O dom de profecia: Entre a ação do Espírito e a autoridade das Escrituras
“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar.”
1Coríntios 14:1
O Novo Testamento apresenta o dom de profecia como uma das manifestações do Espírito Santo concedidas à igreja para sua edificação. Paulo não apenas menciona a profecia entre os dons espirituais, mas dedica boa parte de sua instrução em 1Coríntios 12–14 à maneira como ela deveria ser compreendida e exercida na comunidade cristã. Em 1Coríntios 14:1, depois de apresentar o amor como o caminho indispensável para o exercício dos dons, o apóstolo orienta os cristãos a procurarem com zelo os dons espirituais, destacando particularmente o de profetizar. Essa orientação precisa ser lida juntamente com as demais instruções do capítulo, porque Paulo não está ensinando uma igreja a simplesmente desejar manifestações espirituais, mas a compreender o propósito delas e a exercê-las de maneira ordenada, responsável e proveitosa para o corpo de Cristo. O contexto de Corinto mostra que possuir dons não significava possuir maturidade; a igreja podia experimentar manifestações genuínas do Espírito e, ao mesmo tempo, apresentar problemas graves de orgulho, divisão, competição e desordem. Por isso, a discussão sobre profecia não pode ser separada da discussão sobre amor, edificação, ordem e discernimento. O dom é concedido pelo Espírito, mas seu exercício acontece dentro da responsabilidade da comunidade cristã.
O primeiro aspecto que precisamos esclarecer é a natureza da profecia. O material que serve de base para este artigo apresenta o dom como um charisma concedido pelo Espírito Santo para a edificação da igreja e o relaciona diretamente à comunicação de uma revelação específica. Essa compreensão é importante porque impede que reduzamos a profecia simplesmente à capacidade de pregar bem, aconselhar alguém ou fazer uma previsão sobre o futuro. O Novo Testamento coloca a profecia dentro da categoria dos dons espirituais, isto é, das manifestações da graça de Deus distribuídas pelo Espírito conforme sua vontade. Paulo afirma em 1Coríntios 12:7 que “a manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” e, nos versículos seguintes, inclui a profecia entre os dons concedidos aos membros do corpo. A origem do dom, portanto, não está na habilidade natural do indivíduo, mas na ação soberana do Espírito Santo. Isso não significa que o profeta deixe de utilizar sua linguagem, sua personalidade, sua memória ou sua capacidade de comunicação. Significa que, por trás daquela manifestação, existe uma ação do Espírito que ultrapassa aquilo que poderia ser explicado apenas pelas capacidades naturais da pessoa.
É justamente nesse ponto que precisamos fazer uma distinção teológica fundamental entre profecia e Escritura. Afirmar que o dom de profecia continua na igreja não significa afirmar que Deus continua acrescentando novas palavras ao cânon bíblico. A Bíblia é a revelação escrita, inspirada e normativa que Deus concedeu à sua igreja, e nenhuma manifestação profética contemporânea possui autoridade para acrescentar novos livros à Escritura, estabelecer novas doutrinas ou corrigir aquilo que os apóstolos ensinaram. Essa distinção está no centro da proposta de Wayne Grudem. Em sua obra Teologia Sistemática, Grudem procura demonstrar como o dom pode ser compreendido e exercido na igreja contemporânea sem comprometer a supremacia das Escrituras.
Essa questão precisa ser tratada com muito cuidado, porque existe uma objeção séria levantada pelo cessacionismo: se a profecia é uma comunicação da parte de Deus, não deveríamos atribuir a ela a mesma autoridade da Escritura? A pergunta é legítima e não deve ser descartada como se fosse simplesmente uma reação preconceituosa contra os dons espirituais. Se toda manifestação profética contemporânea fosse, em sentido absoluto, a própria Palavra de Deus, então teríamos de concluir que Deus continua produzindo revelação com autoridade canônica. Nesse caso, a suficiência das Escrituras estaria realmente ameaçada. O problema está justamente em assumir que toda manifestação profética possui necessariamente a mesma autoridade que a revelação canônica. O texto que fundamenta este estudo chama atenção para essa distinção e observa que a profecia exercida nas igrejas do Novo Testamento não deve ser automaticamente identificada com a autoridade das Escrituras. A proposta continuísta defendida aqui parte dessa diferenciação: a Escritura possui autoridade normativa e absoluta; a profecia contemporânea, quando exercida segundo o modelo que estamos considerando, deve permanecer subordinada à Escritura e sujeita ao discernimento da igreja.
