A Intolerância da Tolerância – D. A. Carson
Poucos autores evangélicos contemporâneos conseguiram reunir, com a mesma competência, exegese bíblica, teologia sistemática, apologética e análise cultural como D. A. Carson. Professor de Novo Testamento no Trinity Evangelical Divinity School (EUA), Carson tornou-se uma das vozes mais influentes do evangelicalismo acadêmico das últimas décadas. Sua produção bibliográfica atravessa áreas como hermenêutica, cristologia, cultura, missão, pós-modernidade e teologia bíblica, sempre marcada por profundo rigor intelectual e fidelidade às Escrituras. Entre suas obras mais conhecidas estão A Difícil Doutrina do Amor de Deus, Cristo e Cultura Revisitado, O Deus Presente e este excelente A Intolerância da Tolerância, publicado originalmente em 2011 e lançado no Brasil pela Editora Cultura Cristã.
Pretendo publicar, ao longo dos próximas semanas, outras resenhas de livros do Carson. Considero importante apresentar sua produção ao público brasileiro porque, independentemente de concordarmos com todas as suas conclusões teológicas, estamos diante de um autor que sempre argumenta com seriedade, honestidade intelectual e amplo diálogo com a história, a filosofia e a cultura contemporânea.
A proposta do livro
A tese central da obra é relativamente simples, mas extremamente provocativa: o conceito de tolerância sofreu uma profunda transformação na cultura ocidental. Segundo Carson, a tolerância clássica significava reconhecer o direito de alguém defender ideias das quais discordamos. A chamada “nova tolerância”, entretanto, passou a exigir algo diferente: não basta permitir que o outro pense diferente; espera-se que todas as posições sejam consideradas igualmente legítimas e verdadeiras. Quando alguém afirma existir verdade objetiva, passa imediatamente a ser acusado de intolerância. É justamente esse paradoxo que Carson procura demonstrar ao longo do livro.
O autor deixa claro que não está defendendo perseguição religiosa, censura ou qualquer forma de autoritarismo. Seu alvo é mostrar que uma sociedade que proclama tolerância absoluta frequentemente se torna profundamente intolerante justamente contra aqueles que mantêm convicções firmes.
Capítulo 1 — A face mutante da tolerância
O primeiro capítulo estabelece toda a base conceitual da obra. Carson mostra que a palavra “tolerância” mudou de significado ao longo do tempo. Utilizando definições de dicionários, conceitos sociológicos e diversos exemplos cotidianos, ele demonstra que houve uma passagem da antiga ideia de “aceitar a existência de opiniões diferentes” para uma nova exigência cultural de “aceitar todas as opiniões como igualmente válidas”. Essa distinção é fundamental para compreender todo o restante do livro e talvez seja sua contribuição mais conhecida. O capítulo ainda mostra como, na cultura contemporânea, qualquer reivindicação de verdade exclusiva é frequentemente interpretada como sinal de intolerância, criando enorme dificuldade para o testemunho cristão em ambientes acadêmicos, políticos e sociais.
Capítulo 2 — O que está acontecendo?
Depois de estabelecer a mudança conceitual, Carson analisa como essa nova definição opera na prática. Ele reúne exemplos provenientes da política, da educação, da mídia, das universidades e dos debates públicos para mostrar que a linguagem da tolerância passou a funcionar como instrumento de pressão cultural. Em muitos casos, o problema já não é proteger a liberdade de expressão, mas determinar quais opiniões ainda podem ser expressas. O capítulo revela como determinadas convicções religiosas passam a ser tratadas como moralmente inaceitáveis simplesmente porque afirmam existir uma verdade objetiva.
Capítulo 3 — Um pouco sobre a história da tolerância
Este talvez seja um dos capítulos mais importantes para quem aprecia história do pensamento. Carson evita simplificações e demonstra que nenhuma sociedade foi absolutamente tolerante ou absolutamente intolerante. Em vez disso, ele percorre parte da história ocidental mostrando como diferentes épocas compreenderam a relação entre verdade, liberdade e convivência social. O autor dialoga com figuras como John Locke e outros pensadores da tradição liberal, explicando como nasceu a moderna concepção de liberdade religiosa e quais mudanças ocorreram até chegarmos ao cenário atual. Um dos méritos do capítulo é mostrar que tolerância sempre existiu dentro de determinados limites morais compartilhados; quando esses limites desaparecem, a própria tolerância muda de natureza.
Capítulo 4 — Pior do que incoerência
Neste ponto Carson afirma que a nova tolerância não é apenas contraditória; ela produz efeitos intelectualmente destrutivos. Ao rejeitar qualquer possibilidade de verdade objetiva, ela perde critérios para distinguir entre bem e mal, justo e injusto, verdadeiro e falso. O autor mostra que o relativismo acaba assumindo um caráter paradoxal: ele afirma que todas as opiniões são igualmente válidas, exceto aquelas que negam o próprio relativismo. Surge, então, aquilo que Carson considera uma das maiores ironias culturais do nosso tempo: a intolerância praticada em nome da tolerância.
