser bíblico, e excelência litúrgica não é pecado. O problema ocorre quando a igreja começa a medir sua eficácia pela capacidade de manter as pessoas estimuladas. A igreja então corre o risco de formar consumidores religiosos, pessoas que avaliam a comunidade pela qualidade do espetáculo, pela música, pela iluminação, pela performance do pregador e pela capacidade de produzir experiências emocionalmente intensas. Nesse cenário, a pergunta deixa de ser “o que a Palavra de Deus está formando em nós?” e passa a ser “o que a igreja está fazendo para me fazer sentir alguma coisa?”.
Esse deslocamento é teologicamente perigoso porque o discipulado cristão envolve também ensino, correção, disciplina, perseverança, maturidade e transformação da mente. Paulo não diz aos romanos simplesmente para terem experiências espirituais; ele os chama a uma transformação mediante a renovação da mente (Rm 12.2). Em Efésios 4.11-14, o propósito dos ministérios concedidos por Cristo inclui conduzir os santos à maturidade, de maneira que não sejam mais “meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina”. A metáfora é bastante expressiva: maturidade cristã envolve estabilidade doutrinária.
6. Psicologia, aconselhamento e a necessidade de uma antropologia bíblica
A relação entre igreja e psicologia exige ainda mais cuidado. Não é necessário assumir uma postura antipsicológica para defender a centralidade da Bíblia. A psicologia, enquanto campo científico, pode contribuir para a compreensão de processos cognitivos, emocionais e comportamentais. O problema começa quando categorias psicológicas passam a substituir categorias teológicas fundamentais.
O ser humano, para a Bíblia, não é simplesmente um conjunto de emoções, traumas, desejos e necessidades. É criatura feita à imagem de Deus, caída em pecado, responsável diante do Criador e necessitada de redenção em Cristo. A antropologia bíblica não elimina a complexidade psicológica do ser humano, mas a coloca dentro de uma narrativa maior: criação, queda, redenção e consumação.
Por isso, uma igreja pode e deve oferecer aconselhamento, mas precisa evitar transformar o púlpito em uma espécie de consultório motivacional. O evangelho não é simplesmente uma técnica para melhorar a autoestima. Cristo não veio apenas para nos ajudar a administrar melhor nossos sentimentos. O evangelho anuncia reconciliação com Deus, perdão dos pecados, nova vida, união com Cristo, santificação e esperança escatológica.
Aqui a teologia sistemática possui novamente uma função pastoral. Millard J. Erickson, em Introdução à Teologia Sistemática, apresenta a teologia como reflexão sobre os conteúdos fundamentais da fé cristã, abordando revelação, Deus, criação, providência, pecado, Cristo, salvação, Espírito Santo, igreja e escatologia. A obra está disponível em português pela Vida Nova. Uma visão assim impede que cada problema humano seja tratado isoladamente, porque os problemas da existência são interpretados dentro de uma visão abrangente da realidade.
7. O pastor precisa ser também mestre
Nesse ponto, chegamos a uma questão que considero fundamental: o pastor precisa ser também mestre. Não digo isso como uma preferência pessoal, mas como uma exigência do próprio Novo Testamento. Entre as qualificações do presbítero está a capacidade de ensinar (1Tm 3.2), e Tito 1.9 apresenta o líder como alguém que deve estar apegado à Palavra fiel para ser capaz de exortar pela sã doutrina e convencer os que contradizem.
Isso significa que o pastor não pode terceirizar completamente a formação teológica de sua congregação. O seminário pode ajudá-lo; bons livros podem ajudá-lo; cursos podem ajudá-lo; outros professores podem ajudá-lo. Mas a igreja local precisa ouvir de seus pastores aquilo que a Escritura ensina.
O pastor precisa ser capaz de responder às perguntas difíceis que sua congregação inevitavelmente fará. O que é eleição? O que significa predestinação? Como funciona a salvação? O que significa ser cheio do Espírito Santo? O que são os dons espirituais? Profecia é revelação? Como distinguir profecia de pregação? Como interpretar Romanos 9? O que significa perseverar na fé? Como compreender a relação entre soberania divina e responsabilidade humana? O que a Bíblia ensina sobre sofrimento? Como devemos interpretar a cultura contemporânea?
Se o pastor não responde, alguém responderá.
Essa afirmação não deve ser entendida como competição, mas como responsabilidade pastoral. O cristão contemporâneo possui perguntas teológicas sofisticadas. O pastor precisa estar preparado para lidar com elas. Não precisa conhecer tudo, mas precisa possuir humildade suficiente para estudar, pesquisar e, quando necessário, dizer: “Não sei; vou estudar e voltamos a conversar.” Essa resposta é infinitamente melhor do que inventar uma explicação espiritual para aquilo que o pastor simplesmente não conhece.