Essa distinção também ajuda a compreender por que Paulo ordena que as profecias sejam julgadas. Em 1Coríntios 14:29, depois de estabelecer regras para a manifestação profética no culto, ele afirma: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem”. A instrução seria difícil de explicar se cada manifestação profética possuísse automaticamente a mesma autoridade da Escritura. Paulo não diz à igreja simplesmente que receba tudo o que for dito pelo profeta; ele determina que a comunidade examine aquilo que foi apresentado. Da mesma maneira, em 1Tessalonicenses 5:20-21, Paulo estabelece uma combinação que deveria orientar toda a nossa compreensão sobre o assunto: “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom”. A igreja não deve desprezar aquilo que Deus pode realizar por meio do Espírito, mas também não deve aceitar indiscriminadamente tudo aquilo que alguém apresenta como uma mensagem espiritual. O modelo apostólico não é o da credulidade sem discernimento, mas o da abertura acompanhada de exame. Essa é uma das razões pelas quais a continuidade do dom não precisa representar uma ameaça à suficiência das Escrituras.
O problema torna-se ainda mais claro quando consideramos o modo como a expressão “Deus me disse” é utilizada em determinados ambientes cristãos. É perfeitamente possível que um cristão tenha uma forte impressão durante a oração, uma convicção espiritual ou uma percepção que entenda ter recebido do Espírito Santo. Contudo, existe uma diferença considerável entre dizer “creio que o Senhor esteja colocando isto em meu coração; peço que os irmãos julguem” e afirmar “Deus disse que você deve fazer isto”. Na primeira formulação existe humildade e abertura ao discernimento; na segunda, a pessoa pode estar colocando sua própria interpretação sob a autoridade absoluta de Deus. Essa distinção não é apenas uma questão de linguagem, porque uma palavra apresentada como ordem direta de Deus pode exercer enorme pressão sobre quem a recebe. É precisamente por isso que uma igreja que crê na continuidade dos dons precisa ensinar seus membros a falar com responsabilidade, temor e humildade. A possibilidade de erro humano não significa necessariamente que o dom seja falso; significa que a manifestação precisa ser discernida. Grudem parte justamente da ideia de que a profecia congregacional envolve a comunicação humana daquilo que Deus espontaneamente traz à mente do crente, razão pela qual seu exercício não deve ser confundido com a inspiração infalível das Escrituras.
Outro equívoco frequente consiste em imaginar que profecia significa exclusivamente prever o futuro. A Bíblia certamente apresenta profecias que anunciam acontecimentos futuros, e isso não deve ser negado. Agabo, por exemplo, profetizou acerca de uma grande fome que ocorreria no mundo romano (At 11:27-28) e posteriormente anunciou a Paulo que ele seria preso em Jerusalém (At 21:10-11). Entretanto, reduzir o ministério profético à previsão de acontecimentos futuros seria empobrecer profundamente o testemunho bíblico. Natã exerceu seu ministério profético quando confrontou Davi por seu pecado com Bate-Seba; Samuel exerceu funções proféticas relacionadas à liderança espiritual de Israel e à instituição da monarquia; Hulda foi consultada durante a reforma de Josias; Débora aparece como profetisa e juíza. O profeta bíblico não era simplesmente alguém que enxergava o futuro, mas alguém que comunicava uma mensagem relacionada à vontade de Deus e à situação concreta do povo. O texto que serviu de base para este artigo apresenta justamente essa diversidade de funções, mostrando que os profetas estavam envolvidos em confrontação, orientação, aconselhamento e anúncio da vontade divina. Dessa maneira, uma igreja que compreende corretamente a profecia não deveria transformar o culto em uma espécie de ambiente de previsão espiritual, no qual a principal pergunta é “o que vai acontecer comigo?”. A pergunta bíblica é muito mais profunda: “o que Deus está fazendo e dizendo à sua igreja, e como devemos responder com fidelidade?”.
