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Quantos dons espirituais existem?

Depois de compreendermos o que são os dons espirituais, surge naturalmente uma segunda pergunta: quantos dons existem? Em muitos círculos evangélicos é comum encontrar listas prontas contendo nove, doze, dezoito ou vinte e um dons espirituais. Algumas dessas listas são utilizadas em cursos, seminários e até em testes para descobrir o “perfil ministerial” de cada cristão. Embora esses materiais possam ter algum valor didático, precisamos reconhecer que eles não representam exatamente a forma como o Novo Testamento apresenta o assunto. Quando examinamos cuidadosamente as Escrituras, percebemos que os autores bíblicos nunca demonstraram preocupação em elaborar uma lista definitiva ou completa dos dons espirituais. Pelo contrário, as diferentes listas encontradas nas epístolas revelam que o Espírito Santo atua com extraordinária diversidade, distribuindo à Igreja inúmeras capacitações conforme sua soberana vontade. A pergunta, portanto, não deve ser respondida simplesmente com um número, mas com uma compreensão mais profunda da natureza multiforme da graça de Deus.

O Novo Testamento apresenta cinco passagens principais nas quais os dons espirituais são relacionados. Em 1Coríntios 12.8-10 Paulo menciona palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curar, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas. Alguns versículos depois, em 1Coríntios 12.28, ele apresenta outra relação, incluindo apóstolos, profetas, mestres, milagres, curas, socorros, administrações e línguas. Em Romanos 12.6-8 aparecem profecia, serviço, ensino, exortação, contribuição, liderança e misericórdia. Em Efésios 4.11 encontramos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Já Pedro, em 1Pedro 4.10-11, resume toda a diversidade dos dons em apenas duas grandes categorias: aqueles que falam e aqueles que servem. O simples fato de existirem listas diferentes, com conteúdos distintos e tamanhos variados, demonstra que nenhum dos autores pretendia produzir um catálogo completo e definitivo dos dons espirituais.

Essa constatação é extremamente importante. Se Paulo desejasse apresentar uma lista exaustiva dos dons, esperaríamos que todas as suas listas fossem idênticas. No entanto, isso nunca acontece. Alguns dons aparecem em uma carta e desaparecem em outra. O dom de misericórdia aparece apenas em Romanos. O dom de evangelista é mencionado apenas em Efésios. Administração aparece em uma lista, mas não em outra. Socorros é citado em Corinto, porém não em Romanos. Curiosamente, apenas a profecia aparece repetidamente em praticamente todas as relações, sendo ainda abrangida pela expressão “quem fala” utilizada por Pedro. Essa diversidade demonstra que Paulo escrevia respondendo às necessidades específicas de cada igreja, utilizando exemplos conhecidos por seus leitores, e não construindo um sistema fechado de classificação espiritual.

Outro detalhe merece atenção. Mesmo dentro das listas paulinas não existe uma organização rígida. Em 1Coríntios 12.28 há uma aparente ordem inicial — apóstolos, profetas e mestres aparecem em primeiro lugar —, mas logo em seguida surgem dons e ministérios sem qualquer sequência claramente identificável. As línguas aparecem no final da lista, provavelmente porque Paulo estava corrigindo o uso inadequado desse dom na igreja de Corinto. Entretanto, fora isso, não há qualquer indicação de que Paulo pretendesse organizar os dons por importância ou estabelecer uma hierarquia permanente entre eles. Seu objetivo era mostrar que Deus concede uma grande variedade de capacitações, todas necessárias ao funcionamento harmonioso do corpo de Cristo. Assim como o corpo humano depende simultaneamente dos olhos, das mãos, dos pés e do coração, a Igreja depende da atuação conjunta de diversos dons distribuídos pelo Espírito Santo.

