E aqueles que nunca ouviram o evangelho?
pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; Romanos 1:19,20
Todo aquele que pecar sem a lei, sem a lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a lei, pela lei será julgado. Porque não são os que ouvem a Lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos. Romanos 2:12,13
Uma das perguntas mais difíceis enfrentadas pelos cristãos ao longo da história é a seguinte: o que acontece com as pessoas que nunca ouviram falar de Jesus? O que dizer dos povos que viveram antes da vinda de Cristo? Dos habitantes de regiões onde o evangelho jamais chegou? Das crianças que cresceram em culturas completamente distantes da mensagem cristã? Seria justo condená-las por algo que nunca tiveram oportunidade de conhecer?
Essa questão não surge apenas em salas de aula de teologia ou em debates acadêmicos. Ela nasce da percepção humana da justiça. Afinal, a Bíblia apresenta Deus como perfeitamente santo, mas também perfeitamente justo. Por isso, muitos se perguntam se seria compatível com o caráter divino condenar alguém por rejeitar uma mensagem que jamais teve a oportunidade de ouvir.
Entretanto, antes de tentar responder à pergunta, é necessário corrigir uma suposição muito comum. Frequentemente, a questão é formulada da seguinte maneira: “Como Deus pode condenar alguém que nunca ouviu o evangelho?” O problema dessa formulação é que ela pressupõe que a condenação ocorre pela falta de informação. Porém, esse não é o ensino das Escrituras. Em nenhum lugar da Bíblia encontramos a afirmação de que as pessoas são condenadas simplesmente porque nunca ouviram falar de Cristo. O testemunho bíblico é outro: os seres humanos são condenados porque são pecadores diante de Deus.
O apóstolo Paulo desenvolve esse argumento de forma extensa nos primeiros capítulos da Epístola aos Romanos. Segundo ele, o problema fundamental da humanidade não é a ausência de informação religiosa, mas a presença do pecado. Desde a queda, todos os seres humanos se encontram separados de Deus. A condenação não começa quando alguém rejeita o evangelho; ela já existe porque toda a humanidade participa da corrupção moral introduzida pelo pecado. Por isso Paulo conclui: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23).
Isso significa que ninguém comparecerá diante do tribunal divino podendo alegar inocência absoluta. A Escritura descreve um mundo que conhece o pecado, pratica o pecado e se rebela contra Deus. A pergunta correta, portanto, não é por que alguns serão condenados, mas por que Deus decidiu salvar alguém.
Ao mesmo tempo, a Bíblia também ensina que Deus não deixou a humanidade sem testemunho. Mesmo antes da pregação do evangelho, existe aquilo que os teólogos chamam de revelação geral. Trata-se da manifestação de Deus por meio da criação, da consciência humana e da ordem moral presente no mundo.
Romanos 1.19-20 afirma que aquilo que se pode conhecer acerca de Deus é manifesto entre os homens porque o próprio Deus lhes revelou. Paulo acrescenta que os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua divindade, podem ser percebidos por meio das coisas criadas. O resultado é uma declaração extremamente forte: os homens são indesculpáveis.
A palavra utilizada por Paulo é significativa. Ele não diz que todos possuem conhecimento completo sobre Deus. Não afirma que todos conhecem o plano da redenção. Também não declara que todos compreendem a cruz de Cristo. O que ele afirma é que existe luz suficiente para tornar a humanidade responsável diante do Criador.
Essa mesma ideia aparece em Romanos 2.14-15, onde Paulo descreve gentios que não possuíam a Lei de Moisés, mas que demonstravam possuir uma consciência moral. Eles sabiam, ainda que imperfeitamente, que algumas coisas eram certas e outras erradas. Seus pensamentos os acusavam ou defendiam. Havia dentro deles uma percepção moral que apontava para a existência de um Legislador supremo.
Dessa forma, a Bíblia apresenta dois fatos simultaneamente. Primeiro, ninguém possui conhecimento pleno de Deus sem a revelação especial das Escrituras e do evangelho. Segundo, ninguém vive em completa ausência de revelação. Todos recebem alguma medida de luz.
