Arquivo para Tag: Teologia bíblica

Culto ou show?

Faz algum tempo que ao chegar na igreja para celebrar o culto ao Senhor me deparei com algo que me chocou muito, vi um palco iluminado com muitas luzes e até uma máquina de fumaça, lembrei do meu tempo de DJ, parecia uma “discoteca”. Fiquei chocado ao ver aquilo dentro da igreja que pastoreio, além das luzes, entristeceu-me o fato que alguns irmãos simplesmente achavam tudo aquilo não apenas normal, ou pior, gostavam, e creditavam que aquilo pudesse cooperar para atrair pessoas à igreja. Claro que não permiti que o culto ao Senhor se tornasse um show.

Infelizmente hoje em muitas igrejas, o culto ao Senhor tem se transformado em show. Em muitos casos não é possível identificar se o que há em algumas igrejas é culto ou show. Várias igrejas estão perdendo sua identidade. Nós temos adotado a esse termo (show) em nosso meio. Uma certa igreja (que se diz evangélica) utiliza o tremo “Show da Fé” para suas celebrações. As missas celebradas por um determinado padre são usualmente denominadas de “showmissas”.

As palavras culto e show não combinam, a não ser que lhes demos significados modernos. O dicionário Aurélio define show como “um espetáculo de teatro, rádio, televisão etc., geralmente de grande montagem, que se destina à diversão, e com a atuação de vários artistas de larga popularidade, ou às vezes de um só”. Ora, nessa definição, nada combina com o significado de culto, que o mesmo dicionário diz ser “adoração ou homenagem à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer religião”. “A igreja existe, não para oferecer entretenimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar auto-estima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Se falharmos nisso”, conclui Philip Yancey, “a igreja fracassa”.

É fato, em muitas igrejas, o tempo destinado à exposição da Palavra é cada vez menor e o tempo reservado aos cânticos é cada vez maior. Em alguns cultos já não há lugar para o antigo sermão, nem para algum substituto dele. Embora a música de adoração seja de suma importância e de fundamento bíblico, o papel da música religiosa hoje em dia não implica, obrigatoriamente, uma elevação da qualidade dos adoradores e do culto. A decadência do culto transformado em show leva obrigatoriamente a outros absurdos.

Duas perguntas são necessárias antes de avançarmos:

1 – Tudo que vai ao altar é recebido por Deus?

2 – Deus aceita qualquer oferta?

Vivemos em uma sociedade centrada no homem (Antropocentrismo) o pensamento antropocêntrico é o que quero do jeito ou da forma ou da maneira que quero, na hora que quero com que eu quero e na quantidade que eu quero. Antropocentrismo é a filosofia que procura agradar ao homem. O homem é o centro de tudo, do universo, da sociedade, é o governo humano. Seus olhos buscam no outro aquilo que falta em você. No antropocentrismo nós buscamos possuir coisas que estão na moda e que servem de “chamativo visual” para sermos “notados” por outros.

Meu pedido é que você abra seu coração por um momento e julgue sinceramente aquilo que digo. Ore e peça sabedoria ao Senhor. Precisamos voltar ao verdadeiro culto a Deus. Precisamos voltar ao verdadeiro estilo de vida cristão.

Em 1887 Charles Spurgeon escreveu seguinte:

O fato é que muitos gostariam de unir igreja e palco, baralho e oração, dança e ordenanças. Se nos encontramos incapazes de refrear essa enxurrada, podemos ao menos, prevenir os homens quanto à sua existência e suplicar que fujam dela. Quando a antiga fé desaparece e o entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras coisas que lhes tragam satisfação. Na falta de pão, se alimentam com cinzas; rejeitando o caminho do Senhor seguem avidamente o caminho da tolice.

PRINCÍPIOS DO CULTO A DEUS

O profeta Malaquias aborda vários temas. Ele fala a respeito da eleição, da necessidade da consagração total do seu povo a Deus, do ministério dos líderes e sacerdotes, do casamento misto, divórcio, da vinda de Cristo no dia do juízo, dos dízimos e ofertas, do problema do mal, da prosperidade dos perversos e da aliança de Deus com o seu povo, incluindo a aliança de Deus com os sacerdotes e com o casamento. O livro é bastante variado, com temas muito importantes. E uma pena que Malaquias seja conhecido apenas como o profeta do dízimo, uma vez que a única passagem que fala acerca do dízimo constitui uma parte relativamente pequena de toda a profecia. Muito embora Malaquias tenha falado de tantos temas diferentes, todos estão relacionados com a principal preocupação do profeta: o culto a Deus. Essa era sua inquietação maior, porque ele viveu numa época em que o culto a Deus estava corrompido. Os sacerdotes tinham se corrompido: eram ineptos, descuidados, enfadados com o serviço prestado a Deus e não cumpriam corretamente sua função. O povo, por sua vez, não ficava atrás: questionava a justiça de Deus, sua bondade, seu amor, sua lealdade, trazia ofertas defeituosas para serem oferecidas em sacrifício, sonegava os dízimos e as ofertas, levava uma vida irregular no casamento, tanto que se casava com mulheres estrangeiras, assim contribuindo para corromper o povo de Deus, bem como se divorciava sem justa causa, quebrando a aliança com a mulher da sua mocidade, a esposa com a qual contraíra matrimônio.

Malaquias aparece nesse contexto do culto corrompido e traz uma mensagem da parte de Deus para uma renovação da aliança, arrependimento, conversão e restauração do culto a Deus. Portanto, trata-se de um livro em que podemos aprender vários princípios a respeito do culto que devemos tributar a Deus. Mas quais são esses princípios, essas lições que aprendemos em Malaquias para o culto?

O culto é a celebração pública e visível da aliança que temos com Deus

Essa é uma das grandes ênfases de Malaquias. Ele fala do Deus da aliança por diversas vezes. Essa aliança foi feita com o seu povo. Por meio dela, Deus se comprometeu a abençoar o povo, ser o Deus deles, cuidar da sua descendência e lhes dar vida eterna; e, da parte do povo, havia o compromisso de servir a Deus e andar nos seus caminhos. Os termos dessa aliança estão expressos no decálogo, em toda aquela legislação que Deus deu ao povo de Israel no Antigo Testamento. Porém, havia também a espada da aliança, que era o castigo de Deus para quem não a cumprisse. Esta era a dinâmica da aliança: “Se vocês guardarem a minha aliança e me obedecerem, serão abençoados; se me desobedecerem, serão castigados”. A aliança com o povo era selada pelos sacrifícios de animais no templo e pela circuncisão, que era seu selo externo.

Na época de Malaquias, essa aliança estava sendo quebrada pelos sacerdotes e pelo povo, quando profanavam o culto a Deus, trazendo a ele o que não deveriam, sonegando o que era de Deus, quebrando a aliança que tinham feito com a mulher da sua mocidade, da qual Deus era testemunha. Em consequência disso, Deus estava cumprindo o que havia prometido: estava deixando de abençoar o povo, não aceitava o seu culto, as colheitas eram minguadas, havia pragas e falta de chuva. E nesse contexto que Malaquias chama o povo a voltar ao contexto da aliança. “Voltem-se para mim, e eu voltarei para vocês, diz o Senhor; façam prova de mim e vejam se eu não vou abençoá-los”. Assim, o culto a Deus voltaria a ser aceitável. O mesmo ocorre conosco. Essa mesma aliança está em vigor ainda hoje, só que agora ela é chamada de nova aliança, a nova aliança em Cristo Jesus. É uma aliança superior, pois temos um mediador, Jesus Cristo, cujo sangue derramado é superior ao sangue dos animais. O culto que prestamos a Deus expressa exatamente isso. Os sacramentos que celebramos no culto, o batismo e a ceia do Senhor, são selos dessa aliança. A Palavra que é pregada no culto nos ensina os termos da aliança, mostra qual é a parte que cabe a Deus, o seu amor e a sua fidelidade, e qual a parte que cabe a nós, que é viver em seus caminhos.

Nossas orações são feitas com base nas grandes promessas do Deus da aliança. Os louvores que entoamos são os do Deus da aliança, o Deus gracioso. As ofertas que trazemos são expressões da nossa gratidão a esse Deus. Por isso, essa questão é extremamente sensível e precisa ser resgatada. O culto hoje é a celebração pública e visível da aliança que temos com Deus. Tudo que fazemos no culto tem a ver com essa aliança.

Quando temos essa visão aliancista do culto, as várias aberrações idolátricas ficam do lado de fora. O culto passa a ter mais sentido, pois entendemos por que estamos reunidos como povo para louvar a Deus.

Devemos cultuar a Deus da forma que ele revelou

Não podemos alterar nem acrescentar nada ao culto a Deus. Ele revelou com clareza na sua Lei o culto que desejava. Encontramos isso com muita clareza no Antigo Testamento. Ele revelou que tipo de ofertas deveriam ser trazidas e de que maneira deveriam ser apresentadas, os animais que poderiam ser sacrificados e a maneira de fazê-lo. Ele falou a respeito de quem poderia oferecer o sacrifício — os sacerdotes e levitas — , determinou a tarefa de cada um deles e instituiu leis e normas para que seu culto expressasse a sua vontade em relação a como Ele deveria ser adorado.

Na época de Malaquias, o povo e os sacerdotes estavam oferecendo a Deus um culto fora do padrão que Ele havia determinado. Traziam animais defeituosos, traziam apenas uma parte do dízimo, ofertas do que sobrava, e cometiam várias outras irregularidades, a ponto de Deus dizer: “Era melhor que um sacerdote dentre vocês fechasse a porta do templo e apagasse o fogo do altar, porque não aceito o culto que me oferecem; ele está fora do padrão que estabeleci”. A mesma coisa acontece hoje. E claro que todas aquelas normas e leis do Antigo Testamento, detalhadas com relação aos sacrifícios e ministérios dos sacerdotes, eram provisórias, temporárias, pois apontavam para o grande sacrifício de Jesus Cristo na cruz do Calvário. O Novo Testamento não prescreve normas detalhadas para o culto, não apresenta uma ordem litúrgica como havia no Antigo Testamento. Contudo, os elementos do culto a Deus são muito claros: as orações, os cânticos, a pregação da Palavra, os sacramentos e outros, os quais o Novo Testamento diz com clareza que fazem parte do culto a Deus. Não podemos inventar elementos de culto. Não nos cabe introduzir no culto invenções humanas, ainda que a pretexto de ser algo prático, de boa intenção, ligado à tradição, à antiguidade ou mesmo algo que todo mundo faz. Isso seria corromper o culto a Deus. Deus zela por seu culto e quer que o adoremos no Espírito e em verdade, com simplicidade e singeleza de coração, sem invenções humanas, sem essas coisas que hoje impregnam e contaminam o culto a Deus, como infelizmente vemos em certas igrejas no meio evangélico: desde objetos supostamente capazes de transferir a graça de Deus, todo tipo de aberrações vindas até mesmo do candomblé e do baixo espiritismo, até a introdução de antigos rituais judaicos no culto. Há segmentos evangélicos que querem trazer de volta ao culto as antigas práticas da comunidade de Israel, quando todas elas já passaram. Devemos adorar a Deus de acordo com sua Palavra, sem inventar partes ou elementos do culto para chegarmos diante do Senhor.

A tendência do homem de deturpar a palavra de Deus (e consequentemente o culto), mediante adição ou subtração, é a razão de Deus ter advertido Israel de nada acrescentar ou retirar de sua Palavra:

Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes; para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o Senhor Deus de vossos pais vos dá. Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando (Dt 4.1,2).

Esta passagem da Escritura — além de outras semelhantes a ela — forma a base da doutrina chamada sola Scriptura [só a Escritura] dos reformadores protestantes. Isto é, somente a Bíblia é a autoridade final em todas as questões de fé e prática.

Portanto, tudo o que o homem faz deve ter por base mandamentos explícitos da Escritura, deve ser deduzido de forma lógica ou clara ou, caso seja circunstancial, ser ordenado pela luz da natureza e da prudência cristã, de acordo com as regras gerais da Palavra.

O Princípio Regulador do Culto

A Bíblia é nossa única regra infalível concernente à fé e prática. Não há área da vida na qual essa verdade seja mais aplicável que ao culto. Antes de entrar na terra prometida, Deus advertiu os israelitas da idolatria e do sincretismo com os cultos pagãos:

Guarda-te, que não te enlaces seguindo-as, depois que forem destruídas diante de ti; e que não perguntes acerca dos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações os seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Assim não farás ao Senhor teu Deus; porque tudo o que é abominável ao Senhor, e que ele odeia, fizeram eles a seus deuses; pois até seus filhos e suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses. Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem
diminuirás (Dt 12.30-32).

Tudo o que não é ordenado pela Escritura no culto a Deus é proibido. Tudo o que a igreja realiza no culto deve ter base em um mandamento divino explícito, ser lógica e claramente deduzido dele, ou derivar-se de um exemplo histórico aprovado. Da mesma forma que na Antiga Aliança nenhum aspecto do culto ou da disciplina da Igreja de Deus foi confiado à sabedoria ou ponderação humana — todas as coisas foram prescritas de modo objetivo pela autoridade divina —, também sob a Nova Aliança, nenhuma outra voz é ouvida na casa da fé, a não ser a do Filho de Deus. O poder da igreja é apenas ministerial e informativo. Ela deve apenas manter a doutrina, fazer cumprir as leis e executar o governo outorgado por Cristo. Nada do que o Senhor estabeleceu deve ser adicionado ou subtraído por ela. A igreja não possui poder deliberativo.

O conceito corrente entre algumas igrejas do movimento “gospel” e de algumas outras igrejas evangélicas é o da permissibilidade de tudo o que não é explicitamente proibido na Bíblia. Embora as igrejas reformadas e protestantes rejeitem esse conceito por não ser bíblico. A Confissão de fé de Westminster diz:

… o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão limitado pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens […] ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.

O que hoje designamos Princípio Regulador do Culto não é algo inventado por Calvino ou Armínio, mas se trata de um imperativo divino. É um aspecto crucial da lei divina. Dizemos que o mandamento de nada acrescentar é parte orgânica da lei toda, como lei e, portanto, toda adição humana ao culto divino, ainda que não contrarie nenhum mandamento de forma particular, é contrária ao mandamento geral de que nada deve ser adicionado.

As circunstâncias do culto

A fim de entender o Princípio Regulador do Culto de forma adequada, devemos perceber a diferença entre ordenanças referentes ao culto e suas circunstâncias, ou aspectos secundários. As ordenanças do culto são recebidas por orientação divina. Toda ordenança do culto é prescrita por Deus. Qualquer coisa relacionada a ele, com significado religioso e moral, deve se basear em ordenanças divinas (explícitas ou implícitas) ou em exemplos históricos aprovados. A igreja recebe todas as ordenanças do culto da parte de Deus, como foram reveladas na Bíblia. Ela deve obedecer a todas as ordenanças divinas e não possui autoridade para adicionar ou subtrair algo ordenado por Deus.

As circunstâncias do culto não dizem respeito ao conteúdo ou à cerimônia, mas referem-se ao que é “comum às ações e sociedades humanas”. A única forma de alguém aprender uma ordenança relativa à adoração é estudar a Bíblia e ver o que Deus ordena. No entanto, as circunstâncias do culto independem de instruções bíblicas explícitas; elas dizem respeito exclusivamente à revelação geral e ao bom senso (“prudência cristã”). Crentes e incrédulos sabem, indistintamente, que proteção e cuidado com temperatura ambiente são úteis para conduzir uma reunião. Também entendem a necessidade de acomodação, iluminação, vestuário etc. Além disso, depreende-se a escolha prévia de um horário para a realização da reunião.
Existem muitos aspectos comuns entre reuniões civis (ou seculares) e religiosas independentes de instruções bíblicas específicas. Essas são as circunstâncias, ou aspectos secundários, do culto.

O Princípio Regulador do Culto é ensinado por toda a Bíblia. Segue abaixo o exame de diversas passagens bíblicas que comprovam a proibição de tudo o que não é ordenado na Escritura a respeito do culto a Deus. As ordenanças do culto devem basear-se especificamente nas afirmações divinas, não em opiniões ou tradições humanas.

A oferta inaceitável

E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiulhe o semblante (Gn 4.3,5).

