Cosmovisão, política e cidadania
Como o cristianismo molda nossa compreensão da vida pública
Vivemos tempos confusos. Palavras perderam significado, rótulos substituíram argumentos e convicções profundas são tratadas como extremismo. Nesse cenário, conceitos fundamentais como cidadania, cosmovisão e política precisam ser resgatados com seriedade histórica, clareza filosófica e, sobretudo, discernimento bíblico.
O ser humano é inevitavelmente religioso. Essa é uma das grandes verdades esquecidas da modernidade. A tentativa de expulsar Deus do espaço público não gerou neutralidade, mas novas formas de religião. Quando o sagrado é negado, ele retorna disfarçado — agora na política, na ideologia, na nação ou no líder carismático.
É nesse ponto que a discussão sobre cosmovisão, cidadania e política deixa de ser acadêmica e se torna pastoral. O que está em jogo não é apenas como votamos, mas a quem pertencemos. James Sire nos ajuda a entender as estruturas do pensamento; Abraham Kuyper nos lembra que todo o solo da vida é religioso; e Yago Martins nos alerta para um fenômeno contemporâneo específico: a transformação da política em religião dentro do evangelicalismo brasileiro.
Uma das marcas mais evidentes da crise contemporânea não é apenas a polarização política, mas a sacralização da política. Em muitos contextos, especialmente no Ocidente pós-cristão, a política deixou de ser um instrumento de organização da vida comum e passou a ocupar o lugar de fonte última de sentido, identidade e esperança.
Isso explica por que debates políticos assumem tons religiosos: hereges, fiéis, dogmas, conversões, apóstatas e até “ungidos”. A linguagem muda, mas a estrutura é a mesma. Como já alertava Agostinho, quando o coração humano não repousa em Deus, ele se apega a qualquer coisa que prometa ordem, segurança e redenção (Cidade de Deus, XIX).
É justamente aqui que a teologia precisa entrar em cena. Não para defender partidos, mas para discernir fundamentos.
Antes de perguntar “em quem votar?”, o cristão precisa perguntar:
“Que cosmovisão está moldando minha compreensão de cidadania, poder e esperança?”
Essa pergunta nos conduz, de forma natural, ao primeiro conceito-chave deste artigo: cidadania.
Cidadania: pertencimento, dever e limite
Por que a bíblia nunca absolutiza o Estado
A palavra “cidadão” vem do latim civis, indicando pertencimento a uma comunidade política organizada. Ser cidadão não é apenas residir em um território, mas participar de uma ordem jurídica, usufruir direitos e assumir deveres.
No entanto, a Bíblia introduz uma tensão fundamental nesse conceito. O cristão é chamado a respeitar autoridades (Rm 13), orar por governantes (1Tm 2.1–2) e buscar o bem da cidade (Jr 29.7). Ao mesmo tempo, é advertido a jamais oferecer lealdade absoluta a qualquer poder terreno.
Paulo resolve essa tensão em Filipenses 3.20:
“Nossa cidadania está nos céus.”
Isso não nega a cidadania terrena; relativiza-a. O cristão pertence ao Estado, mas não em última instância. Sua identidade final não vem da pátria, do partido ou do líder, mas do Reino de Deus.
Historicamente, sempre que essa distinção foi perdida, surgiram formas de idolatria política:
- no Império Romano, com o culto ao imperador;
- no absolutismo moderno, com o Estado soberano;
- nos totalitarismos do século XX;
- e, hoje, em populismos ideológicos.
Quando o Estado exige devoção, ele deixa de ser Estado e se torna ídolo.
Mas como as pessoas chegam a esse ponto sem perceber? A resposta está mais fundo, no nível da cosmovisão.
Cosmovisão: o alicerce invisível da vida visível
Por que não existe neutralidade política nem espiritual
James Sire define cosmovisão como um “comprometimento fundamental do coração”. Essa definição é crucial, porque nos impede de reduzir cosmovisão a um simples conjunto de ideias conscientes.
Cosmovisão é:
- o que assumimos antes de argumentar;
- o que sentimos como “óbvio”;
- o filtro através do qual interpretamos fatos, textos bíblicos e acontecimentos históricos.
