Paternidade Bíblica: mais do que deixar bens, deixar um legado
O Dia dos Pais é uma dessas datas que nos fazem parar por alguns instantes e olhar para trás. Para alguns, é um dia de celebração; para outros, de saudade; para muitos, é uma oportunidade de agradecer a Deus pelo pai que tiveram e, para outros, talvez seja também um momento de reflexão sobre o pai que desejariam ter tido. No meu caso, o Dia dos Pais sempre carrega um significado muito especial porque meu pai já morreu. Tive o privilégio de ter um bom pai, um homem que marcou minha vida e que, à sua maneira, deixou em mim muito mais do que coisas que poderiam ser contadas ou medidas. Quando penso naquilo que recebi dele, percebo que o maior legado que um pai pode deixar aos seus filhos não é necessariamente financeiro, profissional ou material. O maior legado é o exemplo. Os bens podem ser consumidos, o dinheiro pode acabar, uma casa pode ser vendida e até mesmo um nome pode desaparecer com o tempo, mas aquilo que um filho aprende ao observar o caráter do pai pode acompanhá-lo por toda a vida. É por isso que, neste Dia dos Pais, mais do que simplesmente homenagear os pais, precisamos pensar biblicamente sobre o que significa ser pai.
A Bíblia não apresenta a paternidade simplesmente como uma função biológica. Ser pai, na perspectiva das Escrituras, envolve responsabilidade, presença, formação, correção, ensino, proteção e, sobretudo, uma vida que aponta para Deus. Desde o Antigo Testamento, os pais recebem a responsabilidade de transmitir às novas gerações não apenas informações religiosas, mas uma visão de mundo moldada pela revelação de Deus. Moisés ordena aos israelitas: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos” (Dt 6.6-7). O texto é profundamente significativo porque começa com o pai ou a mãe sendo alcançado pela Palavra — “estarão no teu coração” — para depois falar da transmissão dessa verdade aos filhos. A educação espiritual dos filhos não deveria ser apenas uma atividade realizada pelos pais; deveria nascer de uma vida transformada pela Palavra. Antes de ensinar a criança a amar a Deus, o pai precisa demonstrar, com sua própria vida, que Deus é digno de ser amado.
Essa verdade aparece também no Salmo 78. O salmista olha para a história de Israel e afirma que aquilo que Deus havia feito deveria ser contado às gerações seguintes, “para que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer, e se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes” (Sl 78.6). A finalidade era que essas novas gerações colocassem “em Deus a sua confiança” e não esquecessem as obras do Senhor (Sl 78.7). Há aqui uma dimensão geracional da fé. A responsabilidade dos pais não consiste simplesmente em garantir que seus filhos tenham uma boa formação acadêmica, uma profissão estável ou condições materiais melhores do que aquelas que eles mesmos tiveram. Tudo isso possui seu lugar e não deve ser desprezado, mas a pergunta fundamental da paternidade bíblica é outra: o que estou fazendo para que meus filhos conheçam a Deus, amem a sua Palavra e aprendam a viver diante dele?
Isso nos leva a uma questão que considero fundamental: filhos aprendem mais observando do que simplesmente escutando. Não significa que o ensino verbal seja desnecessário. Pelo contrário, Deuteronômio 6 ordena explicitamente que os pais ensinem seus filhos. O problema aparece quando existe uma distância entre aquilo que o pai fala e aquilo que ele vive. Um pai pode falar sobre honestidade e, ao mesmo tempo, ensinar o filho a mentir quando recebe uma ligação que não deseja atender. Pode falar sobre oração, mas jamais ser visto orando. Pode ensinar sobre a importância da igreja, mas demonstrar com suas prioridades que o culto é sempre negociável. Pode falar sobre domínio próprio e perder o controle diante de qualquer contrariedade. Pode exigir respeito dos filhos e tratar a própria esposa com grosseria. Crianças são excelentes observadoras — e, infelizmente para nós, possuem uma capacidade extraordinária de perceber a hipocrisia.