O que havia na oferta de Caim para torná-la inaceitável aos olhos de Deus? A preferência pela oferta de Abel e a rejeição da de Caim não foi arbitrária; ela se baseou na revelação apresentada a Adão e sua família. É óbvio que Deus revelou essa informação a Adão ao matar animais para cobrir o homem e sua mulher (Gn 3.21). Gerações mais tarde, Noé sabia que Deus aceitaria apenas animais e aves puros como holocausto (Gn 8.20). Caim, diferentemente do irmão Abel, decidiu, à parte da Palavra de Deus, que a oferta de frutos da terra seria aceitável ao Senhor. Deus, porém, rejeitou a oferta de Caim por ser uma invenção de sua mente. Ele não a ordenara; portanto, ainda que Caim fosse sincero no desejo de agradar a Deus, ele a rejeitaria da mesma forma. Deus espera fé e obediência à sua Palavra. Se o povo de Deus pode cultuar o Senhor segundo sua vontade, pelo fato de ordenanças humanas não serem expressamente proibidas, então não poderiam Caim, Noé ou os levitas oferecer a Deus uma salada de frutas ou uma cesta de nabos, por não haver proibição? E se Deus desejasse uma regulamentação estrita de seu culto à parte do Princípio Regulador, não seriam necessárias centenas de volumes (ou talvez milhares deles) para nos informar das proibições? No entanto, Deus, em sua infinita sabedoria, diz: “Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás” (Dt 12.32).

Fogo estranho

E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor (Lv 10.1,2).

Qual foi o pecado deles? Seu pecado foi o oferecimento de fogo estranho, portanto o texto diz que eles ofereceram fogo estranho, o que Deus não lhes ordenara… Contudo, onde Deus o proibira? Onde encontramos que Deus lhes proibiu o oferecimento de fogo estranho, ou a designação do oferecimento de apenas um tipo de fogo? Não existe texto na Escritura que se possa achar, do começo de Gênesis até esse ponto, onde Deus tenha dito terminantemente, de maneira expressa: Oferecerás apenas um tipo de fogo. No entanto, aqui, eles foram consumidos por Deus com fogo, por terem oferecido “fogo estranho”.

Quem rejeita o Princípio Regulador do culto divino enfrenta um problema real para explicar esse texto. Alguns afirmam que Nadabe e Abiú foram condenados por terem oferecido “incenso estranho”, por sua condenação expressa em Êxodo 30.9. Porém o texto não diz “incenso estranho”, mas “fogo estranho”. Outros declaram que lhes faltava sinceridade ou que estavam embriagados. Entretanto, qual razão nos apresenta o Espírito Santo para o juízo deles? Eles ofereceram fogo estranho “o que não lhes ordenara”. Quando se trata do culto a Deus, deve haver apoio da Palavra divina. Todos os elementos do culto a Deus devem basear-se na Palavra de Deus [e] serem ordenados. É insuficiente sua não-proibição […] Quando o ser humano concede respeito religioso a um objeto, por virtude de sua instituição, mesmo sem apoio da parte de Deus, eis uma superstição! Todos
devemos ser adoradores voluntários, mas não pessoas de devoção voluntariosa.

O erro de Davi e de seus homens

E puseram a arca de Deus em um carro novo, e a levaram da casa de Abinadabe, que está em Gibeá; e Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro novo. E levando-o da casa de Abinadabe, que está em Gibeá, com a arca de Deus, Aiô ia adiante da arca. E Davi, e toda a casa de Israel, festejavam perante o Senhor, com toda a sorte de instrumentos de pau de faia, como
também com harpas, e com saltérios, e com tamboris, e com pandeiros, e com címbalos. E, chegando à eira de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus, e pegou nela; porque os bois a deixavam pender. Então a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta imprudência; e morreu ali junto à arca de Deus. (2Sm 6.3-7).

Davi e os homens envolvidos no transporte da arca eram inquestionavelmente sinceros no desejo de agradar a Deus com o intuito de levar a arca a Jerusalém. Todavia, o resultado desse esforço sincero foi o juízo divino: Uzá tentou evitar a queda da arca com sua mão por amar a Deus e se preocupar com sua arca. Porém, a despeito de toda a sua sinceridade e boas
intenções, acendeu-se a ira de Deus, e ele matou Uzá. Por quê? Porque a questão toda era muito ofensiva a Deus. O fato de Uzá ter tocado na arca foi o ponto culminante das ofensas desse dia. Os objetores do Princípio Regulador apostam no fato de Uzá ter sidomorto por algo claramente proibido na lei de Deus (i.e., tocar na arca). Sim, é verdade que Uzá morreu pela violação de uma proibição explícita da lei (Nm 4.15). No entanto, a análise do rei Davi a respeito do que aconteceu de errado naquele dia inclui todos os envolvidos, não apenas Uzá:

Porquanto vós [os levitas] não a levastes na primeira vez, o Senhor nosso Deus fez rotura em nós, porque não o buscamos segundo a ordenança. Santificaram-se, pois, os sacerdotes e os levitas, para fazerem subir a arca do Senhor Deus de Israel. E os filhos dos levitas trouxeram a arca de Deus sobre os seus ombros, pelas varas que nela havia, como Moisés tinha ordenado conforme a palavra do Senhor (1Cr 15.13-15).

Pelo fato de Deus ter ordenado aos levitas para carregar a arca com varas (Nm 4.6,15), era desnecessário proibir os homens de Judá de usar um carro de boi para transportá-la. O rei Davi e seus homens deveriam ter consultado a lei de Moisés e obedecido à sua prescrição. Em vez disso, eles agiram de forma pragmática. Imitaram os filisteus, que haviam usado um carro para levar a arca de volta a Bete-Semes. Quando se trata do culto a Deus, não nos é permitido improvisar, por melhores que sejam as intenções. A sinceridade é importante, mas ela deve estar de acordo com a revelação divina. Mesmo em relação às questões religiosas que nos pareçam pequenas ou  triviais, Deus ordena nossa ação segundo sua vontade revelada, e não inovações concordes com a nossa vontade: “A grande lição para todos os tempos é precaver-se de seguir as próprias sugestões no culto a Deus quando possuímos instruções claras de sua Palavra sobre o modo de cultuá-lo”.

Condenação do culto autônomo

E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração (Jr 7.31; v. tb. 19.5).

O Senhor condena a idolatria e o culto pagão dos filhos de Judá com a declaração: “o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração”. Idolatria, assassinato e sacrifício infantil são explicitamente condenados na lei e nos profetas. Entretanto, Jeremias revela a essência do culto idólatra. Judá cultuava de forma improcedente do coração divino. O culto de Judá não se baseava no mandamento divino. Em vez de cultuar Deus segundo seu mandamento, eles “andaram nos seus próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás, e não para diante” (Jr 7.24). Se os habitantes de Judá tivessem consultado a Palavra de Deus e lhe fossem obedientes, teriam sido poupados da fúria divina.

Lidamos com o Deus muito zeloso que deseja ser cultuado segundo sua estipulação, ou então ele não é cultuado. E não
podemos reclamar. Se Deus é o ser descrito pela Sagrada Escritura, é seu direito inalienável determinar e prescrever como
será servido.

Adoração vã

Então chegaram ao pé de Jesus uns escribas e fariseus de Jerusalém, dizendo: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem pão. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis
vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? (Mt 15.1-3).

Os fariseus eram líderes religiosos respeitados do povo judeu. Eles criam ter a liberdade de fazer adições aos mandamentos divinos. A lei de Deus continha diversas lavagens cerimoniais para representar a purificação dos impuros. Os fariseus adicionaram outras lavagens para destacar e “aperfeiçoar” a lei de Moisés. Não existe mandamento expresso proibindo
essas adições cerimoniais, exceto o Princípio Regulador (e.g., Dt 4.2; 12.31). Elas não tinham fundamentação na Palavra de Deus. Jesus Cristo é o principal defensor do Princípio Regulador. Ele repreendeu fortemente os escribas e fariseus por fazerem adições à lei divina. O que acontece quando homens pecadores acrescentam regras e regulamentos à lei de Deus? Com o passar do tempo, a tradição humana substitui e corrompe a lei divina: “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” (Mt 15.6). A igreja cristã antiga acrescentou regras e cerimônias próprias ao culto a Deus e degenerou na Igreja Católica Romana pagã e idólatra. Se não mantivermos a linha divisória onde Deus a traçou, então, prova a história, a igreja degenerará posteriormente em algo um pouco mais bizarro que uma seita pagã. A repreensão de Cristo referente aos escribas e fariseus aplica-se hoje a quase todos (os chamados) ramos da igreja cristã: “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15.8,9).

Outros exemplos

O conceito de que apenas o que Deus ordena em sua Palavra é permitido no culto encontra-se na Bíblia toda. O rei Saul ofereceu um sacrifício ao Senhor sem autorização divina. Deus ordenou aos sacerdotes, e não aos reis, o oferecimento de holocaustos. O reinado foi retirado de Saul e de sua família para sempre (1Sm 13.8-14). Considere o rei Jeroboão que
estabeleceu um dia próprio de festa, bem como lugares sagrados e ofertas no “mês que ele tinha imaginado no seu coração” (1Rs 12.32,33). O rei Jeroboão era pragmático. Ele não percebia a necessidade de seguir as ordens expressas do culto a Deus. 
O livro de Reis apresenta seu culto autônomo e não autorizado — além da idolatria associada a ele —, como o paradigma do falso culto. Se o rei Jeroboão foi considerado ímpio por estabelecer seu dia de festa (dia santo), certamente a mesma designação é aplicável aos papas, bispos, e ao povo que estabeleceram o natal, a sexta-feira santa etc.

Paulo, na epístola aos Colossenses, concorda com o ensino do Antigo Testamento referente ao culto. Ele condena quem impõe leis dietéticas judaicas e dias santos à igreja (Cl 2.16). Pelo fato de as leis cerimônias terem sido “sombras” que apontavam para o “corpo” — Jesus Cristo —, elas foram abolidas; e dada a falta de autorização para elas, tornaram-se proibidas. A advertência paulina a respeito da filosofia humana é o pano de fundo da condenação do falso culto e das leis humanas (legalismo): “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

Paulo condena as doutrinas e os mandamentos humanos:

“Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade,
alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Cl 2.20-23).

Ele afirma que a adição à Palavra de Deus é apenas uma exibição de “devoção voluntária [e] humildade”. Trata-se de devoção
“voluntária” em lugar do culto segundo a vontade de Deus. As leis estabelecidas pelos homens suprimem a liberdade que temos . A lei moral de Deus é perfeita; adições são desnecessárias. Regras e regulamentos humanos não “concedem honra” ao crente. Deus concedeu à sua igreja um livro de salmos e um dia santo (o dia do Senhor). Pode o homem aperfeiçoar o culto instituído por Deus? Claro que não. É o ápice da arrogância e estupidez imaginar que homens pecaminosos possam melhorar as ordenanças de Deus. Isso é provocar a Deus, porque reflete sobre sua honra, como se ele não fosse sábio o suficiente para designar a forma do próprio culto. Ele odeia todo fogo estranho oferecido em seu templo (Lv 10.11). Uma simples cerimônia pode, com o passar do tempo, conduzir ao crucifixo. Quem contende pela cruz no batismo, não pode obter também o óleo, o sal e o unguento?

A necessidade do Princípio Regulador

A história da igreja tem demonstrado que o povo pactual de Deus tem sido desviado, não raro, da simplicidade do puro culto evangélico para todos os tipos de inovações humanas. Dada a natureza humana decaída e sua inclinação ao pecado, era inevitável que a autonomia humana relativa ao culto pervertesse e suplantasse o culto verdadeiro:

“E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo. Para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sejais a vosso Deus” (Nm 15.39,40).

Muitas pessoas afirmam que o Princípio Regulador divino é bastante restritivo. Declaram que ele confina o espírito humano e reprime a criatividade humana. Dizem tratar-se de uma reação exagerada aos abusos cometidos pelo catolicismo romano. Todavia, examinemos as implicações lógicas da permissão de qualquer coisa não proibida pela Palavra de Deus no culto divino.
A primeira consequência é a substituição da simplicidade e da natureza transcultural do culto puramente evangélico por uma variedade quase infinita de inovações humanas. Pelo fato de Deus não estabelecer mais a linha divisória entre o conteúdo do culto e suas cerimônias, o homem poderia traçar e retraçar essa divisão como lhe agradasse. A igreja desobediente ao Princípio
Regulador divino considera impossível impedir o fluxo de novos conceitos e inovações no culto. As igrejas que abandonaram o Princípio Regulador no final do século XIX e início do século XX provam a veracidade deste ponto. Por não atentar ao Princípio Regulador  é que em muitas igrejas encontramos 
celebração de dias santos (Natal, Páscoa etc.), festa religiosas pagãs, utensílios judaicos, luzes e fumaça no púlpito, etc. Caso se dê ao homem pecador autonomia para escolher como cultuar, o padrão histórico é claro. O ser humano preferirá o culto centrado no homem. O homem pecador é sempre atraído pelo entretenimento (daí a popularidade dos “grito”, e o “pisar forte”, grupos de rock ou forró no louvor durante o culto de celebração, e cantores populares, etc.) e pelo ritual e pompa (catedrais, incensos, velas, sinos, dias santos, vestimentas papistas, liturgias etc.). Quando as inovações humanas terão fim? Elas não cessarão até que a igreja obedeça ao Princípio Regulador do Culto. Deus ordenou um mandamento que o homem não pode ignorar:

“[O] modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão limitado pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens […] nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras”. O falso culto tem origem na mente humana, de acordo
com sua imaginação. O culto verdadeiro origina-se na mente de Deus e é revelado na Bíblia:

“Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o
caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem. Mas não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, mas andaram nos seus
próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás, e não para diante” (Jr 7.23,24).

Calvino, no comentário sobre Jeremias, usou este versículo para condenar todas as inovações perversas do culto papal:

Além do mais, caso se considere a origem de todo o culto papal, perceber-se-á que os primeiros a conceber superstições tão estranhas, foram impelidos apenas por sua audácia e presunção, a fim de poder calcar sob os pés a Palavra de Deus. Portanto, todas as coisas foram corrompidas; porque eles colocaram em operação todas as invenções de seu cérebro. Vemos que os papistas são tão apegados a seus erros até o dia de hoje que preferem a si mesmos e às suas quinquilharias que a Deus. E o mesmo acontece com todos os hereges. O que se pode fazer? Como disse, a obediência deve ser mantida como base da verdadeira religião. Caso desejemos render o culto aprovado por Deus, aprendamos a lançar fora tudo o que é nosso, para que a autoridade divina prevaleça sobre todas as nossas razões. – João Calvino.


Pr. Franco Júnior
Soli Deo gloria

Pragmatismo religioso

“Sabe, porém isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles” (II Tim. 3:1-9).

A Inglaterra, que uma vez já foi conhecida pela sua vitalidade espiritual, agora está mergulhada numa letargia espiritual e a visão missionária dos Estados Unidos está substituindo aquilo que a Inglaterra deixou de lado. Além disso, muita coisa do que Deus está fazendo hoje está acontecendo fora desses dois países. Eu espero que a Igreja no Brasil esteja em constante oração para que, a partir do Brasil, uma outra reforma e um grande despertamento venha e tome conta do mundo.

Não sabemos o que Deus vai fazer no mundo, mas seria muito emocionante se pudéssemos fazer parte daquilo que Ele deseja fazer no Brasil. É maravilhoso ser um cristão e saber que Deus tem todas as coisas debaixo do Seu controle. Todos nós sabemos da necessidade de um grande avivamento, mas ao mesmo tempo existe uma grande polêmica nesses dias sobre a questão. Sem sombra de dúvidas, se convidássemos as pessoas para uma reunião de avivamento, muitas delas viriam com conceitos diferentes do que é avivamento. Assim sendo, faz-se necessário ter uma definição clara em nossa mente do significado desse termo. Qual a diferença entre avivamento e avivalismo, se assim podemos chamar?

Avivalismo e Pragmatismo

Avivalismo, especialmente na tradição deixada por Charles Finney, é, na realidade, um fenômeno americano e queremos tratar de parte desse fenômeno. Não somente porque é um produto feito na América, mas porque muitos dos movimentos que estão vindo dos Estados Unidos para outras partes do mundo têm essa visão característica de entender avivamento segundo o modelo de Charles Finney.

Esse modelo tem como base o que nós chamamos de pragmatismo. Se você for abrir um negócio você tem que ser pragmático e se você vai criar uma família, existe uma série de considerações práticas que você precisa sempre ter em mente; e, certamente, o mesmo se aplica quando nós estamos fundando uma Igreja e queremos desenvolvê-la.

Todos sabemos que há preocupações práticas que devemos considerar, mas o pragmatismo é uma filosofia que empurra para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”

Quais os perigos do pragmatismo? Voltando para o texto de II Tim. 3:1-9, consideraremos primeiramente os aspectos relativos à nossa chamada para o ministério. Vejamos, então, o contexto do nosso ministério. Paulo se refere a esse contexto como sendo o dos “últimos dias”. Sabemos que os “últimos dias” começaram com o tempo dos apóstolos, e terminarão com a segunda vinda do nosso Senhor. Portanto, estamos vivendo nos “últimos dias”, como, também, Timóteo estava vivendo nos “últimos dias”. Qual é o contexto, então, do ministério nesse período entre as duas vindas de Cristo? Paulo diz, em primeiro lugar, que nos últimos dias os homens serão amantes de si mesmos.