Diante dessas diferenças, surge novamente a pergunta: afinal, quantos dons existem? A resposta bíblica é surpreendentemente simples: depende do critério utilizado para classificá-los. O próprio apóstolo Pedro demonstra isso ao resumir todos os dons em apenas duas categorias. Para ele, existem os dons relacionados à fala e os dons relacionados ao serviço. Quem ensina, evangeliza, aconselha, exorta ou profetiza exerce um ministério da Palavra. Quem administra, serve, lidera, demonstra misericórdia ou auxilia outras pessoas exerce um ministério de serviço. Essa divisão extremamente simples evidencia que Pedro estava mais preocupado com a finalidade dos dons do que com sua quantidade. Todo cristão serve à Igreja falando ou servindo, anunciando a Palavra ou colocando suas habilidades a serviço do próximo.

Outros estudiosos propõem classificações diferentes. Alguns observam que os antigos ofícios de profeta, sacerdote e rei encontram correspondência em determinadas funções exercidas na Igreja. Sob essa perspectiva, os dons proféticos envolveriam ensino, exortação, aconselhamento e proclamação da Palavra. Os dons sacerdotais estariam relacionados ao cuidado, à misericórdia, à intercessão e ao serviço aos necessitados. Já os dons reais envolveriam liderança, administração, governo e organização da comunidade cristã. Essa classificação não pretende substituir as listas bíblicas, mas apenas facilitar a compreensão da diversidade ministerial existente no povo de Deus.

Também é comum dividir os dons em categorias funcionais. Alguns autores falam em dons de conhecimento, como palavra de sabedoria, palavra de conhecimento e discernimento de espíritos; dons de poder, como fé, curas e milagres; e dons de palavra, como profecia, línguas e interpretação de línguas. No pentecostalismo clássico essa organização tornou-se bastante conhecida por meio das expressões dons de revelação, dons de poder e dons de inspiração. Essas classificações possuem utilidade pedagógica, pois facilitam o estudo, mas não devem ser confundidas com uma divisão estabelecida explicitamente pelas Escrituras. São ferramentas de ensino, e não doutrinas em si mesmas.

Na verdade, o próprio Novo Testamento sugere que a lista dos dons permanece aberta. Wayne Grudem observa que não encontramos nas epístolas, por exemplo, um dom específico de música, embora seja evidente que Deus utiliza pessoas com extraordinária capacidade para conduzir o louvor da Igreja. Também não aparece um dom específico de intercessão, apesar de alguns cristãos demonstrarem uma notável perseverança e eficácia na oração. O mesmo pode ser dito sobre aconselhamento, hospitalidade, discipulado, missões transculturais e diversas outras áreas fundamentais para a vida da Igreja. Isso significa que Deus continua levantando pessoas com diferentes capacitações para responder às necessidades do seu povo. O importante não é tentar encaixar toda habilidade em uma lista pré-definida, mas reconhecer que toda capacidade potencializada pelo Espírito Santo e utilizada para a edificação da Igreja pode ser compreendida como manifestação da graça divina.

Essa compreensão protege a Igreja de dois perigos igualmente prejudiciais. O primeiro é reduzir os dons espirituais apenas às manifestações extraordinárias, levando muitos cristãos a acreditarem que não possuem nenhum dom porque nunca profetizaram ou falaram em línguas. O segundo perigo é limitar a atuação do Espírito Santo a uma lista fechada, esquecendo que Ele continua distribuindo seus dons soberanamente conforme as necessidades da Igreja. O Espírito Santo não trabalha segundo nossas tabelas ou classificações; Ele continua manifestando a riqueza da graça de Deus de maneiras variadas, levantando homens e mulheres para servir em diferentes áreas do Reino.

Essa é precisamente a conclusão apresentada pelo apóstolo Pedro quando escreve: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). A expressão “multiforme graça” traduz o termo grego poikilos, que significa algo extremamente variado, diversificado, rico em formas e manifestações. Pedro não contempla a graça de Deus como um conjunto limitado de capacidades espirituais, mas como um tesouro inesgotável que se manifesta de inúmeras maneiras na vida da Igreja. Cada dom revela uma faceta diferente da graça divina. Cada ministério demonstra um aspecto distinto da sabedoria de Deus. Cada cristão, ao servir segundo a capacitação recebida, torna-se um administrador dessa maravilhosa diversidade da graça.