Por isso, duas pessoas lendo a mesma Bíblia podem chegar a conclusões políticas radicalmente diferentes. Não é apenas exegese; é pressuposição.
Sire mostra que toda cosmovisão responde, queira ou não, a perguntas fundamentais:
- O que é a realidade?
- Quem é o ser humano?
- O que é o bem?
- Para onde a história caminha?
Essas respostas moldam:
- nossa ética;
- nossa visão de poder;
- nossa compreensão de justiça;
- nossa expectativa de redenção.
A política é sempre a aplicação prática de uma cosmovisão.
Quando isso não é reconhecido, o indivíduo imagina estar apenas “sendo pragmático”, quando, na verdade, está vivendo uma teologia implícita — muitas vezes incoerente com o Evangelho.
Esse ponto nos leva ao próximo passo: o que acontece quando o teísmo cristão deixa de ser o fundamento da cultura?
O declínio do teísmo e o surgimento das religiões políticas
Quando Deus sai de cena, alguém assume o papel
Sire demonstra que o pensamento ocidental passou por um deslocamento progressivo:
- do teísmo,
- para o deísmo,
- depois para o naturalismo,
- culminando no niilismo e no pós-modernismo.
O resultado desse processo não foi neutralidade, mas vácuo de sentido. O ser humano não suporta viver sem uma narrativa que explique:
- de onde veio,
- por que sofre,
- e para onde tudo caminha.
Quando Deus deixa de oferecer essa narrativa, outras instâncias assumem o papel:
- a nação,
- a raça,
- a classe,
- o Estado,
- ou o líder carismático.
O século XX foi a prova histórica dessa substituição. Nazismo e comunismo não foram apenas sistemas políticos; foram cosmovisões completas, com:
- doutrina,
- ética,
- escatologia,
- sacrifício,
- e promessa de redenção histórica.
Aqui Abraham Kuyper entra em cena…
Kuyper: soberania de Deus e soberania das esferas
O antídoto reformado contra o messianismo político
Kuyper parte de um princípio simples e devastador:
Não existe área da vida neutra ou autônoma diante de Deus.
Sua famosa frase — “não há um centímetro quadrado da existência sobre o qual Cristo não diga: é meu” — não é slogan triunfalista, mas limite teológico. Se Cristo é Senhor de tudo, então:
- o Estado não é senhor absoluto;
- a igreja não governa a política;
- e nenhuma esfera pode absorver as demais.
A doutrina da soberania das esferas protege a sociedade de dois extremos:
- o Estado totalitário;
- e a igreja politizada.
Quando essa doutrina é esquecida, o poder se concentra, e o pecado humano encontra terreno fértil. Kuyper insistia: quem leva a queda a sério não entrega poder ilimitado a ninguém.
É exatamente esse alerta que Yago Martins traz para o contexto brasileiro contemporâneo.
Yago Martins e a religião do bolsonarismo
Quando o evangelicalismo troca discernimento por devoção política
Em A Religião do Bolsonarismo, Yago Martins não faz um ataque partidário. Ele faz uma análise teológica de um fenômeno específico: a transformação de um projeto político em estrutura religiosa funcional dentro de setores do evangelicalismo.
Segundo Yago, o bolsonarismo assumiu características clássicas de religião:
- narrativa de salvação nacional;
- líder visto como escolhido providencial;
- demonização moral dos opositores;
- linguagem espiritual aplicada à política;
- relativização ética em nome da “causa maior”.
Isso não é conservadorismo bíblico. É idolatria política.
O problema central não é votar em Bolsonaro, Lula ou qualquer outro. O problema é transferir para a política expectativas que pertencem exclusivamente a Cristo.
Quando isso acontece:
- o Evangelho é instrumentalizado;
- a igreja perde sua voz profética;
- e a fé se torna refém do poder.
Exemplos concretos da idolatria política na prática
Para não ficar abstrato, vejamos manifestações claras desse fenômeno:
- Púlpitos transformados em trincheiras ideológicas
O sermão deixa de expor o texto bíblico e passa a defender agendas políticas. - Leitura bíblica seletiva
Textos sobre autoridade são exaltados; textos proféticos de denúncia são silenciados. - Silêncio moral estratégico
Pecados são relativizados quando cometidos “do lado certo”. - Divisão maniqueísta da realidade
Quem discorda não é apenas errado; é inimigo de Deus.