Narcisimo e Auto-Estima

Christen Lash, um sociólogo americano bastante conhecido, escreveu um livro sobre a cultura americana cujo título é: “O culto do Narcisismo”. Essa é uma acusação difícil de se fazer, porque o que ela implica é que a cultura americana é uma cultura onde as pessoas se endeusam. E como vocês se lembram “Narciso” é o nome daquele jovem da lenda grega que costumava admirar o seu próprio reflexo no espelho das águas. Mas isso não somente é parte da nossa cultura, como também se tornou parte das nossas igrejas. Muitos dos movimentos que se entitulam “avivados”, em nossos dias, simplesmente estão reavivando o narcisismo, ou seja: a adoração do “eu”. Isso pode ser visto na declaração de um desses pastores que afirmou: “A Reforma errou porque foi centralizada em Deus e não no homem, como devia ser”. Esse pastor escreveu um livro cujo título é: “Crendo no Deus Que Crê em Você”. Uma certa ocasião, trouxemos esse cidadão para falar no nosso programa de rádio. Então eu li essa passagem, onde Paulo diz que as pessoas serão amantes de si mesmas, e perguntei-lhe: “Como você pode dizer às pessoas que a salvação começa com o amor próprio, quando Paulo diz que nos últimos dias as pessoas serão amantes de si mesmas? Não estaria ele dizendo que isso é uma coisa errada, e que nós não devíamos ser amantes de nós mesmos? E como Deus vai nos fazer felizes com esse falso evangelho narcisista?”

O que está acontecendo é que a piedade e a santidade deixaram de ser os referenciais pelos quais julgamos se um movimento é ou não é do Espírito. Assim, o critério que tem sido adotado é: “Funciona? Vai me fazer feliz? Vai me ajudar a criar minha família? Vai consertar o meu casamento?”. Todas essas questões são importantes, à luz das Escrituras, mas não são as mais importantes.

Em segundo lugar, Paulo diz que eles serão amantes do dinheiro. Porque as pessoas amam excessivamente a si mesmas, elas criam o evangelho da auto-estima; e porque as pessoas amam excessivamente o dinheiro, elas criam o evangelho da prosperidade.

Rebeldia, desprezo pelo passado e busca do prazer

Paulo diz ainda que haverá muito orgulho e revolta contra as autoridades. Haverá pessoas desobedientes aos pais. Uma geração não se preocupará com a geração anterior. O cantor Bob Marley escreveu uma música sobre a cultura americana dizendo: “Povo do futuro, onde está o teu passado? Povo do futuro, quanto tempo vocês vão durar?” O povo que não tem passado também não tem futuro. Não sei se Bob Marley era crente, mas com certeza esses versos refletem um ponto de vista bíblico ao tentar se segurar naquilo que pede o seu passado.

Eu quero lhes garantir que se levarem a doutrina bíblica a sério, muitos irmãos e irmãs vão lhes dizer que vocês não estão andando nos passos do Espírito; vão lhes dizer que o Espírito Santo hoje quer fazer uma coisa inteiramente nova, tal como nunca fez no passado. E o que vocês vão falar? Vão falar sobre os grandes avivamentos do passado, sobre a Reforma? Qual o valor disso para os amantes de si mesmos e materialistas? Eles responderão que Deus está fazendo algo completamente diferente nos dias de hoje. Mais uma vez eu quero lembrar que isso faz parte do narcisismo que diz o seguinte: – “eu é que sou importante e aqueles da minha geração é que são importantes e não os que vieram antes de nós”.

E ele diz também que as pessoas serão hedonistas, amantes do prazer, nos últimos dias; como ele diz no verso 4, serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus”. Mais uma vez queremos enfatizar: Se você perguntar em uma Igreja: “Vocês concordam com o hedonismo?” Creio que ninguém vai responder sim a essa pergunta. Mas se você entrar numa livraria evangélica, se ouvir uma emissora de rádio evangélica, se prestar atenção a muitos sermões evangélicos, você ouvirá mensagens afirmando que o Cristianismo é a melhor maneira para você se auto-realizar. Quantos testemunhos temos visto que funcionam como comerciais de televisão? Nos Estados Unidos, temos aquelas propagandas de dieta que mostram uma pessoa antes e depois da dieta. Muitas vezes, os testemunhos dos crentes são assim: “Antes eu era triste, agora sou feliz; antes eu era deprimido, mas agora eu estou extremamente motivado para viver”. Esses são benefícios maravilhosos, mas, por vezes, a verdade é que nós, como cristãos, nos tornamos tristes. Algumas vezes, o caminho da cruz é o caminho do sofrimento, e nem sempre estamos tão entusiasmados a respeito disso. Apesar de tudo isso, a perspectiva que predomina nos nossos dias é que temos que viver para satisfazer a nós mesmos.

Moralidade sem piedade

No verso 5 do texto destacado, Paulo diz: “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Veja bem! O que Paulo está dizendo é que pode haver uma moralidade sem Deus. Existem pagãos que tem uma vida moral excelente, e há ímpios que acreditam ser errado você trair sua esposa. Há pessoas não cristãs que têm famílias muito boas. Mas será que este é o propósito do cristianismo? Consertar tudo aquilo que está moralmente errado no mundo, ou será que o foco está em Deus, nos Seus mandamentos justos, e no Evangelho pelo qual nós devemos viver?

É esse o contexto do nosso ministério. Então respondamos à pergunta: Qual o nosso chamado para o ministério? O exemplo de Paulo é alguma coisa que temos de imitar nesse sentido. Mas agora perguntamos: Como, historicamente, essa filosofia do pragmatismo dominou o pensamento moderno? A figura mais destacada no cenário evangélico, neste sentido, é a de Carlos Finney. Quantos de vocês já ouviram falar de Charles Finney? Quase todo mundo. Isso é significante porque Finney é uma pessoa muito importante para aqueles que são proponentes do movimento de crescimento da Igreja e do movimento de sinais e prodígios.

Evangelho ou Pragmatismo?

Charles Finney era presbiteriano, mas atacou a Confissão de Fé de Westminster que ele próprio subscrevera. Ele a chamou de: “um papa de papel”. Ele dizia, no século XIX em que viveu: “Nós já somos pessoas muito ilustradas e racionais para acreditar em todas essas coisas aí que a Confissão de Fé está dizendo”. Vejam algumas das coisas que Charles Finney escreveu:

Quando o homem se torna religioso – disse Finney – ele não recebe um poder que não tinha antes, ele simplesmente muda a sua vontade, e resolve seguir, agora, numa direção moral. Religião é obra do homem, não é um milagre e nem depende de um milagre em qualquer sentido; é simplesmente um resultado filosófico do uso correto de técnicas. O homem já possui, por natureza, toda a habilidade necessária para prestar perfeita obediência a Deus, portanto o objetivo do ministro é emocionar as pessoas até que se disponham a tomar essas decisões.

Foi dessa filosofia que nasceu o que ficou chamado naquela época de “novas medidas introduzidas por Finney”. Por exemplo: O sistema de apelo para que as pessoas se manifestem fisicamente e caminhem até à frente em resposta à pregação nasceu com Charles Finney, nesse período. Em sua Teologia Sistemática, Finney nega explicitamente a doutrina do pecado original. Ele diz ainda que a doutrina da substituição vicária de Cristo é uma ficção, e que a justificação pela graça, por meio da fé somente, é “outro evangelho”. Com certeza, é um evangelho diferente daquele que Finney estava pregando.

É isso que Paulo diz a Timóteo, quando fala de pessoas que têm forma de piedade mas negam, entretanto, o seu poder. Afinal de contas, onde reside o poder da piedade? É o poder de Deus para a salvação! E que poder é esse? É o evangelho de Jesus Cristo! Somente o Evangelho pode nos capacitar a viver a vida cristã. Portanto, é possível ter moralidade sem piedade; e esse é o resultado do pragmatismo.

Mais tarde, tornou-se conhecida a idéia de D.L. Moody. Ele disse no século XIX que não faz nenhuma diferença como você leva alguém a Deus; se você conseguir fazer isso, não importa o meio. O importante é levar, de qualquer maneira, a Deus.

Uma vez perguntaram a Moody: Qual é a sua teologia? Ele disse: “Minha teologia? nem sei se eu tenho uma!”. Vejam bem! Moody era um vendedor de sapatos, e um dia ele disse que ao se tornar evangelista não mudou de profissão, o que ele havia feito era trocado de produto.

Como abordamos o pragmatismo corporativo da nossa cultura? Alguns dizem que a contribuição distinta da América para a história da filosofia foi a criação do pragmatismo. Um dos grandes pais do pragmatismo e quem o transferiu da esfera religiosa para a esfera secular foi William James. Ele era filho de pastor; pastor, ele próprio, e também professor da Universidade de Harward. Ele disse: “Faça a seguinte pergunta: Como é que você define que determinada verdade é o que você deve crer?” E acrescentou: “A resposta é que você tem que determinar o seu valor em termos de experiência e resultado”. Então, com princípios pragmáticos, analisou a doutrina de Deus dizendo o seguinte: “Se a doutrina de Deus funciona, então é verdade. O pragmatismo tem que adiar questões dogmáticas porque no começo nós não sabemos qual reivindicação doutrinária vai produzir resultado”.

Acredito que quase ninguém iria marcar essas coisas num exame tipo teste dizendo que acredita nelas, mas, na prática, o que acontece é que esse é o credo do evangelicalismo mundial hoje. Um evangelista americano famoso disse: “Não tente entender, simplesmente comece a desfrutar, porque funciona; eu já tentei”. Ele estava falando a respeito da meditação transcendental da Nova Era. Na década de 50 do nosso século, esse pragmatismo se desenvolveu em termos de pensamento positivo. Foi então publicado um livro chamado “A Mágica do Crer”. Esse livro propõe que há uma certa qualidade mágica no simples ato de crer. Porém, a verdade é outra. No cristianismo, o que salva não é o ato da fé, mas sim o objeto da fé. Nós não somos salvos pela fé, não somos justificados pela fé; nós somos justificados pela justiça de Cristo que nos é imputada. Mas hoje em dia, desenvolveram essa equação de que fé é igual a pensamento positivo. Na realidade, essa última frase que mencionei foi uma citação de Peter Wagner.

Deus como objeto de consumo

Muito bem! Esses conceitos funcionam numa sociedade materialista, que está satisfeita e centralizada no ego; pode funcionar muito bem na América do final do século XX, pode ser até que funcione em São Paulo também, e pode funcionar em Londres. Mas imagine o seguinte quadro: Você vai a um cristão do século I e diz a ele que a razão principal pela qual ele está indo para a boca dos leões é porque o Cristianismo funcionou melhor do que as outras religiões!

Os testemunhos que temos no Novo Testamento são muito diferentes dos testemunhos que nós vemos hoje em dia. No Novo Testamento temos a palavra de testemunhas oculares, que é muito mais importante que o nosso próprio testemunho. O que é que Paulo disse em I Cor. 15? Ele disse: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé… Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Ele não diz “pelo menos vocês têm uma vida feliz e saudável!”. E ele também não está dizendo “Bem! o que é que você pode perder?” Por que Paulo não fez isso? porque ele não era um pragmático. Paulo fundamentava todas as reivindicações da fé cristã no Evangelho verdadeiro.

Temos que nos perguntar: “Será que não estamos usando a Deus? Será que, finalmente, não embarcamos nesse consumismo da nossa sociedade? Será que não estamos tratando a Deus como tratamos um produto?” São perguntas muito importantes que devem ser feitas a nós mesmos. “Será que Deus está nos usando ou nós estamos usando a Deus?”

Reavivamento e Reforma não virão à Igreja até que a mentalidade dos crentes seja desviada desse egoísmo humano, da centralização no homem que Paulo descreve, para o verdadeiro Evangelho e para Deus.

Nos Estados Unidos, temos um adesivo que diz: “Jesus é a resposta”. Os incrédulos fizeram um outro adesivo para retrucar a esse: “Qual é a pergunta?” Considere, agora, o que diz o pragmatismo: “Eu não sei qual é o seu problema, mas qualquer que seja, Deus pode resolver. O seu carro está enguiçado? A sua vida familiar não está progredindo como devia? Deus pode consertar em um piscar de olhos!”. Assim, passamos a consumir a Deus. Nós usamos a Deus, ao invés de amá-Lo, servi-Lo e honrá-Lo.

Muito bem! Então qual é o propósito do nosso ministério? Vejamos o que diz Paulo:

“Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, – que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção para a educação na justiça. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, que não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (II Tim. 3:10-4:5).

O modelo apostólico

Em primeiro lugar, o propósito do nosso ministério é seguir o modelo apostólico. Paulo menciona aqui o seu ensino, a sua maneira de viver, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, e a sua perseverança diante das tribulações. Perseguições? Sim! É o que ele diz no verso 12. Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Será que é isso o que estamos ouvindo hoje? Ou será que estamos ouvindo outra mensagem? Algumas vezes você vai pensar que não está dando certo, que as coisas não estão funcionando como deveriam, como lemos em Romanos, capítulo 7. Nós sofreremos como cristãos, e ainda vamos sofrer com os nossos pecados.

A proclamação da Lei e do Evangelho

Além de seguir o seu exemplo, Paulo quer que Timóteo também se firme naquelas verdades que aprendeu quando era jovem. Veja que Paulo, ao invés de nos levar à questão do pragmatismo: “Será que funciona?”, ele nos conduz para as Escrituras. Ele diz: “’prega a Palavra’, com muita paciência instruindo as pessoas. Porque haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina. Ao contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como quem sente coceira nos ouvidos” (4:3).

Vejam! sempre temos coceira nos ouvidos. Pragmatismo não é uma coisa nova. Na realidade já foi praticado desde o jardim do Éden. Quando Eva viu que a árvore era agradável para se ver, para descobrir o conhecimento e desejável para trazer entendimento; então ela tomou do fruto e comeu. O que significa para nós “pregar a Palavra”? O que Paulo quer dizer no verso 5 “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista”?. O que ele quer dizer com isso, “pregar a Palavra”? Vez após vez, Paulo e os demais escritores bíblicos nos dizem que isso é a proclamação da lei. Na verdade, é pela proclamação da lei santa de Deus que nós somos tocados e feridos. A lei de Deus vem até nós e ela não vem dizendo assim: “Eu vou transformar a tua vida numa vida feliz!”, ela não vem dizendo: “Vou te dar prosperidade!”. Na realidade, a lei vem para nos dizer exatamente aquilo que Deus tem dito que requer de nós. A lei nos confronta com a glória de Deus e a nossa pecaminosidade torna isso aterrorizante!

Finalmente, o Evangelho vem e causa também impressão em nós. Há uma Igreja no Estado do Arizona, cujo pastor, numa entrevista que foi publicada na revista Newsweek, disse: “As pessoas hoje em dia não estão preocupadas com doutrinas como justificação, salvação ou expiação. Nos dias de hoje, ninguém entende esses termos. O que nós precisamos fazer é atender as necessidades das pessoas!”

Imaginem um professor! Vocês não acham que seria muito estranho se o professor chegasse dizendo assim: “Não posso ensinar o alfabeto para esta criança porque ela ainda não sabe português”. Esse é o tipo de argumento que esse pastor estava apresentando. Tanto que o que hoje se passa com o nome de pregação, na realidade, não é pregação da Palavra. Porque não apresenta nem a Lei nem o Evangelho. Esses pastores começam decidindo o que é que as pessoas de sua igreja desejam ouvir. Quais são os pontos que estão em moda hoje? Quais são as necessidades das pessoas dos dias de hoje? E aí, então, eles vão às Escrituras e procuram e acham passagens que podem ser usadas para apoiar essa necessidade, ao invés de, indo ao texto, perguntarem primeiro como a santidade de Deus nos convence do nosso pecado e como o Evangelho de Cristo pode ser tão claro que até pecadores como nós podem se arrepender e crer.

Mas vocês, irmãos e irmãs, ouçam o que Paulo diz, sejam sóbrios em todas essas coisas, preguem a palavra, suportem as aflições, façam o trabalho de evangelista, e cumpram cabalmente o ministério.


Michael Horton

Princípios de Deus para o casamento

Meu espanto ainda é grande quando vejo que poucos “crentes” conhecem o princípio de Deus para o casamento, quase sempre deparo-me com pensamento de casais desejando a separação ou jovens me perguntando por que não podem praticar sexo antes do casamento de eles se “amam”.

Como seria salutar a todos se ao invés de perder tanto tempo nas rede sociais, investíssemos nosso tempo no conhecer ao Senhor.

Paulo responde algumas perguntas que ainda hoje são feitas pela igreja. O capitulo 7 de I Coríntios é a mais longa discussão sobre sexualidade e assuntos correlatados em todas as cartas de Paulo. As instruções ali mencionadas, não se encontram em nenhuma outra parte de seus escritos.

Neste capitulo, Paulo começa a responder as perguntas da igreja local, não é um tratado teológico sobre celibato e casamento, mas respostas diretas à algumas perguntas específicas.

