Amor e respeito – Emerson Eggerichs

Antes de qualquer consideração sobre o conteúdo deste livro, quero registrar minha gratidão pela indicação de Amor e Respeito, de Emerson Eggerichs ao meu estimado amigo e irmão em Cristo, Alessandro Saraiva, diácono da igreja Gileade da Granja Portugal em Fortaleza. Algumas indicações de leitura chegam até nós como simples sugestões; outras nos conduzem a reflexões que ultrapassam as páginas do livro. Esta obra foi, para mim, uma dessas leituras. Ao percorrer suas páginas, encontrei uma proposta pastoral que procura compreender uma das experiências mais comuns e, ao mesmo tempo, mais dolorosas da vida conjugal: como duas pessoas que se amam podem entrar em um ciclo de conflitos no qual, sem perceber, passam a ferir justamente a pessoa que mais desejam ter ao seu lado?

Amor e Respeito parte de uma leitura de Efésios 5:33, especialmente da relação entre as duas orientações de Paulo: o marido deve amar sua esposa e a esposa deve respeitar seu marido. A partir dessa passagem, Eggerichs desenvolve uma tese simples, mas pastoralmente provocadora: o que ela mais deseja é sentir-se amada, enquanto aquilo de que ele mais necessita é sentir-se respeitado. O próprio autor reconhece que ambos precisam de amor e respeito; sua proposta está em destacar aquilo que, segundo suas observações pastorais e sua experiência como conselheiro e marido, aparece como uma necessidade particularmente forte em cada um.

O grande mérito da obra está em não deixar essa afirmação no campo das ideias. Eggerichs procura demonstrar como essa dinâmica aparece nas situações mais ordinárias do casamento. Uma reclamação pode ser, para a esposa, um pedido de amor; o marido, entretanto, pode ouvi-la como desrespeito. O silêncio do marido pode ser, para ele, uma tentativa de evitar uma discussão; a esposa, porém, pode interpretá-lo como falta de amor. Assim, duas pessoas que estão tentando lidar com suas próprias necessidades podem acabar produzindo exatamente aquilo que mais machuca o outro.

É nesse ponto que surge o conceito central do livro: o Ciclo Insano. Eggerichs o descreve de maneira bastante direta: quando o marido se sente desrespeitado, sua tendência é reagir de maneiras que parecem desamorosas para a esposa; quando a esposa não se sente amada, sua tendência é reagir de maneiras que parecem desrespeitosas para o marido. Assim, “sem amor, ela reage sem respeito; sem respeito, ele reage sem amor”. O ciclo pode continuar indefinidamente se não for reconhecido e interrompido.

Essa é, provavelmente, a contribuição mais importante de Amor e Respeito. O livro nos ensina a olhar para além do assunto imediato da discussão. Muitas vezes, marido e esposa discutem sobre dinheiro, filhos, trabalho, tarefas domésticas, comunicação, sexualidade ou qualquer outra questão, mas existe algo acontecendo por baixo da superfície. Ela está dizendo, de diferentes maneiras, “eu não me sinto amada”; ele está dizendo, de diferentes maneiras, “eu não me sinto respeitado”. Quando isso não é percebido, cada um responde à reação do outro, e não à necessidade que está por trás dela.

A primeira parte do livro, portanto, é dedicada ao Ciclo Insano. Os capítulos iniciais procuram mostrar como o casal entra nesse círculo, como homens e mulheres podem interpretar de maneira diferente aquilo que ouvem e fazem e como o problema se agrava quando cada um passa a justificar sua própria reação pelo comportamento do outro. A grande pergunta deixa de ser “quem começou?” e passa a ser: “O que estamos fazendo para manter esse ciclo funcionando?” O autor procura mostrar que o casamento pode entrar nesse processo quase espontaneamente e que, se o casal não aprender a reconhecê-lo, ele continuará girando.

Essa perspectiva possui grande valor pastoral porque nos ajuda a compreender que intenção e comunicação nem sempre são a mesma coisa. O marido pode sinceramente acreditar que ama sua esposa e, ainda assim, não demonstrar esse amor de uma maneira que ela consiga perceber. A esposa pode sinceramente acreditar que ama seu marido e, ainda assim, comunicar desrespeito por meio de suas palavras, críticas, comparações ou atitudes. Em ambos os casos, existe uma diferença entre aquilo que pretendemos comunicar e aquilo que o outro efetivamente recebe.

O livro também chama atenção para um fenômeno bastante comum: a tentativa de corrigir pode ser interpretada como desprezo, e a tentativa de evitar conflito pode ser interpretada como rejeição. Uma esposa pode confrontar o marido porque deseja que ele melhore; ele pode ouvir a crítica e concluir: “Ela não me respeita”. Um marido pode se calar porque não quer dizer algo que machuque; ela pode interpretar o silêncio e concluir: “Ele não me ama”. O resultado é trágico justamente porque cada um pode estar tentando preservar o relacionamento e, sem perceber, estar contribuindo para seu desgaste.

