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O pastor entre o púlpito e a administração

Delegação, treinamento e liderança compartilhada!

Introdução

Uma das questões mais delicadas do ministério pastoral contemporâneo é a relação entre liderança espiritual e administração da igreja. O pastor é chamado a pregar, ensinar, discipular, aconselhar, visitar, orar, liderar e cuidar do rebanho, mas também se vê diante de uma série de responsabilidades administrativas que não podem simplesmente ser ignoradas: orçamento, manutenção, documentos, agenda, pessoal, comunicação, eventos, compras, prestação de contas, organização de espaços, acompanhamento de equipes, tecnologia, registros e inúmeras outras tarefas. Em igrejas pequenas, muitas dessas funções acabam concentradas diretamente nas mãos do pastor; em igrejas maiores, mesmo quando existem funcionários e voluntários, o pastor pode continuar sendo envolvido em praticamente todas as decisões. Surge, então, uma pergunta fundamental: como preservar o tempo necessário para estudo, oração e ensino sem negligenciar a administração necessária para que a comunidade funcione adequadamente?

A primeira resposta precisa ser teológica: administração não é uma atividade espiritualmente inferior. O problema não está em administrar, mas em permitir que a administração ocupe todo o espaço do ministério pastoral. A Escritura apresenta diferentes formas de serviço no corpo de Cristo e demonstra que a igreja possui necessidades práticas que exigem organização. Atos 6 é particularmente significativo nesse sentido. A comunidade cristã cresceu, surgiu uma necessidade concreta relacionada à distribuição diária e os apóstolos reconheceram que não seria adequado abandonar a oração e o ministério da Palavra para assumir pessoalmente aquela responsabilidade. A solução não foi desprezar a administração, mas organizar a comunidade de modo que pessoas capacitadas assumissem aquela tarefa. O princípio é extraordinariamente atual: a igreja precisa ser administrada, mas o pastor não precisa necessariamente administrar pessoalmente tudo aquilo que precisa ser administrado.

1. O erro da centralização pastoral

Um dos maiores problemas administrativos das igrejas locais é a centralização excessiva. Em muitas comunidades, o pastor se transforma simultaneamente em pregador, professor, secretário, tesoureiro, gestor de pessoas, responsável pela comunicação, organizador de eventos, supervisor de manutenção, responsável pela tecnologia e solucionador oficial de qualquer problema que apareça. Algumas vezes essa centralização acontece porque o pastor não confia nas pessoas; em outras, porque não existem pessoas treinadas; em outras ainda, porque a cultura da própria igreja estabeleceu a expectativa de que tudo precisa passar pelo pastor.

Esse modelo pode parecer eficiente inicialmente, porque uma única pessoa toma decisões rapidamente. Entretanto, ele é estruturalmente frágil. Se tudo depende do pastor, a igreja não possui uma liderança desenvolvida; possui uma dependência institucional de uma pessoa. Além disso, a centralização produz dois problemas simultâneos: o pastor fica sobrecarregado e os demais membros permanecem subutilizados. Pessoas que poderiam aprender a servir não recebem oportunidade, enquanto o pastor se torna progressivamente incapaz de dedicar tempo às atividades que exigem sua responsabilidade principal.

Akin e Pace, em Teologia Pastoral, ajudam a pensar o ministério a partir de suas responsabilidades teológicas e pastorais, e não simplesmente como uma coleção de tarefas. Essa perspectiva permite distinguir aquilo que pertence essencialmente ao chamado pastoral daquilo que pode ser realizado por outros membros devidamente capacitados. A liderança pastoral não significa executar todas as tarefas da igreja; significa conduzir o corpo para que seus diferentes membros cumpram suas responsabilidades. A descrição editorial da obra enfatiza justamente a amplitude do trabalho pastoral e a necessidade de compreender teologicamente aquilo que o pastor é e faz.

2. Atos 6 e o princípio da distribuição de responsabilidades

Atos 6 oferece um dos textos mais importantes para essa discussão. A igreja de Jerusalém estava crescendo e surgiu uma queixa relacionada à distribuição diária às viúvas. Os apóstolos não consideraram aquela necessidade irrelevante. Pelo contrário, reconheceram que ela precisava ser resolvida. Mas também compreenderam que assumir pessoalmente aquela tarefa comprometeria outras responsabilidades centrais: “não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas” (At 6.2). A solução foi selecionar homens qualificados para aquela função.

O texto não estabelece uma divisão absoluta entre tarefas “espirituais” e “não espirituais”. Servir às mesas não era uma atividade secular; era uma necessidade concreta da comunidade cristã. O ponto era outro: diferentes membros possuem diferentes responsabilidades dentro do corpo. Os apóstolos deveriam concentrar-se especialmente na oração e no ministério da Palavra, enquanto outros homens assumiriam aquela responsabilidade prática.

Esse princípio pode ser aplicado ao pastorado contemporâneo sem qualquer dificuldade. O pastor não precisa considerar a administração uma tarefa indigna, mas precisa reconhecer que existem tarefas administrativas que podem e devem ser confiadas a pessoas capacitadas. Se o pastor passa horas resolvendo questões que poderiam ser administradas por uma equipe treinada, ele não está necessariamente demonstrando zelo; pode estar demonstrando uma estrutura ministerial mal organizada.

O objetivo da delegação não é simplesmente aliviar o pastor. Esse é um benefício importante, mas não é o fundamento principal. O objetivo é mobilizar o corpo de Cristo para o serviço. Efésios 4.11-12 apresenta os líderes como aqueles que equipam os santos para a obra do ministério. Isso significa que o ministério não deve ser concentrado nos líderes. O pastor não foi chamado para fazer todo o trabalho; foi chamado também para formar pessoas capazes de trabalhar.

3. A diferença entre delegar tarefas e formar líderes

Aqui está uma distinção fundamental: delegação não é simplesmente distribuir tarefas. Se o pastor apenas entrega tarefas às pessoas, sem treinamento, supervisão e acompanhamento, provavelmente estará transferindo problemas em vez de desenvolver líderes.

A verdadeira delegação envolve quatro movimentos: selecionar, treinar, acompanhar e avaliar. Primeiro, é necessário identificar pessoas confiáveis, maduras e capazes de aprender. Depois, essas pessoas precisam ser treinadas para compreender não apenas o que fazer, mas por que fazer. Em seguida, precisam receber acompanhamento enquanto executam a responsabilidade. Finalmente, precisam receber avaliação e feedback para melhorar.

Esse processo é mais trabalhoso inicialmente. É muito mais rápido o pastor fazer pessoalmente determinada tarefa do que ensinar outra pessoa a realizá-la. Entretanto, essa economia de tempo é ilusória. Se o pastor faz tudo sozinho durante cinco anos, terá economizado algumas horas de treinamento, mas terá construído uma igreja dependente de sua presença. Se investir tempo para treinar dez pessoas, talvez perca algumas horas inicialmente, mas terá criado capacidade ministerial que continuará funcionando sem sua intervenção direta.

Colin Marshall e Tony Payne, em A Treliça e a Videira, desenvolvem uma crítica importante à tendência de concentrar energia excessiva nas estruturas e programas da igreja. A imagem da treliça é útil precisamente porque mostra que estruturas são necessárias, mas não são o objetivo final. O foco do ministério deve estar nas pessoas e em seu crescimento como discípulos e trabalhadores do evangelho. A obra insiste na importância de trabalhar próximo das pessoas, ajudá-las a crescer e prepará-las para o ministério.

Esse princípio pode ser aplicado diretamente à administração. O pastor não deve perguntar apenas: “Quem pode fazer essa tarefa?” Deve perguntar: “Quem pode aprender a fazer essa tarefa e, ao mesmo tempo, crescer como líder?” A segunda pergunta produz uma cultura de discipulado muito mais profunda.

4. Treinar pessoas para a administração também é discipulado

Há uma tendência de considerar treinamento administrativo como algo separado do discipulado cristão. Essa separação precisa ser revista. Quando um membro aprende a organizar as finanças da igreja com honestidade, está sendo discipulado em integridade. Quando aprende a administrar uma equipe, está sendo treinado em serviço e liderança. Quando aprende a lidar com documentos, horários, comunicação e recursos, está desenvolvendo responsabilidade. Quando aprende a prestar contas, está praticando transparência. Quando administra recursos financeiros da igreja com temor de Deus, está exercitando mordomia cristã.

A administração da igreja, portanto, pode tornar-se um campo de formação de caráter cristão. A competência técnica é importante, mas a igreja precisa de pessoas tecnicamente capazes e espiritualmente confiáveis. Uma pessoa pode ser excelente administradora e, ao mesmo tempo, não possuir maturidade suficiente para lidar com recursos, informações confidenciais ou conflitos. Por isso, treinamento administrativo precisa caminhar junto com formação espiritual.

Nesse sentido, 1Timóteo 3 é particularmente significativo. Quando Paulo apresenta qualificações para liderança, ele não separa caráter e competência. O líder precisa possuir maturidade espiritual, bom testemunho, domínio próprio, capacidade de ensinar e uma vida familiar coerente. A competência sem caráter é perigosa; o caráter sem competência pode ser insuficiente para determinadas responsabilidades. A igreja precisa formar pessoas em ambas as dimensões.

5. O pastor não deve ser o administrador de tudo, mas o responsável pela direção

Delegar não significa abandonar a supervisão. Esse é outro extremo perigoso. Um pastor pode perceber a necessidade de delegar e, então, simplesmente transferir responsabilidades sem estabelecer critérios, processos e acompanhamento. Isso também pode produzir problemas.

A liderança pastoral precisa estabelecer visão, princípios, limites e mecanismos de prestação de contas. O pastor não precisa conferir cada detalhe, mas precisa saber se as áreas estão funcionando de acordo com os valores e objetivos da igreja. O tesoureiro deve administrar recursos dentro das normas estabelecidas. A equipe de comunicação deve trabalhar dentro da identidade e dos princípios da comunidade. Os responsáveis por eventos devem seguir procedimentos previamente definidos. A manutenção precisa ter responsáveis. A secretaria precisa possuir processos. As equipes precisam saber a quem respondem.

O pastor, portanto, não deve ser o executor de todas as tarefas, mas também não pode ser indiferente à maneira como elas são realizadas. Delegação saudável transfere responsabilidade sem abandonar autoridade e acompanhamento.

Aqui a metáfora de A Treliça e a Videira volta a ser útil. A estrutura é necessária. O problema não é ter treliça; é cuidar da treliça a ponto de esquecer a videira. A administração deve servir à missão da igreja. Orçamentos, prédios, equipamentos, agendas, documentos, equipes e sistemas existem para facilitar a missão e não para se tornar a própria missão.

6. O treinamento precisa ser intencional

Se uma igreja deseja diminuir a dependência administrativa do pastor, precisa abandonar a expectativa de que pessoas simplesmente “aparecerão prontas”. Líderes precisam ser formados. Isso requer um processo intencional.

Uma estratégia possível consiste em criar áreas claras de responsabilidade. Em vez de o pastor receber todas as demandas, cada área deve possuir uma pessoa ou equipe responsável. Finanças, secretaria, patrimônio, comunicação, tecnologia, eventos, recepção, crianças, jovens, ação social e outras áreas podem possuir responsáveis específicos. Cada responsável precisa conhecer sua autoridade, suas obrigações, os limites de sua atuação e os procedimentos de prestação de contas.

O segundo passo é identificar pessoas com potencial. Nem sempre serão aquelas que já ocupam posições de destaque. Algumas pessoas possuem grande capacidade, mas nunca receberam oportunidade. Outras são extremamente organizadas, confiáveis e discretas, características fundamentais para determinadas áreas administrativas. O pastor precisa aprender a observar talentos.

O terceiro passo é treinar. O treinamento precisa ser prático. Não basta dizer: “Agora você é responsável pela secretaria”. É necessário explicar processos, fornecer modelos, mostrar sistemas, estabelecer prazos e acompanhar os primeiros meses. O quarto passo é supervisionar sem microgerenciar. A pessoa precisa possuir espaço para desenvolver competência, cometer pequenos erros e aprender, sem que cada decisão seja imediatamente tomada pelo pastor.

7. O princípio da multiplicação ministerial

A lógica da formação de líderes aparece claramente em 2Timóteo 2.2, quando Paulo orienta Timóteo a transmitir aquilo que recebeu a pessoas fiéis e aptas para ensinar outros. O texto apresenta uma cadeia de transmissão: Paulo, Timóteo, homens fiéis e outros. O princípio é multiplicativo.

Esse princípio pode ser aplicado não apenas à pregação, mas à liderança de maneira geral. O pastor que administra tudo sozinho interrompe a multiplicação. O pastor que treina outros cria continuidade. Se o pastor sabe organizar um orçamento, deve ensinar alguém a fazê-lo. Se sabe administrar uma equipe, deve desenvolver outro líder. Se conhece processos de secretaria, deve capacitar alguém. Se compreende planejamento de eventos, deve preparar outros.

Isso exige humildade. Alguns líderes não delegam porque acreditam que ninguém fará tão bem quanto eles. Pode até ser verdade inicialmente. A pessoa treinada provavelmente fará pior no começo. Mas essa é a natureza do treinamento. Não se pode exigir competência antes de oferecer oportunidade de aprendizado.

O pastor que deseja construir uma igreja madura precisa aceitar que seus discípulos eventualmente farão algumas coisas melhor do que ele. Isso não diminui o pastor; demonstra que seu ministério funcionou.