Portanto, quando perguntamos quantos dons espirituais existem, a resposta mais fiel ao ensino bíblico não é um número específico. As Escrituras apresentam exemplos, não um catálogo completo. Elas mostram uma diversidade de ministérios, não uma lista definitiva. O foco do Novo Testamento nunca esteve em contar os dons, mas em incentivar cada cristão a colocar sua capacitação a serviço da Igreja. Em vez de perguntar quantos dons existem, talvez devêssemos perguntar se estamos utilizando fielmente os dons que o Espírito Santo já confiou às nossas mãos. Afinal, o propósito dos dons nunca foi satisfazer nossa curiosidade teológica, mas glorificar a Cristo mediante a edificação de seu povo.

Soli Deo gloria

O que são dons espirituais?

Ao longo da história da Igreja, poucos assuntos despertaram tantos debates quanto os dons espirituais. Em determinados períodos, alguns cristãos enfatizaram tanto as manifestações extraordinárias do Espírito Santo que acabaram negligenciando o ensino bíblico sobre sua finalidade. Em outros momentos, como reação a esses excessos, muitos passaram a tratar os dons espirituais com desconfiança, chegando até mesmo a afirmar que algumas dessas manifestações haviam desaparecido definitivamente com o encerramento da era apostólica. Entretanto, quando nos voltamos cuidadosamente para as Escrituras, percebemos que a preocupação dos autores bíblicos não era alimentar polêmicas, mas ensinar a Igreja a compreender corretamente a atuação do Espírito Santo. O Novo Testamento apresenta os dons espirituais como uma realidade normal da vida da Igreja, concedida por Deus para fortalecer o povo de Cristo e capacitá-lo para cumprir sua missão no mundo. Antes de discutirmos quantos dons existem, como eles funcionam ou se determinados dons permanecem em nossos dias, precisamos responder à pergunta mais fundamental: afinal, o que são dons espirituais?

Uma das definições mais completas e equilibradas da teologia contemporânea é apresentada por Wayne Grudem, que afirma: “Dom espiritual é qualquer talento potencializado pelo Espírito Santo e usado no ministério da igreja.” Essa definição merece atenção porque amplia corretamente nossa compreensão do assunto. Frequentemente, quando alguém ouve a expressão “dom espiritual”, pensa imediatamente em manifestações como profecia, línguas, cura ou milagres. Embora essas manifestações realmente façam parte da doutrina bíblica dos dons, elas não representam toda a realidade apresentada pelo Novo Testamento. O Espírito Santo também capacita cristãos para ensinar, administrar, servir, exercer misericórdia, liderar, evangelizar, aconselhar, encorajar e desempenhar inúmeras outras funções indispensáveis à saúde da Igreja. Assim, um dom espiritual não é definido pelo grau de espetacularidade de sua manifestação, mas por sua origem — o Espírito Santo — e por seu propósito — a edificação do Corpo de Cristo.

As listas de dons apresentadas por Paulo deixam isso muito claro. Em Romanos 12, por exemplo, aparecem dons como serviço, ensino, contribuição, liderança e misericórdia. Em 1Coríntios 12 encontram-se manifestações como palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, curas, milagres, discernimento de espíritos, variedade de línguas e interpretação. Já em Efésios 4 encontramos ministérios como apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Essas listas revelam que o Espírito Santo não trabalha apenas através de manifestações extraordinárias, mas também por meio de capacidades que sustentam diariamente a vida da comunidade cristã. A Igreja não cresce apenas pelos milagres que testemunha, mas também pelo ensino fiel da Palavra, pela liderança sábia, pela administração responsável, pelo cuidado com os necessitados e pelo serviço humilde realizado por homens e mulheres que, muitas vezes, jamais ocuparão um púlpito.

Essa compreensão impede que estabeleçamos uma divisão artificial entre dons “naturais” e dons “sobrenaturais”. Toda capacidade humana, por si só, pertence à graça comum de Deus. Entretanto, quando o Espírito Santo toma essas habilidades, as consagra ao serviço do Reino e as utiliza para edificar sua Igreja, elas passam a exercer uma função espiritual. Da mesma forma, existem manifestações que não podem ser explicadas apenas por talentos humanos, como a cura, a profecia e o discernimento de espíritos. Contudo, tanto umas quanto outras possuem a mesma origem divina. Paulo afirma categoricamente que “há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Co 12.4). A unidade da fonte impede qualquer sentimento de superioridade entre aqueles que exercem diferentes ministérios.