Depois de mostrar o problema, Eggerichs apresenta aquilo que chama de Ciclo Energético. Se o Ciclo Insano precisa ser interrompido, o casal precisa aprender a estabelecer uma dinâmica diferente. Para isso, o autor apresenta duas estruturas práticas: C-A-S-A-D-A, destinada aos maridos, e C-A-S-A-D-O, destinada às esposas. A primeira reúne Conexão, Abertura, Simpatia, Apaziguamento, Dedicação e Apreço; a segunda trabalha Conquista, Autoridade, Sexualidade, Afinidade, Discernimento e Ordem hierárquica.

O objetivo dessa segunda parte é extremamente prático. Eggerichs quer ensinar o marido a demonstrar amor e a esposa a demonstrar respeito. A ideia é que não basta afirmar “eu amo minha esposa” ou “eu respeito meu marido”. É necessário aprender a comunicar essas atitudes de maneira que o outro consiga percebê-las. Para o marido, isso significa cultivar proximidade, abrir-se emocionalmente, ouvir sem tentar imediatamente resolver tudo, buscar apaziguamento, demonstrar compromisso e apreciar a esposa. Para a esposa, significa reconhecer e valorizar o desejo do marido de trabalhar e realizar, sua responsabilidade de liderar e servir, sua necessidade de intimidade, sua forma de construir amizade, seu desejo de analisar e aconselhar e sua responsabilidade de proteger e prover.

Uma das coisas que considero mais interessantes nessa parte do livro é que Eggerichs procura levar o casal da abstração para a prática. “Ame sua esposa” é uma verdade bíblica maravilhosa, mas um homem pode perguntar legitimamente: “Como faço isso hoje?”. “Respeite seu marido” também é uma orientação bíblica, mas uma mulher pode perguntar: “Como isso aparece na vida cotidiana?”. A proposta de C-A-S-A-D-A e C-A-S-A-D-O é justamente oferecer caminhos concretos.

O autor, porém, insiste que o Ciclo Energético não acontece automaticamente. É necessário esforço constante para permanecer nele. O Ciclo Insano está sempre pronto para voltar. Por isso, o casal precisa desenvolver uma nova maneira de reagir um ao outro.

Essa é uma verdade importante para qualquer casamento cristão: não basta descobrir o problema; é preciso desenvolver novas respostas. Não adianta marido e esposa saberem que estão presos no Ciclo Insano se continuam repetindo as mesmas atitudes. Conhecer a dinâmica é apenas o primeiro passo. A transformação acontece quando o marido decide amar de maneira concreta e quando a esposa decide demonstrar respeito de maneira concreta.

Mas o livro ainda dá um passo além. E, para mim, é justamente aí que sua proposta ganha uma dimensão espiritual mais profunda. Na terceira parte, Eggerichs apresenta o Ciclo Recompensador e procura responder a uma pergunta fundamental: por que devo amar e respeitar quando meu cônjuge não está correspondendo?

Se o marido ama para receber respeito e a esposa respeita para receber amor, então tudo continua sendo uma negociação. “Eu faço a minha parte se você fizer a sua.” Mas o autor procura romper essa lógica ao colocar Cristo no centro. Ele argumenta que, em última análise, o casamento cristão não está fundamentado simplesmente naquilo que recebemos do nosso cônjuge, mas naquilo que fazemos diante do Senhor.

Essa é uma das afirmações mais fortes do livro: o marido não deve amar a esposa somente porque ela o respeita; deve amá-la porque Cristo o chamou a amar. A esposa não deve respeitar o marido somente porque ele a ama; deve respeitá-lo porque Cristo a chamou a respeitar. Eggerichs chega a afirmar que, em última análise, o casamento não tem a ver apenas com o relacionamento entre marido e mulher, mas com o relacionamento de cada um com Jesus Cristo.

Isso impede que Amor e Respeito seja reduzido a uma espécie de técnica de manipulação conjugal. Não é “eu vou amar para conseguir respeito” nem “eu vou respeitar para conseguir amor”. A lógica cristã é mais profunda: eu amo porque pertenço a Cristo; eu respeito porque pertenço a Cristo.

O próprio autor explica que as necessidades conjugais podem ser satisfeitas como consequência dessa dinâmica, mas não devem ser a motivação última. O primeiro objetivo é obedecer e agradar a Cristo; as bênçãos no casamento são apresentadas como possíveis frutos dessa obediência, e não como o fundamento dela.

É nesse ponto que a obra encontra uma verdade profundamente bíblica. O casamento cristão não pode funcionar apenas sobre a base da reciprocidade. Se marido e esposa disserem “só farei aquilo que devo fazer depois que você fizer aquilo que deve fazer”, o relacionamento ficará preso. A graça de Deus nos ensina uma lógica diferente: eu sou responsável diante de Deus pela maneira como trato meu cônjuge, independentemente da resposta que recebo dele ou dela.