É exatamente aqui que encontramos um princípio fundamental da justiça divina: Deus julga cada pessoa de acordo com a luz (revelação) que recebeu.
Jesus ensinou isso quando declarou que haveria maior rigor para cidades que presenciaram seus milagres do que para cidades pagãs que nunca tiveram os mesmos privilégios. Em Lucas 12.47-48, o Senhor afirma que aquele que conheceu a vontade do seu senhor e não a praticou receberá punição mais severa do que aquele que agiu sem possuir o mesmo conhecimento. O princípio é claro: maior luz (revelação) implica maior responsabilidade.
Isso significa que Deus não julga todos os seres humanos com base exatamente no mesmo nível de informação. O julgamento divino leva em consideração aquilo que cada pessoa recebeu e como respondeu à revelação que lhe foi concedida.
Essa verdade elimina dois extremos igualmente perigosos. O primeiro é imaginar que todas as religiões conduzem igualmente a Deus. A Bíblia jamais ensina isso. O Novo Testamento afirma claramente que a salvação foi providenciada exclusivamente por meio de Cristo. Como declarou Pedro diante do Sinédrio: “Não há salvação em nenhum outro” (Atos 4.12).
O segundo extremo consiste em imaginar um Deus que condena arbitrariamente pessoas que jamais tiveram qualquer oportunidade de responder à luz (revelação) recebida. Essa imagem também não corresponde ao retrato bíblico. O Deus das Escrituras é perfeitamente justo. Abraão expressou essa confiança ao perguntar: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gênesis 18.25).
Ao longo da Bíblia encontramos diversos exemplos de pessoas que responderam positivamente à revelação parcial que possuíam. Melquisedeque aparece adorando o Deus verdadeiro sem pertencer à linhagem de Abraão. Jó conhecia a Deus mesmo vivendo fora da aliança israelita. Cornélio buscava sinceramente ao Senhor antes de ouvir a mensagem completa do evangelho. Em todos esses casos, Deus providenciou maior revelação para aqueles que responderam à luz (revelação) que receberam.
Isso nos ensina algo importante. A Bíblia não apresenta Deus como alguém que procura razões para condenar pessoas. Pelo contrário, ela o apresenta como aquele que busca pecadores (condenados), chama pecadores e se alegra quando pecadores se arrependem.
Por essa razão, a questão daqueles que nunca ouviram o evangelho não deve enfraquecer o trabalho missionário. Na verdade, ela o fortalece. O Novo Testamento jamais utiliza a ignorância das nações como argumento para diminuir a urgência da evangelização. Pelo contrário, Paulo pergunta: “Como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Romanos 10.14). A igreja foi enviada ao mundo precisamente porque Deus deseja que o evangelho alcance todas as nações.
No final das contas, existem aspectos dessa questão que permanecem envoltos no mistério da sabedoria divina. A Bíblia não responde todas as perguntas que gostaríamos de fazer. Entretanto, ela revela tudo o que precisamos saber para confiar plenamente no caráter de Deus.
Sabemos que Deus é santo. Sabemos que Deus é justo. Sabemos que Deus ama a humanidade. Sabemos que Cristo é o único Salvador. Sabemos que ninguém será condenado por falta de oportunidade, mas pela realidade do pecado e pela rejeição da luz recebida. Sabemos também que o Juiz de toda a terra fará aquilo que é perfeitamente correto.
Portanto, quando pensamos naqueles que nunca ouviram o evangelho, nossa resposta não deve ser especulação, mas confiança. O Deus que entregou seu próprio Filho para salvar pecadores não cometerá injustiça com ninguém. Seu julgamento será absolutamente perfeito, sua misericórdia será plenamente santa e sua justiça será completamente reta.
E se há algo que essa verdade deve produzir em nós, não é acomodação, mas compromisso. Afinal, se Deus confiou à igreja a mensagem da salvação, nossa responsabilidade não é adivinhar o destino dos que nunca ouviram, mas anunciar com fidelidade aquele que morreu e ressuscitou para salvar o mundo.
Soli Deo gloria




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