A razão pela qual Deus concede dons espirituais também é claramente estabelecida nas Escrituras. Paulo afirma que “a manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1Co 12.7). Poucos versículos depois acrescenta que é o próprio Espírito quem distribui os dons “a cada um individualmente, conforme quer” (1Co 12.11). Mais adiante, ao regulamentar o culto público da igreja de Corinto, estabelece um princípio que deveria governar todas as manifestações espirituais: “Faça-se tudo para edificação” (1Co 14.26). Essas três declarações resumem a teologia bíblica dos dons. Eles possuem origem divina, são distribuídos soberanamente pelo Espírito e existem exclusivamente para promover o crescimento espiritual da Igreja. Quando qualquer manifestação espiritual deixa de produzir edificação, ordem, santidade e amor, ela já se afastou do propósito estabelecido pelo próprio Deus.

Para compreender plenamente essa realidade, é necessário observar o desenvolvimento da obra do Espírito Santo ao longo da história da redenção. O Espírito Santo sempre esteve ativo desde a criação, conduzindo homens e mulheres à fé e capacitando pessoas para tarefas específicas. No Antigo Testamento encontramos Moisés conduzindo Israel, Josué liderando as batalhas, Davi governando a nação e os profetas proclamando a Palavra do Senhor sob a ação poderosa do Espírito. Entretanto, essa atuação possuía um caráter mais seletivo e temporário. O próprio Antigo Testamento anunciava que chegaria um tempo em que essa realidade seria ampliada para todo o povo da aliança. Quando Moisés declarou: “Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta” (Nm 11.29), ele expressava um anseio que seria desenvolvido posteriormente pelos profetas. Joel anunciou que chegariam dias em que Deus derramaria o seu Espírito sobre toda carne, alcançando filhos, filhas, jovens, velhos, servos e servas. A promessa não dizia respeito apenas ao aumento de experiências espirituais, mas ao início de uma nova etapa na relação entre Deus e seu povo.

Essa promessa começou a cumprir-se plenamente na pessoa de Jesus Cristo. Todo o ministério do Senhor foi realizado no poder do Espírito Santo. Lucas afirma que Jesus voltou para a Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4.14). Seu ensino possuía autoridade singular, suas curas revelavam a chegada do Reino de Deus, e sua autoridade sobre os demônios demonstrava que o reino das trevas estava sendo derrotado. O próprio Cristo declarou: “Se é pelo Espírito de Deus que expulso demônios, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28). Dessa forma, Jesus não apenas anunciou o Reino; Ele manifestou concretamente esse Reino através da atuação do Espírito Santo. Sua missão inaugurava a nova era prometida pelos profetas, na qual Deus restauraria seu povo mediante a ação poderosa do Espírito.

Entretanto, essa capacitação não permaneceria restrita ao ministério terreno de Cristo. Antes de sua ascensão, Jesus prometeu aos discípulos que receberiam poder ao descer sobre eles o Espírito Santo (At 1.8). Essa promessa cumpriu-se de forma gloriosa no dia de Pentecostes. Pedro, ao explicar o acontecimento, afirmou categoricamente: “Isto é o que foi dito por intermédio do profeta Joel” (At 2.16). A partir daquele momento, a Igreja passou a viver a realidade da Nova Aliança, caracterizada pela ampla distribuição do Espírito Santo entre todos os crentes. Os dons espirituais, portanto, não surgem como fenômenos isolados, mas como evidências de que a promessa messiânica foi cumprida e de que o Reino de Deus já começou sua manifestação na história. A Igreja nasce capacitada pelo Espírito para cumprir sua missão de proclamar o Evangelho até os confins da terra.