Isso não significa ignorar pecado, aceitar injustiça ou tolerar abusos. O próprio livro reconhece situações que exigem tratamento específico e afirma claramente sua condenação ao abuso físico e verbal, inclusive recomendando proteção e ajuda em situações dessa natureza. Essa ressalva é essencial para uma leitura pastoral responsável.

O que há de mais valioso na obra?

Acredito que a maior contribuição de Amor e Respeito seja dar nome a uma dinâmica que muitos casais vivem sem compreender. Quando o casal aprende a identificar o Ciclo Insano, ele pode começar a perceber que o problema não é simplesmente aquilo que o outro fez, mas a sequência de reações que os dois estão produzindo.

Outro grande mérito é sua capacidade de transformar conceitos em práticas. O autor não fica apenas dizendo “amem-se mais”. Ele pergunta como o amor pode ser demonstrado. Não se limita a dizer “respeitem-se”. Procura mostrar como o respeito pode ser comunicado.

Também considero importante a insistência na responsabilidade individual. É muito fácil passar anos dizendo: “Eu sou assim porque meu marido me trata assim” ou “eu me comporto dessa maneira porque minha esposa me provoca”. O livro nos força a fazer uma pergunta mais madura: “Qual é a minha responsabilidade diante de Deus?”

Além disso, a obra chama atenção para algo que às vezes esquecemos: o casamento é uma escola de santificação. O cônjuge não é apenas alguém que satisfaz nossas necessidades; é também alguém diante de quem somos confrontados com nosso egoísmo, nossa impaciência, nosso orgulho e nossa dificuldade de perdoar.

Algumas cautelas necessárias

Como toda obra humana, Amor e Respeito precisa ser lida com discernimento. A primeira cautela diz respeito às generalizações sobre homens e mulheres. A fórmula “ela precisa de amor; ele precisa de respeito” é uma chave interpretativa útil dentro da proposta do autor, mas não deve ser transformada em uma lei psicológica universal. Toda mulher precisa de amor e respeito. Todo homem precisa de amor e respeito. Pessoas são diferentes, e a própria obra reconhece a existência de exceções ao padrão apresentado, dedicando um de seus apêndices justamente a essa questão.

Também precisamos distinguir aquilo que a Bíblia efetivamente afirma daquilo que Eggerichs constrói como modelo pastoral a partir de sua leitura da Bíblia. Efésios 5:33 realmente apresenta amor ao marido e respeito à esposa; isso não significa que cada categoria psicológica do livro possa ser transformada automaticamente em doutrina bíblica.

O mesmo cuidado deve existir quando tratamos de autoridade e ordem hierárquica. A liderança do marido, biblicamente compreendida, não pode ser separada do modelo estabelecido por Paulo: “Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5:25). O marido cristão não recebe autorização para dominar; recebe uma responsabilidade sacrificial. Liderança sem amor se transforma em autoritarismo. Submissão sem discernimento pode ser distorcida em opressão. O padrão bíblico é muito mais elevado.

Por isso, eu não recomendaria que alguém lesse Amor e Respeito como se tivesse encontrado uma fórmula matemática para resolver qualquer casamento. O livro é melhor compreendido como uma ferramenta pastoral que ajuda marido e esposa a enxergar determinados padrões de relacionamento e a desenvolver atitudes mais saudáveis.

Por que recomendo a leitura?

Porque é um livro que pode ajudar muitos casais a fazer uma descoberta simples, mas decisiva: talvez o problema não seja apenas aquilo que meu cônjuge está fazendo comigo; talvez exista um ciclo que nós dois estamos alimentando.

E, se existe um ciclo, ele pode ser interrompido.

O marido pode começar perguntando:

“Minha esposa consegue perceber o meu amor?”

A esposa pode perguntar:

“Meu marido consegue perceber o meu respeito?”

Mas ambos precisam chegar a uma pergunta maior:

“Estamos vivendo nosso casamento de acordo com aquilo que Cristo deseja?”

Essa última pergunta é a que coloca tudo em seu devido lugar.

No final, Amor e Respeito não deve nos levar simplesmente a tentar construir um casamento mais confortável. Deve nos conduzir a pensar em um casamento mais santo, maduro e comprometido com Cristo.

O Ciclo Insano nos mostra como podemos ferir um ao outro.

O Ciclo Energético nos ensina como podemos começar a edificar um ao outro.

E o Ciclo Recompensador nos lembra por que devemos fazer isso mesmo quando a resposta do outro não vem imediatamente: porque nosso primeiro compromisso é com Cristo.

Talvez seja justamente essa a grande lição que fica depois da leitura.

O marido não precisa esperar que a esposa o respeite para começar a amá-la.

A esposa não precisa esperar que o marido a ame perfeitamente para começar a tratá-lo com respeito.

Ambos precisam olhar para Cristo.

E, diante dele, começar.

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