Quanto aos assuntos sobre os quais vocês escreveram, é bom que o homem não toque em mulher, – 1 Coríntios 7:1

É preciso ressaltar que Paulo não esgota seu ensino sobre casamento aqui.

Antes de iniciarmos assunto, é necessário entendermos algumas expressões paulinas neste capitulo.

Digo isso como concessão, e não como mandamento. – 1 Coríntios 7:6

Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: que a esposa não se separe do seu marido. – 1 Coríntios 7:10

Aos outros eu mesmo digo isto, e não o Senhor: se um irmão tem mulher descrente, e ela se dispõe a viver com ele, não se divorcie dela.
1 Coríntios 7:12

Quanto às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou meu parecer como alguém que, pela misericórdia de Deus, é digno de confiança. – 1 Coríntios 7:25

Em meu parecer, ela será mais feliz se permanecer como está; e penso que também tenho o Espírito de Deus. – 1 Coríntios 7:40

Paulo faz uma distinção entre o que Cristo ensinou e o que ele está ensinando. O que Cristo ensinou ele não vai tratar novamente, pois o assunto já está decidido. Porém, aquilo que Jesus não ensinou, Paulo vai tratar dando orientação apostólica e inspirada para a igreja. Portanto não existe qualquer divergência entre Cristo e Paulo.

Paulo precisa lidar com algumas perguntas que Jesus não havia tratado. Quando uma questão levantada pela igreja de Corinto já havia sido tratada por Cristo, Paulo se referia as suas Palavras, mas quando a pergunta dos coríntios não houvesse sido tratada por Cristo, Paulo respondia à igreja com autoridade apostólica.

Os assunto que Jesus tratou sobre casamento e divórcio estão registrado em:

“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’.
Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”. – Mateus 5:31,32

Tendo acabado de dizer essas coisas, Jesus saiu da Galiléia e foi para a região da Judéia, no outro lado do Jordão.
Grandes multidões o seguiam, e ele as curou ali. Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo? ” Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe”. Perguntaram eles: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora? ” Jesus respondeu: “Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio. Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério”.
Os discípulos lhe disseram: “Se esta é a situação entre o homem e sua mulher, é melhor não casar”. Jesus respondeu: “Nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite”. – Mateus 19:1-12

Então Jesus saiu dali e foi para a região da Judéia e para o outro lado do Jordão. Novamente uma multidão veio a ele e, segundo o seu costume, ele a ensinava. Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova, perguntando: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher? ” “O que Moisés lhes ordenou? “, perguntou ele. Eles disseram: “Moisés permitiu que o homem desse uma certidão de divórcio e a mandasse embora”. Respondeu Jesus: “Moisés escreveu essa lei por causa da dureza de coração de vocês. Mas no princípio da criação Deus ‘os fez homem e mulher’.
‘Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’. Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe”. Quando estava em casa novamente, os discípulos interrogaram Jesus sobre o mesmo assunto. Ele respondeu: “Todo aquele que se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério contra ela. E se ela se divorciar de seu marido e se casar com outro homem, estará cometendo adultério”. – Marcos 10:1-12

“Quem se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher estará cometendo adultério, e o homem que se casar com uma mulher divorciada do seu marido estará cometendo adultério”. – Lucas 16:18

Quando Paulo diz que agora não é o Senhor, mas ele, é porque aquele assunto Jesus não havia tratado e agora ele irá tratar.

Ao responder as perguntas, Paulo tem em mente três grupos distintos:

  1. Cristãos casados com cristãos – 7:1-11
  2. Cristãos casados com não cristãos – 7:12-24
  3. Cristão não casados – 7:25-40

Cristão casados com cristãos – 7:1-11

Na igreja de Corinto havia dois  extremos. Um grupo pensava que sexo era pecado, mesmo no casamento, como ainda hoje alguns pensam. Esse grupo defendia que o celibato é um estado moralmente superior ao casamento.

O outro grupo, talvez formado pela maioria dos judeus, julgava que o casamento não era opcional, mas sim compulsório, obrigatório.

Para Paulo, tanto o casamento quanto a celibato são  dons de Deus, Paulo combateu os dois extremos.

Dois assunto são abordados por Paulo aqui, a pureza do casamento 7:1-9 e sua duração 7:10-11.

A pureza do casamento – 7:1-9

Paulo proíbe a multiplicidade de parceiros no casamento, ou seja, tanto a poligamia quanto a poliandria. Paulo ressalta o aspecto singular do casamento, “cada um deve ter a sua esposa, e cada uma o seu marido”.

Paulo proíbe a união homossexual (7:2). Quando Paulo diz que cada um tenha a sua esposa e cada uma tenha seu marido, fica claro a ideia de uma relação heterossexual. As relações homossexuais eram  algo comum no tempo de Paulo. mas ele define essa prática como uma paixão infame, um erro, uma distorção mental reprovável, uma abominação à Deus. A relação homossexual já é aprovada civilmente em muitos lugares, mas jamais será chancelada pelas leis divinas. O “politicamente correto” não é correto diante de Deus. Uma decisão não é ética apenas por ser legal.

Paulo proíbe o celibato compulsório (7:1). Paulo escreve: “… bom que o homem não toque em mulher…“. Essa expressão tem o sinônimo de casar-se.  O celibato é permitido, mas não ordenado. Nem todos tem o do do celibato (7:7-9). É por isso que a igreja romana enfrenta tantos problemas com a sexualidade de seus sacerdotes. O celibato não tem base bíblica. O celibato não pode ser imposto. Esse é o ensino de Cristo (Mt 19:10-12). O principio estabelecido por Deus desde o principio é que o homem não esteja só (Gn 2:18).

Paulo destaca a completa mutualidade dos direitos conjugais (7:3-4). Paulo vivia em uma sociedade machista, mas ele quebra esse paradigma da cultura prevalecente e afirma a igualdade dos direitos conjugais. Paulo diz: ” O marido conceda à esposa o que lhe devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao marido” (7:3).  Paulo está falando do relacionamento sexual, o dever habitual para ambos. Diante de Deus, o sexo fora do casamento é pecado, mas no casamento, a ausência de sexo também é pecado. Marido e esposa tem direitos assegurados por Deus de desfrutarem a plenitude da satisfação sexual no contexto sacro do casamento.

Paulo prossegue afirmando: ” A mulher não tem poder sobre seu próprio corpo, e sim o marido; também, semelhantemente, o marido não tem poder seu seu próprio corpo, e sim a mulher” (7:4). O conceito divino, é que o sexo é um direito legítimo do cônjuge.

Paulo vai mais profundo nessa questão quando escreve: “Não vos priveis um ao outro” (7:5a). A pratica do sexo no casamento é uma ordem apostólica. A ausência de sexo no casamento é pecado. Hernandes Dias Lopes [1] citando Charles Hodge diz que nada poderia ser mais estranho à mente do apóstolo Paulo do que ver os cristãos enchendo os mosteiros e conventos da igreja medieval.

Paulo afirma que o casal só pode se abster de sexo quando ambos estão em sintonia a respeito da decisão de que por um curto espaço de tempo, irão dedicar-se expressamente a oração. Muitos casais cometem erros gravíssimos, dando desculpas infundadas para “fugir” da relação sexual, alegando cansaço, dor de cabeça, etc. A bíblia ensina que negligencia sexual para com seu cônjuge é pecado. Sempre que ensino este mandamento alguns casais perguntam-me: “Mas se realmente um dos cônjuges estiver realmente cansado?“. Se o cansaço for uma frequência que traga a interrupção da relação, há uma inversão de valores que deve ser corrigida imediatamente para que nada venha afastar o casal, nem oração, nem trabalho, nem filhos, nem os pais, etc. Há ainda casos de pessoas que se escondem atrás de uma falsa espiritualidade para sonegar ao cônjuge a satisfação sexual. Isso está em desacordo com o padrão bíblico. Mesmo quando a abstinência for por causa de oração, Paulo não recomenda que este período seja longo. Ele diz: “[…] e, novamente vos ajunteis” (7:5).

Paulo conclui dizendo: “[…] para que satanás não vos tente por causa da incontinência” (7:5). Sempre que um casal descumpri esse mandamento, o diabo entra na vida do casal e arrebenta com o casamento, é quando muitos se perguntam, “onde foi que eu errei?“.

A duração do casamento – 7:10-11

Não sei responder quantas vezes por ano sou interpelado sobre a duração do casamento, casais me questionam se realmente não podem separar-se, os “motivos” para separação são inúmeros, na grande maioria sem fundamento, sem razão de ser, desejam separar-se apenas porque na verdade são incapazes ou simplesmente não desejam cumprir o que a palavra de Deus determina para o casamento.

Paulo diz: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do seu marido” (7:10). O Senhor já havia tratado do assunto do divórcio (Mt 19:3-12), não é necessário Paulo tratar novamente. O casamento deve durar enquanto durar a vida (7:39-40).

As mesmas perguntas que muitos fazem hoje, a igreja de Corinto também fez.

  • O que fazer se eu estiver arrependido de ter casado?

Há muitos casais nesta situação dentro das nossas igrejas. Há pessoas que depois de terem casado reconhecem que fizeram uma grande besteira. O que fazer agora? Paulo responde com um desafio aos casais que veem poucas ou nenhuma esperança em seu casamento: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do seu marido” (7:10-11). Casou, permaneça casado. Busque no Senhor e na sua palavra formas de transformar o casamento conforme deve ser, segundo as escrituras.

  • O que fazer quando a situação se torna insustentável?

Há casamentos que adoecem a tal ponto que a decisão de permanecerem juntos pode ser arriscada, já vi casos que é melhor, até para garantir saúde emocional, a separação. Para esses casos Paulo oferece duas soluções. A primeira solução: separe, mas fique sozinho. (7:11a). A segunda solução: faça a reconciliação (7:11b). Contudo, de maneira algumas o apóstolo apoia o divorcio.

Paulo reafirma assim o ensino de Jesus de que o divórcio só é permitido para o cônjuge que foi vítima de infidelidade conjugal (Mt19:9).  O ensino bíblico é que “[…] o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19:6). Deus colocou muros ao redor do casamento não para fazer dele uma prisão, mas um lugar seguro.

Cristãos casados com não-cristãos – 7:12-24

Antes de mais nada, Paulo não está tratando aqui de casamento misto (cristão casou com não-cristão). O ensino bíblico sobre isso é bastante claro. O casamento deve ser no Senhor (7:39). Para Paulo, namoro misto constitui um ato de desobediência aos preceitos divinos.

Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? – 2 Coríntios 6:14,15

Algumas pessoas na igreja de Corinto se converteram ao evangelho depois de casadas. Essa é a problemática que Paulo trata aqui. A igreja levanta a seguinte pergunta: “Devemos permanecer casados com nossos cônjuges incrédulos?“. Paulo responde com um SIM. “Aos mais digo eu, não o Senhor…” (7:12-13). Aqui o Senhor não havia tratado dessa matéria. Agora é Paulo que vai tratar do assunto, e ele diz: “[…] se algum irmão tem mulher incrédula, e essa consente em morar com ele, não a abandone; e a mulher que tem marido incrédulo, e este consente em viver com ela, não deixe o marido” (7:12-13).

É um ato de desobediência um cristão casar-se com um incrédulo, Mas se a pessoa se torna cristão depois de ter se casado, ela não não pode usar esse acontecimento como justificativa para a separação. Ao contrário! Ela precisa exercer a influência que tem como cristã para transformar seu lar e levar seu cônjuge à conversão (7:17-24). Paulo diz que a conversão não altera nossas obrigações sociais.

A dissolução do casamento – 7:15

Há casos em que o cônjuge incrédulo se recusa a conviver com o cônjuge crente. Caso o cônjuge incrédulo tome a iniciativa de separar-se do cônjuge crente, este fica livre do jugo conjugal (7:15). John Stott diz:

Se o cônjuge incrédulo desejar permanecer casado, então o cônjuge crente não deve recorrer ao divórcio. Mas se o cônjuge incrédulo não desejar permanecer casado, então o cônjuge crente está livre para divorciar-se e até casar novamente. – John Stott [2]

Em resumo, dos assuntos não tratados por Jesus, Paulo esclarece que só por abandono é permitido o divórcio aos cristãos. A regra geral, é que só há duas condições aceitas para o divórcio do cristão: infidelidade (Mt 19:9) ou abandono (7:15). A confissão de fé de Westminster retifica a infidelidade e o abandono como os únicos motivos para o divórcio e um novo casamento.


Notas:

[1] Henandes Dias Lopes, 1 Coríntios – Comentários expositivos, Hagnos

[2] John Stott, Grades questões sobre sexo.

1 Corintios, Simon Kistemaker, cultura cristã

Soli Deo gloria

Somonia

Esse comportamento derivou o seu nome de Simão, o mágico, um personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais ele impusesse as mãos (At 8.18-24). Assim, a simonia veio a se referir à concessão ou obtenção de qualquer coisa espiritual ou sagrada mediante remuneração, fosse ela monetária ou de outra espécie. Em outras palavras, era a compra e venda de coisas religiosas. Cometia esse pecado quem oferecia e quem recebia pagamento em troca de um bem espiritual ou eclesiástico. Na Idade Média, referia-se principalmente ao comércio de cargos da igreja. Um papa que se notabilizou por sua luta incessante contra esses males foi Hildebrando, ou Gregório VII (1073–1085), que adotou como lema de seu pontificado as contundentes palavras de Jeremias 48.10: “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente!”.

Curiosamente, em certo sentido a Reforma Protestante surgiu como consequência de dois casos de simonia. Um deles foi a compra do arcebispado de Mainz, ou Mogúncia, na Alemanha, pela poderosa família Hohenzollern, mediante uma negociação questionável com o papa Leão X envolvendo altas somas de dinheiro. O segundo caso ocorreu quando o novo arcebispo (e futuro cardeal) Alberto de Brandenburgo promoveu uma venda especial de indulgências, cujos rendimentos foram utilizados em parte para saldar a dívida da compra do arcebispado, sendo a outra parte entregue ao papa para financiar a construção da catedral de São Pedro, em Roma. A reação de Martinho Lutero contra esse comércio do perdão, mediante suas Noventa e Cinco Teses, foi o estopim da Reforma.

Durante séculos, o ministério protestante foi caracterizado por elevados padrões éticos, especialmente na sensível área das finanças. Seguindo o exemplo de Cristo e seus apóstolos (At 20.33s; 2Co 11.7), a maior parte dos pastores e líderes procuravam realizar o seu trabalho como uma expressão de serviço desinteressado a Deus e às pessoas, isento de ambições materiais. Mesmo indivíduos de grande projeção, como avivalistas e evangelistas de massa (Wesley, Whitefield, Spurgeon, Billy Graham e outros), jamais usaram de seu grande carisma e influência para auferir vantagens pecuniárias e aumentar o seu patrimônio. Tal comportamento sóbrio e consciencioso ocorreu em todos os ramos do protestantismo, tanto os tradicionais ou históricos como, mais tarde, os pentecostais clássicos.

Esse honroso legado sofreu um abalo lamentável e constrangedor no Brasil, a partir da década de 1970, com o surgimento do chamado neopentecostalismo. Firmados numa teologia duvidosa, resultante de uma interpretação tendenciosa e altamente seletiva das Escrituras, os principais líderes desse movimento vêm demonstrando uma atitude em relação ao dinheiro que em nada difere do velho pecado da simonia. Servindo-se do poderoso veículo da televisão e manipulando com habilidade as carências e ambições de uma considerável parcela da população, esses pregadores têm transformado o evangelho e suas bênçãos em mercadoria e fonte de lucro (2Co 2.17; 1Tm 6.5,10).

A recepção de benefícios como a cura, a prosperidade e a felicidade é condicionada à entrega de contribuições, dando-se a entender que as bênçãos serão proporcionais à generosidade do ofertante. Fica inteiramente esquecido o ensino claro de Jesus: “[…] de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10.8). Em consequência disso, surgiu uma geração de pastores-empresários que estão se colocando entre os homens mais ricos do país. Dominados pela ganância condenada com tanta veemência nas Escrituras (1Ts 2.5; Tt 1.7; 1Pe 5.2), estão acumulando grandes fortunas na forma de mansões, fazendas, carros de luxo e, agora, o símbolo máximo dos novos ricos – jatinhos particulares. Eles influenciam de tal forma os seus seguidores que estes, além de não questionarem tal procedimento, acham que seus líderes merecem os privilégios que usufruem.

Não se discute que os obreiros cristãos sejam remunerados condignamente pelo seu trabalho (2Co 8.14). O que se lamenta é a mercantilização da fé, que tantos prejuízos tem trazido para a causa de Cristo ao longo dos séculos, obscurecendo a graça de Deus, o seu favor imerecido. Os modernos simoníacos não só estão manchando para sempre a sua própria reputação, mas também contribuindo para prejudicar a imagem de toda a classe ministerial e das comunidades evangélicas. Suas ações têm produzido e continuarão a produzir reações negativas da imprensa, da opinião pública e dos governantes. Eles fariam bem em considerar as palavras ditas pelos apóstolos a Simão, o mágico – e se arrependerem enquanto é tempo.

