Como Viveremos? — Francis Schaeffer

Uma resenha pastoral e crítica

Estamos em agosto de 2026. Vivemos em uma época marcada por profundas transformações culturais, tecnológicas, políticas e morais. As mudanças são tão rápidas que, muitas vezes, a Igreja se vê tentando responder aos acontecimentos depois que eles já se tornaram realidade. Inteligência artificial, redes sociais, relativismo moral, crise das instituições, polarização política, novas concepções sobre sexualidade e identidade, secularização, individualismo e uma crescente dificuldade de estabelecer consensos sobre aquilo que é verdadeiro são apenas alguns dos elementos que compõem o cenário diante de nós.

Foi justamente nesse contexto que iniciei em nossa igreja uma série de sermões intitulada “Como Viveremos?”, inspirada na obra de Francis Schaeffer que leva o mesmo nome. A pergunta não é apenas interessante; ela é profundamente pastoral. Afinal, a grande questão do cristianismo não é somente aquilo em que cremos, mas como viveremos à luz daquilo em que cremos.

Francis A. Schaeffer escreveu How Should We Then Live? The Rise and Decline of Western Thought and Culture em 1976. A edição brasileira utilizada nesta resenha foi publicada pela Editora Cultura Cristã. O próprio autor esclarece, na “Nota do Autor”, que não pretendia produzir uma cronologia completa da História, mas analisar momentos decisivos responsáveis pela formação da cultura ocidental e do pensamento contemporâneo, buscando compreender os problemas do final do século XX e possíveis respostas para eles.

É precisamente aqui que está a força da obra. Schaeffer não começa perguntando simplesmente “o que está acontecendo?”. Ele pergunta: “como chegamos até aqui?” E, depois de percorrer séculos de História, conduz o leitor a uma segunda pergunta: “diante disso, como devemos viver?”

A proposta de Schaeffer

A tese central de Como Viveremos? pode ser resumida da seguinte maneira: as ideias produzem consequências. Uma sociedade não é formada apenas por suas instituições, leis, costumes ou tecnologias. Por trás dessas manifestações existem pressupostos acerca da realidade, do conhecimento, da verdade, do homem, da moral e de Deus.

Logo no início do livro, Schaeffer afirma que existe um fluxo na História e na cultura e que a maneira de pensar das pessoas influencia aquilo que elas fazem. Ele chama atenção para aquilo que denomina “pressupostos”: a estrutura básica pela qual uma pessoa interpreta a realidade. Para ele, aquilo que pensamos acerca do que existe determinará, em grande medida, nossa maneira de viver.

Essa perspectiva explica a estrutura do livro. Schaeffer começa na Roma Antiga e percorre a Idade Média, a Renascença, a Reforma, o Iluminismo, o nascimento da ciência moderna, a crise da filosofia e da ciência, a filosofia e a teologia modernas, as artes, a sociedade contemporânea e finalmente as alternativas diante das quais o Ocidente se encontra. O sumário da edição apresenta exatamente essa progressão histórica.

Portanto, não estamos diante de uma simples história da filosofia. Tampouco temos apenas um livro de apologética. É uma tentativa de fazer apologética cultural, mostrando como uma cosmovisão se expressa na filosofia, na ciência, na política, na arte, na literatura, no cinema, na moral e na vida cotidiana.

1. Roma antiga — quando uma grande civilização não consegue responder às perguntas fundamentais

Schaeffer começa pela Roma Antiga porque deseja demonstrar que uma civilização pode possuir enorme poder, organização política, desenvolvimento artístico, tecnologia e força militar e, ainda assim, possuir uma base insuficiente para sustentar sua cultura.

Ele insiste desde o princípio que uma cultura precisa de uma cosmovisão capaz de responder às perguntas fundamentais da existência. Os romanos herdaram muito da filosofia grega, mas seus deuses não ofereciam uma base suficientemente sólida para explicar a dignidade humana, a moral e o sentido último da existência. Os deuses greco-romanos eram, em muitos aspectos, projeções ampliadas da humanidade, e não um Deus infinito, pessoal e moralmente absoluto.