8. A exposição bíblica como caminho de renovação
Uma das respostas mais importantes para essa situação é o retorno à exposição bíblica. Não se trata de transformar todos os sermões em aulas acadêmicas, nem de eliminar a aplicação pastoral. Trata-se de recuperar a convicção de que o conteúdo da pregação deve nascer do texto bíblico e ser explicado em seu contexto.
Augustus Nicodemus Lopes, em A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação, enfatiza a importância de compreender como a igreja interpretou as Escrituras ao longo da história e defende, a partir de sua perspectiva reformada, uma hermenêutica que leve a sério a inspiração das Escrituras, sua historicidade e o sentido do texto. Embora seja necessário reconhecer a perspectiva reformada do autor, a obra pode ser útil precisamente porque mostra que interpretar a Bíblia exige método, pressupostos e responsabilidade.
O pentecostalismo precisa recuperar com força essa cultura de leitura bíblica. Ser pentecostal não deveria significar interpretar qualquer texto bíblico exclusivamente a partir de uma experiência pessoal. O Espírito Santo que inspirou as Escrituras não é inimigo da boa interpretação. Pelo contrário, o mesmo Espírito que capacita a igreja para o serviço também conduz o povo de Deus à verdade.
Por isso, a formação pentecostal precisa ensinar não somente o que a igreja crê, mas também como a igreja chegou a essa conclusão. O membro precisa aprender a ler a Bíblia, interpretar gêneros literários, considerar contexto histórico, observar argumentos, comparar textos e reconhecer diferenças entre interpretação legítima e eisegese.
Uma igreja que ensina seus membros a interpretar a Bíblia produz cristãos menos vulneráveis à manipulação religiosa.
9. O perigo de uma igreja formada por conteúdos periféricos
Quando a formação teológica perde espaço, outros conteúdos naturalmente assumem sua função. A igreja passa a falar sobre política sem uma teologia política suficientemente elaborada; sobre família sem uma antropologia bíblica sólida; sobre sexualidade sem uma teologia do corpo; sobre dinheiro sem uma teologia do trabalho e da providência; sobre ansiedade sem uma compreensão bíblica do sofrimento; sobre sucesso sem uma teologia da vocação; sobre batalha espiritual sem uma pneumatologia e uma demonologia responsáveis; sobre dons sem uma doutrina bíblica da revelação; sobre liderança sem uma eclesiologia adequada.
O resultado é uma espécie de fragmentação da formação cristã. O membro aprende muitas coisas, mas não necessariamente aprende como essas coisas se relacionam dentro de uma cosmovisão cristã.
Esse é um dos grandes benefícios da teologia sistemática: ela procura compreender a relação entre as doutrinas. Wayne Grudem, Millard Erickson e Stanley Horton representam, cada um a partir de perspectivas teológicas diferentes, tentativas de organizar os grandes temas da fé cristã em um todo coerente. Grudem trabalha a partir de uma perspectiva reformada; Erickson apresenta uma abordagem evangélica mais ampla; Horton e seus colaboradores desenvolvem uma perspectiva pentecostal. A existência dessas obras mostra que a discussão não precisa ser “teologia versus experiência”. Existem diferentes tradições teológicas tentando explicar biblicamente a experiência cristã.
O problema, portanto, não é estudar teologia sistemática. O problema é não estudar teologia alguma e, ainda assim, fazer afirmações teológicas o tempo inteiro.
10. O que a tradição pentecostal pode aprender sem perder sua identidade
A resposta ao chamado êxodo pentecostal não deveria ser uma corrida para copiar as igrejas reformadas. O objetivo não é transformar igrejas pentecostais em igrejas reformadas apenas porque a tradição reformada conseguiu desenvolver uma forte cultura de leitura e formação. A resposta deveria ser mais madura: aprender aquilo que pode ser aprendido sem abandonar convicções legítimas da própria tradição.
O pentecostalismo pode aprender com a tradição reformada o valor da exposição bíblica, da leitura sistemática, da história da igreja, da catequese, da formação pastoral, da confessionalidade, da produção intelectual e do rigor hermenêutico. Mas pode fazê-lo permanecendo pentecostal, mantendo suas convicções acerca da atualidade dos dons, da atuação do Espírito Santo, da missão, da oração, da experiência de Deus e da expectativa da intervenção divina na história.
Da mesma forma, a tradição reformada pode aprender com o pentecostalismo a importância de uma espiritualidade que enfatize a expectativa pela atuação presente do Espírito, a oração, a missão, o testemunho e a abertura para a ação extraordinária de Deus. O diálogo entre tradições não precisa ser uma guerra de trincheiras.