Soli Deo gloria

Dízimo, outra vez?

Um dos assuntos mais debatidos hoje dentro das igrejas sem dúvidas é a validade do DÍZIMO, todos os dias vejo cristãos postando nas redes sociais frases contrarias ao dízimo, o que mais chama a atenção não é apenas o posicionamento das pessoas sobre o assunto, mas a fundamentação, TODAS as pessoas que conheço que se dizem contrarias ao dízimo são superficiais biblicamente, inconstantes, alheios a todo corpo e alegam não ser uma prática no Novo Testamento.

Em minha opinião apesar de entender que do ponto de vista neotestamentário o dízimo  não é normativo, tenho percebido que muitos daqueles que advogam a abolição do dízimo  o fazem por razões escusas, cujas motivações principais se devem  a avareza, falta de conhecimento bíblico e/ou adesão ao pluralismo e relativismo religioso.

DIRETO AO PONTO

O dízimo assim como muitas das instruções/mandamentos veterotestamentário são princípios e não meramente um conjunto de regras, vamos entender. Todo o antigo testamento serve de AIO (tutor), Gálatas 3:24 – παιδαγωγος paidagogos. Tutor, i.e., um guardião e guia de meninos. Entre os gregos e os romanos, o nome era aplicado a escravos dignos de confiança que eram encarregados de supervisionar a vida e a moralidade dos meninos pertencentes à elite. Aos meninos não era nem mesmo permitido sair de casa sem a sua companhia até que alcançassem a idade viril.

Para quem acredita que o dízimo é algo imposto pela lei mosaica, deve entender que antes da lei Abraão dizimou.

Esse Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, encontrou-se com Abraão quando este voltava, depois de derrotar os reis, e o abençoou; e Abraão lhe deu o dízimo de tudo. Em primeiro lugar, seu nome significa “rei de justiça”; depois, “rei de Salém” quer dizer “rei de paz”. Sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece sacerdote para sempre. Considerem a grandeza desse homem: até mesmo o patriarca Abraão lhe deu o dízimo dos despojos! – Hebreus 7:1-4

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou seus inimigos em suas mãos”. E Abrão lhe deu o dízimo de tudo. – Gênesis 14:20

Melquisedeque recebeu dízimos – מעשר ma Ìaser = dízimo, décima parte – de Abraão, 2.000 anos antes de Cristo e 700 anos antes da lei mosaica. O costume de pagar o dízimo era muito comum entre os povos semíticos. A forma como este fato foi mencionado parece indicar que se tratava de um costume estabelecido. O voto de Jacó (Gn 28.22) acrescenta ainda mais peso a esta opinião.

O dízimo de Israel consistia de um décimo de toda a produção anual de alimentos e do crescimento dos rebanhos de ovelhas e gado. Era um costume considerado sagrado para Jeová, da mesma forma que o aluguel ou imposto feudal dedicado a Ele que era, realmente, o dono da terra. Certas Escrituras sugerem que esses dízimos consistiam de décimo de tudo que restava das “primícias de todos os frutos da terra”, depois que a oferta sacerdotal havia sido separada (Êx 23.19; Dt 26.1ss). Como a lei não estabelecia a quantidade a ser oferecida como uma oferta das primícias, alguns consideram as regras do dízimo como a definição do que deveria ser pago. Outros consideram o dízimo um complemento destes primeiros frutos. Fontes judaicas indicam que essa segunda hipótese é verdadeira e que as “primícias dos primeiros frutos” geralmente representavam uma quinta parte da produção.

No Pentateuco, a legislação sobre os dízimos era a seguinte:

1. Levítico 27.30-33. Um décimo de toda a produção (safras, frutas, azeite, vinho) e de todos os animais deveria ser dedicado ao Senhor. O dízimo da produção da terra podia ser compensado (ou “remido”) se a ele fosse acrescido um quinto de seu valor. O dízimo dos animais não podia ser compensado. O crescimento do rebanho era calculado e todo décimo animal era considerado santificado para o Senhor. Isso estava de acordo com as instruções dadas a Israel, anteriores ao Sinai, de que os primogênitos dos rebanhos pertenciam ao Senhor (Êx 13.12,13). Tudo o que passasse “debaixo da vara” (Lv 27.32) era designado aos levitas para fazer o que bem entendessem, pois não haviam recebido nenhuma parte da terra como herança (cf. Nm 18.21-32). Além desse dízimo, os levitas pagavam um dízimo (ou oferta alçada) aos sacerdotes, que deveria ser levado ao templo de Jerusalém. Neemias 10.38 sugere que havia uma supervisão dessa divisão de dízimos.

2. Deuteronômio 12.5,6,11,18 (cf. Am 4.4). O dízimo das festas correspondia a um décimo dos nove décimos que restava. Devia ser separado e levado para Jerusalém onde era consumido como refeição sagrada pelo ofertante e seus familiares, junto com o levita que está dentro das suas portas (Dt 12.15). Se a distância era proibitiva, os dízimos podiam ser vendidos e o dinheiro usado para a compra de alimentos ou animais para servirem como ofertas em Jerusalém (cf. Dt 14.22-27).

3. Deuteronômio 26.12-15; 14.28-29. O dízimo trienal ou dízimo da caridade, oferecido durante o terceiro ano, era destinado aos levitas, aos estrangeiros, aos órfãos de pai e às viúvas.
As opiniões diferem em relação a esse terceiro dízimo. De acordo com Josefo ele era, na verdade, um terceiro dízimo oferecido a cada três anos, do qual os levitas e os sacerdotes eram obrigados a participar. Outros afirmam que a cada três anos, o segundo dízimo, ou dízimo da festa, era oferecido aos pobres em casa, invés de ser levado a Jerusalém.
O pagamento do dízimo não era obrigatório, mas uma questão de consciência perante o Senhor. O povo deveria obedecer a estes decretos com todo coração e alma (Dt 26.16). A cada três anos deveria ser feita uma solene declaração no último dia da Páscoa, dizendo o seguinte: “Obedeci à voz do Senhor, meu Deus; conforme tudo o que me ordenaste, tenho feito” (Dt 26.14).

Dízimo nos tempos de Jesus mas ainda na antiga aliança

A nova aliança inicia-se quando Jesus é assunto aos céus, isso significa que as narrativas da vida de Jesus são regidas pela antiga aliança, uma vez que para a nova aliança ter inicio, Cristo precisava morrer.

Por essa razão, Cristo é o mediador de uma nova aliança para que os que são chamados recebam a promessa da herança eterna, visto que ele morreu como resgate pelas transgressões cometidas sob a primeira aliança.

No caso de um testamento, é necessário que comprove a morte daquele que o fez; pois um testamento só é validado no caso de morte, uma vez que nunca vigora enquanto está vivo aquele que o fez. – Hebreus 9:15-17

Embora haja algumas passagens mencionando o termo dízimo no novo testamento, todas as vezes ainda é feita sob a antiga aliança, no entanto Jesus não faz nenhuma exortação contrariando a prática, exemplo:

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. – Mateus 23:23

Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho – Lucas 18:12

Ai de vocês, fariseus, porque dão a Deus o dízimo da hortelã, da arruda e de toda a sorte de hortaliças, mas desprezam a justiça e o amor de Deus! Vocês deviam praticar estas coisas, sem deixar de fazer aquelas. – Lucas 11:42

Na nova aliança

Na nova aliança há uma passagem que refere-se ao dízimo, Hb 7. 1-10; Eis as lições desse texto:

  • O Pai da fé deu dízimo de tudo – v. 2;
  • O pai da fé deu o dízimo do melhor – v. 4;
  • A entrega dos dízimos se deu não por pressão da lei, uma vez que o povo israelita ainda não existia e, portanto, muito menos a lei judaica – v. 6;
  • Hebreus nos faz perceber e reconhecer a superioridade do valor do dízimo que é dado a Cristo (imortal) em relação ao dado aos sacerdotes (mortais) – v. 8;
  • O autor destaca que os que administram os dízimos também devem ser dizimistas – v. 9.

Ser ou não ser dizimista é uma questão de acreditarmos na causa que abraçamos, na “pérola que encontramos.” Se não houvesse a necessidade de dizimar, por que nem Jesus nem os apóstolos não fizeram menção contraria a essa prática? Haja vista que em diversas passagens Jesus e/ou os apóstolos reformularam, anulando algumas práticas veterotestamentárias. Por exemplo, quando quiseram continuar com a prática do que seria adultério, veja como Jesus opôs-se reformulando o conceito:

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’.
Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. – Mateus 5:27,28

Alguns homens desceram da Judéia para Antioquia e passaram a ensinar aos irmãos: “Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos”.
Isso levou Paulo e Barnabé a uma grande contenda e discussão com eles. Assim, Paulo e Barnabé foram designados, juntamente com outros, para irem a Jerusalém tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros. – Atos 15:1,2

Por que Jesus nem os apóstolo não rejeitaram essa prática?

Ainda na Nova Aliança

Embora a palavra dízimo,  δεκατη dekate =  décima parte de algo, não aparece em outras ocasiões da nova aliança, há inúmeras passagens falando de GENEROSIDADE. A bíblia ensina que a igreja  (seus membros) devem doar recursos financeiros, embora não o chame de dízimo, o principio permanece inalterado.

Se alguma mulher crente tem viúvas em sua família, deve ajudá-las. Não seja a igreja sobrecarregada com elas, a fim de que as viúvas realmente necessitadas sejam auxiliadas. Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino, pois a Escritura diz: “Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal”, e “o trabalhador merece o seu salário – 1 Timóteo 5:16-18

O exemplo acima citado menciona que o “obreiro” deve receber SALÁRIO, como poderia receber sem que a igreja venha contribuir ?

O que prevalece na nova aliança realmente não é a obrigatoriedade do cumprimento da lei, mas o principio que ela nos ensinou, ainda acerca não mais de dízimo, mas agora sobre o principio de generosidade Paulo ensina:

Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra. – Romanos 7:6

Assim, por exemplo, quando o apóstolo Paulo dá instruções sobre como devemos dar, ele nunca nos instrui a deixar o dízimo de lado. Ele diz coisas como:

No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que se não façam as coletas quando eu chegar. –  I Co 16.2

E então, o apóstolo Paulo diz em II Coríntios 8.3 que nós deveríamos dar de acordo com a medida de nossas posses:

“Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários.”

E em II Coríntios 9.6-7, o apóstolo Paulo descreve o dar com o qual Deus se deleita:

“E isto afirmo: aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura, com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.”

Assim, a questão aqui não é que nós deveríamos ser governados por porcentagens ou pela lei do antigo testamento. Elas não são obrigatórias. Ao invés disto, nós deveríamos ser governados pela generosidade pródiga e sacrificial que transborda livremente e alegremente.

O ensino de Paulo sobre GENEROSIDADE é que devemos ofertar com coração alegre, sistematicamente e proporcionalmente.

Negar esse principio é negar as escrituras. Hoje muitos crentes não são fiéis a Deus na entrega dos dízimos. Para justificar esta atitude criam vários justificativas e desculpas. Se dependessem deles a igreja fecharia as portas. Não existiria templos, nem pastores, nem missionários, nem bíblias distribuídas, nem assistência social.
Eis as justificativas clássicas dos não-dizimistas:

I. JUSTIFICATIVA TEOLÓGICA
Ah, eu não sou dizimista, porque DÍZIMO é da lei. E eu não estou debaixo da lei, mas sim da graça.
Sim! O dízimo é da lei, é antes da lei e é depois da lei. Ele foi sancionado por Cristo. Se é a graça que domina a nossa vida, porque ficamos sempre aquém da lei? Será que a graça não nos motiva a ir além da lei?
Veja: a lei dizia: Não matarás = EU PORÉM VOS DIGO AQUELE QUE ODIAR É RÉU DE JUÍZO
a lei dizia: Não adulterarás = EU PORÉM VOS DIGO QUALQUER QUE OLHAR COM INTENÇÃO IMPURA…
a lei dizia: Olho por olho, dente por dente = EU PORÉM VOS DIGO: SE ALGUÉM TE FERIR A FACE DIREITA, DÁ-LHE TAMBÉM A ESQUERDA.
A graça vai além da lei: porque só nesta questão do dízimo, ela ficaria aquém da lei? Esta, portanto, é uma justificativa infundada.

II. JUSTIFICATIVA SENTIMENTAL
Muitos dizem: A bíblia diz em II Co 9.7 “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” = espontânea e com alegria.
Perguntamos também: O que estará acontecendo em nosso coração que não permite que não tenhamos alegria em dizimar? Em sustentar a Causa que abraçamos e defendemos?

III. JUSTIFICATIVA FINANCEIRA
“O que eu ganho não sobra ou mal dá para o meu sustento.
1) O dízimo não é sobra = Dízimo é primícias. “Honra ao Senhor com as primícias da tua renda.” Deus não é Deus de sobras, de restos. Ele exige o primeiro e o melhor.
2) Contribua conforme a tua renda para que a tua renda não seja conforme a tua contribuição = Deus é fiel. Ele jamais fez uma exigência que não pudéssemos cumprir.
3) Se não formos fiéis, Deus não deixa sobrar = Ageu diz que o infiel recebe salário e o coloca num saco furado. Vaza tudo. Foge entre os dedos. Quando somos infiéis fechamos as janelas dos céu com as nossas próprias mãos e espalhamos o devorador sobre os nossos próprios bens.

IV. JUSTIFICATIVA ASSISTENCIAL
“Prefiro dar meu dízimo aos pobres. Prefiro eu mesmo administrar meu dízimo.
“ A Bíblia não nos autoriza a administrar por nossa conta os dízimos que são do Senhor. O dízimo não é nosso. Ele não nos pertence. Não temos o direito nem a permissão nem para retê-lo nem para administrá-lo.
A ordem é: TRAZEI TODOS OS DÍZIMOS À CASA DO TESOURO PARA QUE HAJA MANTIMENTO NA MINHA CASA. A casa do Tesouro é a congregação onde assistimos e somos alimentados.
Mas será que damos realmente os “nossos” dízimos aos pobres? Com que regularidade? Será uma boa atitude fazer caridade com a parte que não nos pertence?

V. JUSTIFICATIVA POLÍTICA
“Eu não entrego mais os meus dízimos, porque eles não estão sendo bem administrados.”
Não cabe a nós determinar e administrar do nosso jeito o dízimo do Senhor que entregamos. Se os dízimos não estão sendo bem administrados, os administradores darão conta a Deus. Não cabe a nós julgá-los mas sim Deus é quem julga. Cabe a nós sermos fiéis.
Não será também que esta atitude seja aquela do menino briguento, dono da bola, que a coloca debaixo do braço sempre que as coisas não ocorrem do seu jeito?
Deus mandou que eu trouxesse os dízimos, mas não me nomeou fiscal do dízimo.

VI. JUSTIFICATIVA MÍOPE
“A igreja é rica e não precisa do meu dízimo.”
Temos conhecimento das necessidades da igreja? Temos visão das possibilidades de investimento em prol do avanço da obra? Estamos com essa visão míope, estrábica, amarrando o avanço da obra de Deus, limitando a expansão do Evangelho?
AINDA, não entregamos o dízimo para a igreja. O dízimo não é da igreja. É DO SENHOR. Entregamo-lo ao Deus que é dono de todo ouro e de toda prata. Ele é rico. Ele não precisa de nada, mas exige fidelidade. Essa desculpa é a máscara da infidelidade.

VII. JUSTIFICATIVA CONTÁBIL
“Não tenho salário fixo e não sei o quanto ganho.”
Será que admitimos que somos maus administradores dos nossos recursos? Como sabemos se o nosso dinheiro dará para cobrir as despesas de casa no final do mês?
Não sabendo o valor exato do salário, será que o nosso dízimo é maior ou menor do que a estimativa? Porque ficamos sempre aquém da estimativa? Será auto-proteção? Será desinteresse?

VIII. JUSTIFICATIVA ECLESIOLÓGICA
“Não sou membro da igreja”
Acreditamos mesmo que os nossos deveres de cristãos iniciam-se com o Batismo e a Profissão de Fé ou com a inclusão do nosso nome num rol de membros?
Não será incoerência defendermos que os privilégios começam quando aceitamos a Cristo: (o perdão, a vida eterna) e os deveres só depois que nos tornamos membros da igreja? Somos menos responsáveis pelo crescimento do Reino de Deus só porque não somos membros da igreja?