Um dos pontos mais interessantes do capítulo é a comparação entre a fragilidade de uma ponte e a fragilidade de uma cultura. Uma ponte pode suportar determinado peso durante muito tempo, mas, quando recebe uma carga superior àquela para a qual foi construída, finalmente cede. Da mesma forma, uma cultura pode sobreviver durante séculos sobre pressupostos frágeis, até que as pressões se tornem grandes demais.

Schaeffer também mostra o contraste produzido pelo cristianismo. Os cristãos afirmavam um Deus infinito e pessoal, revelado nas Escrituras e em Cristo, e, por isso, possuíam fundamentos para afirmar a dignidade humana e valores universais.

Aplicação pastoral: não devemos avaliar a saúde de uma sociedade apenas por sua prosperidade. Uma sociedade pode ser rica e, ao mesmo tempo, espiritualmente pobre. Pode ser tecnologicamente avançada e moralmente desorientada. A pergunta fundamental não é apenas “quanto temos?”, mas “sobre qual fundamento estamos construindo?”.

2. A Idade Média — quando o cristianismo molda uma cultura, mas também se afasta de sua própria fonte

No segundo capítulo, Schaeffer entra em um período muito mais complexo: a Idade Média.

Aqui ele evita, pelo menos em alguns momentos importantes, a caricatura de uma “Idade das Trevas”. O autor reconhece realizações importantes da cultura medieval, especialmente nas artes, na arquitetura, na música, na educação e na preservação do conhecimento clássico.

Ele apresenta, por exemplo, o papel dos mosteiros na preservação de manuscritos, o desenvolvimento da música, a arquitetura românica e gótica, o pensamento de Tomás de Aquino e o movimento intelectual que posteriormente prepararia o caminho para a Renascença.

Mas Schaeffer identifica uma tensão central: a Igreja medieval gradualmente permitiu que elementos humanistas se misturassem com o cristianismo bíblico. A autoridade da Igreja passou a competir com a autoridade das Escrituras, e elementos estranhos ao cristianismo apostólico foram incorporados à vida da Igreja.

O autor também chama atenção para problemas concretos de poder, riqueza e corrupção e reconhece que a própria Igreja medieval, em alguns momentos, foi instrumento de desenvolvimento social e cultural, inclusive na educação, na assistência aos pobres e na preservação do conhecimento.

Aplicação pastoral: esse capítulo nos lembra que não basta uma sociedade possuir linguagem cristã. É possível ter instituições cristãs, símbolos cristãos e até uma cultura nominalmente cristã e, ainda assim, afastar-se progressivamente da autoridade da Palavra de Deus.

Isso vale também para a Igreja contemporânea. O perigo não está apenas em abandonar o cristianismo. Existe também o perigo de continuar utilizando a linguagem cristã enquanto modificamos o conteúdo do cristianismo.

3. A Renascença — o homem começa a ocupar o centro

A Renascença representa, para Schaeffer, uma mudança decisiva na história ocidental.

Ele reconhece a grandeza artística desse período. Michelangelo, Leonardo da Vinci, Masaccio, Brunelleschi e outros representam um extraordinário florescimento cultural. A própria análise de Schaeffer mostra que a arte não é simplesmente decoração: ela expressa aquilo que uma sociedade pensa sobre o homem e sobre a realidade.

A questão central é o crescimento do humanismo renascentista. O homem passa progressivamente a ser considerado como medida de referência para a realidade.

Aqui surge uma das grandes linhas argumentativas de Schaeffer: quando o homem começa a buscar autonomia em relação à revelação de Deus, ele não se torna verdadeiramente livre; ele começa a perder o fundamento necessário para explicar a si mesmo.

A Renascença também demonstra que a história não é simplesmente uma disputa entre “bons” e “maus”. Houve aspectos positivos no redescobrimento das artes, da literatura, da cultura clássica e da dignidade humana. O problema surge quando a autonomia humana começa a substituir Deus como fundamento último.