Essa perspectiva também corrige outro equívoco bastante comum: imaginar que os dons espirituais existem para promover experiências individuais. No Novo Testamento, os dons sempre aparecem ligados à vida comunitária. O Espírito Santo não distribui capacidades para alimentar o orgulho pessoal nem para produzir prestígio espiritual. Pelo contrário, cada dom foi concedido para servir aos demais membros do corpo. O ensino fortalece aqueles que aprendem; a misericórdia consola os aflitos; a liderança organiza a comunidade; a contribuição sustenta a obra de Deus; a profecia edifica, consola e exorta; a cura revela a compaixão divina; o discernimento protege a Igreja do engano. Nenhum dom existe para o benefício exclusivo de quem o recebe. Todos apontam para Cristo e encontram seu verdadeiro propósito quando fortalecem a comunhão da Igreja.

Por isso, talvez a definição mais simples e profundamente bíblica seja afirmar que os dons espirituais são capacitações concedidas soberanamente pelo Espírito Santo para que cada cristão participe da missão de Cristo na edificação de sua Igreja. Eles são expressões da graça de Deus, manifestações da presença do Espírito e instrumentos colocados nas mãos do povo de Deus para que o Evangelho seja anunciado, a Igreja seja fortalecida e Cristo seja glorificado. Quando compreendemos essa verdade, deixamos de perguntar quais dons tornam alguém mais importante e começamos a perguntar como podemos servir melhor ao Senhor e aos nossos irmãos. Essa mudança de perspectiva é exatamente o objetivo da doutrina bíblica dos dons espirituais: transformar servos comuns em instrumentos úteis nas mãos do Espírito Santo para a glória de Deus e para o crescimento do Reino de Cristo.

Soli Deo gloria

Dons Espirituais: O que são e por que continuam essenciais para a Igreja de Cristo

Entre os assuntos mais debatidos na teologia contemporânea está a doutrina dos dons espirituais. Durante muitos anos consolidou-se, especialmente em alguns setores do protestantismo reformado, a ideia de que determinados dons milagrosos pertenciam exclusivamente ao período apostólico e desapareceram com a conclusão do Novo Testamento. Entretanto, nas últimas décadas esse cenário sofreu mudanças significativas. Um número crescente de estudiosos reformados passou a revisitar cuidadosamente as Escrituras, concluindo que a continuidade dos dons espirituais encontra sólido fundamento bíblico. Esse retorno ao estudo exegético do texto sagrado permitiu que muitos teólogos recuperassem uma compreensão mais ampla da atuação contemporânea do Espírito Santo, distinguindo os excessos presentes em alguns movimentos carismáticos da legítima doutrina bíblica sobre os dons.

A compreensão correta dos dons espirituais começa necessariamente pela definição do próprio conceito. Wayne Grudem oferece uma definição que sintetiza muito bem o ensino do Novo Testamento ao afirmar que “dom espiritual é qualquer talento potencializado pelo Espírito Santo e usado no ministério da igreja”. Essa definição possui grande importância porque evita dois extremos igualmente prejudiciais. O primeiro consiste em reduzir os dons apenas às manifestações extraordinárias, como curas, profecias e línguas. O segundo é considerar que qualquer habilidade natural já constitui automaticamente um dom espiritual. O Novo Testamento apresenta um equilíbrio notável: existem capacidades que possuem evidente caráter sobrenatural e existem capacidades que normalmente se desenvolvem por meio da personalidade, da vocação e da experiência, mas que são igualmente capacitadas e dirigidas pelo Espírito Santo para a edificação do corpo de Cristo. Ensino, liderança, misericórdia, administração, serviço e evangelização são tão espirituais quanto os dons geralmente classificados como miraculosos, pois todos procedem da mesma fonte divina e possuem o mesmo propósito: glorificar Cristo mediante a edificação da Igreja.

O apóstolo Paulo deixa claro que os dons não são distribuídos de maneira aleatória nem possuem finalidade individualista. Em 1Coríntios 12.11 ele afirma que é o próprio Espírito quem distribui cada dom soberanamente conforme a sua vontade. Poucos versículos antes, em 1Coríntios 12.7, declara que a manifestação do Espírito é concedida visando ao bem comum. Posteriormente, em 1Coríntios 14.26, estabelece o princípio regulador de todo exercício dos dons: “faça-se tudo para edificação”. Portanto, qualquer manifestação que promova vaidade pessoal, divisão, espetáculo ou autopromoção contradiz a finalidade estabelecida pelo próprio Deus. Os dons nunca foram concedidos para exaltar pessoas, mas para fortalecer a Igreja, anunciar o Evangelho e manifestar o Reino de Deus no mundo.