8. O tempo pastoral precisa ser protegido

A delegação administrativa possui uma consequência direta para o estudo e o ensino: ela protege o tempo pastoral para aquilo que exige sua presença e competência. Um pastor que passa grande parte da semana resolvendo pequenos problemas administrativos dificilmente terá energia mental para preparar exposições bíblicas profundas. Mesmo que tenha algumas horas livres no calendário, a fragmentação da atenção prejudica a concentração necessária para o estudo.

O pastor precisa de períodos de trabalho profundo. Preparar uma série de exposições, estudar uma doutrina, escrever material de formação, ler um livro teológico ou preparar uma aula exige continuidade. Se a cada quinze minutos o pastor interrompe seu estudo para resolver um problema de manutenção, responder uma mensagem ou autorizar uma compra, o tempo aparentemente reservado para estudo deixa de cumprir sua finalidade.

John Stott, ao tratar do pregador em O Perfil do Pregador, ajuda-nos a compreender que o ministério da Palavra envolve uma responsabilidade que não pode ser tratada de maneira improvisada. O pregador é um despenseiro da mensagem que recebeu e precisa tratar essa responsabilidade com seriedade. A preparação, portanto, não é um luxo reservado aos acadêmicos; é parte da fidelidade do ministro à sua vocação.

A consequência administrativa é clara: se queremos pastores que estudem, precisamos construir estruturas que permitam aos pastores estudar. Não adianta exigir sermões profundos de pastores cuja agenda está permanentemente ocupada com tarefas que outras pessoas poderiam executar.

9. A administração precisa de processos, não apenas de pessoas

Outro aspecto importante é que delegação sem processos pode gerar dependência de indivíduos diferentes. Uma igreja pode substituir a dependência do pastor pela dependência de um tesoureiro, de um secretário ou de um líder específico. Isso não resolve o problema; apenas o desloca.

É necessário criar procedimentos básicos. Como são feitas compras? Quem autoriza? Como funciona a prestação de contas? Quem controla documentos? Como são registrados os pagamentos? Como são administrados eventos? Quem tem acesso a determinadas informações? Como são tratados dados pessoais? Como funcionam contratos? Como são arquivados documentos? Como são comunicadas decisões?

Esses processos não precisam transformar a igreja em uma empresa burocrática. O objetivo é reduzir a dependência de memória individual e aumentar a previsibilidade. Uma boa estrutura administrativa permite que uma pessoa seja substituída sem que todo o sistema desmorone.

Aqui novamente a metáfora de Marshall e Payne é útil: a treliça precisa existir, mas precisa permanecer subordinada à videira. A estrutura administrativa deve ser suficientemente robusta para sustentar o ministério e suficientemente simples para não dominar o ministério.

10. O pastor como formador de líderes

Talvez essa seja a mudança mais importante de mentalidade. O pastor não deveria perguntar somente: “Como posso fazer melhor?” Deveria perguntar também: “Quem estou formando para fazer isso?”

Essa pergunta muda completamente a administração pastoral. Se chega uma tarefa que o pastor sabe executar, ele pode realizá-la imediatamente ou pode utilizá-la como oportunidade de treinamento. Se alguém precisa aprender a organizar um evento, o pastor pode fazer sozinho e terminar rapidamente; ou pode acompanhar uma pessoa durante o processo, permitindo que ela aprenda. Se é necessário preparar uma reunião, pode simplesmente fazer a pauta; ou pode ensinar alguém a preparar pautas e conduzir reuniões.

O segundo caminho é mais lento no curto prazo, mas muito mais produtivo no longo prazo.

Essa é uma das principais contribuições de A Treliça e a Videira: o ministério cristão deve concentrar-se na formação de pessoas e na multiplicação de trabalhadores, e não simplesmente na manutenção de estruturas. O pastor, portanto, precisa enxergar cada responsabilidade como uma oportunidade potencial de desenvolvimento de pessoas.

11. Administração também exige prestação de contas

A descentralização não elimina a necessidade de accountability. Pelo contrário, quanto mais responsabilidades são distribuídas, mais importante se torna estabelecer mecanismos de prestação de contas. Uma igreja saudável não deve depender exclusivamente da confiança pessoal; deve possuir processos que promovam transparência.

Isso é particularmente importante em áreas financeiras. A administração de recursos da igreja precisa ser transparente, documentada e supervisionada. Não basta afirmar que determinada pessoa é “de confiança”. O princípio bíblico de integridade exige procedimentos que protejam tanto a igreja quanto aqueles que administram seus recursos.

O mesmo vale para outras áreas. Informações pastorais sensíveis precisam ser tratadas com responsabilidade. Dados pessoais precisam ser protegidos. Contratações precisam possuir critérios. Despesas precisam ser justificadas. Decisões importantes precisam possuir registro. A boa administração não é inimiga da espiritualidade; ela pode ser uma expressão da mordomia cristã.

12. O objetivo não é tornar a igreja mais eficiente, mas mais saudável

Existe, contudo, um perigo no discurso sobre administração: transformar a igreja em uma organização cuja principal finalidade seja eficiência. A igreja não é uma empresa. Seu objetivo não é maximizar produtividade, reduzir custos ou aumentar indicadores simplesmente porque esses conceitos são valorizados no mundo corporativo.

A administração cristã precisa permanecer subordinada à missão espiritual da igreja. Uma estrutura eficiente que não produz discípulos é apenas uma estrutura eficiente. Uma organização impecável que não proclama o evangelho pode ser administrativamente admirável e espiritualmente vazia.

Por isso, o critério final não deve ser simplesmente: “Estamos fazendo tudo de maneira eficiente?” A pergunta deve ser: “Nossa administração está servindo à missão de fazer discípulos e edificar a igreja de Cristo?”

Essa distinção é fundamental. A igreja precisa de planejamento, organização e responsabilidade, mas não pode permitir que essas ferramentas determinem sua identidade. O objetivo continua sendo Cristo, o evangelho, a Palavra, a comunhão, a missão e a formação de discípulos.

Conclusão

O equilíbrio entre estudo, ensino e administração não será alcançado quando o pastor aprender a fazer tudo sozinho de maneira mais eficiente. Será alcançado quando ele compreender que seu chamado inclui formar uma comunidade capaz de servir coletivamente. O pastor não é o único trabalhador da igreja; é também um equipador de trabalhadores.

Atos 6 oferece o princípio: necessidades administrativas são reais, mas não devem consumir aquilo que constitui a responsabilidade central dos apóstolos. Efésios 4 oferece a finalidade: os líderes existem para equipar os santos para a obra do ministério. 2Timóteo 2 oferece a dinâmica: aquilo que recebemos deve ser transmitido a pessoas fiéis e capazes de ensinar outros. Esses textos, juntos, oferecem uma visão de liderança que não é centralizadora, mas multiplicadora.

O pastor precisa, portanto, aprender a delegar. Mas precisa mais do que isso: precisa treinar. Precisa identificar pessoas, confiar responsabilidades, acompanhar processos, corrigir erros, oferecer feedback e criar oportunidades para que novos líderes amadureçam. O pastor que faz tudo pode produzir uma igreja dependente dele; o pastor que treina outros pode produzir uma igreja capaz de continuar servindo mesmo quando ele não estiver presente.

Richard Baxter nos lembra da seriedade do cuidado pastoral. John Stott nos lembra da responsabilidade do pregador diante da Palavra. Akin e Pace nos ajudam a compreender o caráter teológico do pastorado. Marshall e Payne nos lembram de que estruturas devem servir à formação de pessoas e ao crescimento do evangelho. Essas contribuições convergem em uma conclusão pastoral importante: o pastor não deve abandonar a administração, mas também não deve permitir que ela governe seu ministério.

A boa administração é aquela que libera o pastor para aquilo que exige sua vocação específica e, ao mesmo tempo, oferece aos demais membros oportunidades reais de serviço e crescimento. O pastor deve ensinar a igreja, mas também deve ensinar pessoas a ensinar. Deve liderar, mas também deve formar líderes. Deve administrar, mas também deve formar administradores. Deve cuidar das ovelhas, mas também deve capacitar outras ovelhas maduras para cuidarem umas das outras.

No final, talvez a pergunta mais importante para um pastor não seja “Como consigo dar conta de tudo?”, mas:

“Como posso estruturar a igreja de modo que o ministério não dependa de eu dar conta de tudo?”

Essa mudança de pergunta representa uma mudança de paradigma. O objetivo não é construir um ministério centrado na capacidade extraordinária de um pastor, mas uma igreja na qual cada membro possa cumprir sua vocação e servir de acordo com os dons e responsabilidades que Deus lhe concedeu.

O pastor que chega a essa compreensão não perde autoridade; ele exerce sua autoridade de maneira mais bíblica. Não perde relevância; torna-se ainda mais relevante. Não trabalha menos necessariamente; trabalha de maneira mais estratégica. E, sobretudo, deixa de ser simplesmente aquele que executa o ministério para tornar-se aquilo que o Novo Testamento apresenta como uma das grandes responsabilidades da liderança cristã: aquele que equipa os santos para que toda a igreja participe da obra do ministério.

Referências bibliográficas

  • AKIN, Daniel L.; PACE, R. Scott. Teologia Pastoral: fundamentos teológicos do que é e do que faz um pastor. São Paulo: Pro Nobis, 2023.
  • BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES – Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016.
  • MARSHALL, Colin; PAYNE, Tony. A Treliça e a Videira: a mentalidade de discipulado que muda tudo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015.
  • STOTT, John R. W. O Perfil do Pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011.

Soli Deo gloria

O pastor entre a profundidade teológica e as necessidades da igreja

Como equilibrar estudo, ensino e cuidado pastoral?

Introdução

Uma das tensões mais importantes do ministério pastoral contemporâneo encontra-se na relação entre profundidade teológica e realidade pastoral. O pastor é chamado a ensinar a Palavra de Deus, interpretar as Escrituras, formar discípulos, proteger a igreja de erros doutrinários e conduzir a comunidade à maturidade cristã; ao mesmo tempo, ele pastoreia pessoas concretas, com problemas concretos, em situações que frequentemente não podem ser adiadas para que o ministro tenha tempo de concluir sua próxima leitura teológica. O pastor recebe mensagens durante a semana, visita enfermos, aconselha casais, acompanha famílias em crise, participa de reuniões, prepara cultos, supervisiona líderes, enfrenta conflitos, responde a demandas administrativas e, em determinadas comunidades, ainda precisa lidar pessoalmente com praticamente todas as questões que surgem na vida da igreja. Essa realidade cria uma tensão legítima: como permanecer profundamente dedicado ao estudo e ao ensino sem tornar-se um acadêmico distante das ovelhas que lhe foram confiadas? E, inversamente, como permanecer tão envolvido com as necessidades pastorais imediatas sem permitir que a urgência destrua a formação teológica necessária para exercer o próprio ministério?

A questão não deve ser resolvida mediante a escolha de um dos polos. O pastor não precisa escolher entre ser teólogo e ser pastor, porque o próprio conceito bíblico de pastorado pressupõe ensino, cuidado, liderança, proteção e formação espiritual. Daniel L. Akin e R. Scott Pace, em Teologia Pastoral: Fundamentos teológicos do que é e do que faz um pastor, defendem justamente uma compreensão do ministério pastoral na qual a teologia não aparece como atividade acadêmica separada da prática, mas como fundamento para aquilo que o pastor é e faz. A obra procura relacionar os fundamentos bíblicos e teológicos do ofício pastoral com suas responsabilidades concretas, partindo da convicção de que o pastorado é essencialmente teológico. Essa perspectiva é particularmente importante em uma época na qual existe uma tendência de separar “teologia” e “ministério”, como se o primeiro pertencesse ao seminário e o segundo à igreja local. Na realidade, o pastor precisa pensar teologicamente precisamente porque pastoreia pessoas em situações que exigem discernimento espiritual e doutrinário.

1. O ministério pastoral é, por natureza, um ministério teológico

A primeira questão a ser estabelecida é conceitual: o ensino teológico não é um acréscimo ao ministério pastoral; ele pertence à própria natureza do pastorado. No Novo Testamento, a liderança da igreja está inseparavelmente relacionada à doutrina. Paulo estabelece que o presbítero deve ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2), e, em Tito 1.9, relaciona a liderança pastoral à capacidade de preservar a “palavra fiel” e utilizá-la tanto para exortar pela sã doutrina quanto para convencer aqueles que contradizem essa doutrina. Em 2Timóteo 2.15, Timóteo é chamado a manejar corretamente a Palavra da verdade, enquanto em 2Timóteo 4.2 Paulo o encarrega de pregar a Palavra, insistir “quer seja oportuno, quer não”, corrigir, repreender e exortar com toda longanimidade e doutrina. O ministério pastoral, portanto, não pode ser concebido simplesmente como gestão de pessoas ou prestação de assistência religiosa; ele possui uma dimensão doutrinária constitutiva. O pastor cuida das pessoas por meio da verdade cristã, e não independentemente dela.

Richard Baxter, em O Pastor Aprovado, representa uma das expressões clássicas dessa compreensão pastoral. Sua preocupação não é produzir um ministro meramente intelectual, mas um homem cuja vida, doutrina e prática estejam integradas. O pastor precisa conhecer a verdade, mas precisa igualmente viver aquilo que ensina e aplicá-lo ao rebanho. Baxter é particularmente importante porque não permite que a atividade pastoral seja reduzida a um trabalho de púlpito. Para ele, o pastor precisa conhecer as pessoas, instruí-las, aconselhá-las e acompanhar concretamente sua vida espiritual. Sua concepção de pastorado combina doutrina, piedade, pregação, cuidado individual e vigilância sobre a própria vida. A edição portuguesa de O Pastor Aprovado, publicada pela PES, permanece uma referência clássica para pensar a responsabilidade pastoral e a relação entre o caráter do ministro e o cuidado do rebanho.