Aplicação pastoral: a Igreja precisa aprender a distinguir entre apreciar a cultura e adotar a cosmovisão que está por trás dela. Nem toda produção cultural não cristã é necessariamente má; mas toda cultura carrega pressupostos que precisam ser discernidos.

4. A Reforma — a recuperação da autoridade das Escrituras

Este é um dos capítulos mais importantes para nós, cristãos protestantes.

Schaeffer apresenta a Reforma como uma resposta ao problema da infiltração humanista dentro da Igreja. O princípio fundamental é sola Scriptura: a Igreja está debaixo da autoridade das Escrituras, e não acima dela.

O autor mostra que os reformadores não estavam simplesmente interessados em promover uma reforma institucional. O problema era muito mais profundo: qual é a autoridade final para determinar a verdade?

Na leitura de Schaeffer, a Reforma recupera uma compreensão bíblica da autoridade, da salvação e da vida humana. A salvação não é produzida pelo acúmulo das realizações humanas, mas pela obra de Deus em Cristo.

A edição que estou utilizando apresenta precisamente essa distinção: para os reformadores, a autoridade não estava dividida entre Bíblia e Igreja; a Igreja deveria estar submetida aos ensinamentos bíblicos.

Aplicação pastoral: a Reforma nos lembra que uma Igreja saudável não pergunta primeiro “o que funciona?”, mas “o que Deus revelou?”. A autoridade da Escritura precisa alcançar não apenas o púlpito, mas nossa ética, nossa família, nosso dinheiro, nossa sexualidade, nossa visão de sociedade e nossa própria compreensão de nós mesmos.

5. A Reforma — continuação

No capítulo seguinte, Schaeffer amplia sua análise da Reforma e mostra seus efeitos na cultura.

Ele chama atenção para a maneira como os princípios da Reforma repercutiram na educação, nas artes, na política, na dignidade humana e na responsabilidade individual.

Um aspecto particularmente relevante é sua preocupação com a coerência. Se a Bíblia é verdadeiramente a Palavra de Deus, suas implicações não podem ficar confinadas ao culto de domingo.

É justamente nesse ponto que Schaeffer faz uma crítica importante aos próprios cristãos. Ele demonstra que, ao longo da história, cristãos também participaram de práticas incompatíveis com a ética bíblica. Sua discussão sobre escravidão e racismo é especialmente importante porque ele não permite que os cristãos simplesmente apontem os pecados do mundo secular enquanto ignoram os pecados cometidos dentro da própria história cristã.

Em determinado momento, o argumento é bastante contundente: quando práticas cristãs se encontram em profunda contradição com a Bíblia, devemos chamá-las de pecado e não tentar suavizar a linguagem.

Aplicação pastoral: essa talvez seja uma das melhores contribuições de Schaeffer: uma cosmovisão cristã precisa produzir coerência cristã.

Não adianta defender a verdade bíblica no discurso e negá-la na prática.

6. O Iluminismo — a razão autônoma

O Iluminismo representa outro momento decisivo na narrativa de Schaeffer.

A confiança na razão humana cresce. O homem passa a acreditar que pode encontrar, por si mesmo, respostas suficientemente abrangentes para explicar a realidade.

O problema, para Schaeffer, não está no uso da razão. O cristianismo não é anti-intelectual. O problema está na razão autônoma, que pretende funcionar sem qualquer referência à revelação de Deus.

A Revolução Francesa aparece como uma espécie de experimento histórico dessa confiança na autonomia humana. Quando a sociedade rejeita os fundamentos cristãos, precisa encontrar alguma outra base para sua moral, sua política e sua concepção de dignidade humana.

Schaeffer pergunta, em essência: se Deus não existe, de onde vêm os valores absolutos?

Essa pergunta continua extraordinariamente atual.

Aplicação pastoral: nossos jovens precisam aprender que o cristianismo não tem medo das perguntas intelectuais. Pelo contrário, a fé cristã deve formar pessoas capazes de pensar. Precisamos ensinar nossos adolescentes e jovens a compreender por que creem, e não apenas no que creem.