Para os desigrejados (quem não faz parte de uma igreja local ou denominação), qualquer sistema de contribuição com a instituição religiosa é visto com antipatia, pois são esses recursos que mantêm a instituição eclesiástica. Para alguns igrejados (que pertence a uma igreja local ou denominação) o dízimo não tem sido dado a devida atenção, em virtude dos desafetos com o abuso dos líderes eclesiásticos, criou-se uma repulsa aos assuntos relacionados a dinheiro, dízimos, contribuições para uma igreja local, quando segundo caso é a motivação vale lembrar que os reformadores ao se depararem com o mau uso das doutrinas bíblicas não negaram a validade delas, mas fizeram com que se retornasse a elas como deveria ser, negar as escrituras com base nos erros de autoridades eclesiásticas é negar também a reforma, além do que não se encontra nenhum reformador, pai da igreja ou um grande teólogo refutando tal ensino. Por isso acho que aqueles que negam esse ensino são os mesmos que vivem trocando de igrejas, sem nunca  relacionar-se com o corpo de Cristo, sua igreja.

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. – 2 Timóteo 3:1-5
Portanto, livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece, e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los. Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. – Tiago 1:21-24
Sola Scriptura

Jesus e os pobres, nenhuma semelhança com o socialismo

Hoje a pobreza é quase tão comum quanto as doenças. Na época do ministério terreno de Jesus, essa realidade era muito mais forte. Nos Evangelhos, Jesus curava com muita frequência, principalmente os pobres. Contudo, mesmo encontrando multidões de pobres diariamente, ele só os alimentou em duas ocasiões específicas, não porque simplesmente eles eram pobres, porém porque nessas ocasiões as multidões vieram ouvir o Evangelho cedo de manhã e permaneceram com ele três dias inteiros ouvindo o Evangelho. As multidões passaram tanto tempo ouvindo a Palavra de Deus dos lábios de Jesus que ficou muito tarde, quase de noite, no terceiro dia para voltarem e se alimentarem, pois o lugar em que estavam era deserto e distante, longe de casas e lugares onde poderiam encontrar alimento.

Não há a menor dúvida de que se os adeptos do Evangelho social estivessem no lugar de Jesus, eles alimentariam os pobres já no primeiro dia e todos os dias, ou então utilizariam a maior parte de seu tempo não para proclamar e demonstrar o Evangelho do Reino de Deus, mas para pressionar as autoridades para cobrarem mais impostos para ajudar os pobres.

O Evangelho social dos evangélicos progressistas (ou esquerdistas, petistas, comunistas, socialistas, adeptos da teologia da libertação ou qualquer outro rótulo que eles utilizem) é tão convidativo quanto a visitação de um anjo de luz trazendo um evangelho cheio de propostas interessantes para os pobres. Mas assim como nem tudo que reluz é ouro, nem tudo o que tem aparência angelical é de Deus.

Tal qual os evangélicos progressistas, a igreja primitiva tinha também uma preocupação obsessiva de ajudar todos os pobres da sociedade? A igreja primitiva tinha como principal missão pressionar o governo para “ajudar” todos os pobres? Não. A igreja primitiva não só não ajudava todos os pobres da sociedade, como também era extremamente seletiva na assistência aos pobres que estavam em seu meio.

Quando a nação de Israel estava passando por uma crise geral de fome, Paulo mobilizou as igrejas de outros países para ajudar — não os pobres em geral da nação de Israel, mas somente as igrejas, que também estavam passando necessidade. E mesmo nas igrejas, a ajuda não era dada a qualquer pessoa.

A ajuda de Paulo era distribuída dentro das igrejas judias. E qual era o padrão que Paulo utilizava para ajudar quem era da igreja? Uma boa pista de como Paulo e as igrejas procediam na assistência aos pobres encontra-se no texto em que Paulo trata da questão das viúvas pobres nas igrejas. De acordo com Paulo, essas viúvas pobres só poderiam receber assistência material da igreja se tivessem demonstrado bom testemunho durante sua vida. Paulo recomenda a Timóteo, um dos pastores sob sua liderança:

“Cuide das viúvas que não tenham ninguém para ajudá-las. Mas, se alguma viúva tem filhos ou netos, são eles que devem primeiro aprender a cumprir os seus deveres religiosos, cuidando da sua própria família. Assim eles pagarão o que receberam dos seus pais e avós, pois Deus gosta disso. A verdadeira viúva, aquela que não tem ninguém para cuidar dela, põe a sua esperança em Deus e ora, de dia e de noite, pedindo a ajuda dele. Porém a viúva que se entrega ao prazer está morta em vida. Timóteo, mande que as viúvas façam o que eu aconselho para que ninguém possa culpá-las de nada. Porém aquele que não cuida dos seus parentes, especialmente dos da sua própria família, negou a fé e é pior do que os que não crêem. Coloque na lista das viúvas somente a que tiver mais de sessenta anos e que tiver casado uma vez só. Ela deve ser conhecida como uma mulher que sempre praticou boas ações, criou bem os filhos, hospedou pessoas na sua casa, prestou serviços humildes aos que pertencem ao povo de Deus, ajudou os necessitados, enfim, fez todo tipo de coisas boas.” (1 Timóteo 5:3-10 NTLH, o destaque é meu.)

Contudo, os evangélicos progressistas têm ambições muito mais elevadas para “ajudar” as viúvas e outros necessitados. Eles não querem simplesmente que as igrejas ajudem todos os pobres. Eles querem que o governo faça isso. Na proposta deles, os nossos recursos, através de impostos, seriam redistribuídos pelo governo para atender às necessidades dos pobres, quer esses necessitados mereçam ou não. Se não é justo quem trabalhou não receber o que merece, também não é justo o imposto do trabalhador se escoar na assistência a pobres que vivem na imoralidade ou outros tipos de perversão. Afinal, ao contrário das pregações “proféticas” dos progressistas, a corrupção, o mal, a imoralidade e a perversão não são qualidades exclusivas dos ricos.

A Bíblia é bem clara que todos são pecadores: ricos e pobres, pretos e brancos, etc. A Bíblia também é bem clara na orientação para a igreja de quem dos necessitados merece a assistência da igreja. A igreja tem o chamado de ajudar, sob a direção da Palavra de Deus, e tem o chamado igual de fazer uma triagem de quem merece e não merece ajuda. Só os pobres moralmente aptos são qualificados. Tal norma não era legalismo, mas medida prudente. Seu autor, o apóstolo Paulo, era um ardente combatente contra o legalismo, sempre condenando-o. Assim, quem tentasse julgar essa triagem necessária como legalismo estaria apenas fazendo julgamento precipitado e cruel da preciosa direção de Paulo à igreja em suas responsabilidades para com os necessitados.

Precisamos então aprender com Jesus a ter como principal preocupação levar os Evangelho aos pobres. E precisamos aprender com Paulo a ajudar os pobres com amor e prudência. É claro que essa tarefa só pode ser melhor realizada pela igreja. Por mais boa vontade que o governo tenha em cumprir tudo o que os progressistas desejam, a fria máquina governamental jamais saberia aplicar os princípios bíblicos, pois não pode substituir nem a Deus nem a igreja, embora lute incansavelmente para ocupar ambas as posições.


Autor: Júlio Severo

Homossexualidade na bíblia

MALAKOI E ARSENOKOITAI

Recentemente levei à igreja um estudo intitulado “O que a bíblia ensina sobre homossexualidade?” e dentro do contexto que estudávamos essas palavras foram e são necessárias para uma compreensão real sobre o assunto.

Malakoi e arsenokoitai, podem ser encontradas em duas passagens diferentes do Novo Testamento.

Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais (μαλακος malakos e αρσενοκοιτης arsenokoites) passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. (1 Coríntios 6:9,10 – NVI)

Sabemos que a lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. Também sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os que praticam imoralidade sexual e os homossexuais (αρσενοκοιτης arsenokoites), para os seqüestradores, para os mentirosos e os que juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina. (1 Timóteo 1:8-10 – NVI)

Quase todas as versões da bíblia ligam explicitamente arsenokoitai ao comportamento homossexual. A outra palavra em questão, malakoi, já não tem a mesma uniformidade, mas ao analisarmos o original grego e as principais traduções , podemos observar que ela se refere a algum tipo de pecado relacionado à homossexualidade.

Antes porem de entrarmos diretamente no assunto em questão, é necessário considerarmos algumas questões relacionadas à definições de palavras bíblicas.

  1. As versões bíblicas estão geralmente certas, em especial quando dizem, em essência, a mesma coisa. Pense nisso: cada versão da bíblia foi elaborada por uma equipe de estudiosos com especialização em erudição bíblica e nas línguas originais. Isso não significa que eles não cometem erros ou que não podem aprender coisas novas, que ignoraram. Mas significa que, depois de ler algum comentários e/ou examinar algum artigo na internet, você não conhecerá o mundo antigo ou o grego koinê melhor que eles conheciam. Nossas traduções da bíblia, por mais imperfeitas que possam ser, são traduções fieis e confiáveis das línguas originais. Não precisamos de decodificação.
  2. As palavras têm um campo semântico. Isto é uma maneira sofisticada de dizer que as palavras nem sempre significam exatamente a mesma coisa. Usando um exemplo da bíblia, pense na palavra mundo. Essa palavra pode se referir ao caminho caído da humanidade que não devemos amar (1 João 2:15-17), ou à raça humana caída que Deus amou tanto (João 3:16). Ao determinar o que as palavras específicas significam na bíblia, pode ser proveitoso ver  a mesma palavra usada em outro texto grego. Mas precisamos ser cuidadosos. Os exemplos que achamos são frequentemente de autores diferentes, que escreveram de lugares e para pessoas diferentes e viveram em séculos diferentes. Ver como uma palavra discutida foi usada no mundo antigo nos coloca no território das definições, mas raramente estudos de palavras serão decisivos, em especial se tivermos de ir muito longe do texto. Então, como saberemos o que as palavras significam?
  3. O contexto é o segredo. O passo mais importante para definir palavras difíceis é ver como elas são usadas no fluxo do texto. Que outras palavras estão ao seu redor? Que argumento o autor está tentando formular? Como ele usa a palavra em outros lugares do mesmo texto? A palavra é usada em outro texto pelo mesmo autor? O significado lexical é melhor determinado por olharmos os círculos concêntricos que começam pequenos e se movem para fora. Platão, um filosofo grego que viveu 400 anos antes de Paulo, não é tão relevante para entendermos Paulo quanto Filo, um filosofo judeu quase contemporâneo de Paulo. E pesquisar a obra de Filo não é quase tão crucial quanto entender a formação cultural de Paulo, examinar as sentenças de Paulo e traçar os argumentos de Paulo.

Mas o que realmente essas duas palavras significam?

Arsenokoitai

Na literatura grega existente, não há exemplos de arsenokoitai anterior ao uso que Paulo fez desse termo em 1 Coríntios e 1 Timóteo. A palavra é composta de homem (arsên) e cama (koitê) e poderia ser traduzida, literalmente, por “deitadores de homens na cama” ou “aqueles que levam machos para a cama“. Muito provavelmente Paulo cunhou a palavra a partir das proibições contra o comportamento homossexual em Levítico 18 e 20. Lembre da formação cultural de Paulo: ele era um judeu, da tribo de Benjamim, instruído pelo famoso Gamaliel e educado de acordo com a forma mais rígida da lei de seus pais (Atos 2:23; Filipenses 3:5-6). Paulo conhecia as Escritura muito melhor do que conhecia quaisquer outros escritos. Se as peças de Shakespeare estão permeadas de alusões e imagens bíblicas, o que dizer dos escritos e pensamentos de  Paulo – um fariseu treinado impecavelmente e o eminente teólogo da igreja primitiva?

Não é necessário que você seja um erudito em grego para ver como Paulo obteve de Levítico a palavra arsenokoitai. Essa palavra é quase certamente extraída do código de santidade de Levítico. É claro que em 1 Timóteo 1:9-10 Paulo, ao falar de arsenokoitai, estava pensando de modo amplo sobre os pecados proibidos pelo decálogo: “parricida e matricida” (quinto mandamento), “homicida” (sexto mandamento), “raptores de homens”  (oitavo mandamento), “mentirosos, perjuros” (nono mandamento). Nenhum judeu pensava que os Dez mandamentos permitiam a intimidade sexual homossexual, por isso nenhum deles ficaria surpreso em ver o comportamento homossexual – ou adultério, ou fornicação, ou prostituição, ou incesto, ou bestialidade, ou qualquer outra atividade sexual fora do casamento – incluído numa lista de pecados escrita pelo apóstolo Paulo.

Se Paulo queria chocar Timóteo, desconcertar seus amigos judeus e destruir a moral prevalecente na igreja primitiva, por admitir relações homossexuais consensuais, ele teria usado uma maneira obscura de introduzir essa mudança radical. Por que não usou a palavra paiderastes (pederastas, homens adultos que fazem sexo com rapazes), se isso era tudo que ele tinha em mente? De modo semelhante, se Paulo queria apenas seus leitores soubessem que ele estava se referindo apenas a formas abusivas de homossexualidade, não teria cunhado um termo a partir de uma porção da lei de Moisés em que todo sexo que envolve homem com homem é proibido. Paulo se opunha apenas a formas abusivas de incestos em 1 Coríntios 5? Na segunda metade de 1 Coríntios 6, ele estava dizendo para fugirem apenas das formas abusivas de adultério, fornicação e prostituição? Devemos supor realmente que Paulo = logo depois de ordenar a excomunhão por causa de pecado sexual (5:4-5,13), de fazer referencia à lei de Moisés (6:9) e antes de amparar a sua ética sexual na história da criação de Gênesis – queria dizer: “Obviamente, não estou falando em dois homens adultos que estão num relacionamento de longa duração”? E, se ele tencionava transmitir essa mensagem aos coríntios ou a Timóteo, como isso teria sido óbvio para eles?

Com base na etimologia da palavra e de suas raízes em Levítico, podemos ficar certos de que arsenokoitai carrega o significado básico “homens que fazem sexo com outros homens”. Sodomitas não é uma boa tradução, porque não há nada em 1 Coríntios ou em 1 Timóteo que ligue arsenokoitai com a história de Sodoma e Gomorra. De modo semelhante, “homossexuais” não deixa suficientemente claro se estamos falando de todos que experimentam atração homossexual ou daqueles que se identificam como gay ou algo mais. As melhores traduções comunicam a noção de atividade; arsenokoitai se refere a homens engajados em comportamento homossexual. É torpeza que  Paulo descreve em Romanos1:27 como sendo cometida arsenes en arsesin (homens em homens). Esta é a razão porque as antigas traduções do Novo Testamento traduzem arsenokoitai como “homens que se deitam com homens” (Latina), “aqueles que se deitam com homens”(Siríaca) e “deitando-se com homens” (Copta).

Malakoi

O léxico padrão do Novo Testamento lista duas definições: “ser maleável ao toque” e “ser passivo em uma relação homossexual”. A palavra pode significar delicado, como em roupas finas ( Mateus 11:8; Lucas 7:25) ou efeminado, como em homens que são penetrados (como uma mulher seria) por outros homens.

Paulo poderia estar usando a palavra de maneira mais ampla para se referir a homens que haviam se tornado imensamente femininos em aparência ou comportamento? É possível que isso seja parte do que Paulo tencionava dizer ao usar malakoi, mas é impossível que seja tudo que Paulo queria dizer. Paulo considerava uma desgraça o homem tem cabelo semelhante ao de mulher (1 Coríntio 11:14), mas nunca sugeriu que estilos de cabelo traziam risco à posição eterna  diante de Deus. Seria estranho – e intolerável para a maioria dos cristãos do lado revisionista – pensar que Paulo estava excluindo do reino de Deus homens que tinham anseio por roupas finas e comédias romântica; malakoi deve se referir a algo muito mais sério.

A lista de pecados, em 1 Coríntios 6, foi elaborada especificamente para os coríntios. Nos capítulos 5 e 6, há uma série de erros (“nem impuros [sexualmente imorais], nem idólatras [que podem incluir noções de pecados sexuais], nem adúlteros, nem malakoi, nem arsenokoitai ” [6:9]) relacionado aos problemas de pecado sexual na igreja. Depois, há mais cinco pecados (“nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores” [6:10]) relacionados aos problemas da igreja referente à Ceia do Senhor, no capítulo 11. Espremida entre adúlteros (moichoi) e homens que praticam a homossexualidade (arsenokoitai), malakoi deve se referir a algum tipo de intimidade sexual imoral, não apenas a um padrão efeminado de maneira de falar, de comportamento ou de paixões.

Este entendimento de malakoi e arsenokoitai se harmoniza com o consenso das traduções modernas da bíblia, se harmoniza com a ética vétero-testamentario, se harmoniza com o treinamento que Paulo teria recebido de um erudito judeu e, acima de tudo, se harmoniza com contexto do argumento de  Paulo. É como se 1 Coríntios 6 estivesse dizendo: “Não vos enganeis: os sexualmente imorais não herdarão o reino de Deus, e isto inclui aqueles que fazem sexo como parte de um ritual pagão, aqueles que fazem sexo com alguém que não seja sua esposa, homens que fazem papel passivo na atividade homossexual e – em concordância com a proibição geral que se acha na Torá – qualquer macho que faz sexo com outro macho”. As palavras debatidas não são tão amplas que chegam a incluir comportamento heterossexual efeminado ou tão restritas que excluem tudo, exceto comportamento homossexual abusivo. Ambos os termos se referem a homens que fazem sexo com outros homens, os parceiros ativos e os passivos. Paulo está dizendo o que achamos difícil de ouvir, mas que o resto da bíblia apoia e a maior parte da história da igreja tem admitido: a atividade homossexual não é uma bênção a ser celebrada a solenizada, e sim um pecado que precisa de arrependimento, perdão e abandono.