Essa integração nos ajuda a superar uma falsa oposição que, infelizmente, pode aparecer em determinados ambientes ministeriais: de um lado estaria o pastor “teológico”, que gosta de estudar, ler e ensinar, mas seria supostamente distante das pessoas; de outro estaria o pastor “prático”, que visita, aconselha, resolve problemas e acompanha a vida da igreja, mas não teria necessidade de grande aprofundamento acadêmico. Essa dicotomia é artificial. O pastor precisa de teologia precisamente porque as pessoas possuem problemas que exigem respostas teologicamente responsáveis. Um casal em crise não precisa apenas de conselhos genéricos; precisa compreender casamento, pecado, perdão, graça, responsabilidade, santificação e reconciliação. Uma pessoa enlutada não precisa apenas de palavras de conforto; precisa de uma esperança cristã fundamentada na ressurreição, na providência e na escatologia. Um membro enfrentando uma crise de fé precisa ser acompanhado por alguém que compreenda doutrina, Escritura, dúvida, sofrimento e perseverança. O estudo teológico, portanto, não afasta o pastor das pessoas quando é corretamente integrado ao ministério; pelo contrário, torna o cuidado pastoral mais profundo.

2. A urgência pastoral não pode destruir a importância do estudo

Uma das maiores dificuldades do pastor é lidar com a tirania da urgência. A igreja produz necessidades continuamente, e muitas delas possuem aparência de emergência. Uma pessoa quer conversar imediatamente, uma família enfrenta uma crise, alguém está hospitalizado, existe um conflito entre líderes, uma reunião precisa ser convocada, uma atividade precisa ser organizada, um problema administrativo precisa ser resolvido. Se o pastor não estabelecer critérios claros, toda a sua agenda será determinada por aquilo que grita mais alto. O resultado é previsível: aquilo que é urgente ocupa todo o espaço, enquanto aquilo que é importante, mas não urgente, é constantemente adiado.

O estudo teológico frequentemente sofre justamente desse problema. Ler um livro de teologia não produz uma emergência. Estudar hebraico ou grego durante duas horas não parece urgente. Ler um comentário bíblico, pesquisar uma passagem, revisar uma doutrina ou acompanhar uma discussão acadêmica não produz necessariamente uma sensação imediata de produtividade. Uma visita hospitalar produz uma necessidade visível; três horas de leitura silenciosa produzem apenas páginas marcadas e anotações. Entretanto, o pastor que abandona sistematicamente o estudo porque precisa resolver problemas urgentes pode acabar tornando-se menos preparado justamente para resolver os problemas que surgirão no futuro.

Nesse ponto, a reflexão de Colin Marshall e Tony Payne em A Treliça e a Videira é extremamente útil. Os autores utilizam a imagem da treliça e da videira para distinguir estruturas e programas daquilo que constitui propriamente o crescimento espiritual e o discipulado. A estrutura possui importância, mas não é o objetivo final. Quando a estrutura passa a dominar a missão, a igreja corre o risco de gastar grande parte de sua energia mantendo a própria máquina funcionando. A aplicação ao pastorado é evidente: as demandas administrativas e pastorais são reais, mas não podem consumir completamente aquilo que constitui a essência do ministério cristão. A própria Editora Fiel apresenta a obra como uma reflexão sobre o discipulado, o desenvolvimento de pessoas e a formação de trabalhadores para o ministério.

O pastor precisa, portanto, proteger deliberadamente seu tempo de estudo. Isso não significa ser irresponsável com as necessidades da congregação. Significa compreender que o estudo também é uma atividade pastoral. Quando o pastor passa uma manhã preparando uma exposição bíblica, estudando o contexto de um texto, consultando comentários e examinando questões doutrinárias, ele não está necessariamente “fugindo do povo”. Está preparando alimento para o povo. Quando lê um livro sobre teologia pastoral, está aumentando sua capacidade de cuidar das pessoas. Quando estuda uma doutrina difícil, está preparando-se para responder às perguntas que algum membro fará amanhã.

3. O estudo deve nascer das necessidades reais da igreja

Isso não significa, entretanto, que o estudo pastoral precise ser abstrato ou desconectado da realidade. Uma das melhores maneiras de equilibrar profundidade teológica e prática pastoral consiste em estudar aquilo que a própria vida da igreja está colocando diante do pastor. A realidade pastoral pode se transformar em agenda teológica.

Se a igreja está enfrentando dúvidas sobre dons espirituais, o pastor deve estudar pneumatologia. Se existem questionamentos sobre predestinação e livre agência, deve estudar soteriologia. Se há dificuldades relacionadas ao sofrimento, deve aprofundar-se em providência, teodiceia e escatologia. Se existem conflitos familiares recorrentes, deve estudar antropologia bíblica, casamento, pecado, reconciliação e santificação. Se os jovens estão sendo influenciados por determinada corrente filosófica ou cultural, o pastor precisa conhecer o assunto e desenvolver uma resposta cristã.

Essa abordagem cria uma espécie de ciclo virtuoso entre teologia e pastorado: a vida da igreja suscita perguntas; as perguntas conduzem o pastor ao estudo; o estudo produz ensino; o ensino amadurece a igreja; uma igreja mais madura formula perguntas melhores; e essas novas perguntas aprofundam novamente o estudo pastoral. O resultado é uma comunidade que cresce teologicamente porque seu pastor não estuda simplesmente para acumular conhecimento, mas para servir.

John Stott, em O Perfil do Pregador, apresenta o ministério do pregador utilizando imagens bíblicas como despenseiro, arauto, testemunha, pai e servo. A combinação dessas imagens é significativa porque impede que o pregador seja reduzido a um intelectual que transmite informação ou a um comunicador que busca produzir impacto. O pregador é alguém encarregado de uma mensagem, mas também é testemunha, pai e servo. Sua tarefa envolve verdade e relacionamento, autoridade bíblica e humildade, proclamação e cuidado. Essa integração é especialmente importante para o pastor que deseja equilibrar estudo profundo e presença pastoral: a verdade precisa ser estudada para ser ensinada, e ensinada para formar pessoas.

4. O pastor precisa aprender a diferenciar presença pastoral de disponibilidade permanente

Outro problema contemporâneo é a confusão entre pastoreio e disponibilidade absoluta. O pastor pode chegar a acreditar que precisa responder imediatamente a todas as mensagens, participar de todas as conversas, resolver pessoalmente todos os problemas e estar fisicamente presente em todas as atividades. Essa expectativa não é sustentável e, em longo prazo, pode produzir esgotamento, superficialidade e centralização excessiva.

Jesus mesmo estabeleceu ritmos de retirada, oração e descanso ministerial. Os Evangelhos mostram o Senhor atendendo multidões e, ao mesmo tempo, retirando-se para lugares solitários para orar. O ministério de Jesus não era governado pela pressão das demandas. Havia uma consciência de missão. Em Marcos 1.35-38, por exemplo, depois de uma noite de intensa atividade, Jesus retira-se para orar e, quando os discípulos o encontram e dizem que todos o procuram, ele não simplesmente retorna porque a demanda aumentou; ele reafirma sua missão e segue para outros lugares. A passagem não oferece um manual de administração de agenda, mas estabelece um princípio: nem toda demanda determina automaticamente a prioridade ministerial.

Richard Baxter também ajuda nesse ponto porque seu modelo pastoral é profundamente pessoal, mas não superficial. O pastor deve conhecer suas ovelhas, ensinar, aconselhar e acompanhar, porém isso exige organização e propósito. O cuidado pastoral não precisa significar que o pastor seja a única pessoa capaz de cuidar. Ao contrário, uma igreja saudável precisa desenvolver outros líderes capazes de visitar, aconselhar dentro de seus limites, discipular, ensinar, liderar pequenos grupos e exercer diferentes formas de serviço.

O pastor que tenta ser pessoalmente responsável por tudo pode, paradoxalmente, impedir o desenvolvimento da própria igreja. Ele se torna indispensável para tarefas que poderiam ser realizadas por outros e, ao mesmo tempo, fica sem tempo para aquelas atividades que realmente exigem sua competência pastoral e teológica.

5. A profundidade teológica precisa chegar ao povo

Outro aspecto importante é que o estudo do pastor não pode transformar-se em um fim em si mesmo. Um pastor pode possuir uma biblioteca extraordinária, conhecer autores importantes, acompanhar debates acadêmicos e dominar conceitos teológicos e, ainda assim, ser um professor ruim. Conhecimento acumulado não é o mesmo que conhecimento transmitido.

O pastor-teólogo precisa desenvolver a capacidade de traduzir conceitos complexos para a linguagem da congregação sem destruir sua precisão. Essa é uma das tarefas mais difíceis do ensino cristão. Simplificar não significa banalizar. Um bom professor consegue explicar uma doutrina profundamente sem exigir que todos os membros dominem a terminologia técnica usada pelos especialistas.

Essa capacidade possui implicações pastorais profundas. Se o pastor estuda predestinação, por exemplo, precisa ser capaz de apresentar a doutrina de maneira que a congregação compreenda os textos bíblicos envolvidos, as diferentes interpretações cristãs e as implicações pastorais do assunto. Se ensina pneumatologia, precisa explicar conceitos como dons, batismo no Espírito, santificação e profecia de maneira acessível. Se aborda hermenêutica, precisa ensinar a igreja a ler o texto bíblico sem transformar cada aula em uma disciplina universitária.

O objetivo final do estudo pastoral não é que o pastor seja admirado por sua erudição, mas que a igreja cresça em maturidade. O conhecimento que não chega à igreja não cumpre plenamente sua finalidade pastoral.

6. O pastor como estudioso permanente

Por fim, é necessário recuperar a ideia de que a formação pastoral nunca termina. O pastor que concluiu um curso de teologia não concluiu sua formação; terminou apenas uma etapa. O ministro precisa continuar lendo, estudando, ouvindo outros autores, revisando suas posições, conhecendo a história da igreja e confrontando suas convicções com as Escrituras.

Esse princípio possui uma dimensão espiritual. O pastor não estuda apenas para ser mais competente; estuda porque ama a verdade e porque sabe que ensina pessoas que pertencem a Cristo. Richard Baxter colocou enorme peso sobre a responsabilidade do ministro diante de Deus e sobre a necessidade de examinar a própria vida. John Stott insistiu na integração entre mensagem e caráter. Akin e Pace defendem uma compreensão teológica do próprio ofício pastoral. Marshall e Payne chamam a atenção para a necessidade de investir em pessoas e não apenas em estruturas. Esses autores, provenientes de contextos e tradições diferentes, convergem em algo importante: o pastor precisa compreender o que está fazendo e por que está fazendo.

A questão, então, não é encontrar um equilíbrio matemático — tantas horas de estudo, tantas horas de visita, tantas horas de aconselhamento. O equilíbrio pastoral é mais profundo. Trata-se de ordenar as atividades de acordo com a missão do ministério. O pastor estuda para ensinar; ensina para formar; forma para multiplicar; cuida para amadurecer; lidera para servir; e serve para glorificar a Cristo.

Conclusão

O pastor não precisa escolher entre profundidade teológica e proximidade pastoral. Na realidade, uma alimenta a outra. Um pastor que conhece profundamente a Escritura está mais preparado para aconselhar, pregar, ensinar, corrigir e consolar. Um pastor que conhece profundamente seu povo consegue perceber quais questões teológicas precisam ser estudadas e ensinadas. O grande desafio não é escolher entre o livro e a ovelha, mas ler o livro por amor à ovelha e conhecer a ovelha para saber quais verdades precisam ser ensinadas.

O pastor precisa, portanto, reservar tempo para estudar, mas também precisa reservar tempo para ouvir. Precisa alimentar a própria mente e alimentar o rebanho. Precisa subir ao púlpito preparado intelectualmente e descer dele disposto a caminhar com pessoas. Precisa ser suficientemente teológico para não ser levado por qualquer vento de doutrina e suficientemente pastoral para não transformar pessoas em meros objetos de suas ideias.

Em última análise, o verdadeiro equilíbrio pastoral não está em dividir o ministério em duas áreas independentes, “teologia” de um lado e “prática” do outro. A teologia deve orientar a prática, e a prática deve manter a teologia pastoralmente encarnada. O pastor que estuda sem pastorear pode tornar-se distante; o pastor que pastoreia sem estudar pode tornar-se superficial. Mas o pastor que une estudo, oração, exposição bíblica, cuidado pessoal e formação de novos líderes pode servir à igreja de maneira muito mais saudável.

A pergunta que o pastor precisa fazer regularmente não é simplesmente “quanto tempo estou estudando?”, mas: “Meu estudo está me tornando um pastor melhor?” E também não basta perguntar “quanto tempo estou atendendo pessoas?”, mas: “Meu envolvimento com as necessidades da igreja está me impedindo de preparar aquilo que a igreja precisa ouvir?”

Quando essas duas perguntas são feitas com honestidade, o pastor começa a perceber que o estudo e o pastoreio não são inimigos. Ambos pertencem ao mesmo chamado.