7. A ascensão da ciência moderna — ciência sobre uma criação ordenada

Este capítulo é particularmente importante porque Schaeffer combate uma caricatura comum: a ideia de que ciência e cristianismo necessariamente são inimigos.

Para ele, a ciência moderna nasceu em um contexto no qual muitos cientistas acreditavam que o universo era ordenado porque havia sido criado por Deus.

A própria possibilidade de investigação científica depende da convicção de que existe uma ordem real na natureza.

Schaeffer discute questões relacionadas à física moderna e à teoria quântica para mostrar que o desenvolvimento da ciência não exige necessariamente a conclusão filosófica de que tudo é aleatório. Ele diferencia aquilo que a ciência pode demonstrar da interpretação filosófica que alguém pode construir a partir dela.

Aqui encontramos uma distinção importantíssima:

ciência não é a mesma coisa que naturalismo filosófico.

A ciência investiga o mundo natural. O naturalismo afirma que o mundo natural é tudo o que existe. São afirmações diferentes.

Aplicação pastoral: a Igreja não deveria ensinar nossos jovens a escolher entre Bíblia e ciência. Precisamos ensiná-los a distinguir entre dados científicos e interpretações filosóficas dos dados científicos.

8. O colapso na filosofia e na ciência — a chegada do desespero

É aqui que a narrativa de Schaeffer começa a adquirir uma tonalidade mais sombria.

A confiança moderna na razão começa a apresentar problemas. Se a razão humana é limitada, se não conseguimos alcançar uma explicação unificada da realidade e se o universo passa a ser interpretado exclusivamente como um sistema fechado de causas naturais, surge uma crise.

Schaeffer descreve esse movimento como uma passagem para aquilo que ele chama de irracionalismo.

O homem tenta explicar tudo sem Deus, mas acaba não conseguindo explicar satisfatoriamente o próprio homem.

O resultado é o desespero.

A questão se torna especialmente séria quando o ser humano passa a ser reduzido a matéria, moléculas, partículas, condicionamentos ou mecanismos biológicos. O problema deixa de ser apenas teológico: torna-se antropológico.

Aplicação pastoral: quando uma sociedade perde uma explicação objetiva para o significado da vida humana, ela não elimina a necessidade de significado. Ela apenas deixa as pessoas procurando significado em outros lugares.

É exatamente o que vemos hoje.

9. Filosofia moderna e teologia moderna — quando a teologia acompanha o problema

Neste capítulo, Schaeffer examina a entrada das categorias modernas na própria teologia.

Um personagem importante é Karl Barth. Schaeffer reconhece aspectos positivos de sua reação ao liberalismo e sua resistência ao nazismo, mas critica aquilo que considera uma metodologia existencial dentro da teologia.

O problema, novamente, é a dicotomia: a verdade passa a ser separada da realidade objetiva.

A fé torna-se algo pertencente ao campo do “religioso”, enquanto a razão e os fatos pertencem ao campo daquilo que pode ser discutido publicamente.

Schaeffer considera isso extremamente perigoso para o cristianismo.

Aplicação pastoral: precisamos recuperar uma fé que não tenha vergonha de afirmar que o cristianismo diz respeito à realidade. A ressurreição de Cristo não é simplesmente uma experiência subjetiva. Deus entrou na História.

A fé cristã não é uma fuga da realidade; ela é uma interpretação da realidade à luz da revelação de Deus.

10. Arte atual, música, literatura e filmes — a cultura como espelho da cosmovisão

Este é um dos capítulos mais fascinantes da obra.

Schaeffer entende que a arte é uma janela para a alma de uma sociedade.

Ele percorre diferentes manifestações artísticas para demonstrar a crescente fragmentação da cultura moderna. O absurdo, a alienação, a ausência de significado e o irracionalismo aparecem nas artes, na literatura e no cinema.

Ao analisar obras e cineastas modernos, Schaeffer mostra como a visão do homem como máquina ou como ser sem categorias objetivas de verdade e moralidade aparece representada artisticamente.