Glória somente a Deus

A grande mentira. O socialismo começou na bíblia

Os socialistas, comunistas, esquerdistas e outros radicais com diferentes rótulos — porém com idéias e ambições políticas semelhantes — costumam alegar que o socialismo começou na Bíblia. Eles utilizam como exemplo uma experiência que os 12 apóstolos tentaram na primeira igreja cristã, na região da Judéia. Não houve direção direta de Deus para os líderes cristãos judeus decidirem o uso e administração de seus recursos financeiros, mas Deus lhes deu liberdade para tentarem seus próprios caminhos. O que sabemos é que os apóstolos tiveram a inspiração humana de que todos os cristãos judeus deveriam vender tudo o que tinham e entregar todo o dinheiro aos apóstolos. Nada era poupado, inclusive propriedades. Foi talvez uma tentativa de criar uma comunidade de interesses, trabalhos e sacrifícios comuns.

Prova de fogo

À primeira vista, a tentativa era excelente, principalmente porque os apóstolos tinham muito boas intenções com sua iniciativa. Contudo, tudo o que é bom precisa passar pelo teste de aprovação, assim como o próprio ouro precisa passar pelo fogo, para que toda sujeira seja retirada e o ouro fique puro e valioso. A tentativa de introduzir uma vida de comunidade entre os cristãos judeus passaria por um tempo de muita necessidade, uma verdadeira prova de fogo. Aliás, o mundo inteiro passaria por tal necessidade, e o próprio Deus avisou seu povo do que estava para acontecer. Deus usou um profeta para prevenir:

“Um deles, Ágabo, levantou-se e pelo Espírito predisse que uma grande fome sobreviria a todo o mundo romano, o que aconteceu durante o reinado de Cláudio”. (Atos 11:28 NVI)

O profeta Ágabo alertou que uma grande fome sobreviria para todo o mundo romano. Já que os apóstolos de Jesus e a primeira igreja cristã do mundo estavam em Jerusalém, na Judéia, é de supor que de todas as igrejas espalhadas pelo mundo, as igrejas judaicas teriam melhores condições espirituais de enfrentar o problema da fome. Mas não foi o que aconteceu. A fome sobreveio ao mundo romano inteiro e todos sofreram. Mas todas as igrejas cristãs conseguiram prevalecer nessa situação, menos as igrejas da Judéia. Por que? Todos eles não tinham o mesmo Cristo poderoso e seu Espírito Santo, que até os avisou?

Todas as igrejas, judaicas ou não, sofriam perseguição religiosa e mais tarde, juntamente com todo o restante do mundo, passaram a sofrer o problema da fome. No entanto, só as igrejas da Judéia estavam mais vulneráveis a esse problema. Se as igrejas não judaicas, que estavam sob a direção de apenas um apóstolo, conseguiram se manter no meio de uma crise mundial de fome e até ajudar as igrejas judaicas, como é que as igrejas judaicas, sob a liderança de doze apóstolos, estavam tão vulneráveis e fracas? Qual foi a diferença importante entre essas igrejas?

Não há diferenças significativas, a não ser que levemos em consideração que nas igrejas cristãs não judaicas cada cristão era encorajado a lutar por sua independência econômica. Veja por exemplo a recomendação que Paulo deu para a igreja européia da cidade de Tessalônica, muito tempo depois da fundação da primeira comunidade cristã judaica: “Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém”. (Tessalonicenses 4:11-12 NVI, o destaque é meu.)

No entanto, nas igrejas judaicas todos entregaram tudo o que tinham para viver em comunidade. Tudo indica que por causa da sua perda de independência econômica para investir na vida em comunidade, os cristãos judeus pagaram um elevado preço, passando a depender até de cristãos não judeus de outros países para sobreviver. Nos capítulos oito e nove inteiros de 2 Coríntios Paulo orienta como as igrejas não judaicas devem proceder para ajudar a igreja dos apóstolos em Jerusalém!

Um experimento que ninguém queria imitar

A tentativa de introduzir entre os cristãos judeus um modelo de comunidade baseado na extinção da independência econômica de cada pessoa teve efeitos negativos e trágicos que ninguém inteligente na liderança cristã da Europa quis imitar ou preservar. Foi uma experiência que veio e foi, para a tristeza de ninguém. Na prova de fogo, o ouro sai puro. Na prova de fogo do experimento dos apóstolos, o resultado não foi puro nem belo. Não sobrou nada, além de pobreza e miséria.

A única explicação para a impotência financeira e econômica da igreja judaica diante de uma crise mundial de fome é que seu experimento humano — interpretado modernamente como “socialismo” — de conduzir a administração da igreja do Senhor não foi um experimento abençoado. Não foi Deus quem ordenou esse experimentou. Ele só o permitiu.

Deus dava direção específica aos primeiros cristãos judeus — uma dessas direções era que eles deveriam levar o Evangelho a toda criatura. Essa orientação veio diretamente do coração do Senhor Jesus. Mas com relação à vida de comunidade e redistribuição de renda da primeira igreja cristã, a Palavra de Deus claramente mostra que a iniciativa não foi de Deus. Ele nunca lhes deu direção nesse sentido. Tal iniciativa veio diretamente do coração humano dos apóstolos.

É claro que Deus poderia muito bem revelar de antemão a eles qual seria o fim de seu experimento. Afinal, eles tinham dons de revelação e sabiam se comunicar com Deus. Eles buscavam a Deus intensamente em muitas questões e recebiam respostas, mas quando resolveram viver comunitariamente, dividindo tudo igualmente entre si, ninguém se lembrou de pedir a direção ou permissão de Deus. E Deus nada falou porque ele também espera que seu povo aja com bom senso, e às vezes se mantém calado a fim de que seu povo adquira “experiências” por si mesmo, ainda que dolorosas.

Homens de Deus, porém humanos e imperfeitos

É possível então um homem de Deus se esquecer de pedir a direção de Deus em determinadas ocasiões importantes e sofrer as conseqüências? Claro que sim. Josué era um homem que buscava intensamente a Deus e ouvia a sua voz, e Deus lhe deu a posição de líder da nação inteira de Israel. Quando ele pedia direção, Deus mostrava claramente a ele o que ele devia fazer. Um dessas direções era que ele não devia fazer acordo algum com os povos que habitavam a terra de Canaã. No entanto, um desses povos conseguiu elaborar uma estratégia: enviar uma comitiva, que disse a Josué e aos líderes judeus:

“—Nós estamos chegando de um país que fica bem longe daqui. Façam um acordo de paz com a gente. Porém os homens de Israel disseram: —Pode ser que vocês morem aqui por perto. Como é que podemos fazer um acordo de paz com vocês? —Estamos prontos para ser seus empregados! —responderam eles. —Quem são vocês? De onde vêm? —perguntou Josué. Os gibeonitas responderam: —Nós, os seus criados, somos de um país que fica muito longe e viemos até aqui porque ouvimos falar do SENHOR, seu Deus. Ouvimos as notícias de tudo o que ele fez no Egito.” (Josué 9:6-9 NTLH)

O acordo foi feito e ninguém percebeu nada. Só depois é que os judeus descobriram que haviam cometido um erro. Eles foram enganados e fizeram um acordo errado porque “não consultaram o Senhor” (veja Josué 9:14b). Já que não foi consultado, Deus deu a Josué e aos líderes judeus a mesma coisa que ele deu aos apóstolos em seu experimento de vida de comunidade: liberdade de tomar determinadas atitudes importantes sem pedir seu conselho.

Ainda que os socialistas de hoje — evangélicos ou não — utilizem o experimento da igreja judaica como o primeiro exemplo socialista da história, com o único objetivo de ganhar a simpatia política de adeptos cristãos, as práticas socialistas — se há uma real determinação de procurar experimentos na história da humanidade — podem ser vistas na Grécia, uns 500 anos antes de Cristo. Então a verdade pura é que foram os gregos, não os cristãos judeus, que foram os criadores de um tipo de sistema interpretado modernamente como socialismo.

O pequeno e curto experimento trágico das primeiras igrejas cristãs judaicas foi o suficiente para Paulo não tentar imitar nas igrejas cristãs não judaicas da Europa o que os desesperados cristãos “progressistas” de hoje insistem em chamar de exemplo socialista. Se foi realmente um exemplo ou não, o que é fácil de perceber é que então foi um exemplo que Paulo e nenhum outro líder cristão sábio procurou imitar. Afinal, não valia a pena copiar as imperfeições, os erros e a imaturidade administrativa que acabaram em fracasso.

O Apóstolo Paulo bem sabia que os 12 apóstolos não eram perfeitos. Ele comentou sobre eles: “Quanto aos que pareciam influentes — o que eram então não faz diferença para mim; Deus não julga pela aparência — tais homens influentes não me acrescentaram nada”. (Gálatas 2:6 NVI) Em certa ocasião, Paulo precisou repreender um dos apóstolos publicamente: “Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o face a face, por sua atitude condenável”. (Gálatas 2:11 NVI)

As imperfeições da igreja cristã judaica eram tão fortes que, os 12 apóstolos permitiam que os recursos da igreja fossem utilizados para ajudar somente as viúvas judias: “Naqueles dias [quando o experimento administrativo dos recursos da igreja estava em pleno funcionamento], crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento”. (Atos 6:1 NVI) Por pura imaturidade, a primeira igreja cristã judaica estava deixando de fora de seu ministério assistencial as viúvas que falavam grego, e não a língua comumente usada pelos judeus da época.

Assim, é de compreender o motivo por que Paulo não copiou o modelo imperfeito de administração dos recursos da igreja judaica. Ele tinha discernimento e maturidade e entendia corretamente que Deus jamais havia confirmado esse experimento iniciado pela inspiração humana dos 12 apóstolos, embora no caso de Ananias e Safira Deus os tenha castigado não por rejeitar tal experimento, mas por escolherem mentir ao Espírito Santo na questão do que a liderança apostólica havia deliberado. No entanto, os cristãos progressistas de hoje têm evitado seguir o bom exemplo de Paulo.

A introdução da experiência de comunidade entre os cristãos judeus foi um fracasso doloroso. Além disso, Paulo e outros líderes cristãos que trabalhavam na Europa e outros lugares fora da Judéia não tentaram introduzir essa experiência nas igrejas novas que estavam se formando na Europa. De fato, não se faz nenhuma menção a uma tentativa de copiar o modelo cristão judaico de entregar todas as propriedades para uma vida de comunidade. Algumas práticas úteis foram imitadas — como evangelizar, orar pelos enfermos e expulsar demônios —, mas o modelo de comunidade cristão judeu não foi copiado e nem mesmo mencionado.

Imitando o fracasso da igreja primitiva

Outra tentativa bem intencionada de instituir práticas socialistas entre evangélicos ocorreu na fundação dos Estados Unidos. Os fundadores dessa grande nação eram evangélicos comprometidos com Deus e eles estavam tão apegados a Deus e sua Palavra que eles queriam imitar tudo o que estava na Bíblia. Eles até queriam instituir o hebraico como língua oficial da jovem nação americana. De maneira semelhante, eles também se esforçaram para imitar a vida de comunidade dos primeiros cristãos judeus, conforme mostra o artigo Mais Sábios que Deus, de Olavo de Carvalho:

Ao chegar à América em 1623, o governador William Bradford encontrou a colônia de Plymouth numa situação desesperadora: magros, doentes, em farrapos, sem atividade econômica organizada, os peregrinos estavam à beira da extinção. Muitos, depois de vender aos índios todas as suas roupas e demais bens pessoais, tinham lhes vendido sua liberdade: eram escravos, vivendo de cortar lenha e carregar água em troca de uma tigela de milho e um abrigo contra o frio.

Interrogando os líderes da comunidade em busca da causa de tão deplorável estado de coisas, Bradford descobriu que a origem dos males tinha um nome bem característico. Chamava-se “socialismo”.

Os habitantes de Plymouth, revolucionários puritanos exilados, trouxeram para a América as idéias sociais esplêndidas que os haviam tornado insuportáveis na Inglaterra, e tentaram construir seu paraíso coletivista no Novo Mundo. As terras eram propriedade comunitária, a divisão do trabalho era decidida em assembléia e a colheita se dividia igualitariamente entre todas as bocas. O sistema havia resultado em confusão geral, a lavoura não produzia o suficiente e aos poucos a miséria havia se transformado naturalmente em anarquia e ódio de todos contra todos.

A um passo do extermínio, a comunidade aceitou então a sugestão de mudar de rumo, voltando ao execrável sistema de propriedade privada da terra. “Isso teve muito bons resultados”, relata Bradford. “Muito mais milho foi plantado e até as mulheres iam voluntariamente trabalhar no campo, levando suas crianças para ajudar”. O surto de prosperidade que se seguiu é bem conhecido historicamente: ele permitiu que os colonos fincassem raízes na América e começassem a construir o país mais rico do mundo.

Homem de fé, Bradford não atribuiu a salvação da colônia aos méritos dela ou dele próprio, mas à mão da providência divina. O sucesso do sistema capitalista, escreveu ele, “bem mostra a vaidade daquela presunção de que tomar as propriedades pode tornar os homens mais felizes e prósperos, como se fossem mais sábios que Deus”.[1]

Entres os primeiros judeus cristãos e os evangélicos fundadores do EUA, as práticas socialistas trouxeram fome e miséria. O efeito foi igual. Mas entre os que não são evangélicos, essas práticas trouxeram muito mais do que só fome e miséria. Aproximadamente 100 milhões de seres humanos foram brutalmente assassinados por governos socialistas durante o século XX.

Com boas intenções, até mesmo com intenções cristãs e santas, práticas minimante parecidas com o socialismo trouxeram pobreza, miséria e morte para os primeiros cristãos dos EUA e para os cristãos judeus do primeiro século. Com supostas “boas” intenções, mas sem nenhuma ética cristã, o socialismo se tornou, pela abundância de evidências históricas, a ideologia mais macabra, enganadora e assassina do século XX.

Entretanto, sua propaganda continua iludindo milhões, por seu apelo aos pobres. Propostas como redistribuição de renda e alimentação dos necessitados geralmente atraem a simpatia das multidões e produzem força política — até mesmo entre cristãos. Mas é assim que Jesus age?

A prioridade de Jesus: alimento espiritual

O Senhor Jesus Cristo, em seu ministério de evangelização, não tinha um trabalho exclusivo de caridade para alimentar as multidões. Apesar de que ele tinha constante contato com os pobres e de que ele tinha autoridade e poder para produzir alimentos suficientes para eles diariamente, a Bíblia mostra que só em duas ocasiões ele utilizou essa autoridade e poder. Quando ele deu alimentos numa ocasião em que as pessoas estavam famintas por terem passado com ele três dias inteiros ouvindo a Palavra de Deus, houve uma conseqüência com enorme potencial político e imenso apoio popular. As pessoas receberam tão bem a generosa distribuição de alimentos que Jesus fez que queriam com todas as sua forças elevá-lo ao cargo político mais importante daquele tempo, a fim de que ele pudesse continuar sua distribuição de alimentos (veja João 6:15).

O ato de os cristãos progressistas promoverem propostas políticas de alimentação dos pobres tem também o mesmo potencial de produzir apoio político para suas causas, e eles têm tirado vantagem desse potencial, canalizando inclusive apoio dos evangélicos para a eleição de candidatos socialistas que se identificam com o que eles enxergam como vocação “profética” da igreja — uma preocupação política obsessiva de se aproveitar dos pobres para avançar seus interesses ideológicos.

Quando os cristãos progressistas vêem que determinadas medidas políticas de alimentação aos pobres ajudam a avançar seus interesses, eles as utilizam como alavanca para subir politicamente. Contudo, Jesus mostrou claramente que quando foi necessário alimentar os que estavam ouvindo a Palavra, houve todo o cuidado de não permitir que a ocasião fosse utilizada para finalidades políticas.