Referências bibliográficas

  • AKIN, Daniel L.; PACE, R. Scott. Teologia Pastoral: fundamentos teológicos do que é e do que faz um pastor. São Paulo: Pro Nobis, 2023.
  • BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES – Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016.
  • MARSHALL, Colin; PAYNE, Tony. A Treliça e a Videira: a mentalidade de discipulado que muda tudo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015.
  • STOTT, John R. W. O Perfil do Pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011.
  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Utilizada nas citações bíblicas conforme as referências indicadas no texto.

Soli Deo gloria

Pastores-Mestre: O Dom de Cristo à sua igreja

E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres

Efésios 4:11

As sociedades não se tornam seculares simplesmente quando abandonam totalmente a religião, mas quando já não se sentem incomodadas por ela. Esse é o sinal mais perigoso: quando a fé já não mexe, já não confronta, já não incomoda. E, ironicamente, esse mesmo risco ronda também a própria igreja de Cristo, justamente no lugar em que menos esperaríamos — na compreensão do seu clero. Não porque estejamos descartando o ministério pastoral, mas porque já não enxergamos sua natureza teológica como algo estimulante ou central. A figura do pastor como teólogo — aquele que abre as Escrituras para ajudar o povo a conhecer a Deus, a si mesmo e ao mundo — já não faz mais os corações arderem, como os discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.32).

Em nossos dias, muitos pastores, como Esaú, têm trocado sua herança vocacional por um prato de lentilhas (Gn 25.29-34; Hb 12.16). Em vez de mergulharem na Palavra, tornam-se especialistas em gestão, estrategistas de marketing, coachs de liderança e terapeutas improvisados. E o pior: muitas congregações passaram a exigir exatamente isso deles — preferindo títulos de MBA a homens de oração. Não é de se estranhar que tantos recém-formados saiam do seminário reclamando que não foram preparados para o “verdadeiro trabalho” do ministério. Enquanto isso, os próprios seminários, pressionados pelas demandas do mercado eclesiástico, reformulam seus currículos e acabam contribuindo ainda mais para a perda da teologia na vida da igreja.

A história, é claro, é longa e complexa. Já foi contada em muitos livros. Mas a ideia central é clara: a teologia foi banida de Jerusalém e posta em exílio. O resultado é que o conhecimento de Deus se torna cada vez mais raso entre nós. E a comunidade da aliança, chamada a ser jardim frutífero, passa a parecer um deserto — uma terra seca, cheia de oportunidades desperdiçadas, que já não cultiva discípulos como outrora.

Por isso, mais do que nunca, precisamos resgatar a identidade do pastor como teólogo. Não como um acadêmico de gabinete, mas como um servo que conduz o rebanho às verdes pastagens da Palavra. O povo de Deus não precisa de mais “gestores” — precisa de homens que façam os corações arderem novamente com as Escrituras abertas diante deles.

Escrevo a vocês, meus colegas de ministério — e aqui não me refiro apenas aos pastores titulares! — porque percebo o quanto precisamos resgatar a essência teológica da nossa vocação. Não importa se o ministério que você exerce é definido como “pastor de jovens”, “educador cristão”, “pastor de vida congregacional”, “líder de louvor” ou qualquer outra função. A verdade é que todos nós fomos chamados para algo maior do que um cargo: fomos chamados para falar de Deus e, ao mesmo tempo, lidar com as pessoas. E vamos ser honestos: nenhuma dessas duas tarefas é simples… mas ambas são inevitáveis. Cabe a nós, em qualquer área de atuação, comunicar Cristo e ministrar a Palavra em todo tempo, de várias formas e a todas as pessoas. Esse é o coração do nosso chamado: ministrar a Palavra de Deus ao povo de Deus.

Escrevo também a vocês, igrejas, porque sei que precisam ser lembradas da seriedade dessa vocação. É urgente repensar a natureza, a função e até mesmo as credenciais que vocês exigem de seus pastores. Mais do que diplomas bonitos na parede, seus pastores precisam de condições para servir e crescer como teólogos públicos — homens que falam de Deus para o mundo e do mundo diante de Deus. Além disso, lembro a vocês que a igreja não é apenas uma comunidade social, mas uma comunidade teológica, criada pela Palavra e sustentada pelo Espírito. Vocês não escrevem a própria história com Deus como coadjuvante; é o contrário: estão inseridos na grande história de Deus. E é exatamente aí que entra a nossa vocação pastoral. Um pastor-teólogo existe para ajudá-los a enxergar isso, a viver isso e a ensinar outros a crer nisso.

Problema: uma visão perdida

Eu tenho aprendido que, sem visão teológica, nós, pastores, perecemos. A visão é aquilo que nos permite enxergar onde estamos e para onde devemos ir. Muitas vezes, o que vemos assusta e intimida. Pedro andou sobre as águas com os olhos fixos em Jesus, mas quando olhou para o vento e as ondas, começou a afundar (Mt 14.28-31). O que o fez tropeçar não foi a tempestade em si, mas o deslocamento do olhar. E confesso: muitas vezes acontece o mesmo conosco. Quando nossa visão é dominada pela realidade aparente, sufocamos a fé; mas, quando a fé em Cristo guia nosso olhar, somos capazes de ver o mundo como ele realmente é — criado, redimido e amado por Deus. Essa sempre foi a mensagem dos profetas: anunciar o que viam, testemunhando que Deus está renovando todas as coisas por meio de Seu Servo e de Seu povo da aliança. Se essa é a visão que nos foi dada, eu pergunto: por que tantos pastores estão se afogando em pleno mar?

A tempestade não é o problema. O que nos faz afundar, muitas vezes, não são as ondas do mar, mas as ondas do sentimento popular; não é o vento do mar, mas os ventos da opinião pública. Eles sopram contra nós e nos tentam a abandonar nossa tarefa teológica, impedindo-nos de levar o povo de Deus à maturidade em Cristo (cf. Ef 4.14). Nadar contra a corrente cultural nunca é fácil, e sei que o pastor fiel sempre será alguém da contracultura. Afinal, como não ser contracultural quando proclamamos Cristo crucificado e chamamos os discípulos a imitarem o Senhor, morrendo para si mesmos? O chamado ao autoesvaziamento nunca será atraente para um mundo que ama carteiras cheias e guarda-roupas abarrotados.

Mas reconheço que nosso chamado se torna ainda mais desafiador porque lidamos com três públicos diferentes, três realidades sociais diante das quais precisamos falar de Deus: (1) a academia, (2) a igreja e (3) a sociedade em geral. Se Deus é o Criador de tudo, visível e invisível, e se o evangelho é para todo o mundo, então não existe sequer um centímetro quadrado do universo nem um único aspecto da vida humana que não estejam debaixo do senhorio de Cristo. O problema é que a maioria de nós vive em mais de um desses mundos ao mesmo tempo, e isso exige de nós uma sabedoria pastoral que só o Espírito pode dar.

Já aconteceu comigo no púlpito: no mesmo culto tenho diante de mim um adolescente cheio de dúvidas, um universitário mergulhado em filosofia, um marceneiro desempregado, uma mãe exausta pelo trabalho, um prefeito da cidade e até um professor de física. Como falar de Deus a todos eles de forma clara e fiel? Esse é o desafio do pastor-teólogo. O contexto principal é, sem dúvida, a igreja. Mas será que isso me exime de falar também à sociedade mais ampla ou até de dialogar com a academia? De jeito nenhum! O evangelho precisa ecoar em todos os cantos.

É por isso que entendo que nós, pastores-teólogos, precisamos ser “trilíngues”. Não no sentido de dominar idiomas, mas de aprender a falar a língua de cada contexto: da igreja, da universidade e da sociedade em geral. Nem sempre vamos falar com perfeição, mas precisamos, ao menos, nos esforçar para compreender e nos fazer compreender. Esse é o nosso chamado: traduzir fielmente a Palavra eterna em meio aos muitos mundos em que nosso povo vive.

E é justamente aqui que quero começar: analisando como a visão pastoral e teológica foi sendo perdida nesses três públicos.

Academia

E aqui está o ponto: se a teologia é, muitas vezes, escrita por acadêmicos para acadêmicos, eu — como pastor — não posso simplesmente me render a essa distância. É verdade que certas discussões acadêmicas parecem áridas ou irrelevantes para a vida de fé, mas a responsabilidade de mostrar a conexão entre doutrina e vida pertence a nós, pastores-teólogos. Quando alguém me pergunta, por exemplo, o que a doutrina da Trindade tem a ver com o desemprego de um pai de família, eu não posso me esquivar. Preciso mostrar que a vida cristã não é sustentada por psicologia de autoajuda, mas pelo fato de que o Deus triúno, eterno em amor e comunhão, nos chama para viver nele e dele participar. A Trindade não é apenas uma fórmula bonita para recitar — é a base da nossa salvação, da nossa comunhão e da nossa esperança.

Esse é um dos maiores dramas da transferência da teologia para a academia: quando deixamos de perceber que toda doutrina é pastoral. O ensino sobre a soberania de Deus, por exemplo, não é uma tese para congressos, mas a rocha firme para aquele irmão que acaba de enterrar sua esposa. A doutrina da encarnação não é apenas um debate cristológico — é a boa notícia para a irmã que se sente abandonada: em Cristo, Deus assumiu nossa carne e conhece, por experiência, nossas dores. Cada artigo de fé é alimento para a vida da igreja.

É por isso que digo: quando me coloco diante da congregação, não posso falar apenas como “gestor de pessoas” ou “especialista em liderança”. Preciso ser pastor-teólogo, alguém capaz de traduzir a profundidade das Escrituras e da fé cristã para a realidade concreta do povo de Deus. Isso não significa transformar o púlpito em sala de aula acadêmica, mas deixar que a Palavra forme mentes e corações para viverem no mundo real, com esperança e santidade.

E aqui está a tensão: como falar, ao mesmo tempo, para o erudito que conhece as discussões acadêmicas e para a irmã simples que nunca leu um livro de teologia, mas que carrega no peito a dor de um filho perdido? A resposta é que só conseguiremos isso se não abrirmos mão da nossa vocação pastoral-teológica. É preciso, de fato, aprender a ser “trilíngue” — falar com clareza bíblica na igreja, com rigor teológico na academia e com testemunho vivo na sociedade.

Se a visão pastoral foi perdida na academia, parte da nossa missão é resgatá-la: não como inimigos da teologia acadêmica, mas como aqueles que lembram ao mundo universitário que a teologia não é mero exercício intelectual. Ela é confissão, é doxologia, é pastoral. O verdadeiro teólogo não é apenas quem escreve livros complexos, mas quem abre a Escritura e mostra à igreja que toda verdade sobre Deus é boa nova para o coração cansado.

E aqui está outro grande desafio: o tal “muro de Berlim” erguido dentro da própria academia, separando estudos bíblicos e teologia. Essa divisão, tão artificial quanto prejudicial, tem produzido consequências sérias para a igreja. Nós, pastores, sabemos bem que a pregação é o coração do nosso ministério. Se nos obrigassem a escolher, a maioria de nós, sem pensar duas vezes, ficaria com os estudos bíblicos. Mas aí vem o problema: grande parte do que encontramos nos comentários acadêmicos modernos é quase impossível de ser pregado.

Explico: a academia, em muitos casos, trata a Bíblia apenas como documento histórico, e isso não é pouca coisa. Claro que contexto histórico, línguas originais e paralelos culturais têm o seu valor, mas quando a ênfase se desloca exclusivamente para o “mundo por trás do texto”, a voz de Deus no texto é silenciada. É como se, no esforço de explicar como Israel viveu no Antigo Oriente Próximo, esquecêssemos que o mesmo Deus que falou a Israel fala hoje à Sua igreja. O resultado? Sermões que parecem mais aulas de arqueologia ou história antiga do que proclamação do evangelho.

E aqui eu preciso dizer: um comentário bíblico que não conduz o pregador a Cristo e ao plano de Deus revelado em Cristo falhou em sua tarefa. Porque, no fim das contas, toda a Escritura aponta para Ele (Lc 24.27) e encontra sua unidade no mistério revelado de que Deus está reconciliando todas as coisas em Cristo (Ef 1.9-10). O que me entristece é ver estudiosos tratando a Escritura como material de pesquisa em vez de Palavra viva, e, consequentemente, muitos pastores se alimentando desse tipo de material para, depois, subir ao púlpito com mensagens que não alimentam ninguém.

Não me entendam mal: eu não sou contra a pesquisa acadêmica, nem contra a seriedade histórica. Mas eu creio que qualquer abordagem que retire a centralidade de Cristo do texto bíblico já deixou de ser teológica, ainda que tenha o rótulo de “estudo bíblico”. Para mim, um verdadeiro comentário bíblico é aquele que ajuda o pastor a proclamar o Cristo das Escrituras ao povo de Deus, e não apenas a demonstrar erudição.

É por isso que insisto: o pastor não pode abrir mão de sua identidade de teólogo. Precisamos ser capazes de discernir quando a academia nos oferece ferramentas úteis e quando ela tenta nos oferecer pedras em vez de pão. A igreja não sobrevive de curiosidades históricas, mas da Palavra que revela Cristo e o faz presente em cada geração.

Igreja

A muito tempo, tenho observado uma confusão crescente sobre o que realmente significa ser pastor e o que se espera que os pastores façam. E digo com franqueza: ainda há muita incerteza. O próprio termo “pastor” é uma metáfora, e essas metáforas podem se tornar prisões invisíveis. Muitas vezes, elas não refletem quem somos de fato, mas as preocupações e tendências da sociedade em que vivemos. A imagem que as pessoas têm de nós geralmente revela mais sobre a cultura do que sobre a nossa vocação.

