Quantos dons espirituais existem?
Depois de compreendermos o que são os dons espirituais, surge naturalmente uma segunda pergunta: quantos dons existem? Em muitos círculos evangélicos é comum encontrar listas prontas contendo nove, doze, dezoito ou vinte e um dons espirituais. Algumas dessas listas são utilizadas em cursos, seminários e até em testes para descobrir o “perfil ministerial” de cada cristão. Embora esses materiais possam ter algum valor didático, precisamos reconhecer que eles não representam exatamente a forma como o Novo Testamento apresenta o assunto. Quando examinamos cuidadosamente as Escrituras, percebemos que os autores bíblicos nunca demonstraram preocupação em elaborar uma lista definitiva ou completa dos dons espirituais. Pelo contrário, as diferentes listas encontradas nas epístolas revelam que o Espírito Santo atua com extraordinária diversidade, distribuindo à Igreja inúmeras capacitações conforme sua soberana vontade. A pergunta, portanto, não deve ser respondida simplesmente com um número, mas com uma compreensão mais profunda da natureza multiforme da graça de Deus.
O Novo Testamento apresenta cinco passagens principais nas quais os dons espirituais são relacionados. Em 1Coríntios 12.8-10 Paulo menciona palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curar, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas. Alguns versículos depois, em 1Coríntios 12.28, ele apresenta outra relação, incluindo apóstolos, profetas, mestres, milagres, curas, socorros, administrações e línguas. Em Romanos 12.6-8 aparecem profecia, serviço, ensino, exortação, contribuição, liderança e misericórdia. Em Efésios 4.11 encontramos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Já Pedro, em 1Pedro 4.10-11, resume toda a diversidade dos dons em apenas duas grandes categorias: aqueles que falam e aqueles que servem. O simples fato de existirem listas diferentes, com conteúdos distintos e tamanhos variados, demonstra que nenhum dos autores pretendia produzir um catálogo completo e definitivo dos dons espirituais.
Essa constatação é extremamente importante. Se Paulo desejasse apresentar uma lista exaustiva dos dons, esperaríamos que todas as suas listas fossem idênticas. No entanto, isso nunca acontece. Alguns dons aparecem em uma carta e desaparecem em outra. O dom de misericórdia aparece apenas em Romanos. O dom de evangelista é mencionado apenas em Efésios. Administração aparece em uma lista, mas não em outra. Socorros é citado em Corinto, porém não em Romanos. Curiosamente, apenas a profecia aparece repetidamente em praticamente todas as relações, sendo ainda abrangida pela expressão “quem fala” utilizada por Pedro. Essa diversidade demonstra que Paulo escrevia respondendo às necessidades específicas de cada igreja, utilizando exemplos conhecidos por seus leitores, e não construindo um sistema fechado de classificação espiritual.
Outro detalhe merece atenção. Mesmo dentro das listas paulinas não existe uma organização rígida. Em 1Coríntios 12.28 há uma aparente ordem inicial — apóstolos, profetas e mestres aparecem em primeiro lugar —, mas logo em seguida surgem dons e ministérios sem qualquer sequência claramente identificável. As línguas aparecem no final da lista, provavelmente porque Paulo estava corrigindo o uso inadequado desse dom na igreja de Corinto. Entretanto, fora isso, não há qualquer indicação de que Paulo pretendesse organizar os dons por importância ou estabelecer uma hierarquia permanente entre eles. Seu objetivo era mostrar que Deus concede uma grande variedade de capacitações, todas necessárias ao funcionamento harmonioso do corpo de Cristo. Assim como o corpo humano depende simultaneamente dos olhos, das mãos, dos pés e do coração, a Igreja depende da atuação conjunta de diversos dons distribuídos pelo Espírito Santo.
Diante dessas diferenças, surge novamente a pergunta: afinal, quantos dons existem? A resposta bíblica é surpreendentemente simples: depende do critério utilizado para classificá-los. O próprio apóstolo Pedro demonstra isso ao resumir todos os dons em apenas duas categorias. Para ele, existem os dons relacionados à fala e os dons relacionados ao serviço. Quem ensina, evangeliza, aconselha, exorta ou profetiza exerce um ministério da Palavra. Quem administra, serve, lidera, demonstra misericórdia ou auxilia outras pessoas exerce um ministério de serviço. Essa divisão extremamente simples evidencia que Pedro estava mais preocupado com a finalidade dos dons do que com sua quantidade. Todo cristão serve à Igreja falando ou servindo, anunciando a Palavra ou colocando suas habilidades a serviço do próximo.