A discussão de filmes como Blow-Up é particularmente interessante. O próprio material do livro apresenta o filme como exemplo de um universo em que não existem certezas morais ou critérios objetivos capazes de distinguir definitivamente verdade e ilusão.

Aplicação pastoral: esta é uma área em que a Igreja ainda precisa crescer muito.

Precisamos aprender a ler filmes, músicas, séries, literatura e redes sociais não apenas perguntando:

“Isso é permitido?”

Precisamos perguntar:

“Que visão de homem, de mundo, de verdade e de moralidade está sendo ensinada aqui?”

Isso é discernimento cristão.

11. Nossa sociedade — paz pessoal e prosperidade

Aqui Schaeffer chega à sua análise mais diretamente contemporânea.

Ele identifica dois grandes valores que passaram a dominar a sociedade ocidental: paz pessoal e prosperidade.

Paz pessoal significa, em termos gerais, o desejo de que ninguém interfira na minha vida. Prosperidade significa o desejo de possuir um nível crescente de conforto, segurança e bens.

O problema não está em desejar paz ou prosperidade em si mesmas. O problema está em transformá-las nos valores supremos da existência.

Quando esses valores se tornam absolutos, uma sociedade pode chegar a um ponto em que as pessoas estão dispostas a abrir mão de liberdade, verdade e princípios para preservar seu conforto.

Schaeffer também analisa o marxismo-leninismo e sua incompatibilidade com uma concepção cristã da dignidade humana.

Um dos argumentos mais fortes do capítulo aparece em sua discussão sobre a relativização dos absolutos. Ele observa como a lei moderna pode tornar-se cada vez mais dependente das decisões arbitrárias de tribunais e daquilo que a sociedade considera aceitável naquele momento. Sua discussão sobre o aborto é utilizada como estudo de caso para demonstrar os perigos de separar a dignidade humana de um fundamento objetivo.

Aplicação pastoral: esse capítulo é muito atual, mas precisa ser lido criticamente. Schaeffer escrevia na década de 1970 e utilizava exemplos próprios daquele momento histórico. Não devemos simplesmente transportar cada diagnóstico para 2026 sem fazer a devida análise histórica.

Mas sua pergunta continua extremamente relevante:

Estamos dispostos a defender a verdade mesmo quando ela ameaça nossa paz pessoal e nossa prosperidade?

12. Manipulação e a nova elite — quando o homem passa de criatura a objeto

O capítulo 12 aprofunda o problema apresentado anteriormente.

Se o homem é apenas matéria, mecanismo, genética, condicionamento psicológico ou produto do ambiente, então surge uma pergunta assustadora: quem controlará o ambiente?

Schaeffer discute ideias associadas ao determinismo psicológico e biológico, examinando nomes como Freud, B. F. Skinner e Francis Crick. Sua preocupação é que uma concepção mecanicista do homem possa abrir caminho para formas cada vez mais sofisticadas de manipulação.

A questão é profundamente contemporânea.

Hoje podemos pensar não apenas em propaganda ou condicionamento psicológico, mas também em algoritmos, coleta massiva de dados, engenharia comportamental, inteligência artificial, publicidade personalizada e tecnologias capazes de prever e influenciar comportamentos.

É preciso, entretanto, fazer uma distinção: Schaeffer não escreveu especificamente sobre inteligência artificial ou sobre as tecnologias digitais contemporâneas. Portanto, seria anacrônico atribuir-lhe previsões específicas sobre essas tecnologias.

Mas seu princípio antropológico continua extremamente útil:

Se o homem deixa de ser visto como uma pessoa criada à imagem de Deus, torna-se muito mais fácil tratá-lo como objeto de manipulação.

Aplicação pastoral: a Igreja precisa recuperar uma teologia robusta da imagem de Deus.

O homem não é simplesmente um consumidor.

Não é simplesmente um dado.

Não é simplesmente um perfil psicológico.

Não é simplesmente um conjunto de preferências.

É uma criatura feita à imagem de Deus.

13. As alternativas — a pergunta que dá sentido ao livro

Finalmente chegamos ao capítulo que explica o título.