Hoje, temos uma variedade enorme de imagens sobre o pastor: gestor de programas, terapeuta, líder comunitário, administrador de pessoas, comunicador de mídia, conselheiro emocional, agente de esperança… A lista poderia continuar. Cada uma dessas imagens traz alguma verdade, mas nenhuma pode definir integralmente o que significa ser pastor. A questão central permanece: o que faz da nossa vocação algo único e insubstituível?

E essa confusão não se limita à sociedade; ela alcança a formação de pastores. Muitos seminários estruturam seus cursos e conteúdos baseados em modelos de mercado, técnicas de gestão ou ferramentas de aconselhamento, muitas vezes esquecendo que a essência do ministério pastoral é teológica e bíblica.

Não me entendam mal: organizar programas, cuidar de pessoas e aconselhar são tarefas importantes. Mas não podem substituir o que só o pastor pode fazer: ministrar a Palavra de Deus, ensinar, pregar, aconselhar espiritualmente e moldar o povo de Deus para refletir a nova humanidade em Cristo. Essa é a nossa identidade e nossa vocação.

O perigo que vejo é a tendência de nos tornarmos pastores “profissionais” no sentido cultural: buscando reconhecimento, status, carreira ou técnica, e esquecendo que nossa principal autoridade vem de Deus e da fidelidade à Sua Palavra. Quando isso acontece, o pastor perde sua relevância espiritual, e a igreja se empobrece. Deixamos de aplicar categorias teológicas e espirituais à vida cotidiana, e o resultado é que desaparece o sentido do pecado, da graça e, muitas vezes, a presença viva de Deus.

Portanto, pergunto a mim mesmo e a vocês, colegas de ministério: quem queremos ser? Pastores guiados por modismos e pressões culturais ou pastores-teólogos, firmes na Escritura, moldados pelo Espírito e comprometidos em fazer discípulos, pregando, ensinando e formando o povo de Deus para viver a vida nova em Cristo? Minha convicção é clara: sem essa identidade, o ministério perde sua força, e a igreja deixa de cumprir sua missão.

Sociedade

Era uma vez, e nem faz tanto tempo assim — me refiro ao século XIX — pastores que eram figuras públicas respeitadas, valorizadas e reverenciadas. Não raro, eram as pessoas de maior nível educacional em cidades pequenas ou médias, verdadeiros intelectuais de suas comunidades. Avançando um século, porém, vemos como a situação mudou radicalmente. Hoje, a imagem do pastor muitas vezes se reduz a caricaturas: o moralista reprimido, o megalomaníaco cheio de si ou aquele que parece mais preocupado com a aparência do que com a Palavra de Deus. Infelizmente, há uma boa dose de verdade nesse retrato superficial, e precisamos encará-la.

O brasileiro médio que frequenta igreja confessa sua fé em Cristo, mas vive mergulhado na mesma cultura que todo mundo: novelas, filmes, programas de TV e redes sociais moldam suas expectativas e percepções. A cultura popular tanto reflete quanto molda a forma como as pessoas enxergam os pastores. E, nesse cenário, eu me pergunto: que tipo de figura pública o pastor representa? Que imagem projetamos quando falamos de Deus?

Ser um pastor-teólogo — alguém que fala de Deus para diferentes públicos — é, antes de tudo, ser honesto com os olhos das pessoas. E aqui está a difícil situação: precisamos apresentar verdades sobre Deus de maneira que façam sentido no discurso público, sem nos render às expectativas culturais de reconhecimento ou aprovação. Falar de Deus é paradoxal: somos humanos, limitados, e ainda assim chamados a proclamar o Criador do universo. Quem somos nós, criaturas falíveis, para ousar falar sobre Aquele que é soberano, infinito e santo?

Mas é justamente nesse paradoxo que reside o chamado do pastor. Não estamos aqui para crescer socialmente, para angariar prestígio ou fama, nem para atrair atenção para nós mesmos. Nosso objetivo é apontar para Deus, levando as pessoas a adotarem a forma de pensar, sentir e viver que Ele deseja. É um chamado que exige humildade: muitas vezes precisamos diminuir nossa posição social, reconhecer nossa fragilidade e nossa contínua necessidade da graça de Deus, assim como Paulo fazia (1Tm 1.15).

Além disso, somos chamados a falar em público sobre temas amplos — o sentido da vida, o bem comum, a moralidade, a fé — mesmo sem ter credenciais reconhecidas pela sociedade, ao contrário de especialistas que dominam suas áreas. A situação é ainda mais desafiadora quando consideramos que, na opinião geral, figuras públicas são frequentemente vistas com desconfiança. As pessoas tendem a questionar as motivações de quem representa uma instituição ou organização.

É certo que confiamos em neurocirurgiões para operar cérebros ou em pilotos para voar aviões, porque suas habilidades são reconhecidas e mensuráveis. O pastor, porém, enfrenta outro tipo de desafio: explicar sua contribuição para o bem público exige afirmar um conhecimento especializado que nem sempre é tangível aos olhos da sociedade — um conhecimento que une teologia, ética e a aplicação da Palavra de Deus à vida cotidiana. Precisamos vestir o manto da autoridade intelectual sem nos tornarmos arrogantes, sempre apontando para Cristo e não para nós mesmos.

O paradoxo é grande, mas necessário: o pastor deve ser autoridade sem buscar prestígio, guia sem buscar adulação, e mestre sem se reduzir a mero consultor de bem-estar social. A tarefa é difícil, mas é o que nos distingue. Falar de Deus ao mundo de forma pública e relevante é o que nos mantém fiéis ao chamado, e é isso que garante que nossas comunidades realmente conheçam e experimentem a presença viva de Cristo.

Então, vamos resumir o que venho afirmando até aqui. Primeiro, os pastores são e sempre foram teólogos. Em segundo lugar, cada teólogo é, de certa forma, um teólogo público, um intelectual com uma missão específica, um generalista da fé que fala para pessoas reais, em contextos reais. E quero enfatizar algo que considero central: não é preciso ter uma cadeira acadêmica ou QI elevado para ser um intelectual. Mas é preciso ter QT — quociente de teologia — elevado, uma capacidade de pensar, compreender e aplicar a Palavra de Deus de forma clara, fiel e relevante. Em terceiro lugar, o propósito de o pastor-teólogo atuar como intelectual público é servir ao povo de Deus, edificando-o na fé que nos foi entregue “uma vez por todas” (Jd 3).

Quando falo que pastores são teólogos, não me refiro apenas a títulos acadêmicos ou publicações em revistas especializadas. Falo de algo muito mais profundo: dizer com clareza e fidelidade o que Deus está fazendo em Cristo. Historicamente, esse aspecto de nossa vocação tem sido esquecido, relegado a um grupo restrito de “profissionais da teologia”. Mas essa separação é prejudicial. Ela sugere — ainda que indiretamente — que pastores e leigos não seriam capazes de elaborar teologia, ou que não teriam autoridade para falar de Deus porque não possuem credenciais formais. Essa é uma mentira que precisa ser confrontada.

A teologia é demasiado importante para ser monopolizada. Cada pastor, cada discípulo, cada cristão é responsável diante de Deus por compreender e agir conforme o conhecimento de Deus que lhe é dado — seja por meio da criação, seja pelo coração humano, seja pela própria Escritura (Rm 1.19-21). O que isso significa na prática? Significa que todos nós somos chamados a ler, meditar, refletir e aplicar a Palavra, sempre com amor, obediência e confiança. Não existe cristão “comum” incapaz de pensar teologicamente; existe, sim, uma responsabilidade real de crescer nesse entendimento e de não deixar que outros falem por nós em questões de fé.

E é exatamente aqui que entra a urgência do pastor-teólogo: precisamos resgatar nossa vocação de falar sobre Deus de maneira pública, relevante e fiel. Precisamos ensinar e guiar nossa igreja para que compreenda Cristo, sua obra e a realidade do mundo segundo os olhos de Deus. Ser pastor não é apenas gerir pessoas ou programas; é ser um mestre do povo de Deus, capaz de traduzir a grandeza de Deus para a vida cotidiana das pessoas.

A pergunta que nos move é simples, mas profunda: se não nós, quem falará? Se não com fidelidade e clareza, quem conduzirá nosso povo ao entendimento da Palavra? Pastores que não exercitam sua função de teólogos públicos correm o risco de ver a igreja perder não apenas a direção, mas o próprio sentido da fé em Cristo. E isso, meus irmãos, é inaceitável.

Quando lemos Efésios 4:11, vemos que Cristo “deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres”. Muitos olham para essa passagem e entendem que “pastor” e “mestre” são dons distintos, como se alguém pudesse ser apenas pastor ou apenas mestre. Mas, na prática, não é assim. A Palavra nos mostra que o dom de pastor e o dom de mestre são, na realidade, duas faces da mesma moeda: o mesmo dom se manifestando de maneiras complementares.

O pastor que não é mestre corre o risco de cuidar de pessoas sem levá-las a entender profundamente a Palavra de Deus. Ele se torna apenas um gestor de emoções ou um conselheiro de situações imediatas. Por outro lado, o mestre que não é pastor corre o risco de ser um acadêmico isolado, incapaz de aplicar sua teologia à vida concreta das pessoas. O dom completo se manifesta quando o pastor é também mestre: alguém que cuida do rebanho e, ao mesmo tempo, ensina e edifica o povo na verdade de Deus.

Ser pastor e mestre significa, portanto, guiar vidas com coração e cabeça: com compaixão e com conhecimento. É proclamar Cristo de maneira que as pessoas compreendam o que Ele fez, o que Ele está fazendo e como Ele quer que vivamos em resposta à sua graça. É transformar a igreja não apenas em um lugar de encontros emocionais, mas em uma comunidade de discípulos formados, capazes de entender, aplicar e defender a fé.

Efésios 4:12 reforça essa aplicação: o propósito desse dom é “aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo”. Ou seja, o pastor-teólogo não está a serviço do próprio ego, nem para ocupar um espaço social ou cultural; está a serviço da igreja, preparando o povo de Deus para crescer em maturidade, em santidade e em conhecimento da Palavra.

Portanto, todo pastor que se vê apenas como cuidador de almas precisa se lembrar: o Senhor o chamou para ser também mestre. E todo mestre que se contenta apenas com o estudo e o ensino da Bíblia precisa se lembrar: Cristo o chamou para pastorear, para se relacionar com pessoas, para guiá-las na vida prática da fé. O verdadeiro pastor-teólogo é aquele que une ambos os aspectos: cuidado e ensino, coração e mente, zelo pastoral e profundidade teológica.

De olho no texto

O versículo de Efésios 4:11 diz:

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (NVI).

No grego original, a expressão é “καὶ ἑτέρους ποιμένας καὶ διδασκάλους” (kai heterous poimenas kai didaskalous). Aqui está a chave: a conjunção καὶ (kai) geralmente significa “e”, mas o grego permite que ela seja usada de forma distributiva ou inclusiva. Ou seja, não necessariamente indica dois grupos distintos; pode muito bem indicar uma função única com duas dimensões.

Em termos práticos, isso significa que o “pastor” e o “mestre” não são dois dons separados, mas duas facetas de um mesmo dom que se manifesta na liderança espiritual do povo de Deus. O pastor cuida do rebanho, protege, guia e sustenta. O mestre, por sua vez, instrui, explica a Palavra, edifica, corrige e ensina o povo a viver segundo a vontade de Deus. Mas na prática do ministério, essas funções se entrelaçam: um verdadeiro pastor não pode cuidar sem ensinar; um verdadeiro mestre não pode ensinar sem cuidar.

O texto grego reforça isso pelo uso da palavra ἑτέρους (heterous), que significa “outros”, ou “uns outros”, e pelo kai entre “poimenas” e “didaskalous”. Paulo não está dizendo que há alguns pastores e outros mestres isolados; ele está descrevendo uma função pastoral completa: cuidar e ensinar ao mesmo tempo.

Essa leitura é reforçada pelo contexto imediato: Efésios 4:12 explica o propósito desses dons:

“para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo”.

O dom de pastor-mestre existe para preparar o povo de Deus, e para isso é necessário que quem o exerce tenha tanto a capacidade de cuidar com amor quanto a de ensinar com clareza e fidelidade. Não há espaço para separar as duas dimensões, porque a maturidade do corpo de Cristo depende de ambas.

Em resumo: o grego nos mostra que o chamado pastoral é unitário e multifacetado. Pastores e mestres não são grupos distintos; são dois aspectos do mesmo dom que Deus dá à igreja para que sua Palavra seja fielmente proclamada e praticada. Quem entende isso reconhece que exercer o ministério é cuidar do povo enquanto o ensina na verdade, e é exatamente essa visão que precisa ser recuperada em nossas igrejas brasileiras hoje.

A necessidade teológica

Diante de tudo que já analisamos, torna-se evidente que o pastor não pode prescindir de uma base teológica sólida. Não estou falando apenas de decorar versículos ou repetir frases bonitas — falo de entender profundamente o que a Bíblia ensina sobre Deus, sobre o ser humano e sobre a salvação, e de conseguir comunicar isso de forma clara e fiel à congregação. Alguns aspectos são absolutamente centrais: escatologia, soteriologia, e a própria definição teológica do pastor quanto a tradições como arminianismo ou calvinismo, pactualismo ou dispensacionalismo.