Capítulo 5 — A Igreja e as afirmações cristãs sobre a verdade
Este capítulo interessa especialmente aos cristãos. Carson argumenta que o evangelho, por sua própria natureza, contém afirmações exclusivas. Jesus declara ser “o caminho, a verdade e a vida”; os apóstolos anunciam um único evangelho; a Escritura apresenta uma revelação objetiva de Deus. Assim, a Igreja não pode abandonar a linguagem da verdade apenas para adaptar-se às exigências culturais do momento. Ao mesmo tempo, Carson procura distinguir claramente firmeza doutrinária de arrogância pessoal. Defender a verdade cristã não autoriza o desrespeito ao próximo.
Capítulo 6 — E ainda há o mal
Aqui Carson faz uma pergunta decisiva: se toda verdade é relativa, como definir o mal? O autor mostra que a nova tolerância frequentemente perde instrumentos para condenar determinadas práticas, pois, se não existe verdade objetiva, também não existe fundamento sólido para juízos morais universais. O capítulo desenvolve uma reflexão ética importante sobre justiça, responsabilidade moral e discernimento, mostrando que uma sociedade necessita de critérios objetivos para distinguir aquilo que deve ou não ser protegido.
Capítulo 7 — Tolerância, democracia e majoritarismo
Neste capítulo Carson entra no campo da filosofia política. Ele analisa a relação entre democracia, liberdade religiosa e participação pública dos cristãos. Argumenta que democracia não significa ausência de convicções, nem eliminação da religião do espaço público. Pelo contrário, sociedades verdadeiramente livres permitem que diferentes cosmovisões participem do debate sem que uma delas seja previamente silenciada apenas por possuir fundamentos religiosos.
Capítulo 8 — Alternativas para o futuro: As dez palavras
O último capítulo possui caráter mais pastoral. Carson apresenta dez orientações práticas para os cristãos enfrentarem esse novo ambiente cultural. Seu objetivo não é estimular uma postura agressiva ou beligerante, mas encorajar a Igreja a permanecer fiel ao evangelho, cultivar confiança na soberania de Deus e responder com coragem, humildade e perseverança às pressões culturais. A conclusão do livro reforça que a esperança da Igreja nunca deve repousar em mudanças políticas, mas na fidelidade de Deus e na proclamação do evangelho.
Por que ler este livro?
Vivemos em uma época em que expressões como diversidade, inclusão, respeito e tolerância ocupam lugar central no debate público. Isso torna o livro extremamente atual. Carson oferece instrumentos conceituais importantes para compreender fenômenos que muitos cristãos percebem intuitivamente, mas têm dificuldade para explicar. O leitor encontrará uma análise que ultrapassa slogans políticos e propõe reflexão filosófica, histórica, jurídica e teológica.
Outro mérito é que o autor evita o alarmismo. Embora faça críticas contundentes ao relativismo contemporâneo, procura fundamentar seus argumentos por meio da história das ideias, de exemplos concretos e de amplo diálogo com diversos pensadores, tornando a leitura útil não apenas para pastores, mas também para professores, universitários, juristas e todos aqueles interessados na relação entre fé cristã e cultura.
Avaliação crítica pastoral
Como toda boa obra, A Intolerância da Tolerância merece ser lida tanto com admiração quanto com senso crítico. Carson escreve a partir de uma perspectiva reformada confessional e, naturalmente, algumas aplicações refletem seu contexto norte-americano, especialmente nos debates jurídicos e culturais dos Estados Unidos. O leitor brasileiro precisa considerar essas diferenças ao transpor alguns exemplos para nossa realidade.
Também é importante lembrar que a crítica de Carson dirige-se ao relativismo filosófico e não ao respeito às pessoas. Em alguns ambientes, infelizmente, o livro já foi utilizado para justificar posturas excessivamente combativas, algo que contraria o próprio espírito da obra. O autor insiste repetidamente que o cristão deve defender a verdade sem abandonar a humildade, a civilidade e o amor ao próximo. Nesse aspecto, sua argumentação permanece equilibrada.
Pastoralmente, considero que uma das maiores contribuições do livro é recordar que a Igreja não precisa escolher entre duas alternativas falsas: ou abandonar suas convicções para ser aceita pela cultura, ou tornar-se agressiva e hostil em relação à sociedade. O Novo Testamento chama os cristãos a anunciar a verdade em amor, preservando simultaneamente a fidelidade doutrinária e a dignidade daqueles que pensam diferente.
Conclusão
A Intolerância da Tolerância é uma das obras apologéticas mais relevantes escritas por D. A. Carson para compreender os desafios culturais do século XXI. Seu maior mérito não está em oferecer respostas simplistas, mas em ensinar o leitor a pensar cuidadosamente sobre conceitos que muitas vezes utilizamos sem perceber como seus significados foram transformados.
Mesmo quando o leitor discordar de alguma aplicação específica, dificilmente terminará a leitura sem reconhecer a profundidade da pesquisa e a consistência da argumentação. Trata-se de um livro que ajuda a Igreja a compreender melhor o mundo em que vive, preservando a convicção de que defender a verdade bíblica não é incompatível com demonstrar respeito, amor e genuína consideração pelas pessoas.
É uma leitura que recomendo especialmente a pastores, líderes, professores, estudantes de teologia e cristãos interessados em apologética, cosmovisão cristã e diálogo entre fé e cultura. Nos próximos artigos, pretendo resenhar outras obras de D. A. Carson, um autor cuja produção continua sendo uma das mais importantes contribuições do pensamento evangélico contemporâneo.
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Introdução