Depois de percorrer toda essa trajetória, Schaeffer pergunta: Como viveremos?

A resposta não é simplesmente “seja mais conservador”. Tampouco é “volte ao passado”.

A alternativa apresentada por Schaeffer é recuperar uma base cristã para a verdade, a moral, a dignidade humana e o significado da vida. O livro termina apontando para a necessidade de retornar à revelação de Deus e ao fundamento cristão da realidade. A apresentação da obra pela própria Crossway resume sua proposta final como uma vida baseada na ética cristã, na aceitação da revelação de Deus e nos valores e significados apresentados pela Bíblia.

O capítulo apresenta as consequências possíveis da continuidade da trajetória moderna: crise econômica, instabilidade social, conflitos, violência, manipulação e perda crescente de liberdade. Ao mesmo tempo, Schaeffer aponta para a necessidade de uma alternativa cristã.

Mas aqui precisamos fazer uma importante correção pastoral.

A alternativa cristã não é simplesmente reconstruir uma civilização cristã.

Nossa esperança não está na criação de uma sociedade perfeita mediante políticas públicas, partidos políticos ou instituições religiosas.

Nossa esperança está em Cristo.

O cristianismo não oferece apenas uma filosofia melhor. Oferece reconciliação com Deus por meio de Jesus Cristo.

Avaliação crítica da obra

As grandes virtudes

A primeira grande virtude de Como Viveremos? é sua capacidade de conectar doutrina e cultura.

Schaeffer compreende algo que a Igreja frequentemente esquece: toda doutrina produz uma maneira de viver. Aquilo que pensamos sobre Deus determina aquilo que pensamos sobre o homem; aquilo que pensamos sobre o homem influencia nossa ética; nossa ética influencia nossas instituições; e nossas instituições moldam nossa cultura.

A segunda virtude é sua visão interdisciplinar. Schaeffer conversa com História, filosofia, teologia, ciência, arquitetura, pintura, música, literatura e cinema. Ele não coloca o cristianismo dentro de uma pequena caixa chamada “religião”.

A terceira virtude é sua preocupação apologética. Schaeffer quer que o cristão seja capaz de conversar com a cultura. Ele não propõe simplesmente que o crente se retire do mundo.

A quarta virtude é sua preocupação com coerência. Ele não permite que os cristãos usem a Bíblia para condenar os outros enquanto ignoram seus próprios pecados. Sua crítica às inconsistências históricas dos cristãos é uma contribuição pastoral muito necessária.

E talvez a maior virtude seja a própria pergunta que dá título à obra.

Como viveremos?

Não simplesmente:

“Como venceremos?”

“Como dominaremos?”

“Como defenderemos nossa cultura?”

Mas:

“Como viveremos?”

Essa é uma pergunta muito mais cristã.

Por que essa leitura é importante em 2026?

Talvez alguém pergunte:

“Mas esse livro foi escrito em 1976. Por que deveríamos lê-lo agora, cinquenta anos depois?”

A resposta é simples: porque Schaeffer nos ensina a fazer uma pergunta que continua atual.

Ele nos ensina a olhar para a cultura não apenas em termos de comportamentos, mas em termos de cosmovisão.

Quando um jovem diz:

“Minha verdade é a minha verdade.”

Precisamos perguntar:

Que concepção de verdade está por trás dessa afirmação?

Quando alguém diz:

“Cada pessoa deve fazer aquilo que quiser.”

Precisamos perguntar:

Que conceito de liberdade está sendo utilizado?

Quando a cultura diz:

“Você é aquilo que sente.”

Precisamos perguntar:

Qual é a concepção de pessoa humana pressuposta nessa afirmação?

Quando a tecnologia diz:

“Podemos prever e modificar o comportamento humano.”

Precisamos perguntar:

O que significa ser humano?

E quando a Igreja pergunta:

“Como podemos alcançar esta geração?”

Precisamos acrescentar:

“Que visão de mundo esta geração está recebendo?”

Essa é a grande contribuição de Schaeffer.