Outros estudiosos propõem classificações diferentes. Alguns observam que os antigos ofícios de profeta, sacerdote e rei encontram correspondência em determinadas funções exercidas na Igreja. Sob essa perspectiva, os dons proféticos envolveriam ensino, exortação, aconselhamento e proclamação da Palavra. Os dons sacerdotais estariam relacionados ao cuidado, à misericórdia, à intercessão e ao serviço aos necessitados. Já os dons reais envolveriam liderança, administração, governo e organização da comunidade cristã. Essa classificação não pretende substituir as listas bíblicas, mas apenas facilitar a compreensão da diversidade ministerial existente no povo de Deus.
Também é comum dividir os dons em categorias funcionais. Alguns autores falam em dons de conhecimento, como palavra de sabedoria, palavra de conhecimento e discernimento de espíritos; dons de poder, como fé, curas e milagres; e dons de palavra, como profecia, línguas e interpretação de línguas. No pentecostalismo clássico essa organização tornou-se bastante conhecida por meio das expressões dons de revelação, dons de poder e dons de inspiração. Essas classificações possuem utilidade pedagógica, pois facilitam o estudo, mas não devem ser confundidas com uma divisão estabelecida explicitamente pelas Escrituras. São ferramentas de ensino, e não doutrinas em si mesmas.
Na verdade, o próprio Novo Testamento sugere que a lista dos dons permanece aberta. Wayne Grudem observa que não encontramos nas epístolas, por exemplo, um dom específico de música, embora seja evidente que Deus utiliza pessoas com extraordinária capacidade para conduzir o louvor da Igreja. Também não aparece um dom específico de intercessão, apesar de alguns cristãos demonstrarem uma notável perseverança e eficácia na oração. O mesmo pode ser dito sobre aconselhamento, hospitalidade, discipulado, missões transculturais e diversas outras áreas fundamentais para a vida da Igreja. Isso significa que Deus continua levantando pessoas com diferentes capacitações para responder às necessidades do seu povo. O importante não é tentar encaixar toda habilidade em uma lista pré-definida, mas reconhecer que toda capacidade potencializada pelo Espírito Santo e utilizada para a edificação da Igreja pode ser compreendida como manifestação da graça divina.
Essa compreensão protege a Igreja de dois perigos igualmente prejudiciais. O primeiro é reduzir os dons espirituais apenas às manifestações extraordinárias, levando muitos cristãos a acreditarem que não possuem nenhum dom porque nunca profetizaram ou falaram em línguas. O segundo perigo é limitar a atuação do Espírito Santo a uma lista fechada, esquecendo que Ele continua distribuindo seus dons soberanamente conforme as necessidades da Igreja. O Espírito Santo não trabalha segundo nossas tabelas ou classificações; Ele continua manifestando a riqueza da graça de Deus de maneiras variadas, levantando homens e mulheres para servir em diferentes áreas do Reino.
Essa é precisamente a conclusão apresentada pelo apóstolo Pedro quando escreve: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). A expressão “multiforme graça” traduz o termo grego poikilos, que significa algo extremamente variado, diversificado, rico em formas e manifestações. Pedro não contempla a graça de Deus como um conjunto limitado de capacidades espirituais, mas como um tesouro inesgotável que se manifesta de inúmeras maneiras na vida da Igreja. Cada dom revela uma faceta diferente da graça divina. Cada ministério demonstra um aspecto distinto da sabedoria de Deus. Cada cristão, ao servir segundo a capacitação recebida, torna-se um administrador dessa maravilhosa diversidade da graça.
Portanto, quando perguntamos quantos dons espirituais existem, a resposta mais fiel ao ensino bíblico não é um número específico. As Escrituras apresentam exemplos, não um catálogo completo. Elas mostram uma diversidade de ministérios, não uma lista definitiva. O foco do Novo Testamento nunca esteve em contar os dons, mas em incentivar cada cristão a colocar sua capacitação a serviço da Igreja. Em vez de perguntar quantos dons existem, talvez devêssemos perguntar se estamos utilizando fielmente os dons que o Espírito Santo já confiou às nossas mãos. Afinal, o propósito dos dons nunca foi satisfazer nossa curiosidade teológica, mas glorificar a Cristo mediante a edificação de seu povo.
Soli Deo gloria












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