É perfeitamente possível dizer: “Eu discordo de você, mas reconheço que você argumentou biblicamente e, por isso, preciso responder biblicamente.” Essa postura é muito mais saudável do que simplesmente rotular o outro como herege ou ignorante.
11. A experiência da igreja local
É justamente por acreditar nisso que tenho procurado desenvolver, na igreja local, uma cultura contínua de formação bíblica e teológica. Tenho entendido que ensinar teologia não é uma atividade secundária da igreja, reservada aos seminários ou a pequenos grupos de interessados. A igreja local precisa ser uma comunidade de formação.
Por isso, temos procurado trabalhar sistematicamente com exposição bíblica, estudos doutrinários e temas teológicos que fazem parte da vida concreta da igreja. O estudo dos dons espirituais é um exemplo disso. Não quero simplesmente afirmar que cremos na atualidade dos dons; precisamos perguntar o que o Novo Testamento realmente ensina sobre eles. Não basta dizer que existe profecia; precisamos discutir biblicamente o que significa profetizar. Não basta falar em revelação; precisamos distinguir revelação normativa da iluminação e discernimento espiritual. Não basta afirmar que Deus cura; precisamos discutir o ensino bíblico sobre oração, sofrimento, fé e providência.
Esse processo é necessariamente contínuo. A igreja nunca chega a um ponto em que possa dizer: “Agora sabemos tudo”. Pelo contrário, quanto mais estudamos as Escrituras, mais percebemos a profundidade de seus temas. O objetivo do ensino teológico não é produzir pessoas arrogantes que tenham resposta para tudo, mas discípulos maduros que saibam pensar biblicamente, discernir espiritualmente e responder com humildade.
12. A política, o entretenimento e os demais temas precisam encontrar seu lugar
É importante, portanto, deixar claro que não defendo uma igreja alienada da sociedade. A igreja precisa pensar sobre política, cultura, entretenimento, psicologia, educação, economia, família, tecnologia e todas as demais dimensões da existência humana. O cristão não vive em uma bolha. A fé cristã possui implicações para a totalidade da vida.
O que precisa ser corrigido é a hierarquia:
- A política não pode ser maior que o evangelho.
- O entretenimento não pode ser maior que o discipulado.
- A psicologia não pode substituir a antropologia bíblica.
- A autoajuda não pode ocupar o lugar da doutrina da graça.
- O empreendedorismo não pode substituir a teologia da vocação.
- As guerras culturais não podem ocupar o lugar da formação cristã.
- A experiência espiritual não pode substituir o discernimento bíblico.
E nenhuma dessas coisas pode ocupar o lugar da própria Palavra de Deus.
A igreja pode conversar sobre tudo isso, mas precisa fazê-lo a partir de uma cosmovisão cristã, e não simplesmente importar as categorias dominantes da cultura e batizá-las com linguagem religiosa.
Conclusão
O chamado “êxodo pentecostal” merece ser tratado com seriedade, mas também com equilíbrio. Não temos base suficiente para afirmar que exista um fenômeno homogêneo, nacional e estatisticamente estabelecido de pentecostais migrando em massa para igrejas reformadas. O campo evangélico brasileiro é muito mais complexo. O pentecostalismo possui múltiplas expressões, histórias e identidades, e as pessoas mudam de igreja por razões diversas.
Entretanto, existe uma questão que não podemos simplesmente ignorar: alguns cristãos oriundos do pentecostalismo encontram na tradição reformada uma estrutura de ensino bíblico e teológico que lhes parece mais capaz de responder às perguntas que possuem. Se isso acontece, não deveríamos responder apenas com críticas à tradição reformada. Precisamos fazer uma pergunta mais difícil e mais honesta: o que nossas igrejas estão ensinando?
Não devemos concluir que a solução seja abandonar o pentecostalismo. Pelo contrário, talvez a resposta esteja em recuperar aquilo que o próprio pentecostalismo possui de melhor: sua paixão pelas Escrituras, sua confiança na ação do Espírito Santo, sua ênfase na oração, sua vocação missionária e sua expectativa da atuação presente de Deus, acrescentando a isso uma cultura mais profunda de formação teológica.
A questão não é escolher entre fogo e conhecimento. A igreja precisa dos dois. Não precisamos escolher entre Espírito e Escritura, porque o Espírito que age na igreja é o Espírito que inspirou a Palavra. Não precisamos escolher entre experiência e doutrina, porque a experiência cristã precisa ser interpretada pela doutrina, e a doutrina precisa produzir uma vida transformada. Não precisamos escolher entre oração e estudo, porque a igreja primitiva perseverava tanto na doutrina dos apóstolos quanto nas orações (At 2.42).
Precisamos, portanto, de uma renovação que não seja simplesmente estética, litúrgica ou estratégica, mas teológica.
