A Perseverança dos Santos: Uma Perspectiva Bíblica
Chegamos a um dos pontos mais debatidos da teologia cristã: a perseverança dos santos. Esse tema, também chamado de “segurança da salvação” ou “segurança eterna”, envolve questões como a possibilidade da apostasia e a eventual perda da salvação. A pergunta que ecoa entre cristãos é: o verdadeiro crente pode perder sua salvação?
Russell Champlin observou, com perspicácia, que este é um antigo campo de batalha da teologia, com exércitos bem armados em ambos os lados, defendendo suas posições a partir de textos bíblicos [1]. E de fato, a discussão não é simples, pois envolve conceitos que, se mal definidos, podem gerar conclusões equivocadas.
De um lado, o calvinismo afirma categoricamente que o verdadeiro cristão jamais poderá cair da graça, pois sua salvação está fundamentada nos decretos eternos de Deus. Do outro lado, o arminianismo clássico preferiu deixar a questão em aberto, enquanto a tradição wesleyana admitiu a possibilidade de apostasia.
O testemunho dos remonstrantes
O Artigo IV da Remonstrância (1610) já apontava para uma tensão:
“[…] quanto à questão se eles não são capazes de, por preguiça e negligência, esquecer o início de sua vida em Cristo […] isto deve ser assunto de uma pesquisa mais acurada nas Santas Escrituras antes que possamos ensiná-lo com inteira segurança.”
Ou seja, Armínio e seus seguidores reconheciam tanto a segurança da graça em Cristo quanto a necessidade de vigilância do crente, sem negar a possibilidade de queda por negligência.
A posição calvinista
Os calvinistas sustentam que a perseverança final do crente está fundamentada na eleição eterna de Deus [3]. Assim, se Deus decretou a salvação, não faria sentido que um eleito pudesse cair da graça. Essa convicção é reforçada por definições clássicas:
-
Hoeksema: perseverança é o ato da graça de Deus que preserva os santos até o fim [4].
-
A. A. Hodge: trata-se da contínua operação do Espírito Santo que mantém a obra de graça no coração [5].
-
Berkhof: os regenerados e chamados eficazmente jamais podem cair totalmente da graça, ainda que possam tropeçar [6][7][8].
Essa compreensão foi consolidada tanto nos Cânones de Dort (1619) quanto na Confissão de Fé de Westminster (1647), ambos reafirmando que os verdadeiros crentes perseverarão até o fim.
Todavia, o calvinismo reconhece que muitos abandonam a fé de forma visível. Ferreira e Myatt explicam que isso ocorre porque nem todos os que professam ser cristãos o são de fato [9]. João reforça isso ao dizer: “Saíram de nós, mas não eram dos nossos” (1 Jo 2.19).
Ainda assim, críticos apontam o risco do antinomianismo, quando a doutrina da segurança é mal compreendida e usada como desculpa para uma vida sem santidade. Por isso, é necessário insistir: não existe perseverança sem santificação [11].
A posição arminiana
O arminianismo clássico, seguindo o próprio Armínio, não definiu claramente se o crente pode perder a salvação. Armínio reconhecia que o regenerado recebe força do Espírito para vencer o pecado e que ninguém pode arrancar uma ovelha das mãos de Cristo (Jo 10.28). Contudo, ele admitia a possibilidade de que, por negligência, alguém pudesse afastar-se da graça [12][15].
É importante destacar: Armínio nunca afirmou categoricamente que o crente perde sua salvação, mas reconheceu que certas passagens bíblicas apontam nessa direção e que a questão merecia estudo mais aprofundado.
Para Armínio, tanto a salvação quanto a perseverança estão fundamentadas na presciência de Deus, que conhece aqueles que crerão e perseverarão, assim como os que não o farão [15].
Conclusão pastoral
O debate sobre a perseverança dos santos não é mera especulação acadêmica; ele toca diretamente a vida do povo de Deus. Se, por um lado, temos a segurança de que Cristo nos sustenta, por outro, somos chamados a viver em vigilância e santidade.
Não podemos cair no erro do orgulho espiritual nem da negligência. A salvação é obra da graça, mas essa mesma graça nos chama a perseverar firmes, combatendo o bom combate até o fim (2 Tm 4.7).
Como pastor, creio que a melhor forma de tratar essa tensão é manter o equilíbrio bíblico: segurança em Cristo, mas também responsabilidade do crente em permanecer no caminho.
Referências
[1] CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclópedia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Volume 6. Candeia, 1991, p. 131.
[3] HOEKSEMA, Herman. Reformed Dogmatics. Volume 2. Reformed Free Publishing Association, 2004, p. 176.
[4] Ibid., p. 175.
[5] HODGE apud FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. Vida Nova, 2007, p. 883.
[6] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã, 2012, p. 501.
[7] Ibid, p. 502.
[8] Ibid, p. 501.
[9] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática, p. 884.
[11] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática, p. 884.
[12] ARMINIUS, James. Works of James Arminius. Volume 1. Christian Classics Ethereal Library, p. 176.
[15] ARMINIUS, James. Works of James Arminius. Volume 1, p. 170.
Texto adaptado e reorganizado para fins didáticos.
Autor original: Vinicius Couto – Introdução à Teologia Armínio-Wesleyana, Reflexão, 2014.