Essa compreensão também nos permite distinguir profecia de pregação. As duas podem possuir pontos de contato, e uma pregação fiel pode certamente ter caráter profundamente profético no sentido de confrontar a igreja com a Palavra de Deus, mas isso não significa que pregação e dom de profecia sejam exatamente a mesma coisa. A pregação cristã é essencialmente a proclamação e exposição das Escrituras. O pregador recebe o texto inspirado, procura compreender seu significado, expõe sua doutrina e aplica sua mensagem à vida da igreja. Neemias 8 apresenta um exemplo importante desse ministério quando Esdras lê a Lei e os levitas ajudam o povo a compreender aquilo que estava sendo lido. Paulo ordena a Timóteo: “Prega a palavra” (2Tm 4:2), mostrando que a proclamação da Palavra ocupa lugar central na missão pastoral. Em 1Coríntios 14, entretanto, Paulo distingue a profecia de outras manifestações presentes na reunião cristã, mencionando ensino, revelação, línguas e interpretação. O material-base deste estudo chama atenção precisamente para essa diferença e observa que a profecia não deve ser simplesmente identificada com o sermão. Anthony D. Palma também dedicou uma pesquisa acadêmica à relação entre profecia e línguas, tratando ambas como manifestações carismáticas que precisam ser analisadas dentro do contexto mais amplo da experiência da igreja em 1Coríntios.
Se a profecia não é simplesmente pregação nem se limita à previsão do futuro, precisamos então perguntar qual é sua finalidade. Paulo responde de maneira bastante clara em 1Coríntios 14:3: “Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando”. Essas três funções oferecem um critério pastoral extremamente importante para o exercício do dom. A edificação diz respeito ao fortalecimento da igreja, ao crescimento espiritual e à construção da comunidade cristã. A exortação envolve encorajamento, advertência e chamado à perseverança, de modo que uma manifestação profética pode confrontar uma situação, despertar a igreja para determinada responsabilidade ou estimular alguém a permanecer fiel ao Senhor. A consolação, por sua vez, está relacionada ao fortalecimento daqueles que enfrentam sofrimento, medo, desânimo ou aflição. O material-base desenvolve essas três dimensões a partir dos termos gregos associados à edificação, exortação e consolação. Isso significa que o propósito fundamental da profecia não é produzir admiração pelo profeta, mas servir ao corpo de Cristo. Uma manifestação que transforma o indivíduo em celebridade espiritual, cria dependência pessoal ou coloca a comunidade em permanente expectativa por novas mensagens está se afastando do propósito que Paulo estabelece.
Essa finalidade comunitária é particularmente importante porque os dons espirituais nunca foram concedidos para a autopromoção de seus portadores. Em 1Coríntios 12:7, Paulo afirma que a manifestação do Espírito é concedida “visando a um fim proveitoso”. O dom pertence à lógica do corpo de Cristo. O Espírito distribui diferentes dons a diferentes pessoas para que os membros sirvam uns aos outros. Por isso, não devemos perguntar apenas se determinada manifestação parece sobrenatural, mas também qual é o seu fruto sobre a comunidade. Ela conduz as pessoas a Cristo? Fortalece a fé? Chama ao arrependimento? Produz esperança? Contribui para a maturidade? Está de acordo com as Escrituras? Ou produz medo, dependência, confusão e exaltação daquele que fala? A resposta a essas perguntas não substitui a avaliação bíblica, mas faz parte do discernimento pastoral que Paulo exige. Craig Keener destaca que o contexto de 1Coríntios 12–14 é justamente o uso dos dons para a edificação da igreja, e entende que Paulo não responde aos abusos de Corinto abolindo os dons, mas ensinando a comunidade a exercê-los corretamente, em amor e para benefício dos demais.