A importância pastoral da leitura

Para a Igreja, Como Viveremos? Não deveria ser apenas uma leitura intelectual. Deve ser uma convocação ao discernimento cristão.

Romanos 12.2 continua sendo absolutamente pertinente:

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente…”

A transformação da vida começa pela transformação da mente.

Isso significa que discipulado cristão não pode consistir somente em ensinar alguém a frequentar cultos, cantar louvores, contribuir financeiramente e participar de atividades da igreja.

Precisamos formar cristãos que saibam pensar biblicamente.

Precisamos ensinar nossos filhos a interpretar a cultura.

Precisamos ensinar nossos jovens a dialogar com a universidade.

Precisamos ensinar os adultos a pensar cristãmente sobre política, economia, sexualidade, educação, ciência e tecnologia.

Precisamos ensinar a Igreja a reconhecer que existem pressupostos por trás das ideias.

E precisamos, acima de tudo, lembrar que nossa cosmovisão não começa em uma ideologia. Começa em Deus.

O cristão não começa perguntando:

“Qual partido devo apoiar?”

“Qual filósofo devo seguir?”

“Qual cultura devo defender?”

Começa perguntando:

“O que Deus revelou?”

E, então:

“Como essa revelação deve determinar minha maneira de viver?”

Conclusão — a pergunta continua diante de nós

Como Viveremos? é uma obra que merece ser lida, discutida e, principalmente, criticamente assimilada.

Não porque Francis Schaeffer tenha respondido todas as perguntas.

Ele não respondeu.

Não porque sua interpretação de todos os períodos históricos seja definitiva.

Não é.

Não porque seus diagnósticos políticos dos anos 1970 possam ser simplesmente transferidos para 2026.

Não podem.

Mas porque ele nos ensinou a olhar para uma sociedade e perguntar:

“Quais são os pressupostos que estão por trás disso?”

E, principalmente, porque nos lembra que a Igreja não pode responder aos desafios de seu tempo simplesmente reclamando da cultura.

A Igreja precisa compreendê-la, confrontá-la, servi-la e anunciar-lhe o evangelho.

A grande pergunta de Schaeffer permanece.

Como viveremos?

Viveremos como pessoas que foram moldadas pelo espírito deste século ou como discípulos de Jesus Cristo?

Viveremos governados pela ansiedade da cultura ou pela verdade das Escrituras?

Viveremos buscando apenas paz pessoal e prosperidade ou buscando primeiro o Reino de Deus?

Viveremos segundo os valores que mudam a cada geração ou segundo a Palavra daquele que permanece para sempre?

A resposta cristã não é simplesmente voltar a uma determinada época da História.

É voltar para Cristo.

Porque, no fim das contas, a pergunta “Como viveremos?” só encontra sua resposta definitiva quando respondemos primeiro a outra:

“Quem é Jesus Cristo para nós?”

É por isso que uma série de sermões como “Como Viveremos?” pode ser tão importante para a Igreja em 2026. Não se trata de uma aula sobre História da Filosofia. Trata-se de um convite para examinarmos nossa própria maneira de pensar, confrontá-la com a Escritura e descobrir novamente como o evangelho de Cristo transforma não somente aquilo que cremos, mas também a maneira como vivemos no mundo.


Referência principal

SCHAEFFER, Francis A. Como Viveremos? Uma análise das características principais de nossa época em busca de soluções para os problemas desta virada de milênio. São Paulo: Cultura Cristã. Tradução de Gabriele Gergersen. A edição brasileira utilizada traz o original How Should We Then Live?, publicado originalmente em 1976.

A estrutura integral da obra contém 13 capítulos: Roma Antiga; A Idade Média; A Renascença; A Reforma; A Reforma (continuação); O Iluminismo; A Ascensão da Ciência Moderna; O Colapso na Filosofia e Ciência; Filosofia Moderna e Teologia Moderna; Arte Atual, Música, Literatura e Filmes; Nossa Sociedade; Manipulação e a Nova Elite; As Alternativas.

Soli Deo gloria

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