Os evangélicos progressistas pensam que antes de tentarmos evangelizar os pobres primeiro precisamos alimentá-los. Contudo, Jesus não alimentou as multidões famintas a fim de produzir mais abertura para o Evangelho que ele pregava. Ele as alimentou porque elas já estavam ouvindo a Palavra de Deus. Ele as alimentou porque elas estavam já havia três dias ouvindo a Palavra de Deus. Não há em todos os Evangelhos nenhuma citação de Jesus alimentando os pobres para que eles se abrissem mais para o Evangelho. Pelo contrário, eles os alimentou somente em duas ocasiões em que eles permaneceram muito tempo ouvindo o Evangelho:

“—Estou com pena dessa gente porque já faz três dias que eles estão comigo e não têm nada para comer. Se eu os mandar para casa com fome, eles vão cair de fraqueza pelo caminho, pois alguns vieram de longe.” (Marcos 8:2-3 NTLH)

A compaixão de Jesus produziu uma miraculosa multiplicação de alimentos para seu público atento à Palavra de Deus. A fome de todos foi saciada. A conseqüência foi que eles imediatamente queriam promover Jesus politicamente:

“Jesus ficou sabendo que queriam levá-lo à força para o fazerem rei; então voltou sozinho para o monte.” (João 6:15 NTLH)

Qual foi a resposta de Jesus para as multidões que ele havia acabado de alimentar e que estavam ansiosas para promovê-lo politicamente por causa da perspectiva de comida na mesa?

“Jesus respondeu: —Eu afirmo a vocês que isto é verdade: vocês estão me procurando porque comeram os pães e ficaram satisfeitos e não porque entenderam os meus milagres. Não trabalhem a fim de conseguir a comida que se estraga, mas a fim de conseguir a comida que dura para a vida eterna. O Filho do Homem dará essa comida a vocês porque Deus, o Pai, deu provas de que ele tem autoridade. —O que é que Deus quer que a gente faça? —perguntaram eles. —Ele quer que vocês creiam naquele que ele enviou! —respondeu Jesus. Eles disseram: —Que milagre o senhor vai fazer para a gente ver e crer no senhor? O que é que o senhor pode fazer? Os nossos antepassados comeram o maná no deserto, como dizem as Escrituras Sagradas: “Do céu ele deu pão para eles comerem.” Jesus disse: —Eu afirmo a vocês que isto é verdade: não foi Moisés quem deu a vocês o pão do céu, pois quem dá o verdadeiro pão do céu é o meu Pai. Porque o pão que Deus dá é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. —Queremos que o senhor nos dê sempre desse pão! —pediram eles. Jesus respondeu: —Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede. Mas eu já disse que vocês não crêem em mim, embora estejam me vendo. Todos aqueles que o Pai me dá virão a mim; e de modo nenhum jogarei fora aqueles que vierem a mim. Pois eu desci do céu para fazer a vontade daquele que me enviou e não para fazer a minha própria vontade. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum daqueles que o Pai me deu se perca, mas que eu ressuscite todos no último dia. Pois a vontade do meu Pai é que todos os que vêem o Filho e crêem nele tenham a vida eterna; e no último dia eu os ressuscitarei.” (João 6:26-40 NTLH)

Jesus jamais agiu conforme a “ética” socialista. Ele jamais se aproveitava das necessidades das multidões para usá-las para objetivos políticos e ideológicos. Pelo contrário, ele sempre deixava claro para os pobres que quando damos prioridade para a vontade de Deus na nossa vida, ele supre nossas necessidades. Jesus declara:

“—Por isso eu digo a vocês: não se preocupem com a comida e com a bebida que precisam para viver nem com a roupa que precisam para se vestir. Afinal, será que a vida não é mais importante do que a comida? E será que o corpo não é mais importante do que as roupas? Vejam os passarinhos que voam pelo céu: eles não semeiam, não colhem, nem guardam comida em depósitos. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, dá de comer a eles. Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? E nenhum de vocês pode encompridar a sua vida, por mais que se preocupe com isso. —E por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem as flores do campo: elas não trabalham, nem fazem roupas para si mesmas. Mas eu afirmo a vocês que nem mesmo Salomão, sendo tão rico, usava roupas tão bonitas como essas flores. É Deus quem veste a erva do campo, que hoje dá flor e amanhã desaparece, queimada no forno. Então é claro que ele vestirá também vocês, que têm uma fé tão pequena! Portanto, não fiquem preocupados, perguntando: “Onde é que vamos arranjar comida?” ou “Onde é que vamos arranjar bebida?” ou “Onde é que vamos arranjar roupas?” Pois os pagãos é que estão sempre procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. Portanto, ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer, e ele lhes dará todas essas coisas.” (Mateus 6:25-33 NTLH, o destaque é meu.)


Autor: Júlio Severo

A sabedoria do silêncio

“Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio” (Provérbios 17:28).

O Filósofo e Matemático francês Blaise Pascal tinha razão quando disse: “A maior parte dos problemas do homem decorre de sua incapacidade de ficar calado”. Sobre isso, o texto sagrado também apresenta lições preciosas. Vejamos:

Primeira, a sabedoria não raras vezes é percebida pelo nosso silêncio. Às vezes, não são as muitas palavras que evidenciam uma pessoa sábia, mas sua capacidade de ficar calada. Precisamos lembrar com certa frequência do velho ditado popular: “Boca fechada não entra mosquito”.

 

Segunda, o silêncio é pedagógico. O silêncio ensina até um tolo. Diz o texto: “Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio”. Os problemas não se agigantam quando ficamos calados, mas quando falamos muito e sem discernimento.

Terceira, aprender a ficar calado em certas ocasiões pode ajudar as pessoas a mudarem conceitos a seu respeito. Novamente o texto diz: “Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio”. O tolo calado é visto como sábio.

Nem bem a morte do candidato à Presidência da República Eduardo Campos em um acidente aéreo, nesta quarta (13), foi confirmada e surgiram comentários com afirmações de mau gosto ou inferências políticas bizarras nas redes sociais.

Pessoas pedindo para que, no lugar de Campos, naquele jatinho, estivesse Aécio ou Dilma. Ou colocando a culpa em um ou em outro pelo acidente.

Não, isso não é piada. Muito menos revolta contra a política.

Há outro nome para esse tipo de ignomínia, para essa incapacidade crônica de sentir empatia com os passageiros de um avião que cai e com as pessoas que estavam em solo. Talvez essa impossibilidade de se reconhecer no outro e demonstrar algum apreço pela vida humana seja alguma forma de psicopatia grave.

O que não surpreende, pois tem o mesmo DNA das discussões estéreis e violentas levadas a cabo na internet, sob anonimato ou não. Mas não deixa de chocar.

O que tem faltado é respeito, respeito a dor de quem perdeu não um político, mas uma vida, não, não sou partidário de Eduardo Campos, sou alguém fica chocado com a incapacidade da empatia de algumas pessoas.
À família e aos amigos de Campos e de sua equipe e aos feridos entre os moradores de Santos, minha solidariedade. Aos que fazem disso uma brincadeira ou uma chance para aparecer, e aos que se dizem apenas expressar seu pensamento, volto a afirmar:

“Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio” (Provérbios 17:28).

Soli Deo gloria

Férias pastorais? Como assim?

Fim de ano chegando, os filhos irão entrar de férias, muitos na igreja viajam, o clima é de descanso, festa e confraternizações. Foi nesse clima que alguns dias atrás conversando com um pastor amigo falei que mais uma vez iria à Fortaleza na minhas férias, foi quando o pastor se  mostrou surpreso com a informação de que pastor tira férias. Ao que parece, para ele isso era inconcebível… afinal, como um pastor pode  dar uma pausa nessa magnífica missão? Na sua compreensão havia, logicamente, algumas distorções.

Acreditem, essa não foi a primeira vez que me deparei com esse tipo de situação, alguém achando que pastor não cansa, que não precisa tirar férias, mas o fato é que pastores se cansam. Jesus se cansou. Não foram poucas as vezes que o Mestre se retirou para um monte para orar e descansar da demanda das multidões.

Mas o cansaço pastoral é bom sinal? Eu diria que sim, caso seja observado como um sinalizador para uma parada. Isso porque uma igreja que tem um pastor que se cansa pode ter consigo o privilégio de ter alguém que é humano e que tem realmente um coração pastoral.

O apóstolo Paulo, em Atos 20:28 mostra a necessidade de o pastor ter um sério compromisso consigo mesmo.

Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue. – Atos 20:28

O pastor precisa cuidar de si mesmo antes de cuidar do rebanho de Deus.
A vida do pastor é a vida do seu pastorado. Conheço inúmeros amigos pastores cansados da obra de Deus e ainda assim continuam a obra sem parar, esses, acham que precisam continuar cuidando dos outros sem cuidar de si mesmos.

Antes de pastorear os outros, precisamos pastorear a nós mesmos. A vida do pastor é a base de sustentação do seu ministério, aquilo que aconselhamos aos membros das nossas igrejas, nós devemos ser os primeiros a praticar. O ministério pastoral não é uma apólice de seguro contra o esgotamento físico, mental ou espiritual.

Atividades ministeriais com horários descabidos, pois o rebanho precisa ser apascentado e isso não tem hora, em muitos casos não dá pra agendar, a responsabilidade em lidar com a natureza humana, as pressões decorrentes dos setores da igreja (louvor, presbíteros, diáconos, etc), as finanças pessoais e ministeriais e tantas outras coisas que pairam na mente do pastor, o colocam em perigo. O pastor precisa se prevenir para que seu mundo interior não desmorone.

Entre nós pastores conheço também aqueles que dizem não necessitar de férias, a esses, gostaria que respondessem algumas perguntas: Sua mente acha que precisa, e seu corpo? Você acha justo com seus filhos e principalmente com sua esposa não tirar férias?

Infelizmente é fato que muitos pastores acreditam que não precisam de férias, mas se eu puder sugerir, verifique junto a sua família e em seu próprio corpo alguns sinais (sintomas) que devem ser encarados como alerta.

1. Peso institucional: há certas comunidades que possuem tanto “script” a ser cumprido que as relações perdem sua naturalidade e se tornam artificializadas. Todos ali cumprindo seus papéis, o que termina fomentando a criação de máscaras. A falta de autenticidade gera perda de combustível emocional, cansando os que ali estão.

2. O excesso de demanda também cansa. Há comunidades que absorvem demais o pastor. Ou porque são imaturas demais para poder lidar com suas questões, trazendo ao líder tudo que acontece; ou porque o pastor é tão bom que dá vontade de ficar perto dele o tempo todo. Não há “Moisés” que consiga se manter com saúde emocional diante de uma demanda que ultrapassa os limites do que é razoável. Igrejas imaturas não caminham sozinhas.

3. A crítica desgasta, especialmente aquela que é fruto de incompreensão. Pastores que são “julgados” numa determinada situação, quando os membros não sabem da história e passam a desconsiderar a trajetória daquele líder que diz exatamente o contrário do que se passou a pensar e a verbalizar sobre ele. Essa incompreensão desgasta muito e acaba por drenar a energia emocional do pastor.

4. Perseguição. Há alguns membros que elencam o pastor como alvo de suas frustrações. Outros, por motivações infernais, passam a perseguir o líder. Como ao pastor não cabe retribuir na mesma moeda, a perseguição o conduz para o enfado e, não raras vezes, à precipitação do tempo de ministério pastoral numa localidade.

5. Desgaste familiar. A família pastoral é composta de gente. Por esta razão, sofre por vezes com conflitos. Nem o pastor, nem ninguém mais, tem família perfeita; portanto, a igreja precisa ter certa dose de compreensão e apoio para com a família pastoral, especialmente com os filhos. Se o pastor e a esposa estavam cônscios de sua missão como casal, ou mesmo da missão do marido, os filhos por sua vez não foram chamados a opinar. Por vezes o cansaço do pastor advém do seu abatimento ao ver a insana expectativa que é colocada sobre seus filhos, como se “pastorzinhos” fossem.

6. Falta de descanso programado. Há pastores que não respeitam sua folga semanal, necessária para recarregar baterias. Há muitos irmãos que também não respeitam essa folga, esperando um problema agudizar, explodir, para então chamar o pastor. E como explodem situações nos dias de folga e feriado! Perceba: há coisas que acontecem de modo inesperado, como uma perda. No entanto, há outras que podiam ser tratadas antes, evitando a explosão. O fato que ao ultrapassar os limites do descanso, princípio estabelecido por Deus na Criação, e fazendo-o de modo sistemático, o cansaço se acumula minando a saúde pastoral.

7. A traição da liderança é outro fator de desgaste. É um componente ético-emocional. Pessoas que lhe acompanham ou que você acompanha e que de repente rompem com sua liderança. Pessoas que lhe acompanham ou que você acompanha sobre as quais se descobre posteriormente (daí a estupefação e o cansaço dela decorrente) que elas já estavam rompidas com todo projeto de liderança cristã, de santidade e coerência que o Reino requer. Essa traição é doída, e por ser assim enrijece o coração. O problema é que não há ministério possível com coração endurecido. Essa é uma área de extremo enfado… e deserto.

8. A imaturidade dos membros que criam tensões desnecessárias. Pequenos choques sem reconciliações ou alguém com uma palavra de sabedoria para contornar essas rusgas acabam respingando no pastor. Ao fazê-lo, há uma perda de energia emocional, a qual vai sendo sugada a conta-gotas. Contudo, o fato de sair aos poucos não desmerece pra onde ela aponta: o esvaziamento do tanque emocional.

9. Falta de retorno da Igreja. Uma igreja que não responde, nem “sim”, nem “não”, às demandas, provocações e ideias pastorais, pode trazer um profundo desgosto e questionamento de chamado ao pastor. É quando o ralo está dentro do coração pastoral, escoando toda a energia emocional ali presente. Essa frustração ministerial ao lidar com “walkingdeads” eclesiásticos desgasta o coração do pastor.

10. Uma igreja essencialmente carnal. Lidar com uma igreja que busca o lenitivo espiritual e pastoral, ao mesmo tempo que se fere com o pecado, fere o pastor. Embora ele esteja ali também para escutar os membros mediante aconselhamento pastoral, é muito angustiante para o pastor ver suas ovelhas se machucando nos arames farpados do pecado. Ouvir como algumas, embora com a vida (ou seria sobrevida?) preservadas, tiveram pedaços inteiros arrancados pelas garras de lobos, ursos e leões, dói. Faz o coração chorar! Por fim, cansa ver tanta gente cansada e que insiste nesse projeto de vida que na verdade é um convite à morte diária.

Todas essas demandas cansam, tanto o pastor quanto sua esposa e filhos, por isso lhes digo, cumpram o principio bíblico do descanso semanal e também tirem férias. Nesse fim de ano tire alguns dias de descanso com a família, vá a um lugar onde toda a família pastoral possa recarregar a energia, durante esses dias desligue-se dos problemas eclesiásticos.

Admitir o cansaço é importantíssimo para garantir o prosseguimento da caminhada. Mas não basta admitir: é necessário também descansar. E isso extrapola a questão física. É necessário descansar a mente e, como sugeriu Agostinho de Hipona, descansar também a alma. Essa é minha sugestão para os homens e os ‘anjos’: admitam seu cansaço, não permitam que ele os impeça de chegar aonde podem e, principalmente, aonde Deus quer que cheguem. E se perceberem que o cansaço já se tornou extremo, então a urgência em descansar se torna imperativo e não opção.

É melhor admitir o cansaço quando ele ainda é suportável e não permitir que ele avance para níveis insuportáveis e doentios. Caso você tenha vergonha de admitir seu cansaço, vale a pena lembrar que até Jesus Cristo se cansou depois de uma rotina intensa (João 4.6) e sugeriu aos discípulos uma parada estratégica para descansar (Marcos 6.31-32), pois estavam sem tempo até para comer. Bom, acredito que não há melhor exemplo que o dele.

É SAGRADO

A família missionária não pode prescindir de suas férias. Elas são essenciais para o descanso do físico, emocional e psíquico. O Senhor Jesus, na Sua condição humana, se retirava para orar, descansar e refletir. Os Seus retiros eram fundamentais para o exercício do Seu ministério. As férias não podem ser vendidas, adiadas e nem omitidas. Precisam ser curtidas com toda a intensidade. O doutor Merval Rosa assinala: “É imperativo que os membros da família, além dos seus interesses pessoais, procurem desenvolver interesses dos quais todos participem. Planejar atividades em conjunto, passear juntos, ler juntos, brincar juntos, tudo isso cria uma atmosfera de cordialidade entre os membros da família, que os faz mais unidos, mais próximos uns dos outros. Revelar genuíno interesse naquilo que os outros membros da família fazem e aceitar nosso papel no seio da família robustece os laços familiares”. Não nos esqueçamos: o tempo com a família é o tempo mais bem investido depois da nossa comunhão com o Senhor.

Está ligado à saúde dos seus membros

As férias devem ser precedidas de exames médicos para ver se está tudo em ordem com os membros da família. É muito relevante sabermos que as férias são uma feliz oportunidade de relaxamento, reflexão e descanso criativo. A nossa mente, as nossas emoções e o nosso corpo necessitam de paradas periódicas. As férias são, portanto, uma recomendação médica segura e, acima de tudo, uma recomendação do Senhor.

Tenham um bom descanso de fim de ano e que no ano que se inicia possámos estar bem para Glória do Senhor.


Soli Deo gloria