Por que isso é tão importante? Porque essas áreas da teologia moldam a maneira como o pastor interpreta a Palavra e aplica a fé na vida das pessoas. A escatologia, por exemplo, nos ajuda a orientar o povo em esperança, em perseverança e em discernimento do que virá; a soteriologia nos permite explicar a obra de Cristo na cruz e a relação do pecador com Deus de maneira sólida e não superficial. Se o pastor não tem clareza sobre esses pontos, sua pregação corre o risco de ser vaga, incoerente ou facilmente distorcida por interpretações populares ou modismos culturais.

Além disso, a definição teológica do próprio pastor é fundamental. Saber se você se alinha mais a uma perspectiva arminiana ou calvinista, pactualista ou dispensacionalista, não é um detalhe acadêmico: isso define como você entende a graça, a eleição, o pacto de Deus com seu povo, e como você orienta a vida e a fé de sua igreja. Um pastor que não tem essa clareza está navegando no escuro, e é terrível para a igreja quando ela não tem um norte teológico. Sem esse ponto de referência, a congregação se torna vulnerável a confusões doutrinárias, a interpretações superficiais da Bíblia e a práticas religiosas que podem até ser emocionantes, mas não edificam na fé nem levam à maturidade cristã.

Quando pastores negligenciam a teologia e não conseguem ensinar com segurança sobre Deus, sobre a salvação ou sobre os desígnios do Senhor, a igreja perde identidade. Ela deixa de ser comunidade de discípulos para se tornar apenas um grupo que compartilha sentimentos e experiências, sem entendimento profundo da Palavra. E, como sabemos, uma igreja sem direção teológica sólida facilmente se afasta da verdade, mesmo sem perceber, abrindo espaço para heresias sutis, distorções do evangelho e uma fé que não transforma de verdade.

Portanto, pastores, não podemos fugir desse desafio: devemos ser capazes de explicar e ensinar a teologia em suas dimensões fundamentais, definindo com clareza nossas convicções à luz das Escrituras. Ser pastor-teólogo não é luxo ou formalidade; é necessidade urgente para o bem da igreja, para a fidelidade ao evangelho e para o crescimento espiritual do povo de Deus.

Do púlpito para a sociedade

Além de dominar os fundamentos teológicos da fé — soteriologia, escatologia, cristologia e definição doutrinária —, o pastor tem a responsabilidade de dar respostas bíblicas a questões que atravessam a sociedade. Temas como feminismo, aborto, ética sexual, política, economia e cultura não são meros debates sociais; eles refletem visões de mundo que moldam comportamentos, valores e decisões. A igreja, e o povo de Deus em particular, precisa de orientação clara, baseada na Palavra de Deus, para discernir o que é certo e verdadeiro à luz do evangelho.

Quando falo em feminismo, por exemplo, não me refiro a debates ideológicos simplistas, mas à necessidade de apresentar a dignidade do homem e da mulher como criados à imagem de Deus, respeitando a diferença e a igualdade de valor diante de Deus. No aborto, o pastor deve declarar, com coragem e mansidão, o valor da vida humana desde a concepção, fundamentado nas Escrituras. Em política e cidadania, o pastor deve ajudar o povo a pensar sobre justiça, autoridade e responsabilidade social à luz de Romanos 13, sem cair no ativismo ou no sectarismo partidário, mas trazendo a perspectiva bíblica sobre como viver como sal e luz no mundo.

O pastor-teólogo não pode se omitir dessas discussões. Negar a necessidade de apresentar a cosmovisão bíblica é deixar a igreja sem bússola, vulnerável a ideologias passageiras e modismos culturais. Ao mesmo tempo, o pastor não fala apenas para a congregação. Efésios 4 nos lembra que o dom do pastor-mestre existe para edificar o corpo de Cristo, mas o ministério do pastor também tem dimensão pública. A sociedade em geral precisa ouvir de alguém que entende e pode explicar como a Palavra de Deus responde a grandes questões humanas e sociais, não de forma sectária, mas com clareza e autoridade.

Em outras palavras, o pastor é chamado a ser voz do evangelho em todos os contextos, apresentando a verdade de Deus tanto para os santos quanto para o mundo. Não é sobre impor uma visão, mas sobre apresentar a cosmovisão bíblica, mostrando que a fé cristã não é um sentimento particular ou privado, mas uma forma coerente e prática de compreender e viver o mundo. Uma igreja sem pastores capazes de falar sobre essas questões com segurança teológica e pastoral corre o risco de se perder em um mar de opiniões, modismos e pressões culturais.

Portanto, pastores, precisamos ser pastores-teólogos que conhecem, aplicam e comunicam a Palavra, capazes de cuidar do povo e ao mesmo tempo instruir a sociedade, sem medo, com amor, clareza e fidelidade à Escritura. Esse é o chamado urgente para a igreja brasileira hoje

Conclusão

Diante de tudo que vimos, fica claro que ser pastor-teólogo não é um detalhe ou luxo acadêmico — é uma exigência do próprio Senhor. Não podemos nos contentar com ministérios superficiais, com respostas prontas ou com posições vagas diante das grandes questões da vida e da sociedade. Somos chamados a ministrar a Palavra de Deus com fidelidade, clareza e autoridade, edificando o povo de Deus e proclamando a verdade ao mundo, mesmo quando isso contraria tendências culturais ou opiniões populares.

E, como nos lembra o apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 4:2: “Ora, além disso, o que se requer nos despenseiros é que cada um seja encontrado fiel”. O Senhor não nos cobra sucesso segundo os padrões do mundo, nem prestígio, nem popularidade. Ele espera nos encontrar fieis à Palavra, fiéis à nossa vocação, fiéis em ensinar, pregar, aconselhar e guiar seu povo na verdade. Essa fidelidade é a medida de nosso ministério, e é a fidelidade que produz fruto duradouro na vida da igreja e na sociedade.

Portanto, pastores, nosso desafio é grande, mas nossa recompensa é certa: servir a Cristo com fidelidade, como mestres e pastores, apresentando a Palavra com clareza, coragem e convicção, confiando que o Senhor encontrará cada um de nós sendo fiel ao chamado que Ele confiou. Que possamos abraçar nossa vocação como teólogos públicos, conscientes de que nossa vida e ministério têm impacto eterno, não apenas na igreja, mas em toda a sociedade.


Referências:

O Pastor Como Teólogo Público – Kevin J. Vanhoozer e Owen Strachan – Editora Vida Nova

O Pastor como Mestre e o Mestre como Pastor – John Piper , D. A. Carson – Editora Fiel

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Dízimo, outra vez?

Um dos assuntos mais debatidos hoje dentro das igrejas sem dúvidas é a validade do DÍZIMO, todos os dias vejo cristãos postando nas redes sociais frases contrarias ao dízimo, o que mais chama a atenção não é apenas o posicionamento das pessoas sobre o assunto, mas a fundamentação, TODAS as pessoas que conheço que se dizem contrarias ao dízimo são superficiais biblicamente, inconstantes, alheios a todo corpo e alegam não ser uma prática no Novo Testamento.

Em minha opinião apesar de entender que do ponto de vista neotestamentário o dízimo  não é normativo, tenho percebido que muitos daqueles que advogam a abolição do dízimo  o fazem por razões escusas, cujas motivações principais se devem  a avareza, falta de conhecimento bíblico e/ou adesão ao pluralismo e relativismo religioso.

DIRETO AO PONTO

O dízimo assim como muitas das instruções/mandamentos veterotestamentário são princípios e não meramente um conjunto de regras, vamos entender. Todo o antigo testamento serve de AIO (tutor), Gálatas 3:24 – παιδαγωγος paidagogos. Tutor, i.e., um guardião e guia de meninos. Entre os gregos e os romanos, o nome era aplicado a escravos dignos de confiança que eram encarregados de supervisionar a vida e a moralidade dos meninos pertencentes à elite. Aos meninos não era nem mesmo permitido sair de casa sem a sua companhia até que alcançassem a idade viril.

Para quem acredita que o dízimo é algo imposto pela lei mosaica, deve entender que antes da lei Abraão dizimou.

Esse Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, encontrou-se com Abraão quando este voltava, depois de derrotar os reis, e o abençoou; e Abraão lhe deu o dízimo de tudo. Em primeiro lugar, seu nome significa “rei de justiça”; depois, “rei de Salém” quer dizer “rei de paz”. Sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece sacerdote para sempre. Considerem a grandeza desse homem: até mesmo o patriarca Abraão lhe deu o dízimo dos despojos! – Hebreus 7:1-4

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou seus inimigos em suas mãos”. E Abrão lhe deu o dízimo de tudo. – Gênesis 14:20

Melquisedeque recebeu dízimos – מעשר ma Ìaser = dízimo, décima parte – de Abraão, 2.000 anos antes de Cristo e 700 anos antes da lei mosaica. O costume de pagar o dízimo era muito comum entre os povos semíticos. A forma como este fato foi mencionado parece indicar que se tratava de um costume estabelecido. O voto de Jacó (Gn 28.22) acrescenta ainda mais peso a esta opinião.

O dízimo de Israel consistia de um décimo de toda a produção anual de alimentos e do crescimento dos rebanhos de ovelhas e gado. Era um costume considerado sagrado para Jeová, da mesma forma que o aluguel ou imposto feudal dedicado a Ele que era, realmente, o dono da terra. Certas Escrituras sugerem que esses dízimos consistiam de décimo de tudo que restava das “primícias de todos os frutos da terra”, depois que a oferta sacerdotal havia sido separada (Êx 23.19; Dt 26.1ss). Como a lei não estabelecia a quantidade a ser oferecida como uma oferta das primícias, alguns consideram as regras do dízimo como a definição do que deveria ser pago. Outros consideram o dízimo um complemento destes primeiros frutos. Fontes judaicas indicam que essa segunda hipótese é verdadeira e que as “primícias dos primeiros frutos” geralmente representavam uma quinta parte da produção.

No Pentateuco, a legislação sobre os dízimos era a seguinte:

1. Levítico 27.30-33. Um décimo de toda a produção (safras, frutas, azeite, vinho) e de todos os animais deveria ser dedicado ao Senhor. O dízimo da produção da terra podia ser compensado (ou “remido”) se a ele fosse acrescido um quinto de seu valor. O dízimo dos animais não podia ser compensado. O crescimento do rebanho era calculado e todo décimo animal era considerado santificado para o Senhor. Isso estava de acordo com as instruções dadas a Israel, anteriores ao Sinai, de que os primogênitos dos rebanhos pertenciam ao Senhor (Êx 13.12,13). Tudo o que passasse “debaixo da vara” (Lv 27.32) era designado aos levitas para fazer o que bem entendessem, pois não haviam recebido nenhuma parte da terra como herança (cf. Nm 18.21-32). Além desse dízimo, os levitas pagavam um dízimo (ou oferta alçada) aos sacerdotes, que deveria ser levado ao templo de Jerusalém. Neemias 10.38 sugere que havia uma supervisão dessa divisão de dízimos.

2. Deuteronômio 12.5,6,11,18 (cf. Am 4.4). O dízimo das festas correspondia a um décimo dos nove décimos que restava. Devia ser separado e levado para Jerusalém onde era consumido como refeição sagrada pelo ofertante e seus familiares, junto com o levita que está dentro das suas portas (Dt 12.15). Se a distância era proibitiva, os dízimos podiam ser vendidos e o dinheiro usado para a compra de alimentos ou animais para servirem como ofertas em Jerusalém (cf. Dt 14.22-27).

3. Deuteronômio 26.12-15; 14.28-29. O dízimo trienal ou dízimo da caridade, oferecido durante o terceiro ano, era destinado aos levitas, aos estrangeiros, aos órfãos de pai e às viúvas.
As opiniões diferem em relação a esse terceiro dízimo. De acordo com Josefo ele era, na verdade, um terceiro dízimo oferecido a cada três anos, do qual os levitas e os sacerdotes eram obrigados a participar. Outros afirmam que a cada três anos, o segundo dízimo, ou dízimo da festa, era oferecido aos pobres em casa, invés de ser levado a Jerusalém.
O pagamento do dízimo não era obrigatório, mas uma questão de consciência perante o Senhor. O povo deveria obedecer a estes decretos com todo coração e alma (Dt 26.16). A cada três anos deveria ser feita uma solene declaração no último dia da Páscoa, dizendo o seguinte: “Obedeci à voz do Senhor, meu Deus; conforme tudo o que me ordenaste, tenho feito” (Dt 26.14).

Dízimo nos tempos de Jesus mas ainda na antiga aliança

A nova aliança inicia-se quando Jesus é assunto aos céus, isso significa que as narrativas da vida de Jesus são regidas pela antiga aliança, uma vez que para a nova aliança ter inicio, Cristo precisava morrer.

Por essa razão, Cristo é o mediador de uma nova aliança para que os que são chamados recebam a promessa da herança eterna, visto que ele morreu como resgate pelas transgressões cometidas sob a primeira aliança.