Por isso, a paternidade bíblica começa no próprio caráter do pai. Paulo escreve aos coríntios: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Embora o texto não seja especificamente sobre paternidade, ele apresenta um princípio de discipulado que se aplica profundamente à vida familiar: o ensino cristão acontece também por imitação. Paulo não dizia apenas “façam o que ensino”; ele podia dizer “sejam meus imitadores”. A autoridade de sua instrução estava acompanhada pela coerência de sua vida. É exatamente isso que os filhos precisam encontrar em seus pais. Eles precisam de homens que possam dizer, não porque sejam perfeitos, mas porque estão buscando sinceramente viver diante de Deus: “Filho, olhe para mim e aprenda a seguir a Cristo”.
R. Kent Hughes trabalha essa dimensão da formação do caráter masculino em Disciplines of a Godly Man, obra que dedica uma seção específica à paternidade. Hughes entende a vida cristã masculina em termos de disciplinas espirituais e práticas que precisam ser cultivadas, incluindo integridade, casamento, liderança, devoção, oração e paternidade. A edição atualizada da obra apresenta dezessete áreas de disciplina, entre elas justamente a paternidade, mostrando que ser um homem piedoso não é uma abstração espiritual, mas algo que precisa aparecer nos relacionamentos concretos. Isso é especialmente importante porque existe uma tendência de separar espiritualidade e vida doméstica, como se um homem pudesse ser espiritualmente admirável na igreja e, ao mesmo tempo, negligente dentro de casa. Biblicamente, essa separação não se sustenta.
Paulo é ainda mais direto quando escreve aos pais em Efésios 6.4: “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor”. A expressão “pais” é particularmente importante porque Paulo dirige uma responsabilidade específica ao pai, embora isso não exclua a participação fundamental da mãe. O pai é chamado a participar ativamente da formação dos filhos. Ele deve corrigir, mas não provocar; deve disciplinar, mas não destruir; deve exercer autoridade, mas não transformar autoridade em autoritarismo. A disciplina bíblica não tem como objetivo simplesmente produzir crianças obedientes aos pais; seu propósito maior é formar pessoas que aprendam a viver debaixo da autoridade de Deus. A autoridade paterna, portanto, não é absoluta nem autônoma. O pai também está debaixo da autoridade do Senhor.
Essa é uma das razões pelas quais a paternidade cristã não pode ser reduzida à ideia de “ser o homem que manda na casa”. Autoridade bíblica não é licença para controlar pessoas. O modelo cristão de autoridade é profundamente moldado pelo próprio Cristo, que, embora sendo Senhor, ensinou seus discípulos por meio do serviço e do sacrifício. Em Efésios 5, Paulo apresenta o marido como alguém chamado a amar sua esposa “como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25). A autoridade do homem dentro do lar não pode ser separada da cruz. Se um homem deseja falar sobre autoridade sem falar sobre sacrifício, ele está falando de algo diferente da autoridade cristã. O pai bíblico não pergunta apenas: “Como posso ser obedecido?”, mas: “Como posso servir minha família de maneira que Cristo seja visto em minha vida?”
Voddie Baucham, em Pastores da família: chamando e preparando homens para liderar seus lares, desenvolve precisamente essa ideia ao tratar da responsabilidade espiritual dos homens dentro de suas famílias. A obra chama os homens a compreenderem sua responsabilidade de conduzir o lar não apenas no sentido administrativo ou financeiro, mas também no cuidado espiritual de suas famílias. Uma avaliação da obra publicada pelo Wisconsin Lutheran Seminary resume essa proposta destacando que o livro procura equipar pais e maridos para perceberem que sua responsabilidade envolve alimentar suas famílias com o evangelho, e não simplesmente prover materialmente para elas. A ideia merece nossa atenção: prover financeiramente é importante, mas não é suficiente. Um homem pode pagar todas as contas da casa e ainda assim estar ausente da vida espiritual dos seus filhos.
Donald S. Whitney aborda uma dimensão complementar em Adoração no Lar. Seu argumento é simples, mas profundamente bíblico: a espiritualidade da família não pode ser terceirizada integralmente para a igreja. Whitney apresenta a leitura das Escrituras, a oração e o cântico como elementos centrais do culto doméstico e mostra que os pais podem conduzir suas famílias nessas práticas de maneira simples e possível. A própria descrição da obra destaca que seu objetivo é oferecer orientação prática para que os pais conduzam suas famílias na adoração por meio da leitura bíblica, oração e cânticos. Isso não significa transformar cada casa em um seminário teológico ou criar uma liturgia doméstica complicada. Significa recuperar uma verdade esquecida: a casa também é lugar de discipulado.