- Precisamos de pastores que estudem.
- Precisamos de pregadores que exponham.
- Precisamos de professores que ensinem.
- Precisamos de membros que leiam.
- Precisamos de jovens que façam perguntas.
- Precisamos de igrejas que não tenham medo das perguntas difíceis.
- Precisamos de uma geração que não apenas saiba dizer “eu sinto”, mas também saiba explicar “eu creio porque as Escrituras ensinam”.
Essa talvez seja uma das maiores necessidades da igreja pentecostal contemporânea.
Não devemos olhar para aqueles que saem simplesmente com indignação. Devemos perguntar o que os levou a procurar outro ambiente. Alguns talvez estejam apenas seguindo tendências. Outros podem estar procurando uma identidade intelectual. Alguns podem ter sido atraídos pela estética das novas comunidades reformadas. Outros podem realmente ter descoberto convicções doutrinárias diferentes. Mas há aqueles que talvez tenham encontrado, em outro lugar, algo que deveriam ter encontrado em sua própria igreja: uma fé que pode ser estudada, explicada, defendida e vivida.
A resposta, então, não é fechar as portas e dizer aos nossos membros: “Não leiam os reformados”. Isso seria não apenas imprudente, mas contraproducente. A resposta é ensinar nossos membros a ler tudo à luz das Escrituras.
- Como os bereanos, devemos examinar.
- Como Timóteo, devemos manejar bem a Palavra.
- Como a igreja de Éfeso, devemos buscar maturidade para não sermos levados por todo vento de doutrina.
- Como os cristãos de Corinto, devemos aprender a exercer os dons com ordem e discernimento.
- E como igreja de Cristo, devemos continuar crescendo “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).
Talvez, no final, a melhor resposta ao chamado êxodo pentecostal não seja perguntar apenas “como fazemos para que eles não saiam?”, mas perguntar:
“Como podemos construir igrejas nas quais nossos membros encontrem profundidade suficiente para que não precisem sair em busca dela?”
Essa é uma pergunta que merece permanecer aberta. E, mais do que isso, merece ser respondida com estudo, oração, humildade e compromisso renovado com a Palavra de Deus.
Referências bibliográficas
- ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz pentecostal brasileira: Assembleias de Deus – 1911 a 2011. 2. ed. São Paulo: Recriar, 2019. A obra apresenta uma análise histórica e sociológica da trajetória das Assembleias de Deus no Brasil e de suas transformações ao longo de um século.
- ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997. A obra apresenta uma introdução abrangente aos principais temas da teologia cristã, incluindo revelação, Deus, criação, pecado, Cristo, salvação, Espírito Santo, igreja e escatologia.
- GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Vida Nova, 2022. A edição brasileira possui 1.744 páginas e apresenta uma abordagem sistemática das doutrinas cristãs com ampla fundamentação bíblica.
- HORTON, Stanley M. (ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD. Obra coletiva de teologia sistemática desenvolvida a partir da perspectiva pentecostal, abrangendo temas como Deus, criação, pecado, salvação, Espírito Santo, dons espirituais, igreja e escatologia.
- LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. A obra apresenta uma história da interpretação bíblica a partir de uma perspectiva reformada e discute princípios hermenêuticos relacionados à leitura das Escrituras.
- MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2014. Obra fundamental para o estudo sociológico do neopentecostalismo brasileiro e de suas transformações. A obra foi originalmente publicada pela Loyola e recebeu posteriormente novas edições.
- SHAULL, Richard; CESAR, Waldo. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs: promessas, limitações, desafios. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1999. A obra resulta de pesquisa interdisciplinar sobre o pentecostalismo e seu impacto sobre as igrejas e a sociedade brasileira.
Observação metodológica
Este artigo deliberadamente evita apresentar como “fato estatístico” aquilo que a literatura acadêmica consultada não permite estabelecer com segurança. A expressão “êxodo pentecostal” é utilizada aqui como categoria descritiva do debate contemporâneo. As obras citadas foram escolhidas prioritariamente entre livros disponíveis em português e autores cuja produção pode ser localizada e consultada. As referências a Grudem, Horton, Erickson e Nicodemus não significam concordância integral com suas posições teológicas; são utilizadas como representantes de tradições e metodologias teológicas relevantes para o argumento. Do mesmo modo, Mariano e Alencar são utilizados principalmente como referências para compreender historicamente e sociologicamente o pentecostalismo brasileiro, e não como autoridades para estabelecer conclusões teológicas.
O ponto central deste artigo é, portanto, uma proposta de reflexão pastoral e teológica, não a pretensão de apresentar uma explicação sociológica definitiva para a mobilidade religiosa contemporânea.
Soli Deo gloria












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