A religião do bolsonarismo: um ensaio teológico – Yago Martins
Yago Martins, teólogo reformado, propõe-se a fazer algo raro no Brasil evangélico: uma crítica teológica séria ao apoio político acrítico, sem cair nem no progressismo raso nem no conservadorismo messiânico. Seu objetivo não é discutir em quem votar, mas a quem se devotar — distinção crucial e profundamente bíblica.
O autor analisa o bolsonarismo não apenas como fenômeno político, mas como religião civil, categoria clássica na filosofia política e na teologia (cf. Eric Voegelin, As religiões políticas). Para Yago, o problema não é Bolsonaro como político apenas, mas o processo idolátrico que se construiu ao redor de sua figura.
Como bom reformado, ele parte de uma antropologia bíblica: o coração humano é uma fábrica de ídolos (Calvino, Institutas, I.11.8). Quando a política ocupa o lugar da esperança escatológica, temos religião — falsa, mas religião.
Introdução — O problema teológico, não eleitoral
Na introdução, Yago esclarece o escopo do livro. Ele afirma, com honestidade intelectual, que votou em Bolsonaro em 2018, o que desmonta a acusação fácil de militância ideológica. O livro não é panfleto, é confissão pastoral e reflexão teológica.
Aqui o autor apresenta a tese central:
O bolsonarismo, como fenômeno social e espiritual, assumiu contornos religiosos, exigindo devoção, lealdade absoluta, linguagem sagrada e excomunhão dos dissidentes
A introdução prepara o leitor para entender que o debate não é “direita versus esquerda”, mas Cristo versus ídolos (Mt 6.24).
Capítulo 1 – O Eleito de Deus: as primeiras raízes da idolatria
Este capítulo analisa o nascimento do mito político-religioso. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” é lido como catecismo político, não como simples retórica.
Yago mostra como o atentado sofrido por Bolsonaro foi rapidamente reinterpretado com categorias cristológicas: sofrimento vicário, martírio, eleição divina. Expressões como “ele sangrou por nós” revelam uma apropriação blasfema da linguagem da redenção
Do ponto de vista bíblico, isso é gravíssimo. A Escritura é clara:
“Há um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5).
Quando um líder político é elevado a esse patamar simbólico, não estamos mais na política — estamos no culto.
Capítulo 2 – Religião civil e idolatria política
Aqui o autor desenvolve seu arcabouço teórico. Religião, segundo Yago, não é apenas crença em deuses, mas organização de sentido último, aquilo que recebe devoção, lealdade e esperança final.
A partir da teologia bíblica e do conceito de idolatria do coração (Ez 14.3; Rm 1.21–25), ele demonstra que o bolsonarismo:
- Organiza a vida moral dos fiéis
- Define bem e mal
- Produz rituais, mártires e hereges
- Justifica pecados em nome de uma “causa maior”
Ou seja: todos os sinais de uma religião funcional
Como dizia Lutero: “Aquilo em que você deposita sua confiança é, de fato, o seu deus”.
Capítulo 3 – Cristologia política e profanação do sagrado
Neste ponto, o livro se torna mais incisivo. Yago mostra como categorias cristológicas — Messias, missão, unção, guerra espiritual — foram deslocadas do Cristo bíblico para um projeto de poder.
Discursos, orações públicas, jejuns convocados por autoridades civis e profecias políticas são analisados como exemplos claros de teologia instrumentalizada
Karl Barth é lembrado aqui, ainda que implicitamente, quando denunciou os “Cristãos Alemães” que batizaram o nazismo. A lição histórica é clara: quando a igreja unge o Estado, o Estado crucifica a igreja.
Capítulo 4 – Cancelamento, heresia e excomunhão política
Um dos capítulos mais pastorais do livro. Yago analisa o fenômeno do cancelamento como excomunhão secular. Quem rompe com o bolsonarismo é tratado como Judas, traidor, apóstata.
A lógica é religiosa:
- há puros e impuros
- fiéis e hereges
- arrependimento público exigido
- punição simbólica
Tudo isso revela que não se trata apenas de opinião política, mas de identidade espiritual.
Biblicamente, isso contradiz frontalmente Romanos 14 e 1 Coríntios 8–10, onde Paulo ensina que consciência política não é critério de comunhão cristã.
Capítulo 5 – Apocalipses de palha: conspiração e seita
No último capítulo, Yago trata do conspiracionismo e da influência de Olavo de Carvalho como estrutura de seita hermenêutica: só um intérprete autorizado, só uma leitura válida da realidade.
O mundo passa a ser lido como guerra cósmica permanente, e qualquer discordância vira prova de perseguição. É o apocalipse sem Cristo, o fim dos tempos sem esperança, o medo governando o coração.
Aqui cabe lembrar 2 Timóteo 1.7:
“Deus não nos deu espírito de medo, mas de poder, amor e moderação.”
Conspiracionismo é sempre sinal de escatologia doente.
Avaliação crítica e pastoral
Pontos fortes:
- Coragem teológica
- Honestidade intelectual
- Base bíblica sólida
- Diálogo com filosofia política séria
- Linguagem acessível sem perder densidade
Possíveis limites:
- Leitores muito identificados com o bolsonarismo terão dificuldade emocional de leitura
- A obra não propõe alternativas políticas concretas — mas isso não é defeito, é coerência com o objetivo teológico
Conclusão pastoral
Como pastor, vejo este livro como leitura obrigatória para líderes, especialmente em ano eleitoral. Yago Martins nos lembra que o maior perigo não é votar errado, mas adorar errado.
A igreja pode errar politicamente — e Deus continua sendo Deus.
Mas quando a igreja troca o Cordeiro por César, aí não é erro: é idolatria.
E, como diria o profeta Isaías, com aquele sotaque profético que atravessa os séculos:
“Ai dos que chamam ao mal bem, e ao bem mal” (Is 5.20).
Livro necessário. Incômodo. Profético. E, por isso mesmo, profundamente evangélico.
A religião do bolsonarismo: um ensaio teológico – MARTINS, Yago. São Paulo: Editora Concílio, 2020










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