No caso de um testamento, é necessário que comprove a morte daquele que o fez; pois um testamento só é validado no caso de morte, uma vez que nunca vigora enquanto está vivo aquele que o fez. – Hebreus 9:15-17

Embora haja algumas passagens mencionando o termo dízimo no novo testamento, todas as vezes ainda é feita sob a antiga aliança, no entanto Jesus não faz nenhuma exortação contrariando a prática, exemplo:

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. – Mateus 23:23

Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho – Lucas 18:12

Ai de vocês, fariseus, porque dão a Deus o dízimo da hortelã, da arruda e de toda a sorte de hortaliças, mas desprezam a justiça e o amor de Deus! Vocês deviam praticar estas coisas, sem deixar de fazer aquelas. – Lucas 11:42

Na nova aliança

Na nova aliança há uma passagem que refere-se ao dízimo, Hb 7. 1-10; Eis as lições desse texto:

  • O Pai da fé deu dízimo de tudo – v. 2;
  • O pai da fé deu o dízimo do melhor – v. 4;
  • A entrega dos dízimos se deu não por pressão da lei, uma vez que o povo israelita ainda não existia e, portanto, muito menos a lei judaica – v. 6;
  • Hebreus nos faz perceber e reconhecer a superioridade do valor do dízimo que é dado a Cristo (imortal) em relação ao dado aos sacerdotes (mortais) – v. 8;
  • O autor destaca que os que administram os dízimos também devem ser dizimistas – v. 9.

Ser ou não ser dizimista é uma questão de acreditarmos na causa que abraçamos, na “pérola que encontramos.” Se não houvesse a necessidade de dizimar, por que nem Jesus nem os apóstolos não fizeram menção contraria a essa prática? Haja vista que em diversas passagens Jesus e/ou os apóstolos reformularam, anulando algumas práticas veterotestamentárias. Por exemplo, quando quiseram continuar com a prática do que seria adultério, veja como Jesus opôs-se reformulando o conceito:

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’.
Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. – Mateus 5:27,28

Alguns homens desceram da Judéia para Antioquia e passaram a ensinar aos irmãos: “Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos”.
Isso levou Paulo e Barnabé a uma grande contenda e discussão com eles. Assim, Paulo e Barnabé foram designados, juntamente com outros, para irem a Jerusalém tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros. – Atos 15:1,2

Por que Jesus nem os apóstolo não rejeitaram essa prática?

Ainda na Nova Aliança

Embora a palavra dízimo,  δεκατη dekate =  décima parte de algo, não aparece em outras ocasiões da nova aliança, há inúmeras passagens falando de GENEROSIDADE. A bíblia ensina que a igreja  (seus membros) devem doar recursos financeiros, embora não o chame de dízimo, o principio permanece inalterado.

Se alguma mulher crente tem viúvas em sua família, deve ajudá-las. Não seja a igreja sobrecarregada com elas, a fim de que as viúvas realmente necessitadas sejam auxiliadas. Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino, pois a Escritura diz: “Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal”, e “o trabalhador merece o seu salário – 1 Timóteo 5:16-18

O exemplo acima citado menciona que o “obreiro” deve receber SALÁRIO, como poderia receber sem que a igreja venha contribuir ?

O que prevalece na nova aliança realmente não é a obrigatoriedade do cumprimento da lei, mas o principio que ela nos ensinou, ainda acerca não mais de dízimo, mas agora sobre o principio de generosidade Paulo ensina:

Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra. – Romanos 7:6

Assim, por exemplo, quando o apóstolo Paulo dá instruções sobre como devemos dar, ele nunca nos instrui a deixar o dízimo de lado. Ele diz coisas como:

No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que se não façam as coletas quando eu chegar. –  I Co 16.2

E então, o apóstolo Paulo diz em II Coríntios 8.3 que nós deveríamos dar de acordo com a medida de nossas posses:

“Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários.”

E em II Coríntios 9.6-7, o apóstolo Paulo descreve o dar com o qual Deus se deleita:

“E isto afirmo: aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura, com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.”

Assim, a questão aqui não é que nós deveríamos ser governados por porcentagens ou pela lei do antigo testamento. Elas não são obrigatórias. Ao invés disto, nós deveríamos ser governados pela generosidade pródiga e sacrificial que transborda livremente e alegremente.

O ensino de Paulo sobre GENEROSIDADE é que devemos ofertar com coração alegre, sistematicamente e proporcionalmente.

Negar esse principio é negar as escrituras. Hoje muitos crentes não são fiéis a Deus na entrega dos dízimos. Para justificar esta atitude criam vários justificativas e desculpas. Se dependessem deles a igreja fecharia as portas. Não existiria templos, nem pastores, nem missionários, nem bíblias distribuídas, nem assistência social.
Eis as justificativas clássicas dos não-dizimistas:

I. JUSTIFICATIVA TEOLÓGICA
Ah, eu não sou dizimista, porque DÍZIMO é da lei. E eu não estou debaixo da lei, mas sim da graça.
Sim! O dízimo é da lei, é antes da lei e é depois da lei. Ele foi sancionado por Cristo. Se é a graça que domina a nossa vida, porque ficamos sempre aquém da lei? Será que a graça não nos motiva a ir além da lei?
Veja: a lei dizia: Não matarás = EU PORÉM VOS DIGO AQUELE QUE ODIAR É RÉU DE JUÍZO
a lei dizia: Não adulterarás = EU PORÉM VOS DIGO QUALQUER QUE OLHAR COM INTENÇÃO IMPURA…
a lei dizia: Olho por olho, dente por dente = EU PORÉM VOS DIGO: SE ALGUÉM TE FERIR A FACE DIREITA, DÁ-LHE TAMBÉM A ESQUERDA.
A graça vai além da lei: porque só nesta questão do dízimo, ela ficaria aquém da lei? Esta, portanto, é uma justificativa infundada.

II. JUSTIFICATIVA SENTIMENTAL
Muitos dizem: A bíblia diz em II Co 9.7 “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” = espontânea e com alegria.
Perguntamos também: O que estará acontecendo em nosso coração que não permite que não tenhamos alegria em dizimar? Em sustentar a Causa que abraçamos e defendemos?

III. JUSTIFICATIVA FINANCEIRA
“O que eu ganho não sobra ou mal dá para o meu sustento.
1) O dízimo não é sobra = Dízimo é primícias. “Honra ao Senhor com as primícias da tua renda.” Deus não é Deus de sobras, de restos. Ele exige o primeiro e o melhor.
2) Contribua conforme a tua renda para que a tua renda não seja conforme a tua contribuição = Deus é fiel. Ele jamais fez uma exigência que não pudéssemos cumprir.
3) Se não formos fiéis, Deus não deixa sobrar = Ageu diz que o infiel recebe salário e o coloca num saco furado. Vaza tudo. Foge entre os dedos. Quando somos infiéis fechamos as janelas dos céu com as nossas próprias mãos e espalhamos o devorador sobre os nossos próprios bens.

IV. JUSTIFICATIVA ASSISTENCIAL
“Prefiro dar meu dízimo aos pobres. Prefiro eu mesmo administrar meu dízimo.
“ A Bíblia não nos autoriza a administrar por nossa conta os dízimos que são do Senhor. O dízimo não é nosso. Ele não nos pertence. Não temos o direito nem a permissão nem para retê-lo nem para administrá-lo.
A ordem é: TRAZEI TODOS OS DÍZIMOS À CASA DO TESOURO PARA QUE HAJA MANTIMENTO NA MINHA CASA. A casa do Tesouro é a congregação onde assistimos e somos alimentados.
Mas será que damos realmente os “nossos” dízimos aos pobres? Com que regularidade? Será uma boa atitude fazer caridade com a parte que não nos pertence?

V. JUSTIFICATIVA POLÍTICA
“Eu não entrego mais os meus dízimos, porque eles não estão sendo bem administrados.”
Não cabe a nós determinar e administrar do nosso jeito o dízimo do Senhor que entregamos. Se os dízimos não estão sendo bem administrados, os administradores darão conta a Deus. Não cabe a nós julgá-los mas sim Deus é quem julga. Cabe a nós sermos fiéis.
Não será também que esta atitude seja aquela do menino briguento, dono da bola, que a coloca debaixo do braço sempre que as coisas não ocorrem do seu jeito?
Deus mandou que eu trouxesse os dízimos, mas não me nomeou fiscal do dízimo.

VI. JUSTIFICATIVA MÍOPE
“A igreja é rica e não precisa do meu dízimo.”
Temos conhecimento das necessidades da igreja? Temos visão das possibilidades de investimento em prol do avanço da obra? Estamos com essa visão míope, estrábica, amarrando o avanço da obra de Deus, limitando a expansão do Evangelho?
AINDA, não entregamos o dízimo para a igreja. O dízimo não é da igreja. É DO SENHOR. Entregamo-lo ao Deus que é dono de todo ouro e de toda prata. Ele é rico. Ele não precisa de nada, mas exige fidelidade. Essa desculpa é a máscara da infidelidade.

VII. JUSTIFICATIVA CONTÁBIL
“Não tenho salário fixo e não sei o quanto ganho.”
Será que admitimos que somos maus administradores dos nossos recursos? Como sabemos se o nosso dinheiro dará para cobrir as despesas de casa no final do mês?
Não sabendo o valor exato do salário, será que o nosso dízimo é maior ou menor do que a estimativa? Porque ficamos sempre aquém da estimativa? Será auto-proteção? Será desinteresse?

VIII. JUSTIFICATIVA ECLESIOLÓGICA
“Não sou membro da igreja”
Acreditamos mesmo que os nossos deveres de cristãos iniciam-se com o Batismo e a Profissão de Fé ou com a inclusão do nosso nome num rol de membros?
Não será incoerência defendermos que os privilégios começam quando aceitamos a Cristo: (o perdão, a vida eterna) e os deveres só depois que nos tornamos membros da igreja? Somos menos responsáveis pelo crescimento do Reino de Deus só porque não somos membros da igreja?

Para os desigrejados (quem não faz parte de uma igreja local ou denominação), qualquer sistema de contribuição com a instituição religiosa é visto com antipatia, pois são esses recursos que mantêm a instituição eclesiástica. Para alguns igrejados (que pertence a uma igreja local ou denominação) o dízimo não tem sido dado a devida atenção, em virtude dos desafetos com o abuso dos líderes eclesiásticos, criou-se uma repulsa aos assuntos relacionados a dinheiro, dízimos, contribuições para uma igreja local, quando segundo caso é a motivação vale lembrar que os reformadores ao se depararem com o mau uso das doutrinas bíblicas não negaram a validade delas, mas fizeram com que se retornasse a elas como deveria ser, negar as escrituras com base nos erros de autoridades eclesiásticas é negar também a reforma, além do que não se encontra nenhum reformador, pai da igreja ou um grande teólogo refutando tal ensino. Por isso acho que aqueles que negam esse ensino são os mesmos que vivem trocando de igrejas, sem nunca  relacionar-se com o corpo de Cristo, sua igreja.

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. – 2 Timóteo 3:1-5
Portanto, livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece, e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los. Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. – Tiago 1:21-24
Sola Scriptura

A dificil tarefa da esposa de pastor

“Todos os dias da sua vida, ela só lhe faz o bem, e nunca o mal.” – Provérbios 31:12

Sabemos que a função de um pastor é desafiadora, repleta de exigências urgentes e pressões constantes. No entanto, a tarefa da esposa do pastor é ainda mais complexa. Enquanto o pastor enfrenta as demandas diretas do ministério, sua esposa, de forma indireta, também o acompanha. Ela não apenas compartilha o fardo, mas também cuida e apoia ativamente o marido.

O conselheiro bíblico Ed Welch define com acerto essa responsabilidade como “o trabalho mais difícil do planeta”. Nem todas as esposas de pastores podem sentir o peso dessa responsabilidade da mesma forma, mas aquelas que reconhecem a importância do ministério do esposo à luz da Palavra, que valorizam o amor e a dedicação genuína dele ao Reino, e que enfrentam as constantes demandas do rebanho, muitas vezes se veem desafiadas e exauridas por essa missão. Isso sem mencionar as expectativas da comunidade em relação a ela, à sua casa e aos seus filhos. Em algumas ocasiões, tudo pode parecer avassalador.

O pesquisador batista Thom Rainer elaborou uma lista das dez expectativas impossíveis que algumas esposas de pastores enfrentam ao apoiar seus maridos no ministério. A reprodução dessa lista aqui evidencia o peso que essas mulheres carregam:

  1. Ser ativa em todas as áreas da igreja, sem gerar ressentimentos por atividades fora dela.
  2. Conhecer todos os detalhes da vida da igreja, mesmo quando o próprio marido não possui esse conhecimento completo.
  3. Estar sempre disposta a ouvir críticas que as pessoas fazem sobre o marido, como se fosse um canal direto de comunicação com ele.
  4. Desempenhar o papel de “secretária eletrônica”, recebendo e transmitindo mensagens constantemente.
  5. Assumir cargos na igreja por ser a esposa do pastor, em vez de basear as atribuições em seus próprios dons e chamado.
  6. Ter filhos perfeitos e com comportamento irrepreensível, suportando a pressão adicional por serem os filhos do pastor.
  7. Manter o controle emocional em todas as situações, mesmo quando profundamente tocada pela mensagem ou pelo culto.
  8. Viver com modéstia financeira, evitando qualquer sinal de prosperidade material que possa gerar rumores.
  9. Ser a melhor amiga de todas as senhoras da igreja, embora isso nem sempre seja uma realidade viável.
  10. Agir como co-pastora, interferindo em áreas exclusivas do ministério pastoral.

Contrariando essas expectativas injustas, a esposa de pastor deve compreender o privilégio de ser uma auxiliadora na obra eterna de seu marido. Se o pastor é verdadeiramente dedicado ao Senhor, a convivência com ele é uma bênção. O que se requer dela é o mesmo que de qualquer esposa: ser uma fiel companheira.