É aqui que precisamos falar de presença. Um dos grandes desafios da paternidade contemporânea não é simplesmente a falta de amor dos pais, mas a falta de tempo e presença. Vivemos em uma época em que é possível estar fisicamente dentro de casa e, ao mesmo tempo, emocionalmente ausente. O pai pode estar sentado à mesa enquanto olha para o celular; pode estar no mesmo ambiente enquanto trabalha; pode levar os filhos para passear sem realmente conversar com eles. A tecnologia nos deu a capacidade de estar conectados com pessoas que estão a milhares de quilômetros enquanto, paradoxalmente, permanecemos desconectados daqueles que estão ao nosso lado. A presença paterna não significa apenas ocupar o mesmo espaço físico. Significa prestar atenção, ouvir, conversar, corrigir, brincar, aconselhar, orar, acompanhar e participar.
Nesse sentido, a paternidade bíblica também é uma paternidade que conversa. Deuteronômio 6 apresenta uma imagem muito bonita: falar das coisas de Deus “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Dt 6.7). A fé não deveria aparecer somente em momentos formais. Ela deveria entrar nas conversas comuns da vida. Um filho precisa aprender que Deus não é assunto apenas do culto de domingo. Deus está presente quando tomamos decisões, quando enfrentamos dificuldades, quando lidamos com dinheiro, quando tratamos as pessoas, quando pedimos perdão, quando enfrentamos uma frustração e quando comemoramos uma conquista. O pai cristão transforma os acontecimentos cotidianos em oportunidades de discipulado.
Paul David Tripp, em DESAFIO AOS PAIS – Os 14 princípios do evangelho, insiste que a tarefa de criar filhos precisa ser compreendida a partir do evangelho, e não simplesmente a partir de técnicas de comportamento. Seu argumento é que os pais precisam enxergar sua própria necessidade da graça de Deus enquanto educam seus filhos. A obra procura oferecer princípios fundamentados no evangelho em vez de simplesmente apresentar uma lista de técnicas para produzir filhos bem-comportados. Essa perspectiva é essencialmente cristã porque nos lembra de uma verdade que às vezes esquecemos: pais também são pecadores que precisam da graça enquanto criam filhos pecadores que também precisam da graça.
Isso nos protege de dois extremos. O primeiro é o autoritarismo, que acredita que bons filhos são produzidos pela força, pela ameaça e pelo controle absoluto. O segundo é a permissividade, que imagina que amar significa nunca corrigir, nunca estabelecer limites e nunca dizer não. A Bíblia rejeita os dois extremos. Provérbios 22.15 afirma que “a estultícia está ligada ao coração da criança”, enquanto Hebreus 12 apresenta a disciplina como uma expressão do amor de Deus por seus filhos. O pai cristão, portanto, precisa aprender a corrigir sem humilhar, estabelecer limites sem destruir, disciplinar sem abusar e dizer “não” sem transformar a casa em um ambiente de medo. A disciplina bíblica é uma expressão de amor orientado pela verdade.
Também precisamos reconhecer que nenhum pai fará isso perfeitamente. Talvez essa seja uma das partes mais importantes desta reflexão. Quando olho para meu próprio pai, não penso em um homem perfeito. Penso em um homem real, com limitações, defeitos, acertos e erros, mas que deixou uma marca positiva em minha vida. E isso me faz pensar que o legado de um pai não depende de perfeição. Depende de caráter, presença e direção. Um pai não precisa ser impecável para ser um bom pai, mas precisa ser humilde o suficiente para reconhecer seus erros, pedir perdão quando necessário e continuar buscando viver de maneira digna diante de Deus.
Há uma grande diferença entre um pai que nunca erra e um pai que sabe pedir perdão. O primeiro não existe. O segundo pode ser encontrado. Quando um pai diz ao filho: “Eu errei com você. Perdoe-me”, ele está ensinando uma das maiores lições do evangelho. Ele está mostrando que autoridade não elimina humildade e que liderança não impede arrependimento. Um pai que pede perdão não perde autoridade; pelo contrário, demonstra que sua autoridade está submetida a uma autoridade maior. O filho aprende que homens verdadeiramente fortes não são aqueles que jamais admitem seus erros, mas aqueles que têm coragem de reconhecê-los e corrigi-los.