A própria história da redenção demonstra que a atuação do Espírito Santo alcança um novo estágio com a chegada da Nova Aliança. No Antigo Testamento, o Espírito agia poderosamente em homens escolhidos como Moisés, Samuel, Davi e Elias, conduzindo o povo e capacitando indivíduos para tarefas específicas. Contudo, essa atuação possuía um caráter mais restrito. O próprio Antigo Testamento anuncia que chegaria um tempo em que o Espírito seria derramado sobre todo o povo de Deus. A oração de Moisés em Números 11.29 e a famosa profecia de Joel 2.28-29 antecipam esse momento glorioso, quando filhos e filhas profetizariam, jovens teriam visões e idosos sonhariam sonhos. Essas promessas não apontavam apenas para maior intensidade espiritual, mas para uma nova etapa da história da salvação em que todos os membros da comunidade da aliança seriam participantes da capacitação do Espírito Santo.

Essa expectativa alcança seu cumprimento definitivo na pessoa de Jesus Cristo. Todo o ministério terreno do Senhor é apresentado como realizado no poder do Espírito Santo. Lucas registra que Jesus retornou da tentação “no poder do Espírito” para iniciar seu ministério público. Seu ensino possuía autoridade, seus milagres revelavam a chegada do Reino de Deus e a expulsão de demônios demonstrava a derrota progressiva do reino das trevas. O próprio Cristo declarou que expulsava demônios pelo Espírito de Deus, evidenciando que o Reino havia chegado entre os homens. Sua missão consistia precisamente em destruir as obras do diabo e inaugurar a nova criação prometida pelos profetas.

Entretanto, Jesus jamais pretendeu que essa manifestação do Espírito permanecesse restrita à sua própria pessoa. Ainda durante seu ministério terreno enviou os Doze e posteriormente os setenta discípulos para anunciarem o Reino, curarem enfermos e expulsarem demônios. Contudo, a plenitude dessa promessa aguardava um acontecimento específico: o Pentecostes. Antes de sua ascensão, Cristo ordenou que seus discípulos permanecessem em Jerusalém aguardando a promessa do Pai, isto é, o batismo no Espírito Santo. Quando finalmente o Espírito foi derramado, Pedro declarou solenemente que o cumprimento da profecia de Joel havia chegado. O Pentecostes marca, portanto, o início da era da Igreja, caracterizada pela ampla distribuição dos dons espirituais entre todo o povo de Deus, independentemente de idade, sexo ou condição social.

O livro de Atos e as epístolas apostólicas confirmam que essa distribuição ampla dos dons tornou-se uma das marcas distintivas da Igreja do Novo Testamento. As comunidades cristãs descritas por Paulo possuíam diferentes manifestações do Espírito, utilizadas para a expansão do Evangelho e para a edificação da comunidade. Longe de serem exceções, essas manifestações aparecem como parte da vida normal das igrejas apostólicas. A Igreja nasceu sob a ação poderosa do Espírito e desenvolveu seu ministério sustentada pelos dons que Ele soberanamente distribuía entre os crentes.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é que os dons espirituais possuem uma dimensão escatológica. Paulo afirma aos coríntios que eles não careciam de nenhum dom enquanto aguardavam a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo. Essa observação é extremamente significativa, pois estabelece uma ligação direta entre a existência dos dons e o período compreendido entre a ascensão e a segunda vinda de Cristo. A Igreja permanece equipada pelo Espírito durante toda a presente dispensação até o retorno glorioso do Senhor. Além disso, os dons funcionam como um antegosto da realidade futura. Eles não representam a perfeição do Reino, mas pequenas antecipações daquilo que será plenamente experimentado na consumação de todas as coisas. Quando Cristo voltar, a fé dará lugar à visão, a esperança será plenamente realizada e os dons deixarão de ser necessários porque sua finalidade terá sido completamente cumprida.