Se o Senhor providenciou que uma de suas servas se tornasse esposa de pastor, Ele mesmo será a sua fonte diária de força. A esposa de pastor não deve se sentir intimidada por esse importante ministério, pois sua suficiência vem do Senhor. Além disso, a igreja, muitas vezes, possui irmãos amorosos que intercedem diariamente pela família do pastor, e alguns, generosos, contribuem para tornar a jornada no ministério mais agradável.

Apoiadora: O maior presente para um pastor não é um excelente co-pastor, um presbítero leal ou um diácono fiel. É uma esposa que o conhece melhor do que ninguém, conhece suas lutas, falhas e fraquezas, e ainda assim o apoia com amor, afirmação e cuidado inabaláveis. É uma esposa de fé firme em Deus, que sustenta seu marido nos momentos mais dolorosos e enfrenta as dificuldades da igreja com coragem.

Porém, é importante não idealizar em excesso: embora o apoio inabalável de uma esposa seja crucial, é igualmente essencial que ela veja a realidade com clareza. Ela deve ser uma apoiadora, mas não deve perder a objetividade. Não hesite em confrontar as áreas de orgulho e autoengano no coração do pastor. Seja uma ouvinte crítica para ajudá-lo a crescer em sua pregação. Não se deixe encantar a ponto de ignorar críticas válidas de pessoas confiáveis na igreja.

As mulheres casadas com pastores enfrentam desafios únicos. Lembrar-se dos seguintes pontos, além de orar regularmente por elas e pelo casamento, pode impactar a igreja de maneira significativa:

  1. Ela tem uma personalidade própria: Não é uma extensão do pastor e pode ter visões diferentes em diversos aspectos. Respeite sua individualidade e permita que ela seja quem é.
  2. Ela tem um chamado: Pode não se alinhar exatamente com o chamado do marido, e isso é normal. Algumas veem o ministério como uma vocação conjunta, outras têm um foco diferente.
  3. Ela pode enfrentar dificuldades financeiras: Muitas vezes, a esposa do pastor lida com as questões financeiras da casa pastoral, o que pode ser desafiador. Lembre-se de que cuidar dela é cuidar do pastor também.
  4. Ela compartilha seu marido com a igreja: Isso pode ser um desafio, pois limita o tempo em família. É importante valorizá-la como a pessoa valiosa que é.
  5. Ela vive sob expectativas irreais: As pressões da igreja podem ser intensas. Lembre-a de que o mais importante é a comunhão com Deus.
  6. Ela pode enfrentar amizades complicadas na igreja: É difícil discernir se as amizades são autênticas ou influenciadas pelo papel do marido.
  7. Ela é afetada pelas críticas ao marido: Entender a dificuldade do ministério pastoral e apoiar ambos é crucial.
  8. Ela lida com estresse e ambiguidade: A natureza do ministério muitas vezes é incerta. Compaixão e compreensão são essenciais

Lembrem-se , esposa de pastor não é uma função eclesiástica. É uma mulher como qualquer outra, as orientações bíblicas para as mulheres valem para todas as esposas: de pastor, de motorista, de policial, faxineiro, advogado…

Deus abençoe ricamente as esposa de pastores.

 


Notas:

  • Rev. Valdeci S. Santos
  • Thom Rainer
  • Edward T. Welch
  • Rev. Augustus Nicodemus
  • Brian Croft

Soli Deo gloria

Férias pastorais? Como assim?

Fim de ano chegando, os filhos irão entrar de férias, muitos na igreja viajam, o clima é de descanso, festa e confraternizações. Foi nesse clima que alguns dias atrás conversando com um pastor amigo falei que mais uma vez iria à Fortaleza na minhas férias, foi quando o pastor se  mostrou surpreso com a informação de que pastor tira férias. Ao que parece, para ele isso era inconcebível… afinal, como um pastor pode  dar uma pausa nessa magnífica missão? Na sua compreensão havia, logicamente, algumas distorções.

Acreditem, essa não foi a primeira vez que me deparei com esse tipo de situação, alguém achando que pastor não cansa, que não precisa tirar férias, mas o fato é que pastores se cansam. Jesus se cansou. Não foram poucas as vezes que o Mestre se retirou para um monte para orar e descansar da demanda das multidões.

Mas o cansaço pastoral é bom sinal? Eu diria que sim, caso seja observado como um sinalizador para uma parada. Isso porque uma igreja que tem um pastor que se cansa pode ter consigo o privilégio de ter alguém que é humano e que tem realmente um coração pastoral.

O apóstolo Paulo, em Atos 20:28 mostra a necessidade de o pastor ter um sério compromisso consigo mesmo.

Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue. – Atos 20:28

O pastor precisa cuidar de si mesmo antes de cuidar do rebanho de Deus.
A vida do pastor é a vida do seu pastorado. Conheço inúmeros amigos pastores cansados da obra de Deus e ainda assim continuam a obra sem parar, esses, acham que precisam continuar cuidando dos outros sem cuidar de si mesmos.

Antes de pastorear os outros, precisamos pastorear a nós mesmos. A vida do pastor é a base de sustentação do seu ministério, aquilo que aconselhamos aos membros das nossas igrejas, nós devemos ser os primeiros a praticar. O ministério pastoral não é uma apólice de seguro contra o esgotamento físico, mental ou espiritual.

Atividades ministeriais com horários descabidos, pois o rebanho precisa ser apascentado e isso não tem hora, em muitos casos não dá pra agendar, a responsabilidade em lidar com a natureza humana, as pressões decorrentes dos setores da igreja (louvor, presbíteros, diáconos, etc), as finanças pessoais e ministeriais e tantas outras coisas que pairam na mente do pastor, o colocam em perigo. O pastor precisa se prevenir para que seu mundo interior não desmorone.

Entre nós pastores conheço também aqueles que dizem não necessitar de férias, a esses, gostaria que respondessem algumas perguntas: Sua mente acha que precisa, e seu corpo? Você acha justo com seus filhos e principalmente com sua esposa não tirar férias?

Infelizmente é fato que muitos pastores acreditam que não precisam de férias, mas se eu puder sugerir, verifique junto a sua família e em seu próprio corpo alguns sinais (sintomas) que devem ser encarados como alerta.

1. Peso institucional: há certas comunidades que possuem tanto “script” a ser cumprido que as relações perdem sua naturalidade e se tornam artificializadas. Todos ali cumprindo seus papéis, o que termina fomentando a criação de máscaras. A falta de autenticidade gera perda de combustível emocional, cansando os que ali estão.

2. O excesso de demanda também cansa. Há comunidades que absorvem demais o pastor. Ou porque são imaturas demais para poder lidar com suas questões, trazendo ao líder tudo que acontece; ou porque o pastor é tão bom que dá vontade de ficar perto dele o tempo todo. Não há “Moisés” que consiga se manter com saúde emocional diante de uma demanda que ultrapassa os limites do que é razoável. Igrejas imaturas não caminham sozinhas.

3. A crítica desgasta, especialmente aquela que é fruto de incompreensão. Pastores que são “julgados” numa determinada situação, quando os membros não sabem da história e passam a desconsiderar a trajetória daquele líder que diz exatamente o contrário do que se passou a pensar e a verbalizar sobre ele. Essa incompreensão desgasta muito e acaba por drenar a energia emocional do pastor.

4. Perseguição. Há alguns membros que elencam o pastor como alvo de suas frustrações. Outros, por motivações infernais, passam a perseguir o líder. Como ao pastor não cabe retribuir na mesma moeda, a perseguição o conduz para o enfado e, não raras vezes, à precipitação do tempo de ministério pastoral numa localidade.

5. Desgaste familiar. A família pastoral é composta de gente. Por esta razão, sofre por vezes com conflitos. Nem o pastor, nem ninguém mais, tem família perfeita; portanto, a igreja precisa ter certa dose de compreensão e apoio para com a família pastoral, especialmente com os filhos. Se o pastor e a esposa estavam cônscios de sua missão como casal, ou mesmo da missão do marido, os filhos por sua vez não foram chamados a opinar. Por vezes o cansaço do pastor advém do seu abatimento ao ver a insana expectativa que é colocada sobre seus filhos, como se “pastorzinhos” fossem.

6. Falta de descanso programado. Há pastores que não respeitam sua folga semanal, necessária para recarregar baterias. Há muitos irmãos que também não respeitam essa folga, esperando um problema agudizar, explodir, para então chamar o pastor. E como explodem situações nos dias de folga e feriado! Perceba: há coisas que acontecem de modo inesperado, como uma perda. No entanto, há outras que podiam ser tratadas antes, evitando a explosão. O fato que ao ultrapassar os limites do descanso, princípio estabelecido por Deus na Criação, e fazendo-o de modo sistemático, o cansaço se acumula minando a saúde pastoral.

7. A traição da liderança é outro fator de desgaste. É um componente ético-emocional. Pessoas que lhe acompanham ou que você acompanha e que de repente rompem com sua liderança. Pessoas que lhe acompanham ou que você acompanha sobre as quais se descobre posteriormente (daí a estupefação e o cansaço dela decorrente) que elas já estavam rompidas com todo projeto de liderança cristã, de santidade e coerência que o Reino requer. Essa traição é doída, e por ser assim enrijece o coração. O problema é que não há ministério possível com coração endurecido. Essa é uma área de extremo enfado… e deserto.

8. A imaturidade dos membros que criam tensões desnecessárias. Pequenos choques sem reconciliações ou alguém com uma palavra de sabedoria para contornar essas rusgas acabam respingando no pastor. Ao fazê-lo, há uma perda de energia emocional, a qual vai sendo sugada a conta-gotas. Contudo, o fato de sair aos poucos não desmerece pra onde ela aponta: o esvaziamento do tanque emocional.

9. Falta de retorno da Igreja. Uma igreja que não responde, nem “sim”, nem “não”, às demandas, provocações e ideias pastorais, pode trazer um profundo desgosto e questionamento de chamado ao pastor. É quando o ralo está dentro do coração pastoral, escoando toda a energia emocional ali presente. Essa frustração ministerial ao lidar com “walkingdeads” eclesiásticos desgasta o coração do pastor.

10. Uma igreja essencialmente carnal. Lidar com uma igreja que busca o lenitivo espiritual e pastoral, ao mesmo tempo que se fere com o pecado, fere o pastor. Embora ele esteja ali também para escutar os membros mediante aconselhamento pastoral, é muito angustiante para o pastor ver suas ovelhas se machucando nos arames farpados do pecado. Ouvir como algumas, embora com a vida (ou seria sobrevida?) preservadas, tiveram pedaços inteiros arrancados pelas garras de lobos, ursos e leões, dói. Faz o coração chorar! Por fim, cansa ver tanta gente cansada e que insiste nesse projeto de vida que na verdade é um convite à morte diária.

Todas essas demandas cansam, tanto o pastor quanto sua esposa e filhos, por isso lhes digo, cumpram o principio bíblico do descanso semanal e também tirem férias. Nesse fim de ano tire alguns dias de descanso com a família, vá a um lugar onde toda a família pastoral possa recarregar a energia, durante esses dias desligue-se dos problemas eclesiásticos.

Admitir o cansaço é importantíssimo para garantir o prosseguimento da caminhada. Mas não basta admitir: é necessário também descansar. E isso extrapola a questão física. É necessário descansar a mente e, como sugeriu Agostinho de Hipona, descansar também a alma. Essa é minha sugestão para os homens e os ‘anjos’: admitam seu cansaço, não permitam que ele os impeça de chegar aonde podem e, principalmente, aonde Deus quer que cheguem. E se perceberem que o cansaço já se tornou extremo, então a urgência em descansar se torna imperativo e não opção.

É melhor admitir o cansaço quando ele ainda é suportável e não permitir que ele avance para níveis insuportáveis e doentios. Caso você tenha vergonha de admitir seu cansaço, vale a pena lembrar que até Jesus Cristo se cansou depois de uma rotina intensa (João 4.6) e sugeriu aos discípulos uma parada estratégica para descansar (Marcos 6.31-32), pois estavam sem tempo até para comer. Bom, acredito que não há melhor exemplo que o dele.

É SAGRADO

A família missionária não pode prescindir de suas férias. Elas são essenciais para o descanso do físico, emocional e psíquico. O Senhor Jesus, na Sua condição humana, se retirava para orar, descansar e refletir. Os Seus retiros eram fundamentais para o exercício do Seu ministério. As férias não podem ser vendidas, adiadas e nem omitidas. Precisam ser curtidas com toda a intensidade. O doutor Merval Rosa assinala: “É imperativo que os membros da família, além dos seus interesses pessoais, procurem desenvolver interesses dos quais todos participem. Planejar atividades em conjunto, passear juntos, ler juntos, brincar juntos, tudo isso cria uma atmosfera de cordialidade entre os membros da família, que os faz mais unidos, mais próximos uns dos outros. Revelar genuíno interesse naquilo que os outros membros da família fazem e aceitar nosso papel no seio da família robustece os laços familiares”. Não nos esqueçamos: o tempo com a família é o tempo mais bem investido depois da nossa comunhão com o Senhor.

Está ligado à saúde dos seus membros

As férias devem ser precedidas de exames médicos para ver se está tudo em ordem com os membros da família. É muito relevante sabermos que as férias são uma feliz oportunidade de relaxamento, reflexão e descanso criativo. A nossa mente, as nossas emoções e o nosso corpo necessitam de paradas periódicas. As férias são, portanto, uma recomendação médica segura e, acima de tudo, uma recomendação do Senhor.

Tenham um bom descanso de fim de ano e que no ano que se inicia possámos estar bem para Glória do Senhor.


Soli Deo gloria