É por isso que o maior legado de um pai não é aquilo que ele deixa para os filhos, mas aquilo que ele deixa nos filhos. Um patrimônio pode ser herdado; caráter precisa ser transmitido. Uma casa pode ser recebida; uma memória precisa ser construída. Dinheiro pode proporcionar conforto; exemplo pode formar uma vida. Podemos trabalhar durante toda a nossa existência para deixar alguma coisa para nossos filhos e, ainda assim, descobrir tarde demais que eles precisavam muito mais da nossa presença do que das nossas posses.
O próprio apóstolo Paulo apresenta uma imagem muito bonita dessa transmissão de vida quando escreve a Timóteo sobre a “fé sem fingimento” que primeiro habitou em sua avó Lóide e em sua mãe Eunice e que, segundo ele, também habitava em Timóteo (2Tm 1.5). O texto não descreve um processo mecânico, como se a fé pudesse ser geneticamente transmitida. Antes, apresenta uma fé que foi testemunhada, ensinada e vivida dentro de uma família. A fé de Timóteo tinha uma história. Havia pessoas que haviam vivido diante dele uma fé genuína. Esse é um dos maiores privilégios da paternidade cristã: viver de tal maneira que nossos filhos possam olhar para nossa vida e perceber que o evangelho que ensinamos é o evangelho em que realmente cremos.
Por isso, neste Dia dos Pais, minha homenagem ao meu pai não se limita à saudade que sinto. Ela também passa pela gratidão. Meu pai morreu, mas aquilo que ele deixou em mim continua vivo. E talvez seja justamente isso que um legado significa. Pessoas podem partir, mas aquilo que ensinaram por meio de sua vida continua falando. Hebreus 11.4 afirma que, embora Abel esteja morto, “ainda fala”. A vida de um homem pode continuar falando depois que sua voz se cala. A pergunta é: o que nossa vida estará dizendo quando não estivermos mais aqui?
Pais cristãos precisam pensar nisso. Nossos filhos talvez esqueçam muitas das palavras que dissemos, mas dificilmente esquecerão completamente aquilo que viram em nós. Eles se lembrarão de como tratávamos sua mãe, de como reagíamos diante dos problemas, de como lidávamos com dinheiro, de como tratávamos pessoas mais simples, de como reagíamos quando éramos contrariados, de como enfrentávamos a doença, a perda e a frustração. Eles observarão nossa relação com a igreja, com a Bíblia, com a oração e com Deus. Eles aprenderão, principalmente, aquilo que nossa vida ensinou.
A paternidade bíblica, portanto, não é simplesmente gerar filhos. É assumir diante de Deus a responsabilidade de participar da formação desses filhos. É ensinar e viver. É corrigir e amar. É prover e estar presente. É proteger sem controlar. É exercer autoridade sem autoritarismo. É discipular sem transformar a casa em uma sala de aula permanente. É apontar para Cristo sabendo que o próprio pai precisa diariamente da graça de Cristo.
No final das contas, talvez nossos filhos não se lembrem de quanto dinheiro ganhamos, de qual carro dirigíamos ou de quantos bens acumulamos. Talvez não saibam nem mesmo todos os sacrifícios financeiros que fizemos por eles. Mas poderão lembrar-se de que o pai estava lá. Poderão lembrar-se de que o pai os abraçava. Poderão lembrar-se de que o pai orava. Poderão lembrar-se de que o pai abria a Bíblia. Poderão lembrar-se de que o pai tratava sua mãe com amor. Poderão lembrar-se de que, quando errava, ele pedia perdão. Poderão lembrar-se de que, quando a vida ficava difícil, aquele homem continuava confiando em Deus.
Esse é o legado que vale a pena deixar.
Mais do que coisas, deixemos exemplo. Mais do que patrimônio, deixemos caráter. Mais do que palavras, deixemos uma vida que aponte para Cristo.
Que Deus nos conceda pais que compreendam que a paternidade é uma vocação, que os filhos são uma dádiva do Senhor (Sl 127.3) e que a casa é um dos primeiros campos onde o evangelho deve ser vivido, ensinado e testemunhado.
E que, quando nossos filhos um dia olharem para trás, possam dizer não que tiveram um pai perfeito, mas que tiveram um pai que procurou andar com Deus.
Esse, afinal, é um legado que a morte não consegue levar.
Soli Deo gloria





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