Diante dessa perspectiva bíblica, torna-se evidente que os dons espirituais não devem ser vistos como motivo de divisão entre os cristãos, mas como instrumentos concedidos pelo próprio Deus para o crescimento saudável da Igreja. Eles revelam a riqueza da graça divina, manifestam a diversidade do corpo de Cristo e demonstram que o Espírito Santo continua atuando soberanamente em favor do povo de Deus. A pergunta mais importante, portanto, não é simplesmente se determinados dons existem ou não, mas se estamos dispostos a utilizar com fidelidade tudo aquilo que o Senhor concede para o avanço do Evangelho e para a edificação de sua Igreja. Uma comunidade verdadeiramente bíblica não despreza os dons nem os idolatra; antes, submete todas as manifestações do Espírito ao senhorio de Cristo, à autoridade das Escrituras e ao propósito supremo de glorificar a Deus mediante o serviço amoroso ao próximo.

Soli Deo gloria

A influencia da soteriologia arminiana e wesleyana no pentecostalismo clássico brasileiro

A concepção de graça preveniente norteia a soteriologia pentecostal clássica, que reproduz ou se aproxima da teologia arminiana clássica e da teologia wesleyana.

O arminianismo clássico compreende que Deus oferece graça salvadora a todas as pessoas através do Espírito Santo (1Tm 2.3-4; Tt 2.11), capacitando-as a opor-se à influência do pecado, e possibilitando uma resposta positiva a Deus (Jo 15.26-27; 16.7-11). Deus toma sempre a iniciativa, cabendo ao pecador responder em fé e obediência voluntária (Lc 15; Rm 5.6-8; Ef 2.4-5; Fp 2.12-13). Contudo, os pecadores podem resistir à graça, e continuar no pecado e rebelião contra Deus. A graça de Deus capacita e encoraja uma resposta positiva e salvífica para todas as pessoas, mas ela não é determinante ou irresistível para ninguém (At 7.51). Uma resposta positiva inicial de fé e obediência também não garante a perseverança dos salvos. É possível iniciar um relacionamento genuíno e pessoal com Deus, e depois se afastar Dele, persistindo no mal de sorte que a pessoa, por fim, se perca (Rm 8.12-13; 11.19-22; Gl 5.21; 6.7-10; Hb 6.1-8; Ap 2.2-7). (WALLS, 2014, p. 14.)

As ideias acima estão presentes nas obras de Myer Pearlman (1898-1943), um dos principais teóricos do pentecostalismo clássico no Brasil. Pearlman, educador, teólogo e escritor norte-americano, teve sua obra Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, traduzida e publicada no Brasil em 1959, pelo missionário Lawrence Olson, e adotada como livro-texto de teologia sistemática, no Instituto Bíblico Pentecostal (IBP), no Rio de Janeiro, e no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD, em Pindamonhangaba (SP) (ARAÚJO, 2007, P. 547). Conforme Pearlman:

As Escrituras ensinam constantemente que o homem tem o poder de escolher livremente entre a vida e a morte, e Deus nunca violará esse poder. […] Pode-se resistir à graça de Deus? […] O Novo Testamento ensina, sim, que é possível resistir à graça divina e resistir para a perdição eterna (Jo 6.40; Hb 2.3; 6.46; 10.26-30; 2 Pe 1.10; 2.21), e que a perseverança é condicional dependendo de manter-se em contato com Deus. Note-se especialmente Hebreus 6.4-6 e 10.26-29. (PEARLMAN, 1970, p. 173)

Apesar de ainda não ter uma Confissão de Fé própria, o pentecostalismo clássico brasileiro, através de suas publicações nos órgãos oficiais (jornais, revistas e livros), é basicamente arminiano/wesleyano em sua soteriologia.

A graça preveniente na teologia de Jacó Armínio
O posicionamento de Armínio (1569-1609) sobre a graça preveniente foi registrado em sua Declaração de Sentimentos, onde ele atribui à graça o início, a continuidade e a consumação de todo bem. Para Armínio, a influência da graça é tamanha que um homem, embora regenerado, de forma alguma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e estimulante, seguinte e cooperante. Ele insiste no fato de que é equivocada a ideia que alguns disseminam a seu respeito alegando que uma ênfase exagerada é dada por ele ao livre-arbítrio. E ainda:

Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. Em se tratando dessa questão, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida. (OLSON, 2013, p. 210).