A necessidade de discernimento também explica por que não devemos rejeitar o dom simplesmente porque existem abusos. A história da igreja e a experiência contemporânea demonstram que manifestações atribuídas ao Espírito podem ser utilizadas de maneira inadequada. Existem pessoas que utilizaram supostas profecias para controlar relacionamentos, interferir em decisões financeiras, determinar casamentos, justificar mudanças de cidade ou exercer domínio sobre membros da igreja. Esses abusos precisam ser denunciados com firmeza, especialmente quando o nome de Deus é utilizado para produzir submissão humana a uma autoridade que Deus não estabeleceu. Entretanto, o abuso de um dom não demonstra automaticamente que o dom deixou de existir. Se adotássemos esse princípio de maneira consistente, precisaríamos abandonar também a pregação porque existem falsos pregadores, o ensino porque existem falsos mestres e a liderança porque existem líderes abusivos. A resposta bíblica aos falsos usos de algo verdadeiro não é necessariamente a eliminação daquilo que é verdadeiro, mas o estabelecimento de critérios que permitam distinguir o uso legítimo do uso ilegítimo. O próprio texto-base argumenta nessa direção ao observar que o mau uso de um dom não significa que o uso correto deva ser proibido, a menos que se demonstre que todo uso é necessariamente mau.
É nesse contexto que devemos compreender o debate entre continuísmo e cessacionismo. O continuísmo não deve ser apresentado como se fosse a única posição possível entre cristãos fiéis às Escrituras. Existem teólogos evangélicos sérios que defendem a cessação de determinados dons e constroem essa posição a partir de uma compreensão específica da natureza da revelação, da função dos apóstolos e do período fundacional da igreja. Ao mesmo tempo, o continuísmo não deve ser confundido com a aceitação indiscriminada de qualquer manifestação carismática. A questão precisa ser resolvida pela interpretação das Escrituras. No caso específico da profecia, continuístas argumentam que não existe um texto que determine claramente que o dom tenha cessado antes da volta de Cristo. Craig Keener, por exemplo, entende que 1Coríntios 13:8-12 aponta para a consumação escatológica, quando os crentes verão “face a face”, e não para a conclusão do cânon do Novo Testamento. Em sua leitura, interpretar “o que é perfeito” como uma referência à conclusão da Bíblia desloca o texto de seu contexto imediato, que trata da consumação e da transformação do conhecimento cristão na presença plena de Deus.
Essa interpretação, entretanto, não deve ser apresentada como se encerrasse o debate. Há estudiosos que contestam a leitura continuísta de determinados textos e entendem que a profecia neotestamentária possuía uma função relacionada ao período apostólico e fundacional da igreja. A existência desse debate deve nos levar a tratar o tema com seriedade e humildade. Uma posição continuísta responsável não precisa caricaturar o cessacionista como alguém que “não acredita no Espírito Santo”, assim como uma posição cessacionista responsável não deveria caricaturar o continuísta como alguém que deseja acrescentar capítulos à Bíblia. O ponto central é determinar, a partir da Escritura, qual foi a natureza dos dons e se existe fundamento bíblico suficiente para afirmar sua continuidade ou sua cessação. A própria existência de uma discussão acadêmica prolongada sobre o assunto demonstra que não estamos diante de uma questão que possa ser resolvida por slogans.
Para uma igreja que adota uma compreensão continuísta, entretanto, algumas convicções precisam permanecer muito claras. A primeira é que nenhuma profecia contemporânea pode estabelecer doutrina contrária às Escrituras. A segunda é que nenhuma pessoa que profetiza recebe, por causa disso, autoridade espiritual absoluta sobre a comunidade. A terceira é que uma manifestação profética precisa ser julgada pela igreja. A quarta é que o caráter cristocêntrico da mensagem é indispensável. O Espírito Santo glorifica Cristo, e o testemunho de Jesus está no centro da verdadeira profecia. A quinta é que o dom deve servir à edificação, exortação e consolação. Esses critérios não transformam a igreja em uma comunidade desconfiada da ação do Espírito; ao contrário, permitem que a igreja permaneça aberta ao Espírito sem abandonar a sobriedade que a própria Escritura exige.