Isso não nasce da Bíblia. Nasce de uma cosmovisão deformada.
Conclusão
Entre a cruz e o poder, com quem ficamos?
À luz de Sire, Kuyper e Yago Martins, fica claro que:
- política é importante;
- cidadania é necessária;
- participação pública é legítima.
Mas nenhuma dessas coisas pode ocupar o lugar do senhorio de Cristo.
A igreja não foi chamada para salvar a nação por meio do poder, mas para anunciar o Reino por meio da cruz. Sempre que ela troca o Cordeiro pelo leão político, perde ambos.
Como pastor, concluo com serenidade e firmeza:
O cristão pode votar, militar, argumentar e participar.
Mas jamais pode adorar, sacralizar ou absolver o poder.
Porque, no fim das contas, toda cosmovisão será julgada pelo Cristo ressuscitado, o único Rei que governa sem corrupção e salva sem coerção.
Um apelo pastoral em ano de eleição: silêncio também é tomada de posição
Chegando ao fim desta reflexão, permitam-me agora falar não apenas como teólogo, mas como pastor que carrega o mesmo peso que muitos colegas carregam ao subir no púlpito domingo após domingo.
Estamos em ano eleitoral. E a experiência histórica mostra que, nesses períodos, duas tentações rondam a igreja:
- a politização do púlpito, quando a fé é usada para promover projetos de poder;
- o silêncio covarde, quando, por medo ou comodismo, temas fundamentais são evitados.
Ambos os caminhos são perigosos.
A Escritura nunca autorizou o pastor a transformar o púlpito em palanque, mas também nunca permitiu que ele se omitisse diante de questões que moldam a consciência, a ética e a cosmovisão do povo de Deus. Quando deixamos de ensinar biblicamente sobre poder, autoridade, Estado, justiça, idolatria e cidadania, alguém ocupará esse espaço — geralmente a ideologia mais barulhenta do momento.
Pastores, precisamos dizer isso com clareza:
o silêncio teológico gera confusão espiritual.
Não estou defendendo campanhas eleitorais na igreja. Estou defendendo algo muito mais sério:
que falemos sobre cosmovisão,
sobre limites do poder,
sobre idolatria política,
sobre o senhorio de Cristo sobre todas as áreas da vida,
à luz das Escrituras.
Não faltam ferramentas para isso. Deus tem sido generoso com a igreja brasileira. Temos excelentes autores cristãos tratando do tema com profundidade, equilíbrio e fidelidade bíblica — de Agostinho a Kuyper, de James Sire a pensadores contemporâneos como Yago Martins, entre tantos outros que ajudam a igreja a pensar sem idolatrar e agir sem se vender.
Ensinar esses assuntos não divide a igreja; o que divide a igreja é a ausência de ensino, que deixa o rebanho refém de discursos prontos, rótulos fáceis e soluções messiânicas.
Se não ensinarmos o povo a discernir:
- ele confundirá fé com ideologia;
- confundirá líder político com ungido;
- confundirá Reino de Deus com projeto de poder.
Como pastores, fomos chamados a formar consciências bíblicas, não torcidas organizadas. A igreja precisa aprender a votar como cidadã responsável, mas adorar somente como povo do Reino.
Concluo, portanto, com um apelo fraterno e urgente:
neste ano de eleição, falemos mais, e melhor, sobre essas coisas à luz da Bíblia.
Com coragem, com amor, com profundidade e com fidelidade ao Cristo que reina — não do Planalto, não do Congresso, mas do trono eterno.
Porque quando o púlpito se cala, a idolatria encontra microfone.
E quando a igreja ensina bem, o Evangelho permanece livre.
Referências
- SIRE, James W. O Universo ao Lado. Vida Nova.
- KUYPER, Abraham. Calvinismo. Cultura Cristã.
- MARTINS, Yago. A Religião do Bolsonarismo.
- AGOSTINHO. A Cidade de Deus.
- Bíblia Sagrada.
Soli Deo gloria











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