Após a morte de Armínio, quarenta e seis ministros holandeses elaboraram um documento chamado de “Remonstrância” (protesto), onde reafirmaram os conceitos de Armínio. Em seu Artigo III, enfatiza a depravação total do homem. No Artigo IV se declara a possibilidade da graça preveniente ser resistida.

A graça preveniente na teologia de John Wesley
John Wesley (1703-1791), o grande teólogo e pregador inglês, pai do metodismo, movimento que influenciou o surgimento do pentecostalismo clássico, entendia a salvação do homem nos moldes do arminianismo clássico:

A graça opera diante de nós para nos atrair em direção à fé, para iniciar sua obra em nós. Até mesmo a primeira e frágil intuição da convicção do pecado, a primeira insinuação de nossa necessidade de Deus, é a obra da graça preparadora e antecedente à beira do nosso desejo, trazendo-nos em tempo de afligirmo-nos sobre nossas próprias injustiças, desafiando nossas disposições perversas, de modo que nossas vontades distorcidas gradualmente cessam de resistir ao dom de Deus. (OLSON, 2013, p. 219).

Sobre a ideia de graça irresistível, Wesley não defende tal realidade no que se refere aos aspectos do chamado ou oferta para a salvação, mas ao restabelecimento das faculdades humanas que estabelecem o equilíbrio e responsabilidade individuais. Para ele a graça preveniente não é irresistível, não aniquila a personalidade. A graça é necessária e imprescindível, pois produz no seu um “eu” responsável, e isso se dá em parte pela restauração das faculdades. No princípio do processo da salvação, não há uma graça cooperante, mas uma graça livre, como atividade apenas de Deus (COLLINS, 2010, p. 109).

Conclusão
O chavão evangelístico que diz “dê um passo para Deus que Ele dará dois em sua direção”, não se sustenta à luz do arminianismo clássico, do pensamento wesleyano, nem da própria teologia pentecostal clássica. Tal apelo é norteado pelo arminianismo de cabeça (OLSON, 2013, p. 23.) e arminianismo contemporâneo (WALLS; DONGELL, 2014, p. 64.), que são essencialmente semipelagianos, e que acreditam que o homem não se encontra no estado de depravação total, podendo de alguma maneira tomar a iniciativa de buscar a Deus e de conseguir a sua salvação pessoal.

O arminianismo clássico não defende a ideia de que o homem após a queda não se tornou totalmente depravado, de que pode escolher o bem espiritual, e de exercer fé em Deus de maneira a receber o evangelho e assim tomar posse da salvação para si mesmo (SEATON, 2012, p.4-5).

Toda salvação pessoal é resultado da iniciativa graciosa de Deus, que ilumina o entendimento humano para a verdade do Evangelho, e que afrouxa as rédeas do poder do pecado. Somente a operação da graça preveniente torna o homem capaz de crer e aceitar o dom gratuito de Deus, que é a vida eterna em Cristo Jesus (Ef 2.1-10), ou de livremente rejeitá-lo, tornando-se assim moralmente responsável por tais decisões.

Enquanto escrevo o presente artigo, há uma visível mobilização no pentecostalismo clássico brasileiro, partindo da academia e dos órgãos oficiais das Assembleias de Deus, no sentido de propagar e consolidar o pensamento teológico e soteriológico aqui exposto. Os limites da teologia arminiana/wesleyana no pentecostalismo clássico brasileiro, em sua relação com as demais correntes teológicas, caminham para uma maior clareza e percepção.


Referências bibliográficas
ARAÚJO, Isael de. Dicionário do movimento pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. Belo Horizonte: Editora Vida, 1970.
SEATON, W. J. Os cinco pontos do calvinismo. 3.ed. São Paulo: PES, 2012.
WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.


Altair Germano Pastor e missionário na Europa pela Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE, conferencista e escritor. Retirado integralmente do site: Teologia Brasileira.

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