Outro cuidado pastoral necessário diz respeito à utilização da profecia como mecanismo de orientação para todas as decisões da vida. Um cristão pode chegar a um ponto em que não consegue tomar nenhuma decisão sem procurar uma pessoa que lhe forneça uma palavra profética. Antes de aceitar um emprego, precisa de uma profecia; antes de iniciar um relacionamento, precisa de uma profecia; antes de mudar de cidade, precisa de uma profecia; antes de assumir um ministério, precisa de uma profecia. Nesse momento, algo que deveria ser um dom para edificação pode se transformar em dependência espiritual. A vida cristã não foi estruturada dessa maneira. Deus nos deu as Escrituras, o Espírito Santo, a oração, a sabedoria, a comunidade cristã e a liderança pastoral. O crente deve aprender a tomar decisões responsáveis diante de Deus, buscando sabedoria e submetendo sua vida à Palavra. Uma manifestação profética pode, dentro de determinados contextos, contribuir para esse discernimento, mas não deve substituir os meios ordinários pelos quais Deus conduz seu povo.
A igreja precisa, portanto, recuperar uma visão equilibrada da relação entre profecia e Escritura. Não devemos colocar as duas em competição. A Escritura é o fundamento normativo da fé; a profecia precisa ser julgada pela Escritura. A Escritura estabelece a doutrina; uma manifestação profética não pode criar uma nova doutrina. A Escritura possui autoridade para toda a igreja; uma manifestação profética, quando corretamente compreendida, está relacionada a uma situação concreta e deve ser discernida pela comunidade. A Escritura não precisa ser complementada por profecias contemporâneas para se tornar suficiente. Ao mesmo tempo, afirmar a suficiência das Escrituras não exige que neguemos tudo aquilo que o Novo Testamento apresenta como manifestação do Espírito. Essa distinção permite preservar simultaneamente duas convicções que são fundamentais para uma teologia cristã saudável: a autoridade singular das Escrituras e a liberdade soberana do Espírito Santo para conceder dons à igreja.
O exercício do dom também possui uma dimensão eclesiológica importante. Paulo imagina a reunião cristã como um espaço no qual diferentes membros podem contribuir para a edificação do corpo: “Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele outra língua, e ainda outro interpretação” (1Co 14:26). Isso não significa ausência de liderança ou de ordem, mas uma comunidade na qual o Espírito distribui dons e os membros servem uns aos outros. O texto-base observa essa dimensão ao relacionar a profecia à participação dos membros na vida comunitária da igreja. Essa participação, porém, não deve ser confundida com uma espécie de democracia espiritual em que toda manifestação possui o mesmo peso ou em que qualquer pessoa pode ensinar qualquer coisa. O mesmo Paulo que reconhece os dons estabelece ordem, julgamento e submissão. A igreja precisa de liberdade para o exercício dos dons e, simultaneamente, de maturidade pastoral para avaliá-los.
Quando olhamos para o conjunto do ensino bíblico, percebemos que a profecia não deve ser tratada nem com superstição nem com desprezo. O supersticioso acredita em qualquer palavra porque foi pronunciada com linguagem espiritual; o cético rejeita qualquer manifestação porque já decidiu que Deus não pode agir dessa maneira. Paulo não nos conduz a nenhum desses extremos. Ele manda buscar os dons, mas manda julgá-los; não permite que a igreja despreze a profecia, mas também não permite que a profecia se torne uma autoridade acima da comunidade. Ele reconhece a atuação do Espírito, mas estabelece que tudo aconteça de maneira conveniente e ordenada. O princípio é profundamente pastoral: a igreja precisa ser suficientemente aberta para reconhecer a ação de Deus e suficientemente madura para discernir aquilo que não procede dele.
Por isso, compreender corretamente o dom de profecia exige que abandonemos duas ideias igualmente perigosas. A primeira é a ideia de que toda experiência espiritual é necessariamente uma mensagem de Deus. Não é. O cristão pode interpretar equivocadamente uma impressão, uma emoção, um desejo ou até mesmo uma experiência espiritual. A segunda é a ideia de que, porque existem falsificações e abusos, não existe manifestação verdadeira. Também não é possível estabelecer essa conclusão simplesmente a partir dos abusos. A Escritura nos chama a discernir. E discernir significa examinar, comparar, avaliar e reter aquilo que é bom. Uma igreja madura não precisa ter medo do discernimento; pelo contrário, o discernimento é uma das formas pelas quais a igreja protege a verdade e cuida das pessoas.
No final, a questão não é construir uma igreja obcecada por manifestações espirituais, mas uma igreja que deseja ser fiel a tudo aquilo que a Escritura ensina sobre o Espírito Santo. Paulo não diz aos coríntios que busquem experiências para que possam sentir-se superiores aos demais cristãos. Ele os ensina a buscar os dons dentro do caminho do amor e para o bem do corpo. A profecia não existe para transformar o profeta em autoridade; existe para servir. Não existe para satisfazer curiosidade; existe para edificar. Não existe para substituir as Escrituras; deve permanecer subordinada a elas. Não existe para produzir dependência de um indivíduo; deve contribuir para a maturidade da comunidade. Quando compreendida dessa maneira, a profecia deixa de ser um instrumento de espetáculo religioso e recupera seu caráter pastoral.
Como igreja, podemos, portanto, afirmar a continuidade do dom de profecia sem abandonar a convicção protestante de que as Escrituras são a autoridade suprema e suficiente para nossa fé e prática. Podemos reconhecer que o Espírito Santo continua agindo de maneira sobrenatural sem transformar toda experiência em revelação normativa. Podemos ensinar nossos membros a buscar os dons sem estimular credulidade irresponsável. Podemos receber uma manifestação profética com respeito sem recebê-la automaticamente como Palavra de Deus. E podemos julgar aquilo que é apresentado como profecia sem apagar a ação do Espírito. Essa postura exige maturidade, porque é muito mais fácil simplesmente rejeitar tudo ou aceitar tudo. O caminho bíblico exige discernimento.
A igreja precisa de homens e mulheres que conheçam profundamente as Escrituras, que amem a Cristo, que sejam sensíveis à ação do Espírito e que possuam maturidade suficiente para reconhecer que nenhum dom os coloca acima da Palavra ou acima da comunidade. O verdadeiro propósito da profecia não é produzir admiração pelo instrumento humano, mas contribuir para que o povo de Deus seja fortalecido em sua caminhada. Por isso, quando uma manifestação profética é apresentada na igreja, a pergunta fundamental não deve ser apenas se aquilo parece extraordinário, mas se está de acordo com a Palavra de Deus, se aponta para Cristo, se contribui para a edificação da igreja e se pode ser recebida com liberdade depois de ser examinada pela comunidade.
É assim que precisamos compreender o dom de profecia: como uma manifestação da graça do Espírito Santo que deve ser exercida com fé, humildade, responsabilidade e discernimento, sempre debaixo da autoridade das Escrituras. A igreja não precisa escolher entre uma espiritualidade cheia do Espírito e uma teologia fundamentada na Palavra. O mesmo Espírito que distribui os dons é aquele que inspirou as Escrituras, e a verdadeira atuação do Espírito jamais precisa ser protegida contra a autoridade da Palavra que ele mesmo inspirou. O desafio pastoral não é decidir entre Bíblia e Espírito, mas aprender a viver uma espiritualidade na qual a Bíblia governa e o Espírito capacita, na qual os dons servem e Cristo reina, e na qual toda manifestação espiritual encontra seu lugar correto dentro da vida do corpo de Cristo.




Deixe um comentário
Quer participar da discussão?Sinta-se à vontade para contribuir!!